{"id":121952,"date":"2025-10-22T16:37:11","date_gmt":"2025-10-22T16:37:11","guid":{"rendered":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/121952\/"},"modified":"2025-10-22T16:37:11","modified_gmt":"2025-10-22T16:37:11","slug":"rumo-a-uma-psicanalise-emancipada","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/121952\/","title":{"rendered":"Rumo a uma psican\u00e1lise emancipada &#8211;"},"content":{"rendered":"<p>\t\t\t\t\t<a href=\"https:\/\/aterraeredonda.com.br\/rumo-a-uma-psicanalise-emancipada\/?print=pdf\" class=\"pdfprnt-button pdfprnt-button-pdf\" target=\"_blank\" rel=\"nofollow noopener\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-content\/uploads\/2025\/10\/pdf.png\" alt=\"image_pdf\" title=\"Ver PDF\"\/><\/a><a href=\"https:\/\/aterraeredonda.com.br\/rumo-a-uma-psicanalise-emancipada\/?print=print\" class=\"pdfprnt-button pdfprnt-button-print\" target=\"_blank\" rel=\"nofollow noopener\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-content\/uploads\/2025\/10\/print.png\" alt=\"image_print\" title=\"Conte\u00fado de impress\u00e3o\"\/><\/a><\/p>\n<p>Por <strong>ERNANI CHAVES*<\/strong><\/p>\n<p>Considera\u00e7\u00f5es sobre o livro rec\u00e9m-editado de Laurie Laufer.<\/p>\n<p><strong>1.<\/strong><\/p>\n<p>O t\u00edtulo do livro de Laurie Laufer, psicanalista e professora na Universidade de Paris VII, re\u00fane em torno da psican\u00e1lise duas palavras, que durante muito tempo permaneceram \u00e0 sombra ou mesmo quase inteiramente esquecidas, quando se trata do saber instaurado por Freud. Nem emancipadora, muito menos subversiva, a psican\u00e1lise parecia estar solidamente ancorada numa rigidez quase cadav\u00e9rica, praticamente imune \u00e0s transforma\u00e7\u00f5es de toda ordem, que ocorriam \u00e0 sua volta.<\/p>\n<p>Estranho destino de uma obra, nascida da conjun\u00e7\u00e3o entre cl\u00ednica, teoria e cultura. Estranho destino de uma pr\u00e1tica, cujo ponto de ancoragem \u00e9 a confronta\u00e7\u00e3o entre desejo e regras de condutas e comportamentos, confronta\u00e7\u00e3o que desestabilizou determinadas \u201cverdades\u201d, que no final do s\u00e9culo XIX se estabeleciam como aquelas que podiam prevenir, tratar e, possivelmente, curar, o que se designava como \u201cdoen\u00e7as mentais\u201d.<\/p>\n<p>N\u00e3o se trata, pelo menos para mim, de insistir numa hist\u00f3ria \u201cheroica\u201d da psican\u00e1lise, que a entende como uma \u201cruptura epistemol\u00f3gica\u201d no sentido althusseriano, que faz de Freud uma esp\u00e9cie de \u201cponto zero\u201d, ponto em que tudo come\u00e7aria de novo e diferente do que havia antes, em especial a descoberta \u201cdo\u201d Inconsciente.<\/p>\n<p>Essa mesma f\u00f3rmula heroicizante tamb\u00e9m se repete algumas d\u00e9cadas depois, desta feita com Lacan e seu \u201cretorno a Freud\u201d. Se \u00e9 verdade que a psican\u00e1lise estabeleceu, de fato, um ponto de inflex\u00e3o na hist\u00f3ria de nossa cultura \u2013 o que nem um de seus mais severos cr\u00edticos, Michel Foucault, nunca deixou de reconhecer \u2013 \u00e9 verdade tamb\u00e9m que ela n\u00e3o pode ser compreendida \u00e0s expensas de sua inser\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica.