{"id":116006,"date":"2025-10-18T14:38:10","date_gmt":"2025-10-18T14:38:10","guid":{"rendered":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/116006\/"},"modified":"2025-10-18T14:38:10","modified_gmt":"2025-10-18T14:38:10","slug":"apontamentos-sobre-a-cidade-imaginaria-de-belem","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/116006\/","title":{"rendered":"Apontamentos sobre a cidade imagin\u00e1ria de Bel\u00e9m &#8211;"},"content":{"rendered":"<p>\t\t\t\t\t<a href=\"https:\/\/aterraeredonda.com.br\/apontamentos-sobre-a-cidade-imaginaria-de-belem\/?print=pdf\" class=\"pdfprnt-button pdfprnt-button-pdf\" target=\"_blank\" rel=\"nofollow noopener\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-content\/uploads\/2025\/10\/pdf.png\" alt=\"image_pdf\" title=\"Ver PDF\"\/><\/a><a href=\"https:\/\/aterraeredonda.com.br\/apontamentos-sobre-a-cidade-imaginaria-de-belem\/?print=print\" class=\"pdfprnt-button pdfprnt-button-print\" target=\"_blank\" rel=\"nofollow noopener\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-content\/uploads\/2025\/10\/print.png\" alt=\"image_print\" title=\"Conte\u00fado de impress\u00e3o\"\/><\/a><\/p>\n<p>Por <strong>ALDA CRISTINA SILVA COSTA*<\/strong><\/p>\n<p>Considera\u00e7\u00f5es sobre o livro de F\u00e1bio Hor\u00e1cio-Castro<\/p>\n<p class=\"has-medium-font-size\"><strong>1.<\/strong><\/p>\n<p>O que caracteriza o realismo fant\u00e1stico, em minha opini\u00e3o \u2013 e n\u00e3o sou especialista no assunto, mas uma pesquisadora do campo da comunica\u00e7\u00e3o que dialoga com a hermen\u00eautica e os sentidos da compreens\u00e3o \u2013 \u00e9, basicamente, um sentimento de desconforto. O desconforto entre a realidade da leitura e o princ\u00edpio da verossimilhan\u00e7a.<\/p>\n<p>Nos textos liter\u00e1rios n\u00e3o afetos ao realismo fant\u00e1stico, a verossimilhan\u00e7a fornece a base, o suporte, para a leitura. J\u00e1 nos textos afetos, participantes, do realismo fant\u00e1stico, a verossimilhan\u00e7a \u00e9 colocada em xeque \u2013 seja pela via do lirismo, seja pela da ironia. Creio que, at\u00e9 aqui, estamos, mais ou menos, de acordo. A fic\u00e7\u00e3o desconfia da fic\u00e7\u00e3o, mas resta fic\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>N\u00e3o obstante, quando a narrativa apenas finge que coloca em cheque o princ\u00edpio da verossimilhan\u00e7a, o que surge \u00e9 um outro padr\u00e3o de realismo fant\u00e1stico. Neste padr\u00e3o, duvidamos se a fic\u00e7\u00e3o resta fic\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Digo isso penando no livro de contos do escritor paraense F\u00e1bio Hor\u00e1cio-Castro. Apontamentos sobre a cidade imagin\u00e1ria de Bel\u00e9m re\u00fane contos que fingem que s\u00e3o ensaios, ou textos acad\u00eamicos. Discuss\u00f5es geogr\u00e1ficas a respeito de bairros que mudam de lugar, relatos etnogr\u00e1ficos fict\u00edcios sobre povos amaz\u00f4nicos exterminados pela coloniza\u00e7\u00e3o, descri\u00e7\u00f5es de institui\u00e7\u00f5es que nunca existiram, testamentos pol\u00edticos secretos que levariam \u00e0 secess\u00e3o da Amaz\u00f4nia do Brasil, an\u00e1lises liter\u00e1rias de uma escola po\u00e9tica inventada, relatos policiais de crimes que n\u00e3o ocorreram\u2026<\/p>\n<p>Tudo, nesse livro, transita entre a verossimilhan\u00e7a e o seu fingimento, produzindo uma dimens\u00e3o diferente, talvez amaz\u00f4nica, para o realismo fant\u00e1stico.