{"id":124928,"date":"2025-10-24T18:32:13","date_gmt":"2025-10-24T18:32:13","guid":{"rendered":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/124928\/"},"modified":"2025-10-24T18:32:13","modified_gmt":"2025-10-24T18:32:13","slug":"o-portugues-entre-bifanas-resolve-tudo-observador","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/124928\/","title":{"rendered":"&#8220;O portugu\u00eas entre bifanas resolve tudo&#8221; \u2013 Observador"},"content":{"rendered":"<p>\u201cE agora algo completamente diferente.\u201d Val\u00e9rio Rom\u00e3o levou \u00e0 letra o famoso slogan dos Monty Python, tanto na forma quanto no conte\u00fado. Al\u00e9m dos v\u00e1rios contos que foi espalhando em colet\u00e2neas e revistas liter\u00e1rias, o escritor deu-se principalmente a conhecer aos leitores com a sua trilogia das Paternidades Falhadas \u2014 Autismo (2012), O da Joana (2013) e Cair para Dentro\u00a0(2018) \u2014, conjunto de romances pautados pela crueza da abordagem a din\u00e2micas familiares e ao inferno que por vezes escondem. Desta vez, n\u00e3o queria nada disso.<\/p>\n<p>\u201cQueria rir-me e fazer rir. \u00c9 muito bom um gajo reinventar-se, \u00e9 fant\u00e1stico\u201d, afirma o escritor de 51 anos em entrevista ao Observador. Mais Uma Desilus\u00e3o, o livro de poesia que lan\u00e7ou no final de 2024, j\u00e1 prenunciava a mudan\u00e7a no seu estilo torrencial e verrinoso quanto \u00e0 condi\u00e7\u00e3o portuguesa. Com O Desfufador, essa muta\u00e7\u00e3o concretiza-se em pleno, resultando num romance que descreve como \u201cuma esp\u00e9cie de fogo de artif\u00edcio disparado em velocidade quatro vezes mais r\u00e1pido\u201d.<\/p>\n<p>Primeiro de dois volumes \u2014 este tem como subt\u00edtulo\u00a0O Cont\u00e1gio \u2014, trata-se de uma s\u00e1tira com a premissa tresloucada do que aconteceria no mundo se, subitamente, se desse um apag\u00e3o a n\u00edvel planet\u00e1rio em que, ao mesmo tempo, todas as mulheres no mundo tivessem um orgasmo e, como consequ\u00eancia, come\u00e7assem progressivamente a tornar-se homossexuais. As suas personagens n\u00e3o s\u00e3o menos bizarras, de um homem an\u00e3o despedido do Zoomarine por acidentalmente expor a sua genit\u00e1lia durante uma atua\u00e7\u00e3o com um golfinho rufia at\u00e9 uma douta personalidade cujo pendor conspirat\u00f3rio explica-se em parte por ter conseguido sobreviver na inf\u00e2ncia \u00e0s macumbas da irm\u00e3 que queria ser filha \u00fanica. Justifica-se ent\u00e3o a refer\u00eancia ao famoso grupo de com\u00e9dia brit\u00e2nico no in\u00edcio do texto: estamos em territ\u00f3rio do nonsense.<\/p>\n<p>Ao escrev\u00ea-lo, Rom\u00e3o tinha assim dois objetivos: conceber \u201cum livro completamente diferente de tudo o que tivesse escrito at\u00e9 agora\u201d e, na esteira de autores como Alface e Dinis Machado, demonstrar que a literatura portuguesa n\u00e3o precisa de ser soturna ou, como descreve, \u201cuma mis\u00e9ria c\u00e1ustica suburbana, um bairro onde as pessoas s\u00f3 n\u00e3o enlouquecem porque a vida tem de continuar\u201d.<\/p>\n<p>Admitindo sem pejo que o t\u00edtulo deste livro e a sua premissa pretendem desde logo \u201ccausar algum choque\u201d e que o romance \u201cfosse ofensivo para toda a gente\u201d, Rom\u00e3o quis todavia evitar que esse embate se esgotasse em si mesmo. \u00c9 isso que justifica o tempo que demorou a escrev\u00ea-lo: de forma impiedosa, aborda todo o tipo de tem\u00e1ticas espinhosas com humor c\u00e1ustico. Sem surpresas, essa faceta traduz-se de igual forma para esta conversa, tida junto ao Terminal de Cruzeiros de Lisboa \u2014 uma localiza\u00e7\u00e3o escolhida precisamente pelo impacto que o fen\u00f3meno tur\u00edstico tem, n\u00e3o s\u00f3 na capital como nesta narrativa.