<\/p>\n<p>O que me ocorre aqui, numa breve analogia que tem seus motivos e cuja explicita\u00e7\u00e3o mais rigorosa ultrapassa os limites e os objetivos desse texto, a prop\u00f3sito da rela\u00e7\u00e3o entre um pensamento e o tempo em que viveu o seu autor ou sua autora, \u00e9 o modo pelo qual Friedrich Nietzsche definiu o car\u00e1ter extempor\u00e2neo de sua obra num texto tardio, mais especificamente, logo no \u201cPr\u00f3logo\u201d de O caso Wagner (1887): \u201cO que exige um fil\u00f3sofo de si, em primeiro e em \u00faltimo lugar? Superar em si seu tempo, tornar-se \u2018atemporal. Logo contra o que deve travar seu mais duro combate? Contra aquilo que o faz um filho de seu tempo\u201d.<a href=\"#_edn1\" id=\"_ednref1\">[i]<\/a><\/p>\n<p>Ora, mas essa \u00e9 apenas a primeira parte da proposi\u00e7\u00e3o nietzschiana a respeito do papel do fil\u00f3sofo, ou seja, aquele que \u00e9 um combatente, um guerreiro, cujo advers\u00e1rio \u00e9 o seu pr\u00f3prio tempo. Da\u00ed a imperiosa necessidade para que um pensamento se estabele\u00e7a, de que ele possa superar o seu pr\u00f3prio tempo e, com isso tornar-se \u201catemporal\u201d! Estranha conclus\u00e3o, \u00e0 primeira vista, como se a vit\u00f3ria contra o pr\u00f3prio tempo fosse uma aboli\u00e7\u00e3o do tempo e, portanto, da pr\u00f3pria historicidade.<\/p>\n<p>Entretanto, o argumento nietzschiano, apresentado por meio de sua conhecida \u201cret\u00f3rica de artilheiro\u201d, acrescenta algo fundamental: n\u00e3o se pode combater o seu pr\u00f3prio tempo sem reconhecer-se \u201cfilho do seu tempo\u201d: \u201cTanto quanto Wagner eu sou um filho desse tempo, quer dizer um decadent, mas eu compreendi isso e me defendi. O fil\u00f3sofo em mim se defendeu\u201d.<\/p>\n<p>Desse modo, tornar-se \u201catemporal\u201d n\u00e3o significa, de modo algum, entender-se fora da hist\u00f3ria, mas sim, estabelecer com seu pr\u00f3prio tempo uma dist\u00e2ncia, de tal modo que possamos interferir nele, agir sobre ele e, no vocabul\u00e1rio nietzschiano da \u00e9poca, no limite, realizar uma \u201ctransvalora\u00e7\u00e3o\u201d. Ou seja: recriar a t\u00e1bua valorativa que nos guiou at\u00e9 ent\u00e3o. Sem, entretanto, n\u00e3o esquecer que s\u00f3 podemos ter a pretens\u00e3o de construir outra hist\u00f3ria com o pr\u00e9vio reconhecimento que fazemos parte intr\u00ednseca e inalien\u00e1vel do tempo, que queremos superar.<\/p>\n<p>Isso fica bem explicito ao final do \u201cPr\u00f3logo\u201d: \u201cEu entendo perfeitamente, se hoje um m\u00fasico diz: \u2018Odeio Wagner, mas n\u00e3o suporto mais outra m\u00fasica\u2019. Mas, tamb\u00e9m compreenderia um fil\u00f3sofo que dissesse: \u2018Wagner resume a modernidade. N\u00e3o adianta, \u00e9 preciso primeiro ser wagneriano\u201d.<\/p>\n<p><strong>2.<\/strong><\/p>\n<p>Recorro a Nietzsche, insisto, para me contrapor \u00e0s hist\u00f3rias da psican\u00e1lise, que reiteram com teimosia o car\u00e1ter absolutamente \u201cnovo\u201d do pensamento freudiano, como se a psican\u00e1lise, ao inv\u00e9s de ter um \u201cponto de surgimento\u201d ou ainda de \u201cemerg\u00eancia\u201d, tivesse uma \u201corigem\u201d, esta sim, fora do tempo, numa \u201catemporalidade\u201d que, ao contr\u00e1rio de Nietzsche, se op\u00f5e \u00e0s marcas do tempo.<\/p>\n<p>E, por que me ocorreu come\u00e7ar esse texto com essa refer\u00eancia a Friedrich Nietzsche, refer\u00eancia aparentemente t\u00e3o fora de lugar? \u00c9 porque, me parece, que a retomada de palavras t\u00e3o eloquentes e contundentes, como essas que intitulam o livro de Laurie Laufer \u2013 emancipa\u00e7\u00e3o e subvers\u00e3o \u2013 s\u00f3 podem ser compreendidas quando enraizadas no solo onde nasceu a psican\u00e1lise e no caminho posterior que ela tomou, em meio \u00e0s vicissitudes do seu tempo, ou melhor, do nosso tempo.