{"id":115513,"date":"2025-10-18T04:07:21","date_gmt":"2025-10-18T04:07:21","guid":{"rendered":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/115513\/"},"modified":"2025-10-18T04:07:21","modified_gmt":"2025-10-18T04:07:21","slug":"livro-resgata-saga-de-manoel-padeiro-e-quilombos-da-serra-dos-tapes-radiocom-104-5-fm","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/115513\/","title":{"rendered":"Livro resgata saga de Manoel Padeiro e quilombos da Serra dos Tapes \u2013 Radiocom 104.5 FM"},"content":{"rendered":"<p>Uma hist\u00f3ria real, silenciada e potente ganha forma neste 17 de outubro em Pelotas. O livro Os quilombolas do General Manoel Padeiro, do escritor e produtor cultural Duda Keiber, narra a trajet\u00f3ria de resist\u00eancia de um grupo de homens e mulheres escravizados que, em 1835, formou um quilombo itinerante na Serra dos Tapes \u2014 regi\u00e3o que hoje abrange Pelotas, Cangu\u00e7u, Arroio do Padre e S\u00e3o Louren\u00e7o do Sul. Liderado por Manoel Padeiro, o movimento enfrentou o sistema escravocrata com t\u00e1ticas de guerrilha, redes de apoio e constru\u00e7\u00e3o coletiva.<\/p>\n<p>Em entrevista ao programa Contraponto, da R\u00e1dioCom Pelotas, Duda Keiber compartilhou detalhes da obra, que ser\u00e1 lan\u00e7ada na noite desta sexta-feira na OTROPORTO Ind\u00fastria Criativa. Al\u00e9m do livro, o projeto conecta a hist\u00f3ria ancestral \u00e0 mem\u00f3ria viva de descendentes, como Vera Macedo, trineta de Manoel Padeiro. Ilustrado por Alisson Affonso e com participa\u00e7\u00f5es de pesquisadores e artistas, o livro \u00e9 gratuito e integra o edital da Lei Paulo Gustavo.<\/p>\n<p>A saga de resist\u00eancia na Serra dos Tapes<\/p>\n<p>Pouco conhecido fora de c\u00edrculos acad\u00eamicos, Manoel Padeiro foi o l\u00edder de um dos mais expressivos movimentos quilombolas do sul do Brasil. Diferente dos quilombos fixos, o grupo de Padeiro adotava uma estrat\u00e9gia itinerante, transitando entre matas, serras e rios, o que dificultava sua captura. As primeiras men\u00e7\u00f5es ao bando aparecem em registros da C\u00e2mara de Vereadores de Pelotas em 1835, ano do in\u00edcio da Revolu\u00e7\u00e3o Farroupilha.<\/p>\n<p>Segundo Duda Keiber, o grupo promovia ataques estrat\u00e9gicos a fazendas, realizava trocas com alforriados e mantinha uma rede de comunica\u00e7\u00e3o com senzalas da regi\u00e3o. \u201cEles trocavam milho por p\u00f3lvora, por cacha\u00e7a, criavam pequenas lavouras e resistiam ao frio, \u00e0 fome, \u00e0 persegui\u00e7\u00e3o. Era uma guerrilha de sobreviv\u00eancia\u201d, relata. Entre as figuras do grupo estavam a Preta Rosa, mulher armada com facas, e o juiz de paz Jo\u00e3o, considerado o anci\u00e3o da resist\u00eancia. A viol\u00eancia dos confrontos, frequentemente destacada nos documentos oficiais, contrasta com a aus\u00eancia de reconhecimento hist\u00f3rico da brutalidade do sistema escravocrata.<\/p>\n<p>O desaparecimento de Manoel Padeiro ap\u00f3s o ataque miliciano de 16 de junho de 1835 criou um mito em torno de seu destino. Para alguns, ele teria ido para o Boqueir\u00e3o, localidade de S\u00e3o Louren\u00e7o do Sul, onde possivelmente fundou outro quilombo e teve fam\u00edlia. Foi ali que sua trineta, Vera Macedo, cresceu ouvindo hist\u00f3rias de um ancestral bravo, temido e respeitado.