{"id":12451,"date":"2025-08-02T03:46:09","date_gmt":"2025-08-02T03:46:09","guid":{"rendered":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/12451\/"},"modified":"2025-08-02T03:46:09","modified_gmt":"2025-08-02T03:46:09","slug":"depois-do-trovao-tem-linguagem-inventiva-e-enfrentamento-valente","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/12451\/","title":{"rendered":"&#8220;Depois do trov\u00e3o&#8221; tem linguagem inventiva e enfrentamento valente"},"content":{"rendered":"<p class=\"texto\">N\u00e3o se entra no sert\u00e3o com medo, afirma Micheliny Verunschk. Com destemor e inventividade, a escritora revisitou um dos per\u00edodos mais sangrentos \u2013 e menos conhecidos \u2013 da hist\u00f3ria do pa\u00eds para avan\u00e7ar, com o rec\u00e9m-lan\u00e7ado romance \u201cDepois do trov\u00e3o\u201d, em seu projeto liter\u00e1rio: pensar o Brasil por meio de seus males de origem.<\/p>\n<p class=\"texto\">\u201cCreio que estou o tempo todo falando\/escrevendo sobre o presente, mesmo quando conto uma hist\u00f3ria do Brasil colonial\u201d, acredita a pernambucana de Arcoverde (cidade a 250 km do Recife), vencedora dos mais importantes pr\u00eamios liter\u00e1rios da l\u00edngua portuguesa com os tr\u00eas livros anteriores. \u201cNossa Teresa: Vida e morte de uma princesa suicida\u201d (2014), venceu o Pr\u00eamio S\u00e3o Paulo de Literatura; \u201cO som do rugido da on\u00e7a\u201d (2021) levou o Jabuti de melhor romance liter\u00e1rio e \u201cCaminhando com os mortos\u201d (2013) foi o ganhador do Pr\u00eamio Oceanos. Os dois \u00faltimos integram o que a cr\u00edtica liter\u00e1ria Stefania Chiarelli, professora da UFF e colaboradora do Pensar, chama de \u201ctetralogia do mato\u201d.\u00a0<\/p>\n<p class=\"texto\">\u201cA literatura de Micheliny Verunschk \u00e9 um projeto liter\u00e1rio consistente de uma voz decisiva no cen\u00e1rio da literatura contempor\u00e2nea, que vem aliando com talento a capacidade de tocar quest\u00f5es incontorn\u00e1veis do debate atual ao trabalho cuidadoso com a linguagem\u201d, avalia Chiarelli. \u201cSe f\u00f4ssemos colocar a tetralogia em uma linha do tempo cronol\u00f3gica ocidental colocar\u00edamos assim: em primeiro lugar viria o romance que concluir\u00e1 essa tetralogia, em seguida \u201cDepois do trov\u00e3o\u201d, \u201cO som do rugido da on\u00e7a\u201d e \u201cCaminhando com os mortos\u201d\u201d, diz Verunschk.<\/p>\n<p class=\"texto\">\u201cDepois do trov\u00e3o\u201d \u00e9 uma fic\u00e7\u00e3o ambientada no interior das capitanias do Nordeste assoladas por conflitos violentos entre os colonizadores europeus e os povos nativos na segunda metade do s\u00e9culo 17. Iniciados no Rec\u00f4ncavo Baiano, os conflitos se alastraram pelos sert\u00f5es das capitanias do Rio Grande, Para\u00edba e Cear\u00e1, marcando o destino da Am\u00e9rica portuguesa e das civiliza\u00e7\u00f5es ind\u00edgenas que resistiam \u00e0 expans\u00e3o dos exploradores. \u00c9 o que afirma o historiador Pedro Puntoni, no livro \u201cA guerra dos b\u00e1rbaros: povos ind\u00edgenas e a coloniza\u00e7\u00e3o do sert\u00e3o nordeste do Brasil (1650-1720).