<\/p>\n<p>Pois s\u00e3o essas vicissitudes que abrandaram e, em alguns momentos, sufocaram o seu car\u00e1ter emancipat\u00f3rio, de tal modo que de sua subvers\u00e3o, muitas vezes quase nada restou. No fundo, no fundo, conhecemos bem as causas que levaram a isso. Melhor ainda: aqui entre n\u00f3s cada vez mais podemos nos dar conta at\u00e9 que ponto essa subvers\u00e3o sucumbiu inteiramente.<a href=\"#_edn2\" id=\"_ednref2\">[ii]<\/a><\/p>\n<p>N\u00e3o por acaso tamb\u00e9m, foi nesse per\u00edodo ditatorial que surgiram duas das mais importantes e vigorosas interpreta\u00e7\u00f5es psicanal\u00edticas do racismo \u00e0 brasileira e de suas consequ\u00eancias, tanto no plano do sofrimento ps\u00edquico quanto no social e pol\u00edtico: as de L\u00e9lia Gonzalez e Neusa Santos Sousa. Como vemos, o plano da hist\u00f3ria \u00e9 sempre um plano que nos ajuda a refletir sobre o nosso pr\u00f3prio tempo e compreender qu\u00e3o profundas s\u00e3o as nossas \u201cra\u00edzes\u201d.<\/p>\n<p>O que me agrada bastante, desde o in\u00edcio, no livro de Laurie Laufer e, por isso, recomendo vivamente sua leitura, \u00e9 o fato de que ela n\u00e3o faz concess\u00f5es \u00e0 ligeireza, \u00e0 rapidez mesmo como se tornou bastante comum criticar tanto Freud quanto Lacan. Rapidez e ligeireza, que s\u00e3o o resultado, bastante \u00f3bvio, de uma leitura r\u00e1pida e pouco atenta aos movimentos e deslocamentos da hist\u00f3ria da psican\u00e1lise.<\/p>\n<p><strong>3.<\/strong><\/p>\n<p>O que quero dizer com isso? \u00c9 que n\u00e3o se pode, na altura do campeonato, nem ler Freud ao p\u00e9 da letra, literalmente, muito menos absolutizar o que \u00e9 no seu pensamento e na sua pr\u00e1tica cl\u00ednica, as \u201cevid\u00eancias\u201d de que ele \u00e9 filho de seu tempo! L\u00ea-lo ao p\u00e9 da letra, literalmente, significa exatamente arranc\u00e1-lo \u00e0 f\u00f3rceps do seu tempo, como se aquele que ganhou o Pr\u00eamio Goethe de Literatura se expressasse sem o infinito recurso ao que aprendemos rapidamente nas aulas do portugu\u00eas do ensino m\u00e9dio, o das \u201cfiguras de linguagem\u201d.<\/p>\n<p>Isso tem resultado, em muitos casos, prioritariamente, na leitura-den\u00fancia, ou seja, aquela que apenas constata o que, aos olhos desse tipo de int\u00e9rprete, \u00e9 o \u00f3bvio: o mis\u00f3gino, o antifeminista, o parceiro da explora\u00e7\u00e3o colonial, l\u00eddimo representante do patriarcado! Encontrar nos textos de Freud as marcas do seu tempo me parece um exerc\u00edcio muito f\u00e1cil e simplificador. Agora, encontrar nele as marcas da subvers\u00e3o, essa \u00e9 uma tarefa que exige tempo e paci\u00eancia e, principalmente, que o pr\u00f3prio int\u00e9rprete possa reconhecer-se como um \u201cfilho de seu tempo\u201d e que n\u00e3o abuse da autoridade que muitas vezes \u00e9 ele mesmo que se atribui.<\/p>\n<p>Laurie Laufer n\u00e3o cai nessa armadilha. E olha que o tempo de Laufer tem uma singularidade especial: n\u00e3o \u00e9 apenas o tempo comum ao mundo em que vivemos, sufocados pelo neoliberalismo, pelo retorno aterrador dos movimentos de extrema direita e da continuidade das guerras genocidas, mas o tempo pr\u00f3prio da psican\u00e1lise no ponto em que ela renasceu a partir do come\u00e7o dos anos 1950: a Fran\u00e7a, a Fran\u00e7a do \u201cretorno a Freud\u201d.