{"id":123657,"date":"2025-10-23T20:39:29","date_gmt":"2025-10-23T20:39:29","guid":{"rendered":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/123657\/"},"modified":"2025-10-23T20:39:29","modified_gmt":"2025-10-23T20:39:29","slug":"historias-da-pide-alerta-para-saudosismo-do-estado-novo-observador","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/123657\/","title":{"rendered":"&#8220;Hist\u00f3rias da PIDE&#8221; alerta para saudosismo do Estado Novo \u2013 Observador"},"content":{"rendered":"<p>O jornalista Jos\u00e9 Pedro Castanheira alerta, no livro \u201cHist\u00f3rias da PIDE\u201d, que re\u00fane reportagens sobre a pol\u00edcia pol\u00edtica, para o crescente saudosismo do Estado Novo, recordando a viol\u00eancia deste \u00f3rg\u00e3o repressivo que fez milhares de v\u00edtimas e 29.510 presos pol\u00edticos.<\/p>\n<p>\u201cHist\u00f3rias da PIDE. Quando Salazar mandava\u201d \u00e9 o t\u00edtulo do primeiro volume de um conjunto de reportagens sobre o funcionamento e a dimens\u00e3o repressiva da pol\u00edcia pol\u00edtica da ditadura do Estado Novo, que o jornalista Jos\u00e9 Pedro Castanheira fez para o seman\u00e1rio Expresso, fruto de anos de investiga\u00e7\u00e3o junto dos arquivos da PIDE.<\/p>\n<p>Publicado pela Tinta-da-China, este primeiro volume, que chega esta quinta-feira \u00e0s livrarias, <strong>re\u00fane seis hist\u00f3rias que considera \u201cas mais significativas, tanto em termos jornal\u00edsticos como historiogr\u00e1ficos\u201d<\/strong>.<\/p>\n<p>As narrativas cobrem o per\u00edodo em que Ant\u00f3nio de Oliveira Salazar dirigiu o pa\u00eds, entre 1933 e 1968, quando criou e consolidou a PIDE, \u201cum dos pilares e um dos guardi\u00f5es da fortaleza que construiu e na qual mandou\u201d.<\/p>\n<p>Num texto de apresenta\u00e7\u00e3o, Jos\u00e9 Pedro Castanheira conta que teve o primeiro contacto direto com os arquivos da pol\u00edcia pol\u00edtica durante a investiga\u00e7\u00e3o para o livro \u201cQuem Mandou Matar Am\u00edlcar Cabral?\u201d.<\/p>\n<p>A partir da\u00ed, mergulhou num \u201creposit\u00f3rio ilimitado de hist\u00f3rias fant\u00e1sticas, quase todas elas tr\u00e1gicas\u201d, que, segundo o pr\u00f3prio, \u201c<strong>ilustram muito bem o sistema de governo que dominou Portugal durante meio s\u00e9culo<\/strong>, mas que agora muitos insistem em ignorar ou branquear\u201d.<\/p>\n<p>Entre os epis\u00f3dios inclu\u00eddos em \u201cHist\u00f3rias da PIDE\u201d est\u00e1 a deten\u00e7\u00e3o de Calouste Gulbenkian, em 1942, quando o milion\u00e1rio arm\u00e9nio, refugiado da guerra e com estatuto diplom\u00e1tico do Ir\u00e3o, foi preso pela PVDE \u2014 \u00a0antecessora da PIDE \u2014 \u00a0ap\u00f3s se recusar a libertar quartos do hotel onde estava hospedado para uma comitiva do regime franquista.<\/p>\n<p>O epis\u00f3dio, apagado dos arquivos oficiais, \u00e9 recuperado pelo jornalista como exemplo da \u201cpersonalidade provinciana, desconfiada e canhestra de quem dirigiu este pa\u00eds durante 36 anos\u201d.<\/p>\n<p>Outro caso abordado \u00e9 o da chantagem sobre o antigo Presidente da Rep\u00fablica Craveiro Lopes, vigiado e pressionado pela PIDE ap\u00f3s se afastar de Salazar e apoiar um golpe destinado a derrub\u00e1-lo.