<\/p>\n<p class=\"texto\">\u201cNa verdade, (a Guerra dos B\u00e1rbaros) mais se aproximou de uma s\u00e9rie heterog\u00eanea de conflitos que foram o resultado de diversas situa\u00e7\u00f5es criadas ao longo da segunda metade do s\u00e9culo 17, no quadro das transforma\u00e7\u00f5es do desenvolvimento do mundo colonial, do que de um movimento unificado de resist\u00eancia. Estes conflitos envolveram \u00edndios, moradores, soldados, mission\u00e1rios e agentes da Coroa portuguesa\u201d, explica o professor da USP na edi\u00e7\u00e3o da Hucitec\/Edusp, publicada no ano 2000.<\/p>\n<p class=\"texto\">Autor da apresenta\u00e7\u00e3o de \u201cDepois do trov\u00e3o\u201d (na qual contextualiza as guerras de conquista para expans\u00e3o territorial e destaca a \u201creconstru\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica primorosa\u201d de Verunschk), o historiador reconhece no seu livro \u201ccerto desencantamento da historiografia por um per\u00edodo de nossa hist\u00f3ria t\u00e3o importante, mas cujo trato com a documenta\u00e7\u00e3o parecia muito \u00e1rduo\u201d. Puntoni cita uma frase do potiguar Lu\u00eds da C\u00e2mara Cascudo que resume a vis\u00e3o da Guerra dos B\u00e1rbaros: \u201cMuita confus\u00e3o, muita luta, muito mist\u00e9rio.\u201d<\/p>\n<p class=\"texto\">Foi a partir das lacunas, lutas e mist\u00e9rios ligados aos acontecimentos ocorridos entre as guerras holandesas e a descoberta do ouro em Minas, \u201cparente pobre\u201d na defini\u00e7\u00e3o do historiador Evaldo Cabral de Mello, que Verunschk ficou (ainda mais) \u00e0 vontade para unir o passado e a inven\u00e7\u00e3o. \u201cQuando escrevo um romance hist\u00f3rico, procuro a fresta de onde brota a hist\u00f3ria n\u00e3o contada, a possibilidade que de repente salta do documento, que racha o monumento\u201d, diz.<\/p>\n<p class=\"texto\">Narrado em primeira pessoa por personagem de origens portuguesas e ind\u00edgenas que traz \u201ccom vi\u00e7o os s\u00edtios do meu passado\u201d, \u201cDepois do trov\u00e3o\u201d apresenta um extraordin\u00e1rio trabalho de am\u00e1lgama de fatos hist\u00f3ricos com quest\u00f5es \u00edntimas por meio de uma linguagem \u00e0s vezes \u00e1rdua, muitas vezes deslumbrante \u2013 e, sempre, inventiva. Uma narrativa capaz de enxergar \u201cna guerra grande a guerra mi\u00fada\u201d e fazer o \u201cajuntamento das duas, dois bois ungidos no mesmo carro\u201d.<\/p>\n<p class=\"texto\">\u201cO mais dif\u00edcil, para mim, foi elaborar uma pros\u00f3dia para esse narrador que n\u00e3o apenas pudesse dar conta da err\u00e2ncia da nossa l\u00edngua, que \u00e9 atravessada por tantas l\u00ednguas que correm como rios subterr\u00e2neos, mas da pr\u00f3pria oralidade traduzida para a escrita\u201d, afirma a escritora, reconhecendo o \u201ctrabalho exaustivo\u201d de escrita, reescrita e de \u201couvido\u201d. \u201cMais do que qualquer outro que eu j\u00e1 tenha escrito, esse foi um livro escrito em voz alta\u201d, conta Verunschk.<\/p>\n<p class=\"texto\"><strong>Quando ouviu falar pela primeira vez da Guerra dos B\u00e1rbaros? Podemos dizer que o tema a atraiu primeiro como habitante da mesma regi\u00e3o onde aconteceu a guerra, como historiadora e, agora, como romancista ou sempre teve o desejo de criar uma narrativa ficcional nesse universo?