<\/p>\n<p>Laurie Laufer (como Paul B. Preciado, por exemplo) n\u00e3o recua diante da ortodoxia e da intoler\u00e2ncia com a qual a elite da psican\u00e1lise francesa \u2013 que deita suas ra\u00edzes no Brasil faz bastante tempo \u2013 aquela que toma para si o ep\u00edteto da \u201cverdadeira psican\u00e1lise\u201d. O diagn\u00f3stico de Laurie Laufer \u00e9 de que essa posi\u00e7\u00e3o, defendida especialmente por aqueles\/as mesmos\/as que desqualificam tanto o \u201cmonstro\u201d Paul B. Preciado quanto Judith Butler e outras, viram as costas para o que h\u00e1 de subversivo e transgressor no pr\u00f3prio \u201censino\u201d de Jacques Lacan.<\/p>\n<p>\u201cSubvers\u00e3o\u201d, sabemos, \u00e9 uma palavra forte e contundente tamb\u00e9m em Lacan, que aparece no pr\u00f3prio t\u00edtulo de um de seus textos mais conhecidos. Laurie Laufer argumenta, cita textos tanto de Freud quanto de Lacan sem retir\u00e1-los dos seus contextos, articulando-os \u00e0s problem\u00e1ticas que surgem no seu tempo, mas que o ultrapassam, dirigindo-se a n\u00f3s, n\u00e3o por meio de f\u00f3rmulas que solucionam, como se fossem bulas de rem\u00e9dios, mas que nos deixam quest\u00f5es, problematiza\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Assim, a leitura paciente, exigente e rigorosa de Laurie Laufer, mesmo que dispense a exaustividade de uma explicita\u00e7\u00e3o, pois n\u00e3o se trata de uma tese, devolve a esses textos, os de Freud e os de Lacan, o vigor, a impetuosidade cr\u00edtica, e, principalmente, um conjunto de problemas, os quais, do meu ponto de vista n\u00e3o podem ser enfrentados sem eles. Embora, saibamos, que eles, apenas eles, sozinhos, n\u00e3o poder\u00e3o mais responder \u00e0 todas as interroga\u00e7\u00f5es do nosso presente.<\/p>\n<p><strong>4.<\/strong><\/p>\n<p>\u00c9 aqui, me parece, que o pensamento de Michel Foucault ganha seu relevo no livro de Laurie Laufer. Foucault \u00e9, declaradamente, no livro, o interlocutor que pode estabelecer com a psican\u00e1lise um di\u00e1logo frut\u00edfero, sem se reconhecer inteiramente nela. Talvez, por isso mesmo, ele seja t\u00e3o importante e t\u00e3o frut\u00edfero.<\/p>\n<p>Eu gostaria apenas de ressaltar, mais uma vez, dois textos de Michel Foucault, nos quais a psican\u00e1lise \u00e9 chamada para contribuir nesse processo de \u201csubvers\u00e3o\u201d, rumo a uma poss\u00edvel \u201cemancipa\u00e7\u00e3o\u201d. O primeiro, a confer\u00eancia de 1969, \u201cO que \u00e9 um autor?\u201d e o segundo, a \u201cIntrodu\u00e7\u00e3o\u201d ao volume II da Hist\u00f3ria da sexualidade, \u201cO uso dos prazeres\u201d, de 1984.<\/p>\n<p>Do primeiro, relembro a posi\u00e7\u00e3o de Michel Foucault de que tanto Marx quanto Freud s\u00e3o pensadores de \u201cdiscursividades\u201d, ou seja, de que suas obras n\u00e3o est\u00e3o encerradas em si mesmas, \u00e0 maneira do \u201csistema\u201d entendido tradicionalmente, mas que seu vigor cr\u00edtico permanece justamente porque nem um nem outro as imp\u00f5em ao leitor ou ao int\u00e9rprete com o selo da autenticidade e da verdade, que a figura tradicional do autor imporia.<\/p>\n<p>Assim, o \u201cretorno a Freud\u201d de Jacques Lacan e o \u201cretorno a Marx\u201d de Louis Althusser s\u00e3o tornados poss\u00edveis porque tanto Marx quanto Freud como que o permitem, de tal modo que eles pr\u00f3prios com esse gesto, tornam-se extempor\u00e2neos (marxistas, principalmente, perdoem essa r\u00e1pida \u201cnietzscheniza\u00e7\u00e3o\u201d de Marx).