{"id":12086,"date":"2025-08-01T20:36:13","date_gmt":"2025-08-01T20:36:13","guid":{"rendered":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/12086\/"},"modified":"2025-08-01T20:36:13","modified_gmt":"2025-08-01T20:36:13","slug":"flip-astrid-roemer-do-suriname-compara-homens-a-cobras-01-08-2025-ilustrada","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/12086\/","title":{"rendered":"Flip: Astrid Roemer, do Suriname, compara homens a cobras &#8211; 01\/08\/2025 &#8211; Ilustrada"},"content":{"rendered":"<p>Astrid Roemer, 78, \u00e9 uma das <a href=\"https:\/\/www1.folha.uol.com.br\/ilustrada\/2025\/06\/flip-nao-tera-autor-de-pais-anglofono-pela-primeira-vez-em-2025-veja-a-programacao.shtml\" rel=\"nofollow noopener\" target=\"\">convidadas internacionais desta Festa Liter\u00e1ria Internacional de Paraty<\/a>, a <a href=\"https:\/\/www1.folha.uol.com.br\/folha-topicos\/flip\/\" rel=\"nofollow noopener\" target=\"_blank\">Flip<\/a>. Talvez voc\u00ea nunca tenha ouvido falar dela. Normal. At\u00e9 pouco tempo atr\u00e1s, esta surinamesa que escreve em holand\u00eas, l\u00edngua oficial do seu pa\u00eds, n\u00e3o era mesmo muito conhecida fora de c\u00edrculos liter\u00e1rios restritos.<\/p>\n<p>A\u00ed ela ganhou, dois anos atr\u00e1s, uma tradu\u00e7\u00e3o em ingl\u00eas de sua obra maior, lan\u00e7ada agora em portugu\u00eas pela Companhia das Letras. &#8220;Sobre a Loucura de uma Mulher&#8221;, publicado em 1982, concorreu neste ano ao Pr\u00eamio Booker Internacional \u2014s\u00e3o 43 anos entre a publica\u00e7\u00e3o na l\u00edngua original e a entrada na lista de indicados, um recorde do pr\u00eamio.<\/p>\n<p>O romance veio embalado como <a href=\"https:\/\/www1.folha.uol.com.br\/folha-topicos\/literatura\/\" rel=\"nofollow noopener\" target=\"_blank\">literatura<\/a> queer ambientada na ex-col\u00f4nia holandesa, o que pode soar restritivo para uma autora que se define como cosmopolita. Suas reflex\u00f5es sobre racismo, sexualidade e misoginia s\u00e3o universais e dialogam com nossos tempos, mesmo se escritas d\u00e9cadas atr\u00e1s.<\/p>\n<p>&#8220;A sociedade est\u00e1 estruturada no que chamamos de patriarcado&#8221;, ela afirma \u00e0<strong> Folha<\/strong> dias antes de desembarcar em Paraty. &#8220;Dizem que Donald Trump \u00e9 capaz de us\u00e1-lo. Mas n\u00e3o \u00e9 apenas ele. S\u00e3o todos os garotos.&#8221;<\/p>\n<p>O nome da protagonista do livro, Noenka, lembra a sonoridade do &#8220;nunca&#8221; escutado no Brasil, que faz fronteira com o <a href=\"https:\/\/www1.folha.uol.com.br\/folha-topicos\/suriname\/\" rel=\"nofollow noopener\" target=\"_blank\">Suriname<\/a>. Ela se descreve assim no livro: &#8220;Eu sou Noenka, que significa: Nunca mais. Nascida de dois opostos, uma mulher e um homem que desmancham at\u00e9 os meus sonhos. Sou mulher, mesmo que eu n\u00e3o saiba onde o ser-mulher come\u00e7a e termina, e aos olhos dos outros sou preta, e toda vez espero para saber o que isso significa&#8221;.<\/p>\n<p>    Tudo a Ler<\/p>\n<p class=\"c-newsletter__subtitle\">Receba no seu email uma sele\u00e7\u00e3o com lan\u00e7amentos, cl\u00e1ssicos e curiosidades liter\u00e1rias<\/p>\n<p>Roemer sabe o que significa ser uma mulher negra do menor dos pa\u00edses sul-americanos, onde voltou a morar quatro anos atr\u00e1s. Ela saiu do Suriname pela primeira vez aos 19 anos, em 1966, e j\u00e1 morou em v\u00e1rias cidades europeias, at\u00e9 em frente a um mosteiro belga. Produziu uma obra farta, da poesia \u00e0 prosa. A rota da salva\u00e7\u00e3o, para ela, necessariamente passa pela palavra \u2014e pelas mulheres.