<\/strong><br \/>Tomei conhecimento da Guerra dos B\u00e1rbaros quando ainda era estudante de Hist\u00f3ria, por meio de um professor e ativista pernambucano importante na minha forma\u00e7\u00e3o, Edson Silva, e de dois livros que foram essenciais para a minha forma\u00e7\u00e3o, ambos chamados \u201cA Guerra dos B\u00e1rbaros\u201d, um da Maria Idalina Pires e o outro, o livro monumental de Pedro Puntoni. Como venho de uma regi\u00e3o de grande presen\u00e7a e influ\u00eancia ind\u00edgena, esse tema se tornou importante para a compreens\u00e3o que eu estava construindo de mundo. Creio que o meu interesse ficcional pela quest\u00e3o e tem\u00e1tica ind\u00edgena foi sendo constru\u00edda desde o meu primeiro romance \u201cNossa Teresa \u2013 vida e morte de uma santa suicida\u201d, que trata de outro tema, de outra perspectiva, mas cuja paisagem ficcional \u00e9 fincada em territ\u00f3rio ind\u00edgena. A\u00ed \u00e9 que come\u00e7a o meu projeto liter\u00e1rio de pensar o Brasil por meio de seus males de origem e \u00e9 nesse recorte que livros como \u201cDepois do trov\u00e3o\u201d e \u201cO som do rugido da on\u00e7a\u201d se colocam.<\/p>\n<p class=\"texto\"><strong>\u201cContar tudo \u00e9 custoso\u201d. O que foi mais desafiador para a elabora\u00e7\u00e3o da linguagem de \u201cDepois do trov\u00e3o\u201d? <\/strong><br \/>Creio que o mais dif\u00edcil para mim foi elaborar uma pros\u00f3dia para esse narrador que n\u00e3o apenas pudesse dar conta da err\u00e2ncia da nossa l\u00edngua, que \u00e9 atravessada por tantas l\u00ednguas que correm como rios subterr\u00e2neos, mas da pr\u00f3pria oralidade traduzida para a escrita. Porque n\u00e3o deixa de ser um trabalho de inven\u00e7\u00e3o e de tradu\u00e7\u00e3o e, nisso, h\u00e1 grandes riscos de, por um lado, se tornar herm\u00e9tico e, de outro, caricatural. Ent\u00e3o foi um trabalho exaustivo de escrita e reescrita e tamb\u00e9m de \u201couvido\u201d porque esse, mais que qualquer outro que eu j\u00e1 tenha escrito, foi um livro escrito em voz alta.<\/p>\n<p class=\"texto\"><strong>Guimar\u00e3es Rosa foi uma de suas refer\u00eancias? O que admira especialmente na obra do mineiro? Poderia citar outros autores e\/ou livros que dialogam com \u201cDepois do trov\u00e3o\u201d?<\/strong> <br \/>Guimar\u00e3es Rosa \u00e9 como o sert\u00e3o, n\u00e3o \u00e9? Incontorn\u00e1vel. Claro que admiro o Rosa pela sua imensa capacidade fabulativa, pelos seus personagens marcantes, mas admiro principalmente como ao lado disso h\u00e1 um grande apre\u00e7o em seu trabalho com a linguagem. Eu poderia falar em ouriversaria, mas prefiro a imagem do bordado para falar sobre o que o Rosa faz, e vejam, temos ali um direito e um avesso perfeitos. Alguns outros autores dialogaram tamb\u00e9m com \u201cDepois do trov\u00e3o\u201d: dos mais recentes, Maria Val\u00e9ria Rezende, com seu \u201cCarta \u00e0 rainha louca\u201d, Alexandre Vidal Porto, com \u201cSodomita\u201d, Luiz Roberto Guedes, com \u201cO mamaluco voador\u201d e S\u00f4nia Sant\u2019Anna, com \u201cMem\u00f3rias de um bandeirante\u201d. Aos mais antigos, como o \u201cGrande Sert\u00e3o: Veredas\u201d e \u201cMeu tio, o Iauaret\u00ea\u201d, do Rosa, se juntam \u201cA muralha\u201d, de Dinah Silveira de Queiroz, e \u201cEisejuaz\u201d, da argentina Sara Gallardo. Isso para falar de fic\u00e7\u00e3o, n\u00e3o \u00e9? Nos estudos hist\u00f3ricos \u00e9 uma infinidade, passando pelos citados na primeira pergunta e passando de Afonso d\u2019Escragnolle Taunay e chegando a John Manuel Monteiro. Definitivamente n\u00e3o escrevi sozinha.