{"id":11867,"date":"2025-08-01T17:36:28","date_gmt":"2025-08-01T17:36:28","guid":{"rendered":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/11867\/"},"modified":"2025-08-01T17:36:28","modified_gmt":"2025-08-01T17:36:28","slug":"valter-hugo-mae-minha-obrigacao-e-tornar-a-vida-suportavel","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/11867\/","title":{"rendered":"Valter Hugo M\u00e3e: \u2018Minha obriga\u00e7\u00e3o \u00e9 tornar a vida suport\u00e1vel\u2019"},"content":{"rendered":"<p><strong>Valter Hugo M\u00e3e<\/strong> fala como escreve: envolvente, ele solta frases que poderiam ser de um poema, enquanto conta uma hist\u00f3ria pessoal para, em seguida, lan\u00e7ar uma tirada ir\u00f4nica. O autor portugu\u00eas de 53 anos recebeu a reportagem de VEJA na pousada em que est\u00e1 hospedado em Paraty, onde acontece a 23\u00aa edi\u00e7\u00e3o da <strong>Flip<\/strong>, feira liter\u00e1ria que se tornou reduto anual do que h\u00e1 de mais interessante na literatura nacional \u2014 e estrangeira, especialmente o que j\u00e1 caiu no gosto do brasileiro. \u00c9 o caso de Hugo M\u00e3e \u2014 ou melhor, seria, n\u00e3o fosse ele um brasileiro honor\u00e1rio. Na entrevista, o autor falou sobre essa forte rela\u00e7\u00e3o com o pa\u00eds e a adapta\u00e7\u00e3o de seu livro <a href=\"https:\/\/veja.abril.com.br\/coluna\/em-cartaz\/netflix-revela-as-primeiras-imagens-de-filme-ambicioso-com-rodrigo-santoro\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener nofollow\"><strong>O Filho de Mil Homens<\/strong><\/a> pela Netflix, dirigido por Daniel Rezende e com Rodrigo Santoro no protagonismo. Confira:<\/p>\n<p><strong>Voc\u00ea veio para a Flip em 2011, justamente para lan\u00e7ar o livro O Filho de Mil Homens, que agora foi adaptado em um filme. Sua rela\u00e7\u00e3o com o Brasil s\u00f3 cresce. Como enxerga essa proximidade com o pa\u00eds?<\/strong> Sabe, somos t\u00e3o intrincados que n\u00e3o tenho uma rela\u00e7\u00e3o de estrangeiro com o Brasil. Eu venho e fico naturalizado. Encho minhas malas de livros, gosto de saber o que h\u00e1 de novo. Amo p\u00e3o de queijo, pudim de leite \u2014 que \u00e9 meu doce favorito no mundo. \u00c9 um lugar que me comove e t\u00e3o familiar, que eu reconhe\u00e7o o cheiro do Brasil chegando aqui. \u00c9 um lugar que me diz muito respeito e \u00e9 muito gratificante que o meu trabalho possa ter aqui um efeito e possa ser t\u00e3o bem recebido.<\/p>\n<p><strong>J\u00e1 viu alguma coisa do filme?<\/strong> Eu vi o filme ontem e eu amei. Acho sinceramente que o filme \u00e9 melhor que o livro. E isso deve ser muito mal para mim, porque, at\u00e9 hoje, eu conhecia apenas um filme que era francamente melhor que o livro, que \u00e9 a adapta\u00e7\u00e3o que o David Lynch fez de o Cora\u00e7\u00e3o Selvagem. Acho que agora me lasquei porque o filme do Daniel Rezende vai ser a segunda adapta\u00e7\u00e3o do mundo que \u00e9 muito melhor que o livro. Fiquei deslumbrado com o filme. Acho que o Daniel fez uma obra autoral que n\u00e3o presta vassalagem nenhuma, n\u00e3o fica submissa o livro. Muito pelo contr\u00e1rio, ela liberta-se e, ao libertar-se, ela carrega o livro dentro de si. \u00c9 o melhor filme do ano.<\/p>\n<p><strong>Qu\u00e3o envolvido esteve nos bastidores?<\/strong> Em nada. N\u00e3o fiz nada, inclusive.<\/p>\n<p><strong>Teve medo de entregar o livro assim para uma adapta\u00e7\u00e3o?