<\/p>\n<p>A ponto de que at\u00e9 a pr\u00f3pria editora se tenha confundindo, colocando o livro, de contos, no seu cat\u00e1logo de \u201censaios\u201d\u2026 O que, por sinal, n\u00e3o parece improv\u00e1vel, mesmo porque, para al\u00e9m da narrativa ironicamente \u201ccient\u00edfica\u201d, h\u00e1 o fato de que o autor, que segue a carreira liter\u00e1ria com o nome de F\u00e1bio Hor\u00e1cio-Castro, tamb\u00e9m assine muitos trabalhos cient\u00edficos com o nome de F\u00e1bio Fonseca de Castro, sendo, com essa alcunha, um dos cientistas mais referidos no campo da sociologia da cultura das popula\u00e7\u00f5es amaz\u00f4nicas e professor do heroico N\u00facleo de Altos Estudos Amaz\u00f4nicos, vinculado \u00e0 Universidade Federal do Par\u00e1, um dos basti\u00f5es da luta socioambiental da Amaz\u00f4nia.<\/p>\n<p class=\"has-medium-font-size\"><strong>2.<\/strong><\/p>\n<p>O heter\u00f4nimo do autor, na verdade, corrobora esse conjunto de camadas de sentido. O mesmo experimento esteve presente no seu romance de estreia, O r\u00e9ptil melanc\u00f3lico, que recebeu o pr\u00eamio Sesc de Literatura de 2021, sendo tamb\u00e9m indicado como finalista do Pr\u00eamio S\u00e3o Paulo e como semifinalista do Pr\u00eamio Oceanos, no ano de 2022.<\/p>\n<p>Nesse outro texto j\u00e1 se entrevia essa outra forma\u00e7\u00e3o do realismo fant\u00e1stico: o jogo entre hist\u00f3ria, realidade, fic\u00e7\u00e3o e narrativa, com camadas superpostas de um ins\u00f3lito que n\u00e3o era devido aos fatos m\u00e1gicos do texto, mas, sim, a uma superposi\u00e7\u00e3o fantasiosa das camadas de sentido.<\/p>\n<p>Apontamentos sobre a cidade imagin\u00e1ria de Bel\u00e9m, nos faz refletir a respeito do processo de configura\u00e7\u00e3o do fant\u00e1stico e da contribui\u00e7\u00e3o desse autor para a inven\u00e7\u00e3o de um real-fant\u00e1stico amaz\u00f4nico, um real-fant\u00e1stico que transcenda a obviedade dos mitos tradicionais.<\/p>\n<p>Identificamos tr\u00eas caracter\u00edsticas maiores da sistematiza\u00e7\u00e3o desse g\u00eanero, ou dessa narrativa, que poder\u00edamos denominar, com apoio da hermen\u00eautica, de simulacro de realidade, simulacro de sobrerrealidade e dicotomia ir\u00f4nica.<\/p>\n<p>Na obra em tela se percebe, primeiramente, uma camada de sentidos constru\u00edda como simulacro de realidade. Trata-se da literatura em seu estado mais elementar, a narrativa que simula um ser social, com sua trama, personagens e eventos. Trata-se do pr\u00f3prio fundamento hermen\u00eautico da literatura.<\/p>\n<p>Em seguida, encontra-se uma segunda camada de sentidos, j\u00e1 associada \u00e0 ideia de simulacro de sobrerrealidade, processo que evoca, particularmente, o g\u00eanero do realismo fant\u00e1stico. Com Jean Baudrillard, em Simulacro e simula\u00e7\u00e3o, compreendemos o jogo de sobrenarrativas que o simulacro imp\u00f5e \u00e0 simula\u00e7\u00e3o. Trata-se disso: de duvidar, questionar, a simula\u00e7\u00e3o, na produ\u00e7\u00e3o narrativa do inc\u00f4modo diante dos fatos sociais propositadamente exagerados e cravejados de verossimilhan\u00e7a.