{"id":122525,"date":"2025-10-23T03:19:09","date_gmt":"2025-10-23T03:19:09","guid":{"rendered":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/122525\/"},"modified":"2025-10-23T03:19:09","modified_gmt":"2025-10-23T03:19:09","slug":"adicionamos-anos-a-vida-agora-precisamos-adicionar-vida-aos-anos-diz-alexandre-kalache","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/122525\/","title":{"rendered":"\u2018Adicionamos anos \u00e0 vida, agora precisamos adicionar vida aos anos\u2019, diz Alexandre Kalache"},"content":{"rendered":"<p>H\u00e1 quem diga que envelhecer \u00e9 um privil\u00e9gio. <strong>Alexandre Kalache<\/strong> prefere lembrar que \u00e9 tamb\u00e9m uma conquista \u2013 e, sobretudo, uma responsabilidade coletiva. Em A revolu\u00e7\u00e3o da longevidade (Editora Vest\u00edgio), lan\u00e7ado oficialmente na \u00faltima quarta-feira, 21, o m\u00e9dico e especialista em sa\u00fade p\u00fablica prop\u00f5e uma reflex\u00e3o profunda sobre o pa\u00eds que insiste em envelhecer, mas ainda engatinha diante do pr\u00f3prio <strong>envelhecimento<\/strong>.<\/p>\n<p>Logo nas primeiras p\u00e1ginas, ele deixa claro: n\u00e3o se trata de uma autobiografia, nem de um manual otimista sobre o envelhecimento. \u00c9 uma carta aberta \u2014 especialmente aos mais jovens \u2014 convidando a olhar o futuro com a lucidez de quem sabe que o tempo \u00e9 inevit\u00e1vel, mas que a forma como envelhecemos \u00e9 reflexo de determinantes sociais. \u201cEstamos todos no mesmo barco, uns na proa, outros na popa, mas todos envelhecendo, no ger\u00fandio, nesse processo inexor\u00e1vel\u201d, escreve.<\/p>\n<p>Parafraseando a geriatra Karla Cristina Giacomin, o especialista destaca que \u201co futuro do Brasil \u00e9 a velhice\u201d. Uma frase simples, quase inc\u00f4moda, que parece contrariar a imagem que o pa\u00eds sempre vendeu de si mesmo: jovem e vibrante. Mas as estat\u00edsticas v\u00eam, apressadas, desmontando essa ideia. Se nos anos 1970, a taxa de fecundidade era de quase 6 filhos por mulher, hoje gira em torno de 1,5. Por outro lado, desde o in\u00edcio do s\u00e9culo, o \u00fanico grupo populacional que cresce no Brasil \u00e9 o dos maiores de 60 anos.<\/p>\n<p data-start=\"1530\" data-end=\"1984\">\u201cNunca na hist\u00f3ria da humanidade viver muito foi uma d\u00e1diva alcan\u00e7\u00e1vel para mais e mais pessoas. O que antes era privil\u00e9gio de poucos agora \u00e9 realidade de muitos. E ainda veremos mudan\u00e7as mais profundas: o boom jovem que formava a base da pir\u00e2mide et\u00e1ria vai atravessar a sociedade como um bezerro engolido por uma sucuri: vis\u00edvel de ponta a ponta [\u2026] Quando os jovens de hoje forem idosos, um em cada tr\u00eas brasileiros ter\u00e1 mais de 60 anos\u201d, escreve Kalache, que durante treze anos foi diretor da Unidade de Envelhecimento e Curso da Vida da Organiza\u00e7\u00e3o Mundial da Sa\u00fade (<strong>OMS<\/strong>).