<\/strong> Eu sou muito corajoso. Eu n\u00e3o sou desapegado. Eu gosto das minhas coisas, mas eu sou muito corajoso. Eu achei que aquelas pessoas queriam muito produzir o filme e que elas tinham de o fazer sem que eu ficasse perturbando. Eu tive essa lucidez a dada altura de perceber que a melhor posi\u00e7\u00e3o para mim seria a de n\u00e3o perturbar em nada.\u00a0 Porque eu ia ter a tenta\u00e7\u00e3o de me intrometer, de sugerir pessoas para o elenco, para a trilha sonora. Seria profundamente maravilhoso se eu pudesse mandar em tudo. Mas eu n\u00e3o sei fazer filmes. N\u00e3o \u00e9 o meu mundo. Minha rela\u00e7\u00e3o com o cinema \u00e9 de observador.<\/p>\n<p>    Continua ap\u00f3s a publicidade<\/p>\n<p><strong>O Filho de Mil Homens ecoa tramas cl\u00e1ssicas de homens incompletos em busca de um filho. Como \u00e9 hoje sua percep\u00e7\u00e3o sobre essa aus\u00eancia?<\/strong> Esse livro \u00e9 muito pessoal e diz respeito a minha pr\u00f3pria vida. Ent\u00e3o fiquei surpreso quando dois anos depois do livro publicado algu\u00e9m fez a rela\u00e7\u00e3o da hist\u00f3ria com a de Pin\u00f3quio e Gepeto. Eu n\u00e3o tinha dado conta disso. Como assim? Algu\u00e9m escreveu sobre isso antes de mim? Como se atreveram a inventar o Gepeto e o Pin\u00f3quio? (risos). O livro veio de um lugar muito \u00edntimo. Meus romances levam cerca de 10, 12 anos, de prepara\u00e7\u00e3o. O Filho de Mil Homens n\u00e3o, ele surgiu numa cr\u00f4nica. Eu estava pensando que estava com 40 anos de idade, sem filhos. Que havia falhado nos meus sonhos. Que sonhei com tudo errado, sonhei mal. Ent\u00e3o comecei a escrever: \u201cUm homem chegou aos 40 anos e assumiu a tristeza de n\u00e3o ter um filho\u201d. Fiz todo o primeiro cap\u00edtulo em 3 horas. O livro foi escrito com muita rapidez. Foi um livro generoso comigo, porque n\u00e3o me tomou muito tempo e me levou a lugares \u00edntimos.<\/p>\n<p>    <img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" alt=\".\" class=\"size-large wp-image-5858767\" src=\"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-content\/uploads\/2025\/08\/OFDMH_20240924-CRISOSTOMOCAMILO_0004_R.jpg\" border=\"0\" title=\"OFDMH_20240924-CRISOSTOMO+CAMILO_0004_R\" width=\"650\" height=\"433\" data-restrict=\"false\" data-portal-copyright=\"Marcos Serra Lima\" data-image-caption=\"Rodrigo Santoro e Miguel Martines: atores vivem pescador que sonha em ter filhos e garoto \u00f3rf\u00e3o unidos pela vida\" data-image-title=\"\" data-image-source=\"Netflix\"\/><br \/>\n     Rodrigo Santoro e Miguel Martines: atores vivem pescador que sonha em ter filhos e garoto \u00f3rf\u00e3o unidos pela vida (Marcos Serra Lima\/Netflix)<\/p>\n<p><strong>Hoje v\u00ea seus livros como \u201cfilhos\u201d?<\/strong> N\u00e3o. O filho \u00e9 uma coisa melhor. N\u00e3o \u00e9 feito em p\u00e1ginas de papel e se mexe sozinho. As crian\u00e7as s\u00e3o melhores, as pessoas s\u00e3o sempre melhores que as bibliotecas. A biblioteca \u00e9 uma multid\u00e3o, mas \u00e9 a multid\u00e3o acess\u00f3ria. N\u00e3o \u00e9 a multid\u00e3o essencial. Essencial \u00e9 gente.<\/p>\n<p>    Continua ap\u00f3s a publicidade<\/p>\n<p><strong>E como ficaram os planos de ter filhos humanos?<\/strong> N\u00e3o os tenho, quis muito, quero muito, mas n\u00e3o aconteceu. Eu n\u00e3o tenho filhos, tenho sobrinhos e adoro os meus sobrinhos, mas sei que os filhos s\u00e3o outra coisa, eu vejo perfeitamente, quer dizer, por mais forte que seja a minha rela\u00e7\u00e3o com os meus sobrinhos, n\u00e3o posso estar no lugar dos pais deles. Por isso, eu fico nesse lugar empobrecido da fam\u00edlia, empobrecido da exist\u00eancia. Sou o mais pobre da minha fam\u00edlia. Sou o \u00fanico sem filhos.