<\/p>\n<p>Dessa superposi\u00e7\u00e3o de camadas, produz-se uma dicotomia, que pode enganar a boa-f\u00e9 do leitor desavisado mas que \u00e9 absolutamente ir\u00f4nica, sem enunciar e nem desvelar, sua ironia.<\/p>\n<p>Apontamentos sobre a cidade imagin\u00e1ria de Bel\u00e9m pratica uma ironia muito discreta: finge uma realidade realista. Finge que faz ci\u00eancia e, ao faz\u00ea-lo, simula a pr\u00f3pria fic\u00e7\u00e3o. \u00c9 muito dif\u00edcil n\u00e3o acreditar na voz do professor, do cientista, do pesquisador politicamente engajado que inventa a realidade de um lugar pouco realista (a cidade de Bel\u00e9m, com seus palimpsestos hist\u00f3ricos e socioculturais, sempre ser\u00e1 um enigma, tanto para cientistas como para seus habitantes).<\/p>\n<p>\u00c9 dif\u00edcil negociar com uma verossimilhan\u00e7a que transcende o pacto liter\u00e1rio para alcan\u00e7ar (ou ironizar, e criticar) o pacto narrativo da realidade (hist\u00f3rica, geogr\u00e1fica, antropol\u00f3gica, sociol\u00f3gica, liter\u00e1ria\u2026) pela ci\u00eancia.<\/p>\n<p class=\"has-medium-font-size\"><strong>3.<\/strong><\/p>\n<p>O real fant\u00e1stico da obra de F\u00e1bio Hor\u00e1cio-Castro reside num jogo de simula\u00e7\u00f5es e de circula\u00e7\u00f5es entre o aspecto de realidade e o de sobrenaturalidade. De um lado, tem-se a imita\u00e7\u00e3o de um cen\u00e1rio integralmente realista, pertinente, por verossimilhan\u00e7a, ao universo do leitor; de outro, tem-se a transgress\u00e3o do ambiente realista da narrativa, dada, em seu caso, e diferentemente do real-fant\u00e1stico cl\u00e1ssico, n\u00e3o pela apari\u00e7\u00e3o de algum personagem ou evento, tipologicamente, sobrenatural, mas sim pela sobrenaturalidade da pr\u00f3pria narrativa.<\/p>\n<p>Esse processo remete \u00e0 formula\u00e7\u00e3o de Todorov (1975) sobre o real-fant\u00e1stico, segundo a qual, diante da sobrenaturalidade, o leitor tem duas op\u00e7\u00f5es poss\u00edveis: ou trata-la como uma ilus\u00e3o dos sentidos, de um produto da imagina\u00e7\u00e3o (e nesse caso as leis do mundo continuam a ser o que s\u00e3o); ou trat\u00e1-la como um acontecimento que realmente ocorreu, que \u00e9 parte integrante da realidade (pressupondo, nesse caso, que a realidade \u00e9 regida por leis desconhecidas para n\u00f3s).<\/p>\n<p>Podemos acrescentar que, na obra de Hor\u00e1cio-Castro, estando o centro do real-fant\u00e1stico na formula\u00e7\u00e3o da linguagem \u2013 e n\u00e3o nos personagens ou acontecimentos da hist\u00f3ria \u2013 somos levados a descartar a primeira hip\u00f3tese para assumir o pressuposto de uma realidade fugidia. O leitor passa a ser orientado por sua pr\u00f3pria no\u00e7\u00e3o de realidade, coet\u00e2nea ao seu ambiente f\u00edsico e social.