<\/p>\n<p>                    <img src=\"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-content\/uploads\/2025\/10\/9789896719784.jpg\" alt=\"\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"1712\" height=\"2362\" class=\"news-photo\" onload=\"this.parentElement.classList.remove('spinner')\" onerror=\"this.parentElement.classList.remove('spinner')\"\/>                <\/p>\n<p class=\"legenda\">\n            \u25b2 A capa de &#8220;O Desfufador \u2014 Volume 1: Cont\u00e1gio&#8221;, de Val\u00e9rio Rom\u00e3o (Tinta da China)<\/p>\n<p class=\"creditos\">Tinta da China<\/p>\n<p><strong>Este romance come\u00e7a ao seguir Alex, personagem que em crian\u00e7a teve o crescimento interrompido devido a um pontap\u00e9 no traseiro desferido por Jo\u00e3o C\u00e9sar Monteiro. S\u00f3 com este arranque tragic\u00f3mico, percebemos que este \u00e9 um romance bastante distinto dos seus anteriores. Como surgiu esta hist\u00f3ria?<br \/><\/strong>Isto \u00e9 relativamente f\u00e1cil de explicar, mas ningu\u00e9m vai acreditar em mim. Come\u00e7ou na pandemia, mas eu j\u00e1 tinha tido esta ideia algures em 2017 ou 2018 em mais uma noite de ins\u00f3nias, quando uma pessoa se mete\u00a0na internet e de repente vai de fil\u00e3o em fil\u00e3o, de site em site. Dei por mim num artigo sobre a <a href=\"https:\/\/observador.pt\/programas\/convidado-extra\/coreomania-a-mais-estranha-epidemia-que-ja-se-viu\/\" rel=\"nofollow noopener\" target=\"_blank\">epidemia de dan\u00e7a em Estrasburgo de 1518.<\/a> Acabei por mandar vir alguns livros sobre o tema. De facto, \u00e9 uma das epidemias de dan\u00e7a que ocorreu naquela zona do Reno, a \u00faltima e a mais mort\u00edfera, porque morreram pelo menos dezenas de pessoas de exaust\u00e3o em agosto a dan\u00e7ar. Isto \u00e9 uma hist\u00f3ria inacredit\u00e1vel; para um bom romancista ou para um bom ficcionista, a realidade est\u00e1 sempre a bater-nos aos pontos. \u201cE se levasse a realidade um bocadinho ainda al\u00e9m da dan\u00e7a? E se fosse uma epidemia de l\u00e9sbicas?\u201d Mesmo n\u00e3o tendo come\u00e7ado a escrever o livro, a ideia foi ganhando ra\u00edzes. Depois, apareceu-me este an\u00e3o, tamb\u00e9m como uma homenagem ao Alex, o an\u00e3o do <a href=\"https:\/\/ionline.sapo.pt\/2017\/06\/12\/ca-vai-lisboa-a-palavra-festa-brava\/\" rel=\"nofollow noopener\" target=\"_blank\">C\u00e1 Vai Lisboa<\/a>, do Alface. Portanto, \u00e9 uma esp\u00e9cie de fogo de artif\u00edcio disparado em velocidade quatro vezes mais r\u00e1pido, porque est\u00e3o sempre a acontecer coisas. E era precisamente isso que eu queria, um livro completamente diferente de tudo o que tivesse escrito at\u00e9 agora \u2014 fora dos hospitais, fora da an\u00e1lise minuciosa das rela\u00e7\u00f5es familiares ou das rela\u00e7\u00f5es humanas em geral. Queria rir-me e fazer rir. \u00c9 muito bom um gajo reinventar-se, \u00e9 fant\u00e1stico.<\/p>\n<p><strong>A prop\u00f3sito desse afastamento, a trilogia das Paternidades Falhadas se calhar pinta-se a tons mais soturnos, mais s\u00e9pia; este livro, pelo contr\u00e1rio, parece ser uma explos\u00e3o de cor em termos liter\u00e1rios. \u00c9 justa esta compara\u00e7\u00e3o?<\/strong><br \/>Sim, mas \u00e9 propositado. Acho que a literatura portuguesa \u2014 a literatura em geral, mas a portuguesa em particular, por causa do nosso pendor faduncho \u2014 \u00e9 muito autocentrada, muito dram\u00e1tica. Toda a gente se leva muito a s\u00e9rio e est\u00e1 a fazer uma coisa com muito sofrimento. N\u00e3o me estava a apetecer isso, porque tamb\u00e9m temos outro lado. Quem conhecesse os portugueses s\u00f3 pela literatura \u2014 mesmo pelos nossos grandes exemplos, como Ant\u00f3nio Lobo Antunes \u2014, achava que isto era uma mis\u00e9ria c\u00e1ustica suburbana, um bairro onde as pessoas s\u00f3 n\u00e3o enlouquecem porque a vida tem de continuar.<\/p>\n<p><strong>Um povo dado ao solipsismo, no fundo?