{"id":116746,"date":"2025-10-19T02:22:24","date_gmt":"2025-10-19T02:22:24","guid":{"rendered":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/116746\/"},"modified":"2025-10-19T02:22:24","modified_gmt":"2025-10-19T02:22:24","slug":"o-fascinante-mundo-antigo-de-zbigniew-herbert-observador","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/116746\/","title":{"rendered":"O fascinante Mundo Antigo de Zbigniew Herbert \u2013 Observador"},"content":{"rendered":"<p>H\u00e1 pouca coisa que expire mais depressa do que literatura hist\u00f3rica em segunda m\u00e3o. A descoberta conserva nos livros uma vitalidade quase invenc\u00edvel: pouco importa a confus\u00e3o do seu estilo ou os apartes biogr\u00e1ficos de Schliemann; v\u00ea-lo a entrar pela terra adentro enquanto nos embrenhamos pelo seu livro adentro, at\u00e9 encontrar Tr\u00f3ia e ver confirmada a sua f\u00e9 em Homero \u00e9 uma experi\u00eancia extraordin\u00e1ria. Ler a multid\u00e3o de int\u00e9rpretes que se lhe seguem, por\u00e9m, \u00e9 como tentar curar uma dor de dentes num consult\u00f3rio oitocentista. Tudo pode ser pinturesco, se estivermos com boa disposi\u00e7\u00e3o, mas nada parece \u00fatil.<\/p>\n<p>As interpreta\u00e7\u00f5es obedecem a ci\u00eancias obsoletas, os factos est\u00e3o refutados ou incompletos, as novidades j\u00e1 s\u00e3o lugares-comuns, pelo que \u00e9 raro o ensaio hist\u00f3rico que sobrevive \u00e0 pr\u00f3pria hist\u00f3ria. Mais raro ainda \u00e9 assistir a um poeta que, diante da hist\u00f3ria, resiste a arredond\u00e1-la com uma ret\u00f3rica mais ou menos escondida. Vemos isso em tantos dos maiores escritores da l\u00edngua: nunca as figuras hist\u00f3ricas de Agustina resistiram \u00e0 sua pervers\u00e3o romanesca, o Cam\u00f5es de Garrett \u00e9 um imenso floreado que camufla o pr\u00f3prio poeta e em caso nenhum, dos muitos estudos hist\u00f3ricos de Camilo, o rigor se sobrep\u00f5e a uma boa frase. Tudo isto \u00e9 compreens\u00edvel: n\u00e3o s\u00e3o livros did\u00e1ticos, o que h\u00e1 para aprender, neles, \u00e9 de outra ordem.<\/p>\n<p>Isso, contudo, torna este livro p\u00f3stumo de Zbigniew Herbert, o grande poeta polaco da segunda metade do s\u00e9culo XX que escreve aqui sete ensaios sobre o Mundo Antigo, de Cnossos \u00e0 Etr\u00faria, uma estim\u00e1vel preciosidade. N\u00e3o \u00e9 preciso carreg\u00e1-lo com elogios desajustados do tom em que o livro foi impresso. \u00c9 um livro ameno, que d\u00e1 um prazer calmo e discreto, mas ainda assim pouco comum. Isto porque \u00e9 um livro de ensaios \u2013 alguns deles na fronteira entre o ensaio e o relato de viagem, como na pormenorizada descri\u00e7\u00e3o do Museu de Heracli\u00e3o ou na sua tentativa de descri\u00e7\u00e3o da paisagem grega \u2013 sobre assuntos que Herbert conhece bem (em segunda m\u00e3o, sim, mas bem, com aquele \u00e0-vontade pr\u00f3prio do contacto prolongado com os assuntos) a ponto de nunca deixar de ser informativo, mas em que nunca se perde tamb\u00e9m uma vivacidade que \u00e9 mais pr\u00f3pria do artista do que do historiador.<\/p>\n<p>        <img src=\"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-content\/uploads\/2025\/10\/labirinto-a-beira-mar.webp.jpeg\" alt=\"\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone\" onload=\"this.parentElement.classList.remove('spinner')\" onerror=\"this.parentElement.classList.remove('spinner')\" width=\"445\" height=\"659\"\/>    <\/p>\n<p>\n<strong>T\u00edtulo:<\/strong> \u201cLabirinto \u00e0 beira-mar\u201d<br \/>\n<strong>Autor:<\/strong> Zbigniew Herbert<br \/>\n<strong>Tradu\u00e7\u00e3o:<\/strong> Teresa Fernandes Swiatkiewicz<br \/><strong>Editora:<\/strong> Cavalo-de-ferro<br \/><strong>P\u00e1ginas:<\/strong> 240<\/p>\n<p>O grande mist\u00e9rio aqui passa por perceber como \u00e9 que o livro de Herbert n\u00e3o vai desmaiando na monotonia dos factos repetidos e consegue manter uma vivacidade t\u00e3o incomum neste tipo de ensaios, que n\u00e3o t\u00eam nem grandes descobertas, nem grandes pretens\u00f5es ideol\u00f3gicas. E isto tem que ver, sobretudo, com o olhar estil\u00edstico de Herbert. O modo de Herbert olhar para as coisas \u00e9 essencialmente original, mas de uma fei\u00e7\u00e3o muito discreta. Isto \u00e9, diante da paisagem grega, aquilo que ele convoca imediatamente n\u00e3o \u00e9 o que a associa ao mundo hel\u00e9nico, mas o que a dissocia dele. Pouco lhe interessa aquele movimento habitual do intelecto que passa por criar rela\u00e7\u00f5es entre as coisas e que acaba por tornar tantos dos livros de hist\u00f3ria reprodu\u00e7\u00f5es do mundo em que foram escritos. O olhar de Herbert \u00e9 mais dissociativo do que associativo, o que traz as suas observa\u00e7\u00f5es constantemente para longe do terreno de partida.