<\/p>\n<p>Da pesquisa ao encontro com a mem\u00f3ria viva<\/p>\n<p>A constru\u00e7\u00e3o do livro demandou anos de pesquisa em arquivos e tamb\u00e9m encontros decisivos. Duda destaca o papel das fontes orais, como os relatos de Vera Macedo, e dos processos hist\u00f3ricos, como os depoimentos de quatro mulheres sequestradas e libertadas durante os ataques. Esses registros, somados \u00e0 hist\u00f3ria oral preservada na fam\u00edlia de Vera, possibilitaram cruzamentos \u00fanicos. \u201cEla dizia que esperava uma heran\u00e7a desde crian\u00e7a. Quando recebeu os documentos e relatos que embasam o texto, falou que aquilo era o verdadeiro tesouro\u201d, conta Duda.<\/p>\n<p>A narrativa do livro inclui personagens com nomes como Francisco Mo\u00e7ambique, Alexandre e Mariano \u2014 bra\u00e7o direito de Padeiro. A partir dos depoimentos, foi poss\u00edvel construir perfis psicol\u00f3gicos, rotinas, din\u00e2micas internas do grupo e at\u00e9 mesmo cenas detalhadas, como confrontos com capatazes e fugas em noites frias. \u201cEsses personagens s\u00e3o reais, mas tamb\u00e9m s\u00e3o mitos. E o mito n\u00e3o \u00e9 inven\u00e7\u00e3o \u2014 \u00e9 mem\u00f3ria coletiva, \u00e9 o que sobreviveu\u201d, afirma o autor.<\/p>\n<p>As ilustra\u00e7\u00f5es de Alisson Affonso partem de briefings inspirados por cenas espec\u00edficas do roteiro original, mas tamb\u00e9m ganharam liberdade criativa. \u201cEle entendeu a narrativa e a transformou em imagens fortes, belas e violentas ao mesmo tempo\u201d, diz Duda. Um exemplo \u00e9 a cabe\u00e7a decapitada de Ant\u00f4nio Grande, capataz morto pelo grupo, desenhada com um realismo simb\u00f3lico.<\/p>\n<p>O audiovisual como extens\u00e3o da luta<\/p>\n<p>O livro \u00e9 apenas o primeiro passo de um projeto mais amplo. Financiado pela Lei Paulo Gustavo e pela Prefeitura de Pelotas, o trabalho inclui a produ\u00e7\u00e3o de um docudrama que mistura entrevistas e dramatiza\u00e7\u00f5es. \u201cA hist\u00f3ria do Padeiro \u00e9 cinematogr\u00e1fica. Pode virar s\u00e9rie, filme, pe\u00e7a de teatro. Eu fecho os olhos, imagino o futuro e vou at\u00e9 l\u00e1 buscar ele\u201d, brinca Duda.<\/p>\n<p>Com arcos narrativos complexos, m\u00faltiplos personagens e conflitos hist\u00f3ricos, o roteiro abre possibilidades para diferentes linguagens art\u00edsticas. O autor tamb\u00e9m cogita novas adapta\u00e7\u00f5es, como teatro de sombras, e convida artistas e produtores a se apropriarem da hist\u00f3ria \u2014 desde que com responsabilidade e respeito \u00e0s fontes. \u201cEssa hist\u00f3ria n\u00e3o \u00e9 minha. Se tem uma dona, \u00e9 a Verinha. E se tem um dono maior, \u00e9 o povo preto\u201d, refor\u00e7a.<\/p>\n<p>A produ\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m prop\u00f5e um novo olhar sobre o territ\u00f3rio: \u201cPelotas n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 terra do doce e dos casar\u00f5es. \u00c9 territ\u00f3rio preto. E a hist\u00f3ria preta est\u00e1 em cada rua, em cada pedra, em cada prato que a gente come. Est\u00e1 na m\u00fasica, na linguagem, no corpo\u201d. O livro busca justamente provocar esse reconhecimento, sobretudo entre as novas gera\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Uma ferramenta de educa\u00e7\u00e3o, mem\u00f3ria e justi\u00e7a<\/p>\n<p>Duda Keiber define a obra como uma ferramenta de combate ao racismo e de reconstru\u00e7\u00e3o da mem\u00f3ria coletiva. \u201cHoje, n\u00e3o basta n\u00e3o ser racista. \u00c9 preciso ser antirracista. E esse livro \u00e9 para brancos, pretos, amarelos, judeus, palestinos. \u00c9 uma ferramenta de todos que quiserem construir uma sociedade mais justa\u201d, declara.