<\/p>\n<p data-start=\"1986\" data-end=\"2461\">Entre mem\u00f3rias, an\u00e1lises e alertas, A revolu\u00e7\u00e3o da longevidade percorre temas como o idadismo (termo cunhado pelo gerontologista americano Robert Butler para descrever o preconceito e a discrimina\u00e7\u00e3o com base na idade), a solid\u00e3o, as desigualdades de g\u00eanero e o direito \u00e0 dignidade em todas as fases da vida. Kalache fala como quem testemunhou \u2014 e ajudou a construir \u2014 a transforma\u00e7\u00e3o demogr\u00e1fica que agora se imp\u00f5e. Afinal, como ele pr\u00f3prio resume, \u201ca maior conquista social dos \u00faltimos cem anos foi adicionar anos \u00e0 vida. O grande desafio do s\u00e9culo em que vivemos ser\u00e1 adicionar vida aos anos.\u201d<\/p>\n<p data-start=\"1986\" data-end=\"2461\">Durante o lan\u00e7amento do livro, no Teatro Bradesco, durante o 18\u00ba F\u00f3rum da Longevidade, Kalache conversou com a reportagem. Confira os principais trechos.<\/p>\n<p>    Continua ap\u00f3s a publicidade<\/p>\n<p data-start=\"962\" data-end=\"1593\"><strong data-start=\"962\" data-end=\"1037\">O que h\u00e1 de diferente neste livro em rela\u00e7\u00e3o aos outros e o que o motivou a escrev\u00ea-lo agora? <\/strong><br data-start=\"1037\" data-end=\"1040\"\/>Veja s\u00f3: s\u00e3o 50 anos de dedica\u00e7\u00e3o total \u00e0 gerontologia. Quando comecei, longevidade nem era um tema. Era coisa de pa\u00eds desenvolvido, e a abordagem era puramente biom\u00e9dica. Eu era muito jovem quando percebi o choque que isso representava \u2014 o Brasil estava envelhecendo, e a sociedade n\u00e3o estava se preparando. Desde o in\u00edcio, quis olhar para o envelhecimento pela lente da sa\u00fade p\u00fablica, considerando os determinantes sociais. O que faz uma pessoa envelhecer bem e outra n\u00e3o? Essa foi minha pergunta desde o mestrado e o doutorado, e continua sendo hoje.<\/p>\n<p data-start=\"1595\" data-end=\"1980\"><strong data-start=\"1595\" data-end=\"1651\">E essa trajet\u00f3ria se refletiu na estrutura do livro? <\/strong><br data-start=\"1651\" data-end=\"1654\"\/>Sim. O livro \u00e9 uma cole\u00e7\u00e3o de reflex\u00f5es acumuladas ao longo desses anos, mas n\u00e3o \u00e9 uma autobiografia, nem um manual de autoajuda. \u00c9 um convite para pensar. E, claro, velho gosta de contar hist\u00f3ria [risos]. Ent\u00e3o trago hist\u00f3rias que ilustram princ\u00edpios, ideias e experi\u00eancias \u2014 de pessoas que conheci, de contextos que vivi.<\/p>\n<p data-start=\"1982\" data-end=\"2356\">H\u00e1, por exemplo, o caso de uma mulher que envelhece sozinha em Teres\u00f3polis, com medo de uma nova enchente, sem ajuda dos filhos. Ou o de uma amiga em Nova York, prestes a completar 100 anos, cega, com mobilidade limitada, mas l\u00facida e cercada pelos cuidados da comunidade gay que ela acolheu durante a epidemia de HIV. S\u00e3o hist\u00f3rias que falam sobre prop\u00f3sito, v\u00ednculos e reciprocidade.