<\/p>\n<p>Ao mesmo tempo, por\u00e9m, h\u00e1 um esteio t\u00e1cito no livro que lhe d\u00e1 uma segunda camada de encanto, que n\u00e3o tem tanto que ver nem com as perip\u00e9cias da invas\u00e3o por P\u00e9ricles da ilha de Samos, nem com as maravilhas escondidas da arte Etrusca; este livro, mais do que uma recolha de ensaios de um grande erudito, \u00e9 o registo do embate de um homem com uma civiliza\u00e7\u00e3o de que ouve falar desde a inf\u00e2ncia. Isso revela-se num ensaio central do livro, em que Herbert conta a rea\u00e7\u00e3o de Freud ao deparar pela primeira vez com a acr\u00f3pole. A Herbert interessa-lhe, para l\u00e1 da arte e da hist\u00f3ria sobre a qual j\u00e1 leu, perceber a rea\u00e7\u00e3o dos sentidos ao encontrarem aquilo que h\u00e1 tanto tempo conhecem de outra maneira. Da\u00ed que ligue tanto ao que o pr\u00f3prio Freud escreveu \u2013 em que acaba a meditar sobre a desconfian\u00e7a dos seus pr\u00f3prios sentidos em rela\u00e7\u00e3o \u00e0quilo de que nunca tinham duvidado \u2013 e que junte a estes ensaios uma \u201caula de latim\u201d com lembran\u00e7as sobre o seu professor da inf\u00e2ncia e o modo como se foi formando nele a consci\u00eancia da civiliza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Estes ensaios s\u00e3o importantes porque explicitam um lado importante do livro: h\u00e1 nele um entusiasmo ainda juvenil, um entusiasmo que se revela tamb\u00e9m quando, a par com as descri\u00e7\u00f5es dos lugares arqueol\u00f3gicos chave das civiliza\u00e7\u00f5es mic\u00e9nica e min\u00f3ica, traz os retratos de Arthur Evans e da sua equipa, uma verdadeira pl\u00eaiade de exploradores vitorianos, daqueles que alimentam a imagina\u00e7\u00e3o da juventude.<\/p>\n<p>N\u00e3o deixa de ser, tamb\u00e9m, extraordin\u00e1rio perceber o contacto \u00edntimo que, em tempos, a educa\u00e7\u00e3o escolar julgou ser seu dever proporcionar entre os jovens estudantes e o princ\u00edpio da civiliza\u00e7\u00e3o ocidental. \u00c9 por essa preocupa\u00e7\u00e3o ter estado em tempos presente que o livro de Herbert soa tamb\u00e9m, tantas vezes, a um encontro com a sua pr\u00f3pria juventude, como um velho que recupera o seu vigor ao descobrir, enterrados no jardim, os velhos brinquedos da sua inf\u00e2ncia. Talvez j\u00e1 n\u00e3o fosse poss\u00edvel, hoje, surgir um livro assim. N\u00e3o porque faltem eruditos capazes de saber mais sobre Atenas, Roma, os governos Romanos da Gr\u00e3-Bretanha ou sobre o modo como se drenou a cloaca maxima para criar o f\u00f3rum de Roma; simplesmente porque para mais ningu\u00e9m isto estar\u00e1 gravado na mem\u00f3ria junto aos temores de um professor r\u00edgido ou \u00e0s descobertas do companheirismo, na inf\u00e2ncia, o tempo em que a civiliza\u00e7\u00e3o se torna a pr\u00f3pria vida.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"H\u00e1 pouca coisa que expire mais depressa do que literatura hist\u00f3rica em segunda m\u00e3o. A descoberta conserva nos&hellip;\n","protected":false},"author":2,"featured_media":116747,"comment_status":"","ping_status":"","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[143],"tags":[169,10392,315,114,115,864,170,32,33],"class_list":{"0":"post-116746","1":"post","2":"type-post","3":"status-publish","4":"format-standard","5":"has-post-thumbnail","7":"category-livros","8":"tag-books","9":"tag-cru00edtica-de-livros","10":"tag-cultura","11":"tag-entertainment","12":"tag-entretenimento","13":"tag-literatura","14":"tag-livros","15":"tag-portugal","16":"tag-pt"},"share_on_mastodon":{"url":"","error":""},"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/116746","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=116746"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/116746\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/media\/116747"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=116746"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=116746"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=116746"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}