<\/p>\n<p>Entretanto, tanto num caso como no outro, \u00e9 preciso que esse \u201cretorno\u201d seja tamb\u00e9m um retorno aos \u201ctextos\u201d, n\u00e3o para reiterar o que neles est\u00e1 escrito, mas para redescobrir e salvaguardar a \u201csubvers\u00e3o\u201d que os constituem e os atravessam. Relembro aqui a observa\u00e7\u00e3o de Michel Foucault em uma entrevista, no calor das discuss\u00f5es sobre o Vigiar e punir, na qual ele diz mais ou menos assim: \u201caqueles que dizem que n\u00e3o leio Marx, esses sim s\u00e3o os que n\u00e3o o leram, pois s\u00e3o incapazes de reconhecer quando falo a partir de Marx, quando cito Marx\u2026.mas sem aspas\u201d! Que vistam as carapu\u00e7as aqueles que criticam Freud, Lacan, sem l\u00ea-los!<\/p>\n<p><strong>5.<\/strong><\/p>\n<p>Do segundo, relembro a defini\u00e7\u00e3o de Michel Foucault para a atividade filos\u00f3fica, uma atividade que deveria ser entendida como uma \u201cmaneira de viver\u201d e n\u00e3o apenas como um exerc\u00edcio da reflex\u00e3o, como se entre ambas, reflex\u00e3o e vida, houvesse apenas um abismo intranspon\u00edvel. Mesmo que busque respostas, mesmo que tente encontrar solu\u00e7\u00f5es para os problemas que levanta, a atividade filos\u00f3fica n\u00e3o se restringe a isso e muito menos define-se por isso.<\/p>\n<p>Ao contr\u00e1rio, o que a caracteriza \u00e9 que, como modo de vida, \u00e9 sempre problematizadora, mas o processo de problematiza\u00e7\u00e3o implica o sujeito de uma forma muito especial: se alguma transforma\u00e7\u00e3o precisa ocorrer, ela come\u00e7a no pr\u00f3prio sujeito, de tal modo que, ao final do processo, ele se torne o outro dele mesmo, que n\u00e3o seja mais o mesmo que era antes do processo de problematiza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>A ideia de problema \u00e9 aqui fundamental, pois um problema \u00e9 sempre aquele que nasce do nosso pr\u00f3prio tempo, que nos acossa, que nos impele e que para tentar encontrar sa\u00eddas s\u00f3 nos resta, de in\u00edcio, recorrer \u00e0 nossa pr\u00f3pria hist\u00f3ria para que, antes, compreendamos o nosso pertencimento ao tempo em que vivemos. Aqui, a filia\u00e7\u00e3o nietzschiana de Michel Foucault \u00e9 evidente. E \u00e9 para isso que serve a genealogia.<\/p>\n<p>N\u00e3o se trata, por exemplo, como leituras apressadas tanto repetiram, que Michel Foucault reduzia o analista (essa figura n\u00e3o s\u00f3 tradicionalmente heroica, mas igualmente resguardada de todas as injun\u00e7\u00f5es profanas) \u00e0 figura do padre, ao incluir a psican\u00e1lise na hist\u00f3ria da \u201cconfiss\u00e3o\u201d. Mas, de mostrar, numa hist\u00f3ria \u201ca contrapelo\u201d, que n\u00e3o podemos compreender a cl\u00ednica psicanal\u00edtica sem a pr\u00f3pria hist\u00f3ria dos processos de escuta do sofrimento, que foram inicialmente codificados pelas pr\u00e1ticas religiosas e judici\u00e1rias em diversos momentos e contextos.<\/p>\n<p>E que isso n\u00e3o rebaixa a psican\u00e1lise, mas, ao contr\u00e1rio, ao faz\u00ea-la encontrar seus limites, torna poss\u00edvel os movimentos emancipat\u00f3rios. E se h\u00e1 uma tarefa que considero fundamental na tal \u201cforma\u00e7\u00e3o do\/da analista\u201d hoje \u00e9, justamente, a de limpar a cera dos ouvidos diariamente, para que sua escuta se amplie, ganhe outras cores, outras musicalidades, outros solfejos, de tal modo que as quest\u00f5es do racismo, do g\u00eanero, da classe, num pa\u00eds como o Brasil, possam continuar a subvers\u00e3o que o pai Freud, a despeito dos limites do seu tempo, encarnou com radicalidade.