{"id":11690,"date":"2025-08-01T15:18:31","date_gmt":"2025-08-01T15:18:31","guid":{"rendered":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/11690\/"},"modified":"2025-08-01T15:18:31","modified_gmt":"2025-08-01T15:18:31","slug":"o-fenomeno-chimamanda-cartacapital","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/11690\/","title":{"rendered":"O fen\u00f4meno Chimamanda \u2013 CartaCapital"},"content":{"rendered":"<p>Sempre desejei que outro ser humano me conhecesse de verdade\u201d, diz, na primeira linha A \u00adContagem dos Sonhos \u00ad(Companhia das Letras, 424 p\u00e1gs., 89,90 reais), Chiamaka, personagem criada por Chimamanda Ngozi Adichie em seu novo romance.\n<\/p>\n<p>A narrativa come\u00e7a na pandemia, com Chia lavando as m\u00e3os e passando \u00e1lcool em gel sem parar. Ela tamb\u00e9m deseja escrever, mas n\u00e3o consegue, e conversa com a fam\u00edlia, parte dela em Lagos, na Nig\u00e9ria, por Zoom. Torna-se quase inevit\u00e1vel acreditarmos ser essa narradora, na verdade, Chimamanda.\n<\/p>\n<p>A autora conta, na edi\u00e7\u00e3o comemorativa dos dez anos de Americanah, lan\u00e7ada em 2023, que muitos tiveram tamb\u00e9m a certeza de que Ifemelu \u2013 a protagonista do romance \u2013 era ela mesma. Chimamanda\u00ad faz tro\u00e7a e diz que, na verdade, se acha muito mais parecida com Obinze, o namorado de adolesc\u00eancia de Ifemelu.\n<\/p>\n<p>Se Chimamanda deixa em quem a l\u00ea a impress\u00e3o de estar falando sobre si, isso se deve \u00e0 verdade que sua narrativa exala, mas n\u00e3o s\u00f3. \u00c9 que suas personagens nos levam a um mundo que, por muito tempo, esteve apartado da fic\u00e7\u00e3o: aquele da di\u00e1spora africana, que moldou, de formas diferentes, sociedades de muitos pa\u00edses.\n<\/p>\n<p>\u00c9 o nosso desconhecimento do continente que nos faz achar que uma mulher negra, rica, escritora e linda, como Chia, deve ser Chimamanda. Mas n\u00e3o. Muitas mulheres africanas s\u00e3o assim.\n<\/p>\n<p>Em A Contagem dos Sonhos, elas s\u00e3o personificadas em Omelogor, a prima de Chia que ganhou muito dinheiro em Abuja, no centro do mapa da Nig\u00e9ria, e em Zikora, uma bem-sucedida advogada radicada nos Estados Unidos. A quarta mulher a assumir o protagonismo entrela\u00e7ado no livro \u00e9 Kadiatou, cuja vida, desde cedo, esteve marcada pela trag\u00e9dia.\n<\/p>\n<p>Kadiatou foi inspirada na imigrante guineense que acusou o poderoso \u00adDominique Strauss-Kahn de violent\u00e1-la num quarto de hotel, em 2011. \u00adChimamanda quis, como diz no texto ao final do volume, \u201ccriar uma personagem fict\u00edcia como tentativa de recupera\u00e7\u00e3o da dignidade\u201d.\n<\/p>\n<p>Dignidade. Esta \u00e9 uma palavra-chave para se compreender seus personagens.Outra palavra, avizinhada dessa, utilizada pelo The New York Times para definir a pr\u00f3pria Chimamanda \u00e9 \u201cregal\u201d. O termo, em ingl\u00eas, remete \u00e0 realeza e impon\u00eancia de sua persona p\u00fablica.\n<\/p>\n<p>Adentramos assim em outro terreno, adjacente ao liter\u00e1rio, no qual \u00adChimamanda caminha de forma majestosa: o das apari\u00e7\u00f5es, seja em entrevistas, confer\u00eancias ou na capa de revistas de moda. J\u00e1 chamada de \u201ctit\u00e3 liter\u00e1rio\u201d pelo The Guardian, a autora \u00e9 tamb\u00e9m uma musa nos meios culturais e feministas, sendo considerada um farol para a compreens\u00e3o do feminismo negro.\n<\/p>\n<p>O lan\u00e7amento de A Contagem dos Sonhos em ingl\u00eas, em mar\u00e7o, incluiu dois eventos no Reino Unido e mais um punhado deles na Am\u00e9rica do Norte. O livro, que marca seu retorno \u00e0 fic\u00e7\u00e3o ap\u00f3s um interregno de 12 anos, virou sensa\u00e7\u00e3o antes mesmo de ser lido.\n<\/p>\n<p>Sua passagem pelo Brasil, em junho, para lan\u00e7\u00e1-lo, tamb\u00e9m foi um estrondo. Ela veio ao Pa\u00eds para participar da Bienal do Livro do Rio e do programa Fronteiras do Pensamento, em S\u00e3o Paulo. A mesa, na Bienal, foi conduzida pela atriz Ta\u00eds Ara\u00fajo. No evento, ela foi apresentada a Concei\u00e7\u00e3o Evaristo, com quem dividiria outra mesa, no Festival LED \u2013 Luz na Educa\u00e7\u00e3o, da Globo.\n<\/p>\n<p>Em S\u00e3o Paulo, al\u00e9m da fala no Fronteiras do Pensamento, no Teatro Renault, participou de um encontro para convidados na livraria Megafauna do Teatro Cultura Art\u00edstica. Lotou todos eles. \u00adChimamanda veio ao Brasil com a fam\u00edlia \u2013 o marido e tr\u00eas filhos \u2013 e com uma amiga. Daqui, retornou para Lagos.