<\/p>\n<p data-start=\"2358\" data-end=\"2895\"><strong data-start=\"2358\" data-end=\"2477\">Voc\u00ea toca tamb\u00e9m na quest\u00e3o do cuidado. No Brasil, ele ainda \u00e9 um papel atribu\u00eddo quase exclusivamente \u00e0s mulheres. <\/strong><br data-start=\"2477\" data-end=\"2480\"\/>Sem d\u00favida. O homem no Brasil n\u00e3o aprende a cuidar. E espera-se que a mulher saiba. Talvez isso comece a mudar \u2014 quando eu estudei medicina, apenas 8% da minha turma eram mulheres. Hoje, elas s\u00e3o mais da metade. Eu me pergunto: ser\u00e1 que isso vai tornar a profiss\u00e3o mais compassiva, mais cuidadosa? Ou ser\u00e1 que a estrutura ainda \u00e9 t\u00e3o masculinizada que mesmo as mulheres v\u00e3o reproduzir determinados padr\u00f5es?<\/p>\n<p>    Continua ap\u00f3s a publicidade<\/p>\n<p data-start=\"2897\" data-end=\"3229\">Estive recentemente na Academia Nacional de Medicina e disse aos acad\u00eamicos: \u201cOlhem ao redor. Quantos negros h\u00e1 aqui? Quantas mulheres?\u201d. Nenhum. A \u00fanica mulher presente era a presidente \u2014 e, ainda assim, uma exce\u00e7\u00e3o. \u00c9 disso que estou falando: representatividade e diversidade s\u00e3o parte da transforma\u00e7\u00e3o cultural de que precisamos.<\/p>\n<p>      A revolu\u00e7\u00e3o da longevidade<\/p>\n<p>                <img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"456\" height=\"668\" src=\"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-content\/uploads\/2025\/10\/livrokalache.jpg\" class=\"attachment-size-large size-size-large\" alt=\"Livro A revolu\u00e7\u00e3o da longevidade, de Alexandre Kalache\" title=\"livrokalache\"\/><\/p>\n<p data-start=\"3231\" data-end=\"3619\"><strong data-start=\"3231\" data-end=\"3349\">No livro, voc\u00ea tamb\u00e9m fala sobre desigualdades e sobre como o envelhecimento \u00e9 vivido de formas muito diferentes no pa\u00eds. <\/strong><br data-start=\"3349\" data-end=\"3352\"\/>Sim. A revolu\u00e7\u00e3o da longevidade \u00e9 real, mas n\u00e3o \u00e9 igual para todos. Envelhecer bem ainda \u00e9 um privil\u00e9gio. Quem tem acesso a recursos e sa\u00fade vive o envelhecimento. E quando eu digo \u2018vive\u2019, n\u00e3o \u00e9 o simples viver, mas viver com vida. Mas h\u00e1 milh\u00f5es que apenas sobrevivem \u2014 aos tapas, como eu costumo dizer.<\/p>\n<p data-start=\"3621\" data-end=\"3929\">Voc\u00ea pega S\u00e3o Paulo, por exemplo: do Morumbi at\u00e9 Parais\u00f3polis, h\u00e1 uma diferen\u00e7a enorme na expectativa de vida. No Rio, a Rocinha, com 150 mil habitantes, fica a poucos metros do bairro com o metro quadrado mais caro da cidade. \u00c9 o retrato da desigualdade. Todos envelhecem, mas em condi\u00e7\u00f5es muito diferentes.<\/p>\n<p>    Continua ap\u00f3s a publicidade<\/p>\n<p data-start=\"3621\" data-end=\"3929\"><strong data-start=\"3931\" data-end=\"3999\">E o medo de envelhecer? Ainda \u00e9 um tabu na sociedade brasileira?<\/strong><\/p>\n<p>As pessoas t\u00eam medo, sim \u2014 e muito. Em parte, porque t\u00eam medo da morte. Como n\u00e3o aprendemos a lidar com a morte, negamos o envelhecimento. O velho \u00e9 sempre o outro.