<br \/><\/strong>Sim, muito pesado\u2026 E at\u00e9 se percebe, n\u00e3o \u00e9? Vivemos 50 anos de ditadura e \u2014 embora haja muitas pessoas, sobretudo as que n\u00e3o passaram por isso, que neste momento querem voltar a esses tempos \u2014 acho que isso ainda n\u00e3o foi completamente digerido.<\/p>\n<p><strong>Quanto \u00e0 \u201cepidemia de l\u00e9sbicas\u201d, porqu\u00ea essa premissa e como \u00e9 que se constr\u00f3i a partir da\u00ed?<br \/><\/strong>Andei \u00e0 volta do tema durante bastante tempo e a ideia era pegar numa coisa que de facto n\u00e3o \u00e9 infetocontagiosa, mas que tivesse um efeito psicol\u00f3gico. Por exemplo, num avi\u00e3o, se uma pessoa come\u00e7ar a vomitar e disser que a comida est\u00e1 envenenada, come\u00e7a tudo a vomitar tamb\u00e9m. Ou seja, n\u00e3o h\u00e1 aqui um agente patog\u00e9nico, um fungo, uma cadeia de transmiss\u00e3o vis\u00edvel, mas h\u00e1 um poder de sugest\u00e3o \u2014 como h\u00e1 nos cultos, por exemplo \u2014 em que as pessoas fazem coisas que, por natureza, n\u00e3o estariam dispostas a fazer ou que n\u00e3o imaginariam conseguir fazer. A minha ideia era pegar no exemplo de uma coisa \u201cescandalosa\u201d, uma epidemia de l\u00e9sbicas, algo inveros\u00edmil, mas com cont\u00e1gio, com uma propaga\u00e7\u00e3o; como \u00e9 que se poderia tentar explicar o assunto, que tipo de especialistas \u00e9 que convocar\u00edamos para uma epidemia de l\u00e9sbicas; e que efeito \u00e9 que isso teria nos homens. Porque, de facto, n\u00e3o ia acabar o mundo por (s\u00f3) haver l\u00e9sbicas, porque se as pessoas quisessem procriar haveria insemina\u00e7\u00e3o artificial, havia todo o tipo de recursos para a esp\u00e9cie continuar \u2014 se quisesse continuar. Mas isso teria um efeito nos homens heterossexuais, que t\u00eam a sua autoestima indexada ao olhar feminino,\u00a0 Toda a gente se sente bem em saber-se desejado, ou pelo menos visto.<\/p>\n<p><strong>N\u00e3o ia acabar o mundo, mas ia acabar com uma conce\u00e7\u00e3o de mundo, no fundo?<br \/><\/strong>Sim. E depois, partimos para o terceiro aspeto, que \u00e9 \u201ccomo \u00e9 que a gente resolve isto\u201d. E entra a\u00ed O Desfufador.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"\u201cE agora algo completamente diferente.\u201d Val\u00e9rio Rom\u00e3o levou \u00e0 letra o famoso slogan dos Monty Python, tanto na&hellip;\n","protected":false},"author":2,"featured_media":124929,"comment_status":"","ping_status":"","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[50],"tags":[27,28,315,741,15,16,14,25,26,864,170,21,22,62,12,13,19,20,861,23,24,17,18,29,30,31,63,64,65],"class_list":{"0":"post-124928","1":"post","2":"type-post","3":"status-publish","4":"format-standard","5":"has-post-thumbnail","7":"category-mundo","8":"tag-breaking-news","9":"tag-breakingnews","10":"tag-cultura","11":"tag-entrevista","12":"tag-featured-news","13":"tag-featurednews","14":"tag-headlines","15":"tag-latest-news","16":"tag-latestnews","17":"tag-literatura","18":"tag-livros","19":"tag-main-news","20":"tag-mainnews","21":"tag-mundo","22":"tag-news","23":"tag-noticias","24":"tag-noticias-principais","25":"tag-noticiasprincipais","26":"tag-observador","27":"tag-principais-noticias","28":"tag-principaisnoticias","29":"tag-top-stories","30":"tag-topstories","31":"tag-ultimas","32":"tag-ultimas-noticias","33":"tag-ultimasnoticias","34":"tag-world","35":"tag-world-news","36":"tag-worldnews"},"share_on_mastodon":{"url":"https:\/\/pubeurope.com\/@pt\/115430578221312795","error":""},"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/124928","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=124928"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/124928\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/media\/124929"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=124928"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=124928"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=124928"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}