<\/p>\n<p>O processo incluiu vigil\u00e2ncias, fotografias e cartas an\u00f3nimas relacionadas com uma rela\u00e7\u00e3o amorosa do antigo chefe de Estado com uma mulher casada, 26 anos mais nova. \u201cEm p\u00e2nico, Craveiro Lopes remeteu-se a um completo e angustiado sil\u00eancio e cedo viria a ser v\u00edtima de um fulminante ataque card\u00edaco\u201d.<\/p>\n<p>O terceiro cap\u00edtulo recorda o encontro do autor com Ant\u00f3nio Rosa Casaco, o chefe da brigada que assassinou Humberto Delgado em 1965. A entrevista, realizada em Espanha em 1998, foi uma das mais medi\u00e1ticas da carreira de Castanheira e levou, dois meses depois, \u00e0 deten\u00e7\u00e3o do antigo inspetor da PIDE \u00e0 entrada de um banco em Madrid, depois de j\u00e1 ter sido localizado a viver naquele pa\u00eds sob falsa identidade.<\/p>\n<p>Segue-se o caso de D. Eurico Dias Nogueira, bispo vigiado pela pol\u00edcia pol\u00edtica ap\u00f3s apoiar o gesto do bispo do Porto, D. Ant\u00f3nio Ferreira Gomes, que em 1958 escrevera a Salazar criticando o regime \u2014 \u00a0uma carta que lhe custaria dez anos de ex\u00edlio.<\/p>\n<p>A PIDE manteve sob \u201catenta vigil\u00e2ncia policial\u201d o ent\u00e3o jovem padre Eurico Dias Nogueira durante anos, considerando-o uma potencial amea\u00e7a.<\/p>\n<p>Em \u201cO crime do Pinhal de Belas\u201d, o autor relata a execu\u00e7\u00e3o, em 1965, de um informador da PIDE por militantes da Frente de A\u00e7\u00e3o Popular (FAP), movimento criado em Paris por dissidentes comunistas, adepto da luta armada e clandestino em Portugal.<\/p>\n<p>O caso, classificado por Jos\u00e9 Pedro Castanheira como um \u201ccombate desigual, sem tr\u00e9guas e tantas vezes sem regras\u201d, reflete o clima de clandestinidade e viol\u00eancia que marcou os \u00faltimos anos do regime.<\/p>\n<p>O \u00faltimo cap\u00edtulo \u2014 \u201cA inesperada visita do poeta sovi\u00e9tico Ievtuchenko a F\u00e1tima\u201d \u2014 \u00a0mostra a \u201cparanoia\u201d anticomunista da ditadura.<\/p>\n<p>A visita a Portugal do poeta sovi\u00e9tico Evgueni Ievtuchenko, para a a\u00e7\u00e3o de promo\u00e7\u00e3o de um primeiro livro do autor em Portugal (\u201cAutobiografia Prematura\u201d, D. Quixote), desencadeou uma opera\u00e7\u00e3o de vigil\u00e2ncia da PIDE que incluiu escutas telef\u00f3nicas, seguimentos, fotografias e interrogat\u00f3rios \u00e0 editora Snu Abecassis.<\/p>\n<p>Ao longo destas hist\u00f3rias, Castanheira descreve a PIDE como \u201cum Estado dentro do Estado\u201d, um aparelho que acumulava poder e autonomia operacionais, capaz de atuar com viol\u00eancia e impunidade. \u201cA viol\u00eancia fazia parte do n\u00facleo essencial da cultura da PIDE\u201d, escreve, destacando a tortura como a sua \u201carma preferida\u201d, instrumento de chantagem, repress\u00e3o e controlo pol\u00edtico.<\/p>\n<p>O jornalista recorda que, com o agravamento da guerra colonial, a PIDE passou tamb\u00e9m a atuar fora das fronteiras, em pa\u00edses vizinhos de Angola, Mo\u00e7ambique e Guin\u00e9, assumindo-se como uma verdadeira pol\u00edcia internacional.<\/p>\n<p>\u201cO seu vast\u00edssimo poder\u201d era \u201cpotencialmente ilimitado\u201d, afirma o jornalista, sublinhando que a efici\u00eancia burocr\u00e1tica da institui\u00e7\u00e3o era uma das chaves da sua longevidade e efic\u00e1cia repressiva.<\/p>\n<p>No final do pref\u00e1cio, Jos\u00e9 Pedro Castanheira deixa um aviso: \u201c<strong>Tem vindo a emergir entre n\u00f3s um at\u00e9 agora escondido e envergonhado saudosismo dos bons velhos tempos<\/strong>, em que havia ordem, respeito, comando, disciplina, seguran\u00e7a, obedi\u00eancia\u201d.