<\/p>\n<p>&#8220;Sou uma mulher velha agora, mas espero que suas filhas, e as filhas das suas filhas, ajudem a curar a sociedade&#8221;, diz. E que essa nova gera\u00e7\u00e3o n\u00e3o largue m\u00e3o do que \u00e9 mais caro a essa quase octogen\u00e1ria de sorriso f\u00e1cil e longas pausas antes de nos deixar saber o que pensa sobre determinado assunto.<\/p>\n<p>&#8220;Por favor, n\u00e3o pare de escrever. \u00c9 o que digo aos jovens, nunca parem de escrever, n\u00e3o deixem alguma <a href=\"https:\/\/www1.folha.uol.com.br\/ilustrissima\/2025\/07\/ia-nos-humilha-na-escrita-mas-nao-vai-acabar-com-a-literatura-diz-sergio-rodrigues.shtml\" rel=\"nofollow noopener\" target=\"\">outra coisa, como rob\u00f4s<\/a>, dizer o que queremos. N\u00e3o! Use sua experi\u00eancia, seu c\u00e9rebro, sua biologia.&#8221;<\/p>\n<p>Roemer gosta de mulheres fortes. Sua Noenka, a certa altura e &#8220;por puro atrevimento&#8221;, corta &#8220;um peda\u00e7o de mais de um ano&#8221; das madeixas e reage ao ato impulsivo: &#8220;Come\u00e7o a chorar quando [as] vejo sobre minha cama e decido nunca mais alisar o cabelo, nunca mais depilar as axilas, deixar meu bigode em paz&#8221;.<\/p>\n<p>Antes, ela larga um marido abusivo nove dias ap\u00f3s se casar e n\u00e3o recua ante a intimida\u00e7\u00e3o de um colega de emprego: &#8220;Mulheres casadas que deixam seu marido e causam todo tipo de sensacionalismo n\u00e3o podem trabalhar em nossas escolas crist\u00e3s&#8221;. Ou ela voltava para quem lhe fazia infeliz, ou pedia demiss\u00e3o. N\u00e3o olhou para tr\u00e1s.<\/p>\n<p>A obra de Roemer rende compara\u00e7\u00f5es com as americanas Toni Morrison e Alice Walker, numa trama que espraia refer\u00eancias homoafetivas pelo caminho. Uma professora de Noenka &#8220;tem os maiores seios que eu j\u00e1 vi e olhos saltados como bolinhas de gude verdes&#8221;. H\u00e1 Lady Morgan e seu perfume, &#8220;cujo aroma almiscarado avan\u00e7ava sobre mim como um insulto dissimulado&#8221;. Uma vulc\u00e2nica paix\u00e3o a faz se declarar: &#8220;Voc\u00ea \u00e9 o que me cura. Voc\u00ea me d\u00e1 vida, Gabrielle&#8221;.<\/p>\n<p>Al\u00e9m de escritora, Roemer \u00e9 tamb\u00e9m terapeuta de fam\u00edlia. Mesmo esse segundo of\u00edcio est\u00e1 conectado com sua escrita. &#8220;Eu queria saber que tipo de linguagem as pessoas, especialmente os surinamenses, usam quando estavam em dor, trauma. Porque, ainda que o holand\u00eas seja a l\u00edngua oficial, todas as diferentes etnias do pa\u00eds t\u00eam sua l\u00edngua m\u00e3e. Quero saber que tipo de met\u00e1foras usam para descrever seus problemas.&#8221;<\/p>\n<p>Cobras t\u00eam carga simb\u00f3lica forte entre conterr\u00e2neos. &#8220;\u00c9 uma for\u00e7a pesada em v\u00e1rios pa\u00edses tropicais.&#8221; \u00c9 comum, na pele de terapeuta, Roemer escutar mulheres relatando sonhos com of\u00eddios, e a\u00ed desabafam: &#8220;Estou cansada disso, assustada&#8221;.<\/p>\n<p>&#8220;Pergunto qual \u00e9 o problema. Elas respondem: porque uma cobra \u00e9 como o dem\u00f4nio, \u00e9 o homem que me machuca.&#8221; Em &#8220;Sobre a Loucura de uma Mulher&#8221;, jiboias rastejam por antigas planta\u00e7\u00f5es escravistas, e cobras buscam &#8220;o frescor das l\u00e1pides&#8221;.