<\/p>\n<p>Esse texto n\u00e3o \u00e9 uma resenha sobre o livro de Laurie Laufer, no estilo cl\u00e1ssico e tradicional das resenhas, que t\u00eam um ineg\u00e1vel valor. Mas, \u00e9 um texto \u201ca partir de\u201d e n\u00e3o \u201csobre o livro\u201d. Esta me parece a melhor atitude, de minha parte, no momento, quando recomendamos a leitura de um livro: deixar que o leitor, a leitora, tenha a oportunidade de ter a sua pr\u00f3pria leitura, que ele\/ela construa, como eu pr\u00f3prio creio ter feito, a sua perspectiva de entrada na trama do livro.<\/p>\n<p>A minha, \u00e9 claro, reflete estudos e pesquisas de mais de 40 anos, n\u00e3o poderia ser de outro jeito. Mas, sem esquecer, que nada melhor do que uma leitura paciente e atenta, para que a perspectiva adotada possa somar, contribuir, para que esse livro possa manter acesa, em n\u00f3s, a chama que o alimenta: a da atitude de subvers\u00e3o, movida pelo desejo de emancipa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p><strong>*Ernani Chaves<\/strong> \u00e9 professor titular da Faculdade de Filosofia da UFPA. Autor, entre outros livros, de No limiar do moderno (Pakatatu). [<a href=\"https:\/\/amzn.to\/3TExJzW\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener nofollow\">https:\/\/amzn.to\/3TExJzW<\/a>]<\/p>\n<p><strong>Refer\u00eancia<\/strong><strong\/><\/p>\n<p><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" width=\"201\" height=\"289\" src=\"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-content\/uploads\/2025\/10\/rumopsicanalise.png\" alt=\"\" class=\"wp-image-56498\"  \/><\/p>\n<p>Laurie Laufer. Rumo a uma psican\u00e1lise emancipada: reatar com a subvers\u00e3o. Tradu\u00e7\u00e3o: Isadora Nuto. Porto Alegre, Editora Cria\u00e7\u00e3o Humana, 2025. [<a href=\"https:\/\/criacaohumana.com.br\/produto\/rumo-a-uma-psicanalise-emancipada-reatar-com-a-subversao-laurie-laufer\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener nofollow\">neste link<\/a>]<\/p>\n<p>O lan\u00e7amento, com a presen\u00e7a da autora, na cidade de S\u00e3o Paulo, ser\u00e1 nesta sexta-feira, 24 de outubro no Audit\u00f3rio Aurora Furtado do Instituto de Psicologia da USP, na Cidade Universit\u00e1rio.<\/p>\n<p><strong>Notas<\/strong><\/p>\n<p><a href=\"#_ednref1\" id=\"_edn1\">[i]<\/a> Nietzsche, F. O Caso Wagner. Tradu\u00e7\u00e3o, Notas e Posf\u00e1cio de Paulo Cesar de Souza. S\u00e3o Paulo: Cia. Das Letras, 1999.<\/p>\n<p><a href=\"#_ednref2\" id=\"_edn2\">[ii]<\/a> Ver a respeito, Rafael Alves Lima. Psican\u00e1lise na Ditadura (1964-1985). Hist\u00f3ria, Cl\u00ednica e Pol\u00edtica. S\u00e3o Paulo: Perspectiva, 2024.<\/p>\n<p class=\"has-text-align-center has-background\" style=\"background-color:#e99152\"><strong>A Terra \u00e9 Redonda\u00a0existe gra\u00e7as<\/strong>\u00a0<strong>aos nossos leitores e apoiadores.<br \/>Ajude-nos a manter esta ideia.<br \/><a href=\"https:\/\/aterraeredonda.com.br\/CONTRIBUA\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener nofollow\"><strong\/><\/a><a href=\"https:\/\/aterraeredonda.com.br\/CONTRIBUA\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener nofollow\">C O N T R I B U A<\/a><\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"Por ERNANI CHAVES* Considera\u00e7\u00f5es sobre o livro rec\u00e9m-editado de Laurie Laufer. 1. 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