<\/p>\n<p class=\"texto\"><strong>Como converter a pesquisa hist\u00f3rica em literatura?<\/strong><br \/>N\u00e3o sei bem se tem uma f\u00f3rmula. O que procuro, quando escrevo um romance hist\u00f3rico, \u00e9 a fresta de onde brota a hist\u00f3ria n\u00e3o contada, a possibilidade que de repente salta do documento, que racha o monumento. Acho que por isso a Hist\u00f3ria me fascina tanto, porque ela \u00e9 generosa e sempre oferece oportunidades assim.<\/p>\n<p class=\"texto\"><strong>\u201cAo sert\u00e3o \u00e9 preciso abrir de novo pela porfia dos fac\u00f5es\u201d. Como foi a sua entrada no sert\u00e3o (d)escrito em \u201cDepois do trov\u00e3o\u201d? Quais as caracter\u00edsticas deste sert\u00e3o?<\/strong><br \/>N\u00e3o se entra no sert\u00e3o com medo. Eu n\u00e3o entrei. Cresci nele e o conhe\u00e7o bem. No entanto, n\u00e3o se entra no sert\u00e3o, de forma confiada demais porque ningu\u00e9m o conhece totalmente. Eu quis construir o sert\u00e3o pensando na dualidade da nossa forma\u00e7\u00e3o familiar hist\u00f3rica. O sert\u00e3o como um pai e uma m\u00e3e terr\u00edveis, mas ainda assim um pai e uma m\u00e3e. Ferozes \u00e9 certo, mas com sua beleza e com o seu amor torto e poss\u00edvel. O sert\u00e3o doce da flor do jamacaru, o sert\u00e3o atroz da aba do chap\u00e9u do Estrondoso.<\/p>\n<p class=\"texto\"><strong>Dentro da chamada Tetralogia do Mato, o que representa \u201cDepois do trov\u00e3o\u201d? Quais conex\u00f5es consegue estabelecer com os dois romances anteriores, \u201cO som do rugido da on\u00e7a\u201d e \u201cCaminhando com os mortos\u201d? <\/strong><br \/>Se f\u00f4ssemos colocar a tetralogia em uma linha do tempo cronol\u00f3gica ocidental colocar\u00edamos assim: em primeiro lugar viria o romance que concluir\u00e1 essa tetralogia, em seguida \u201cDepois do trov\u00e3o\u201d, \u201cO som do rugido da on\u00e7a\u201d, \u201cCaminhando com os mortos\u201d. No entanto, acredito em outra percep\u00e7\u00e3o e viv\u00eancia do tempo, que tem mais a ver com os conceitos do tempo espiralar. Ent\u00e3o esse passado que retorna, que faz curvas sempre para tocar o presente, que reencontra seu ponto de partida, que por sua vez \u00e9 tamb\u00e9m um ponto m\u00f3vel, \u00e9 esse passado e esse tempo que me interessam como pessoa, como escritora. Acho que objetivamente \u201cDepois do trov\u00e3o\u201d se conecta mais de perto com \u201cO som do rugido da on\u00e7a\u201d n\u00e3o apenas pela conex\u00e3o ind\u00edgena, mas por algumas passagens que s\u00e3o retomadas, mas todos esses livros t\u00eam por linha condutora a ideia de pensar o Brasil. E eles seguem esse tempo em zigue-zague que \u00e9 coletivo, sim, mas tamb\u00e9m \u00edntimo, individual.<\/p>\n<p class=\"texto\"><strong>O que pode adiantar sobre o romance que concluir\u00e1 essa tetralogia?