<\/p>\n<p>O autor considera preocupante a forma como esse discurso se manifesta \u201cna pol\u00edtica, nos media, na pr\u00f3pria academia e que as redes sociais amplificam\u201d, levando ao branqueamento e at\u00e9 mesmo a \u201cuma tentativa de adultera\u00e7\u00e3o ou falsifica\u00e7\u00e3o da Hist\u00f3ria\u201d.<\/p>\n<p>O jornalista lembra que a PIDE foi o principal guardi\u00e3o da mais longa ditadura pessoal do s\u00e9culo XX e \u201cinimigo jurado da liberdade\u201d, que ao longo dos seus 41 anos de exist\u00eancia fez dezenas de milhares de vitimas, e que \u201cs\u00f3 presos pol\u00edticos nominais foram 29.510, o que dava para encher um est\u00e1dio de futebol de m\u00e9dia dimens\u00e3o\u201d.<\/p>\n<p>Jos\u00e9 Pedro Castanheira espera que este livro seja \u201cmais um contributo para preservar a mem\u00f3ria desses tempos, para que n\u00e3o se voltem a repetir, e para que se conhe\u00e7a melhor a hist\u00f3ria da repress\u00e3o, da resist\u00eancia \u00e0 ditadura e da conquista da liberdade\u201d.<\/p>\n<p>O segundo volume de \u201cHist\u00f3rias da PIDE\u201d reunir\u00e1 reportagens sobre epis\u00f3dios que se verificaram j\u00e1 depois do AVC que, em setembro de 1968, ditou a substitui\u00e7\u00e3o de Salazar por Marcello Caetano ao leme do Estado Novo, adianta o autor.<\/p>\n<p>Esse livro abordar\u00e1 a viol\u00eancia extrema da PIDE, dirigida em particular a anarcossindicalistas e militantes do PCP, que se viria a refinar ainda mais nas antigas col\u00f3nias sobre os guerrilheiros e outros membros dos movimentos de liberta\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>                    <strong>Tem um minuto?<\/strong><br \/>O Observador est\u00e1 a realizar junto dos seus leitores um curto estudo de apenas quatro perguntas. <a href=\"https:\/\/observador.typeform.com\/to\/DnJJ0FZQ\" target=\"_blank\" style=\"text-decoration: underline; color:#262626;\" rel=\"nofollow noopener\">Responda aqui<\/a>.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"O jornalista Jos\u00e9 Pedro Castanheira alerta, no livro \u201cHist\u00f3rias da PIDE\u201d, que re\u00fane reportagens sobre a pol\u00edcia pol\u00edtica,&hellip;\n","protected":false},"author":2,"featured_media":123658,"comment_status":"","ping_status":"","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[143],"tags":[169,315,114,115,22917,864,170,302,32,33],"class_list":{"0":"post-123657","1":"post","2":"type-post","3":"status-publish","4":"format-standard","5":"has-post-thumbnail","7":"category-livros","8":"tag-books","9":"tag-cultura","10":"tag-entertainment","11":"tag-entretenimento","12":"tag-estado-novo","13":"tag-literatura","14":"tag-livros","15":"tag-polu00edtica","16":"tag-portugal","17":"tag-pt"},"share_on_mastodon":{"url":"https:\/\/pubeurope.com\/@pt\/115425415341394705","error":""},"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/123657","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=123657"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/123657\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/media\/123658"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=123657"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=123657"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=123657"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}