<\/p>\n<p data-start=\"4170\" data-end=\"4663\">Eu costumo come\u00e7ar minhas palestras fazendo minha descri\u00e7\u00e3o de tal forma: \u201cSou um velho. Sou careca, tenho rugas que mostram afetos e desafetos, sabores e dissabores. Uso \u00f3culos, minha barba \u00e9 branca. Portanto, sou velho \u2014 e podem me chamar assim\u201d. Isso n\u00e3o me ofende. O problema \u00e9 que, no Brasil, ser velho ainda \u00e9 sin\u00f4nimo de decad\u00eancia. Isso tem a ver com a hist\u00f3ria da gera\u00e7\u00e3o atual de idosos: pouco acesso \u00e0 educa\u00e7\u00e3o, poucas oportunidades. O pa\u00eds envelheceu r\u00e1pido demais, mas sem tempo de criar uma cultura para isso.<\/p>\n<p data-start=\"4665\" data-end=\"5199\"><strong data-start=\"4665\" data-end=\"4722\">Voc\u00ea chama esse processo de uma \u201crevolu\u00e7\u00e3o\u201d. Por qu\u00ea? <\/strong><br data-start=\"4722\" data-end=\"4725\"\/>Porque foi algo abrupto. Diferente da Fran\u00e7a ou da Inglaterra, que levaram mais de um s\u00e9culo para envelhecer, o Brasil fez esse caminho em poucas d\u00e9cadas. Vacinas, antibi\u00f3ticos, o SUS\u2026 Tudo isso permitiu que as pessoas sobrevivessem. Mas agora precisamos dar o pr\u00f3ximo passo: garantir que elas vivam bem. Como digo no livro, \u201ca maior conquista social dos \u00faltimos cem anos foi adicionar anos \u00e0 vida; o grande desafio do s\u00e9culo em que vivemos ser\u00e1 adicionar vida aos anos\u201d.<\/p>\n<p>    Continua ap\u00f3s a publicidade<\/p>\n<p data-start=\"241\" data-end=\"501\"><strong data-start=\"241\" data-end=\"298\">Ent\u00e3o voc\u00ea acredita que ainda n\u00e3o estamos preparados? <\/strong><br data-start=\"298\" data-end=\"301\"\/>A resposta honesta \u00e9 n\u00e3o. Mais do que em muitas outras sociedades, n\u00f3s idolatramos a juventude. A beleza, no Brasil, ainda \u00e9 sin\u00f4nimo de ser jovem \u2014 e isso molda a forma como encaramos o envelhecimento.<\/p>\n<p data-start=\"503\" data-end=\"836\">Acredito que, para um pa\u00eds envelhecer bem, s\u00e3o necess\u00e1rios quatro pilares: sa\u00fade, seguran\u00e7a, aprendizagem ao longo da vida e participa\u00e7\u00e3o. Mas nada disso avan\u00e7a se n\u00e3o enfrentarmos a pedra no meio do caminho, que \u00e9 o idadismo. Ele est\u00e1 institucionalizado, e vai se infiltrando nas rela\u00e7\u00f5es, autoestima, oportunidades\u2026 E, claro, atravessa tamb\u00e9m as pol\u00edticas p\u00fablicas. Enquanto o preconceito contra a velhice for normalizado, vamos continuar travados.<\/p>\n<p data-start=\"5201\" data-end=\"5626\"><strong data-start=\"5201\" data-end=\"5278\">E como voc\u00ea enxerga o pr\u00f3prio envelhecimento? Faz planos para essa etapa? <\/strong><br data-start=\"5278\" data-end=\"5281\"\/>Fa\u00e7o, sim. Meu prop\u00f3sito hoje \u00e9 trabalhar com pessoas mais jovens, ajudar a formar novas lideran\u00e7as. Falo sobre legado, mas n\u00e3o porque quero ser lembrado. Tenho consci\u00eancia de que \u00e9 raro algu\u00e9m ser lembrado duas gera\u00e7\u00f5es depois. O legado n\u00e3o \u00e9 o nome que fica, \u00e9 o que voc\u00ea constr\u00f3i nas pessoas que influenciou, mesmo que elas nem se lembrem.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"H\u00e1 quem diga que envelhecer \u00e9 um privil\u00e9gio. 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