<\/strong><br \/>Estou ainda desenhando mentalmente a hist\u00f3ria que quero contar, mas posso adiantar que ser\u00e1 ao mesmo tempo a hist\u00f3ria mais recuada no tempo, antes da coloniza\u00e7\u00e3o e que repercutir\u00e1 em eventos de 2018. J\u00e1 sei a hist\u00f3ria e os arcos dela. Estou estudando a forma.<\/p>\n<p class=\"texto\">A tradi\u00e7\u00e3o brasileira, ao menos at\u00e9 o s\u00e9culo 20, \u00e9 de autoria branca escrevendo sobre temas ind\u00edgenas e criando personagens dos povos origin\u00e1rios. Como voc\u00ea se posiciona diante dessa tradi\u00e7\u00e3o e desse desafio?<br \/>Eu tenho duas posi\u00e7\u00f5es a respeito: a primeira delas \u00e9 de que todas as hist\u00f3rias que comp\u00f5em o Brasil nos pertencem a todos, e precisamos contar nossas hist\u00f3rias, nossa hist\u00f3ria; por outro lado, hist\u00f3rias como as dos ind\u00edgenas raptados e massacrados pelo sistema colonial precisam ser contadas por outras autorias, por autores e autoras ind\u00edgenas, por exemplo. Davi Kopenawa, em \u201cA queda do c\u00e9u\u201d, diz que o branco s\u00f3 sonha com ele mesmo e que para que o c\u00e9u se mantenha em seu lugar \u00e9 preciso que o branco sonhe com os povos da floresta. Quando escrevo essas hist\u00f3rias quero acreditar que estou sonhando junto por um mundo mais justo, mais seguro para todos.<\/p>\n<p class=\"texto\"><strong>Quais conflitos do passado ecoam no Brasil de hoje e que a interessam como escritora? E os do tempo presente?<\/strong><br \/>Creio que estou o tempo todo falando\/escrevendo sobre o presente, mesmo quando conto uma hist\u00f3ria do Brasil colonial. Mas me interessam, por exemplo, o primeiro bombardeio a\u00e9reo da hist\u00f3ria do pa\u00eds, contra cidad\u00e3os brasileiros em Santa Cruz do Deserto, interior do Cear\u00e1, tamb\u00e9m os v\u00e1rios conflitos com a popula\u00e7\u00e3o cigana no interior do pa\u00eds e como essas coisas repercutem em pol\u00edticas de estado violentas hoje, por exemplo.<\/p>\n<p class=\"texto\"><strong>\u201cEsse \u00e9 o pa\u00eds que temos, mas n\u00e3o o que merecemos ter\u201d, voc\u00ea afirmou em entrevista recente \u00e0 newsletter de K\u00e1tia Borges. O que \u00e9 preciso fazer para se ter o pa\u00eds que merecemos? E a sua literatura, o que \u00e9 capaz de fazer?<\/strong> <br \/>Acho que precisamos reconstruir esse pa\u00eds que vem sendo sistematicamente destru\u00eddo por interesses elitistas e isso s\u00f3 \u00e9 poss\u00edvel com um investimento maci\u00e7o em educa\u00e7\u00e3o e cultura. N\u00e3o h\u00e1 progresso, ou o que seja ideia de progresso, sem um investimento nessas \u00e1reas. Com uma boa forma\u00e7\u00e3o n\u00e3o apenas para estudantes, mas com requalifica\u00e7\u00e3o e remunera\u00e7\u00e3o digna para professores. Fui professora da rede p\u00fablica por muitos anos, sei do que estou falando. Sei tamb\u00e9m que a constru\u00e7\u00e3o dessa educa\u00e7\u00e3o passa por termos diversos dos que est\u00e3o sendo vendidos hoje: n\u00e3o \u00e9 a privatiza\u00e7\u00e3o do acesso e nem a militariza\u00e7\u00e3o da sociedade que construir\u00e3o o pa\u00eds que merecemos ter. Acho que os livros n\u00e3o podem mudar o mundo, mas talvez possam ajudar a mudar a mentalidade de quem o transformar\u00e1.