<\/p>\n<p>O livro n\u00e3o tem nome de autor na capa \u2014 uma escolha simb\u00f3lica que refor\u00e7a o car\u00e1ter coletivo da obra. \u201cEu fui s\u00f3 a m\u00e1quina de costura. Quem brilha \u00e9 a roupa\u201d, resume o autor. Ao lado dele, colaboraram pesquisadores e profissionais como Daiane Garcia Molet, Caiu\u00e1 Cardoso Al-Alam e Alexandre Mattos. A diagrama\u00e7\u00e3o \u00e9 de Valder Valer\u00e3o. A ilustra\u00e7\u00e3o, de Alisson Affonso, d\u00e1 corpo e express\u00e3o a personagens esquecidos pelos livros escolares.<\/p>\n<p>O evento de lan\u00e7amento ser\u00e1 marcado por uma celebra\u00e7\u00e3o da ancestralidade: fogueira, tambores, roupas de palha, maquetes dos quilombos e a presen\u00e7a de Vera Macedo, a trineta de Manoel Padeiro, que organiza um centro de cultura em sua homenagem e \u00e9 respons\u00e1vel pelo Bloco Carnavalesco do Maneco. Toda arrecada\u00e7\u00e3o do evento ser\u00e1 destinada \u00e0 mem\u00f3ria e \u00e0 fam\u00edlia do l\u00edder quilombola.<\/p>\n<p>Servi\u00e7o<\/p>\n<p><strong>Lan\u00e7amento do livro:<\/strong> Os quilombolas do General Manoel Padeiro<br \/><strong>Data:<\/strong> Sexta-feira, 17 de outubro<br \/><strong>Hor\u00e1rio:<\/strong> 19h<br \/><strong>Local:<\/strong> OTROPORTO Ind\u00fastria Criativa \u2014 Pelotas\/RS<br \/><strong>Entrada:<\/strong> Gratuita<br \/><strong>Descri\u00e7\u00e3o:<\/strong> Distribui\u00e7\u00e3o gratuita de exemplares no local. Sugere-se doa\u00e7\u00e3o via PIX (R$ 10, R$ 30 ou R$ 50) para apoiar a fam\u00edlia de Manoel Padeiro e o Centro Cultural criado por sua trineta, Vera Macedo.<br \/><strong>Instagram da OTROPORTO:<\/strong> <a href=\"https:\/\/www.instagram.com\/otroporto\/\" rel=\"nofollow noopener\" target=\"_blank\">@otroporto<\/a><\/p>\n<p>Confira a <a href=\"https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=Taccsbg8fY4\" rel=\"nofollow noopener\" target=\"_blank\">entrevista completa<\/a> no canal da R\u00e1dioCom Pelotas no YouTube.<\/p>\n<p>Colabore com a R\u00e1diocom<\/p>\n<p>Se voc\u00ea gosta do nosso conte\u00fado, considere fazer uma doa\u00e7\u00e3o para apoiar nosso trabalho junto aos movimentos sociais.<\/p>\n<p> <a href=\"https:\/\/www.radiocom.org.br\/2025\/10\/17\/livro-resgata-saga-de-manoel-padeiro-e-quilombos-da-serra-dos-tapes\/SUA_URL_DE_DOACAO\" class=\"donate-button\" style=\"display:inline-block;padding:10px 15px;background:#c00;color:#fff;text-decoration:none;border-radius:4px;\" rel=\"nofollow noopener\" target=\"_blank\">Clique aqui para colaborar<\/a><script async src=\"\/\/www.instagram.com\/embed.js\"><\/script><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"Uma hist\u00f3ria real, silenciada e potente ganha forma neste 17 de outubro em Pelotas. 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