<\/p>\n<p>Palavras importam. Roemer escreve em holand\u00eas, a l\u00edngua do colonizador, e entende as implica\u00e7\u00f5es disso. Ela fala sobre culturas idiom\u00e1ticas em que &#8220;a cor escura \u00e9 sempre num contexto ruim&#8221;. A express\u00e3o &#8220;mercado negro&#8221;, por exemplo. &#8220;Est\u00e1 ok se um holand\u00eas quer dizer preto [como sin\u00f4nimo de] escuro, mas n\u00e3o me chame de preta. Procure outra palavra para mim.&#8221;<\/p>\n<p>Ela diz &#8220;amar muito o holand\u00eas, sobretudo suas can\u00e7\u00f5es de amor e suas poesias de amor&#8221;, mas a ironia vem sorrateira. Para ela, a l\u00edngua est\u00e1 fadada a sumir do Suriname. Ouve-se l\u00ednguas locais, ou um pouco de espanhol, de portugu\u00eas. &#8220;A maioria das pessoas escreve em ingl\u00eas.&#8221;<\/p>\n<p>A proximidade geogr\u00e1fica com o Brasil n\u00e3o se traduz em interc\u00e2mbio cultural relevante, reconhece esta admiradora do colombiano <a href=\"https:\/\/www1.folha.uol.com.br\/ilustrissima\/2025\/03\/reportagem-sobre-naufragio-ha-70-anos-mudou-vida-e-obra-de-garcia-marquez.shtml\" rel=\"nofollow noopener\" target=\"\">Gabriel Garc\u00eda M\u00e1rquez<\/a>. &#8220;Esta \u00e9 uma das raz\u00f5es pelas quais estou feliz de ir para o Brasil. Vou levar dinheiro o suficiente para comprar romances da\u00ed.&#8221; Aceita dicas.<\/p>\n<p>Pouco se sabe, pelas bandas brasileiras, da hist\u00f3ria surinamesa. \u00c9 uma explica\u00e7\u00e3o plaus\u00edvel para ter passado batido o epis\u00f3dio em que Roemer foi criticada por relativizar uma acusa\u00e7\u00e3o de m\u00faltiplos assassinatos contra um ex-presidente do pa\u00eds. Ela havia ganhado um importante pr\u00eamio liter\u00e1rio, o P.C. Hooft, mas a cerim\u00f4nia acabou cancelada.<\/p>\n<p>Dois anos antes, em 2019, <a href=\"https:\/\/www1.folha.uol.com.br\/mundo\/2024\/12\/desi-bouterse-ex-ditador-do-suriname-foragido-da-justica-morre-aos-79.shtml\" rel=\"nofollow noopener\" target=\"\">D\u00e9si Bouterse<\/a> foi condenado pela <a href=\"https:\/\/www1.folha.uol.com.br\/mundo\/2019\/11\/presidente-do-suriname-bouterse-e-condenado-por-execucoes-em-1982.shtml\" rel=\"nofollow noopener\" target=\"\">morte de 15 opositores<\/a> de uma ditadura militar instalada com sua ajuda nos anos 1980. Ele morreu em 2024, foragido. Declara\u00e7\u00f5es simp\u00e1ticas a Bouterse se voltaram contra a escritora, que apontou nele um compromisso s\u00f3lido com a descoloniza\u00e7\u00e3o do Suriname.<\/p>\n<p>Ela reflete sobre o ocorrido que a deixou &#8220;profundamente machucada&#8221;. &#8220;Muitas pessoas foram inspiradas por ele. Mas houve um tipo de proibi\u00e7\u00e3o, se voc\u00ea falar dele de forma positiva, est\u00e1 encrencando, algo vai acontecer. N\u00e3o acho que seja justo [cham\u00e1-lo de assassino]. N\u00e3o tem provas que ele matou algu\u00e9m.&#8221;<\/p>\n<p>Roemer conta que a press\u00e3o para cancelar o reconhecimento pelo conjunto de sua obra n\u00e3o a pasmou tanto. &#8220;Para mim foi: escutem, nunca, nunca penso em receber qualquer pr\u00eamio, nunca. Se quiserem tir\u00e1-lo de mim, apenas tirem. Mas voc\u00eas n\u00e3o podem me impedir de agir como quero.&#8221;<\/p>\n<p>Em 2004, ela publicou um livro de mem\u00f3rias cujo t\u00edtulo pode ser traduzido como &#8220;Enquanto Eu Estiver Viva, N\u00e3o Estarei Morta&#8221;.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"Astrid Roemer, 78, \u00e9 uma das convidadas internacionais desta Festa Liter\u00e1ria Internacional de Paraty, a Flip. 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