<\/p>\n<p class=\"texto\"><strong>Como consegue, num mundo t\u00e3o ruidoso e cheio de est\u00edmulos \u00e0 dispers\u00e3o como as redes sociais, obter a imers\u00e3o necess\u00e1ria para escrever um romance como \u201cDepois do trov\u00e3o\u201d?<\/strong><br \/>Sinceramente, n\u00e3o sei. Talvez o que me ajude nesse sentido \u00e9 que quando estou pesquisando e escrevendo um livro fico tomada pela pesquisa e pela escrita e todo o resto fica como que fora de foco. \u00c9 como se a vida real fosse a da escrita e a vida restante algo que vejo de dentro do escafandro (risos). Acordo, durmo, vou para a academia, almo\u00e7o, entro no instagram, sempre com o pensamento tomado pela escrita, pelos problemas dela, pela busca de solu\u00e7\u00e3o. Nesse lugar, a escrita, a fam\u00edlia e os bichinhos de estima\u00e7\u00e3o s\u00e3o minha prioridade absoluta.<\/p>\n<p class=\"texto\"><strong>E a poesia? Como e quando surge na sua cria\u00e7\u00e3o? A prosa \u201cinterrompe\u201d a produ\u00e7\u00e3o po\u00e9tica ou a alimenta? Quando planeja lan\u00e7ar um novo livro de poemas?<\/strong> <br \/>A prosa alimenta. \u201cO movimento dos p\u00e1ssaros\u201d foi escrito simultaneamente com \u201cO som do rugido da on\u00e7a\u201d, por exemplo. Mas tenho publicado menos poesia do que gostaria. Devo ter uns tr\u00eas ou quatro livros in\u00e9ditos na gaveta e espero publicar um deles em 2026.<\/p>\n<p class=\"texto\"><strong>Por que voc\u00ea afirma que a escrita a organiza?<\/strong><br \/>Porque como todo mundo, tenho as minhas perturba\u00e7\u00f5es. E a escrita d\u00e1 r\u00e9gua e compasso a isso. Sem ela talvez eu estivesse \u00e0 deriva. (Colaborou Stefania Chiarelli)<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong><a href=\"https:\/\/whatsapp.com\/channel\/0029Va8e466AO7RPLL06EL2h\" target=\"_blank\" rel=\"nofollow noopener\">Siga nosso canal no WhatsApp e receba not\u00edcias relevantes para o seu dia<\/a><\/strong><\/p>\n<p>Trecho<\/p>\n<p class=\"texto\">\u201cE foi o que ele mandou e fiz junto com os outros, a minha primeira grande obriga\u00e7\u00e3o da guerra, de ajudar a botar fogo nas palho\u00e7as e depois deixar tudo para detr\u00e1s debaixo dos compungidos lamentos dos que tudo perderam e que seguiam como escravaria. Mas tudo, tudo eu nem n\u00e3o deixava para tr\u00e1s, que bem sabia, ia levando com a minha pessoa aquilo que via e vivia e fazia, como que arrastado comigo, pesando na lembran\u00e7a. E entendia tamb\u00e9m que deveria eu ter uma boa estrela por estar do lado do mais forte e n\u00e3o com a cabe\u00e7a desca\u00edda em terra, lambida pelo seu fac\u00e3o como aqueles cariris.\u201d<\/p>\n<p class=\"texto\">&#13;<br \/>\n    <img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-content\/uploads\/2025\/08\/wpe73007-02-57769153.jpg\" alt=\"     \" title=\"     \" loading=\"lazy\" width=\"775\" height=\"470\"\/>&#13;<br \/>\n    &#13;<br \/>\n              Reprodu\u00e7\u00e3o&#13;<br \/>\n    &#13;\n<\/p>\n<p class=\"texto\"><strong>\u201cDepois do trov\u00e3o\u201d<\/strong><br \/>\u2022 De Micheliny Verunschk<br \/>\u2022 Companhia das Letras<br \/>\u2022 232 p\u00e1ginas<br \/>\u2022 R$ 79,90<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"N\u00e3o se entra no sert\u00e3o com medo, afirma Micheliny Verunschk. 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