<\/p>\n<p>N\u00e3o obstante, repentinamente, d\u00e1-se conta de que a sobrerrealidade \u00e9, deveras, fic\u00e7\u00e3o. E da\u00ed o sentimento de desconforto que mencionei acima. O desconforto entre a realidade da leitura e o princ\u00edpio da verossimilhan\u00e7a.<\/p>\n<p>Trata-se, efetivamente, do princ\u00edpio da desconstru\u00e7\u00e3o, que pensamos ser a ess\u00eancia dessa obra liter\u00e1ria. Se, com sugere Jacques Derrida, \u201cdesconstru\u00e7\u00e3o\u201d significa uma ruptura do logocentrismo por meio do qual as narrativas dominantes se constroem, Apontamentos sobre a cidade imagin\u00e1ria de Bel\u00e9m significa, n\u00e3o apenas, uma desconstru\u00e7\u00e3o da cidade de Bel\u00e9m mas, tamb\u00e9m, uma desconstru\u00e7\u00e3o dos padr\u00f5es narrativos da hist\u00f3ria, da geografia, da antropologia, da sociologia\u2026 Uma desconstru\u00e7\u00e3o, que se efetiva por meio de uma ironia discreta.<\/p>\n<p>O autor ironiza, na sua obra, a pr\u00f3pria ideia de verossimilhan\u00e7a e, com isso, ironiza o pr\u00f3prio fundamento do realismo fant\u00e1stico. Nesse sentido, a ideia de desconstru\u00e7\u00e3o operada, diz respeito n\u00e3o apenas \u00e0 cidade \u201cimagin\u00e1ria\u201d de Bel\u00e9m, mas \u00e0 teoria \u201cimagin\u00e1ria\u201d da literatura.<\/p>\n<p><strong>*Alda Cristina da Silva Costa<\/strong> \u00e9 professora do programa de p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o em Comunica\u00e7\u00e3o, Cultura e Amaz\u00f4nia, da Universidade Federal do Par\u00e1 (UFPA).<\/p>\n<p><strong>Refer\u00eancia<\/strong><\/p>\n<p><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" width=\"202\" height=\"290\" src=\"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-content\/uploads\/2025\/10\/Livro-jd7j.png\" alt=\"\" class=\"wp-image-56272\"  \/><\/p>\n<p>F\u00e1bio Hor\u00e1cio-Castro. Apontamentos sobre a cidade imagin\u00e1ria de Bel\u00e9m. S\u00e3o Paulo, Editora Patu\u00e1, 2024. [<a href=\"https:\/\/abrir.link\/Pijyc\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener nofollow\">https:\/\/abrir.link\/Pijyc<\/a>]<\/p>\n<p><strong>Bibliografia<\/strong><\/p>\n<p>BAUDRILLARD, Jean. Simulacro e simula\u00e7\u00e3o. S\u00e3o Paulo: Rel\u00f3gio d\u2019\u00c1gua, 1991.<\/p>\n<p>DERRIDA, Jacques. L\u2019\u00e9criture et la diff\u00e9rence, Paris: Seuil, 1967.<\/p>\n<p>________ De la grammatologie, Paris: Minuit, 1967.<\/p>\n<p>TODOROV, Tzevan. Introdu\u00e7\u00e3o a literatura fant\u00e1stica. S\u00e3o Paulo: Perspectiva, 1975.<\/p>\n<p class=\"has-text-align-center has-background\" style=\"background-color:#e99152\"><strong>A Terra \u00e9 Redonda\u00a0existe gra\u00e7as<\/strong>\u00a0<strong>aos nossos leitores e apoiadores.<br \/>Ajude-nos a manter esta ideia.<br \/><a href=\"https:\/\/aterraeredonda.com.br\/CONTRIBUA\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener nofollow\"><strong\/><\/a><a href=\"https:\/\/aterraeredonda.com.br\/CONTRIBUA\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener nofollow\">C O N T R I B U A<\/a><\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"Por ALDA CRISTINA SILVA COSTA* Considera\u00e7\u00f5es sobre o livro de F\u00e1bio Hor\u00e1cio-Castro 1. 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