<\/p>\n<p><strong>Voc\u00ea pode ser o tio legal.<\/strong> Sim, sou o tio legal e tamb\u00e9m abobalhado. Pago algumas coisas, esbanjo com os sobrinhos. Tio \u00e9 aquela coisa assim que \u00e9 meio animal dom\u00e9stico, n\u00e9? A gente gosta como gosta do cachorro. Ali\u00e1s, eu n\u00e3o devia dizer isso, mas eu acho que gosto mais do meu cachorro do que de grande parte dos meus tios (risos). Eu gosto dos meus tios. Eu quero muito que eles estejam felizes e saud\u00e1veis. Mas o meu cachorro \u00e9 t\u00e3o lindo e ele gosta tanto de mim. Eu acho que ele tamb\u00e9m gosta mais de mim que os meus tios. Sabe?<\/p>\n<p><strong>Uma particularidade da sua escrita \u00e9 a capacidade de transformar situa\u00e7\u00f5es dif\u00edceis em otimistas. Como encontra esse equil\u00edbrio?<\/strong> Eu acho que \u00e9 muito da minha natureza. Eu venho de uma fam\u00edlia bastante humilde, que teve bastantes dificuldades, \u00e9 um lugar um pouco sofrido. Quando eu nasci, a minha m\u00e3e tinha j\u00e1 perdido um filho. Ent\u00e3o, havia esse ritual de visitar o meu irm\u00e3o no cemit\u00e9rio e de eu ser meio obrigado a amar um irm\u00e3o que j\u00e1 estava morto e que n\u00e3o tinha conhecido sequer. Ent\u00e3o, havia uma esp\u00e9cie de fantasma na casa que n\u00f3s precis\u00e1vamos n\u00e3o s\u00f3 amar, mas tamb\u00e9m de fazer essa crian\u00e7a que n\u00e3o era ningu\u00e9m ser algu\u00e9m. N\u00f3s t\u00ednhamos de fazer com que ele fosse algu\u00e9m.<br \/>Ent\u00e3o, eu acho que a minha realidade foi sempre essa de fazer um esfor\u00e7o para aceitar que alguma coisa terr\u00edvel tinha de ser uma coisa boa. Tinha de ser transformada em algo de respeitoso e tinha que ser celebrado. Quando recebo uma not\u00edcia ruim, quando h\u00e1 uma dificuldade, eu sempre respiro fundo e penso assim, pronto, \u00e9 horr\u00edvel que isto esteja a acontecer, mas deixa ver como \u00e9 que a gente vai passar por isso. Ent\u00e3o, eu sinto que minha obriga\u00e7\u00e3o \u00e9 tornar a vida suport\u00e1vel e que possamos ter sempre a l\u00facida no\u00e7\u00e3o de que muita coisa \u00e9 maravilhosa.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"Valter Hugo M\u00e3e fala como escreve: envolvente, ele solta frases que poderiam ser de um poema, enquanto conta&hellip;\n","protected":false},"author":2,"featured_media":11868,"comment_status":"","ping_status":"","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[143],"tags":[169,114,115,170,32,33],"class_list":{"0":"post-11867","1":"post","2":"type-post","3":"status-publish","4":"format-standard","5":"has-post-thumbnail","7":"category-livros","8":"tag-books","9":"tag-entertainment","10":"tag-entretenimento","11":"tag-livros","12":"tag-portugal","13":"tag-pt"},"share_on_mastodon":{"url":"","error":""},"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/11867","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=11867"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/11867\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/media\/11868"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=11867"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=11867"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=11867"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}