\n<\/p>\n<p>Ela j\u00e1 havia visitado o Pa\u00eds outras vezes e, h\u00e1 cerca de dez anos, fez aqui uma pergunta que ecoou fundo: \u201cOnde est\u00e3o as pessoas negras?\u201d<\/p>\n<blockquote>\n<p>\u201c\u00c0s vezes, quando escrevemos fic\u00e7\u00e3o, momentos m\u00e1gicos caem do c\u00e9u\u201d, diz ela, sobre seu of\u00edcio<\/p>\n<\/blockquote>\n<p>Aut\u00eantica e carism\u00e1tica, Chimamanda\u00ad consegue fazer literatura de alt\u00edssima qualidade e, ao mesmo tempo, atuar como pensadora, oradora e ativista.\n<\/p>\n<p>Esses \u00faltimos atributos podem at\u00e9 induzir a certo desvio de percep\u00e7\u00e3o sobre sua escrita ficcional, que passam longe de qualquer vi\u00e9s discursivo. Suas hist\u00f3rias s\u00e3o um mundo envolvente onde somos levados a sorrir, refletir sobre a contemporaneidade, sofrer e sonhar.\n<\/p>\n<p>\u201c\u00c0s vezes, quando escrevemos fic\u00e7\u00e3o, momentos m\u00e1gicos caem do c\u00e9u\u201d, diz ela, ao tentar explicar o pr\u00f3prio espanto diante da cena final do romance.\n<\/p>\n<p>J\u00e1 suas palestras s\u00e3o como chacoalh\u00f5es, que conseguem mobilizar as pessoas para temas sens\u00edveis, como a identidade. Duas delas, no TED, tornaram-se marcos: O Perigo de Uma Hist\u00f3ria \u00danica e Sejamos Todos Feministas. Esta \u00faltima, inclusive, foi sampleada na m\u00fasica \u00adFlawless, de Beyonc\u00e9, algo que acabou por impulsionar as vendas de \u00adAmericanah, traduzido para 55 idiomas.\n<\/p>\n<p>Nascida na Nig\u00e9ria, em 1977, \u00adChimamanda\u00a0estudou Medicina em seu pa\u00eds antes de se mudar para os Estados Unidos, aos 19 anos, para buscar realizar o que acreditava ser sua voca\u00e7\u00e3o: escrever.\n<\/p>\n<p>Antes de estourar com Americanah, (2013), tinha escrito os romances Hibisco Roxo (2003) e Meio Sol Amarelo (2006). \u00c9 autora ainda do livro de contos No Seu Pesco\u00e7o (2017) .\n<\/p>\n<p>A Contagem dos Sonhos, obra que se \u00adsegue \u00e0 maternidade, a um bloqueio criativo e \u00e0 morte do pai e da m\u00e3e, \u00e9 mais um passo nesse seu caminho t\u00e3o brilhante. O romance, de uma beleza \u00e0s vezes triste, mas sempre sonhadora, e de uma sofistica\u00e7\u00e3o narrativa admir\u00e1vel, nos ajuda a conhec\u00ea-la um pouco mais \u2013 ainda que n\u00e3o \u201cde verdade\u201d \u2013 e refor\u00e7a que o fen\u00f4meno Chimamanda \u00e9 algo a ser apenas celebrado. \u2022\n<\/p>\n<p><b>Publicado na edi\u00e7\u00e3o n\u00b0 1373 de CartaCapital, em 06 de agosto de 2025.<\/b>\n<\/p>\n<p><b>Este texto aparece na edi\u00e7\u00e3o impressa de CartaCapital sob o t\u00edtulo \u2018O fen\u00f4meno Chimamanda\u2019<\/b><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"Sempre desejei que outro ser humano me conhecesse de verdade\u201d, diz, na primeira linha A \u00adContagem dos Sonhos&hellip;\n","protected":false},"author":2,"featured_media":11691,"comment_status":"","ping_status":"","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[143],"tags":[1555,1545,1550,1551,1556,1558,1543,169,726,1537,1536,1561,1559,1554,476,1549,114,115,1552,1560,1548,1542,1562,170,1553,1540,1538,1539,1546,52,32,1541,33,1557,58,1544,1547],"class_list":{"0":"post-11690","1":"post","2":"type-post","3":"status-publish","4":"format-standard","5":"has-post-thumbnail","7":"category-livros","8":"tag-afonsinho","9":"tag-ana-luiza-basilio","10":"tag-assine-carta","11":"tag-assine-carta-capital","12":"tag-belluzzo","13":"tag-bndes","14":"tag-bolsonaro","15":"tag-books","16":"tag-brasil","17":"tag-carta-capital","18":"tag-cartacapital","19":"tag-cidadania","20":"tag-correios","21":"tag-delfim-neto","22":"tag-economia","23":"tag-editora-confianca","24":"tag-entertainment","25":"tag-entretenimento","26":"tag-esquerda","27":"tag-funai","28":"tag-istoe","29":"tag-jornalismo-critico","30":"tag-lava-jato","31":"tag-livros","32":"tag-luiz-inacio-lula-da-silva","33":"tag-lula","34":"tag-manuela-carta","35":"tag-mino-carta","36":"tag-moro","37":"tag-politica","38":"tag-portugal","39":"tag-progressista","40":"tag-pt","41":"tag-revista-epoca","42":"tag-sociedade","43":"tag-transparente","44":"tag-veja"},"share_on_mastodon":{"url":"","error":""},"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/11690","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=11690"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/11690\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/media\/11691"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=11690"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=11690"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=11690"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}