{"id":125640,"date":"2025-10-25T10:58:41","date_gmt":"2025-10-25T10:58:41","guid":{"rendered":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/125640\/"},"modified":"2025-10-25T10:58:41","modified_gmt":"2025-10-25T10:58:41","slug":"lisboa-a-cidade-das-sete-colinas-e-nenhuma-hipotese-megafone","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/125640\/","title":{"rendered":"Lisboa, a cidade das sete colinas e nenhuma hip\u00f3tese | Megafone"},"content":{"rendered":"<p>Segundo o mais recente relat\u00f3rio do Conselho Europeu, os lisboetas destinam 116% do sal\u00e1rio \u00e0 renda da casa. Cento e dezasseis por cento. O que quer dizer que, para pagar uma casa em Lisboa, \u00e9 preciso ganhar 16% mais do que aquilo que se ganha. \u00c9 um n\u00famero que desafia a matem\u00e1tica, a l\u00f3gica e o conceito de sobreviv\u00eancia. Lisboa \u00e9 hoje a cidade mais cara da Europa face aos rendimentos dos habitantes.<\/p>\n<p>Hoje, viver em Lisboa \u00e9 quase um hobby para milion\u00e1rios. Ou um castigo para os que ainda acreditam que \u201ca cultura compensa\u201d. Quem quer ter uma casa precisa de arranjar duas coisas: um bom fiador e uma toler\u00e2ncia emocional acima da m\u00e9dia. Porque ver o sal\u00e1rio desaparecer totalmente todos os meses quando se paga a renda n\u00e3o \u00e9 para qualquer um.<\/p>\n<p>Na pr\u00e1tica, um casal s\u00f3 consegue viver junto porque um dos dois abdica do direito b\u00e1sico a comer. Ou ent\u00e3o endividam-se brutalmente apenas para poder existir. <a href=\"https:\/\/www.publico.pt\/2022\/11\/18\/p3\/reportagem\/mora-sozinho-vida-pesada-2026733\" target=\"_blank\" rel=\"nofollow noopener\">Os solteiros t\u00eam duas op\u00e7\u00f5es<\/a>: ou v\u00e3o morar para a rua (que, convenhamos, tem uma vista \u00f3tima para o Tejo), ou metem-se em rela\u00e7\u00f5es poliamorosas. N\u00e3o por amor livre, mas por pura log\u00edstica. Tr\u00eas sal\u00e1rios s\u00e3o o novo ideal rom\u00e2ntico.<\/p>\n<p>Se a coisa correr mal e o poliamor falhar, h\u00e1 sempre o co-living, esse conceito brilhante inventado para transformar o desespero em tend\u00eancia. Pagar 800 euros por um quarto min\u00fasculo com uma janela que d\u00e1 para o po\u00e7o de ventila\u00e7\u00e3o, partilhar a retrete com quatro desconhecidos e chamar a isso \u201cestilo de vida\u201d. O mercado livre \u00e9 mesmo criativo.<\/p>\n<p>Ter um patrim\u00f3nio l\u00edquido milion\u00e1rio, em Portugal, \u00e9 simplesmente n\u00e3o ter d\u00edvidas e possuir um T2 no Intendente comprado h\u00e1 vinte anos por um valor que hoje mal chega para um jantar no Chiado, financiado a 100% por um banco que agora ostenta lucros extraordin\u00e1rios. Estas pessoas s\u00e3o a nova aristocracia lisboeta. N\u00e3o t\u00eam iate, nem Ferrari, mas t\u00eam casa pr\u00f3pria. Um luxo obsceno em 2025.<\/p>\n<p>O mais assustador \u00e9 o grau de normaliza\u00e7\u00e3o disto tudo. Pagamos 900 euros por um T0 e achamos \u201cbarato\u201d. Aceitamos viver em casas sem isolamento, com infiltra\u00e7\u00f5es e contratos de seis meses, como se fosse natural. Fingimos que est\u00e1 tudo bem enquanto partilhamos cozinha com seis pessoas e rezamos para que ningu\u00e9m coma a nossa lasanha do Lidl.<\/p>\n<p>E depois ainda h\u00e1 quem diga que \u201c\u00e9 o mercado a funcionar\u201d. Como se o mercado fosse uma entidade divina, imune \u00e0 cr\u00edtica, que decide quem pode ou n\u00e3o viver num raio de 50 quil\u00f3metros da capital. O mercado n\u00e3o funciona, o mercado explora. E n\u00f3s continuamos a agradecer por nos deixarem existir entre o sof\u00e1 e a t\u00e1bua de engomar.<\/p>\n<p>Em praticamente toda a Uni\u00e3o Europeia, a habita\u00e7\u00e3o deixou de ser um direito e passou a ser uma commodity, empilhada nas prateleiras de um supermercado neoliberal onde o pre\u00e7o \u00e9 definido pela gan\u00e2ncia do momento. As casas j\u00e1 n\u00e3o s\u00e3o lugares para viver, s\u00e3o ativos financeiros, fichas de um jogo especulativo que corre em piloto autom\u00e1tico enquanto a vida real fica do lado de fora da porta.<\/p>\n<p>Mas casas s\u00e3o para ser habitadas, ponto final. N\u00e3o podem ser tratadas como a\u00e7\u00f5es em bolsa nem ref\u00e9ns de fundos imobili\u00e1rios com sede nas ilhas do costume. A nossa realidade material ultrapassou todos os limites: estamos a assistir, em tempo real, \u00e0 privatiza\u00e7\u00e3o da vida.<\/p>\n<p>Entretanto, em Bruxelas, Ant\u00f3nio Costa anunciou que o Conselho Europeu vai discutir o problema. H\u00e1 algo de comovente em ver l\u00edderes europeus a falar de habita\u00e7\u00e3o quando nunca sentiram este problema. A solu\u00e7\u00e3o, diz ele, \u00e9 \u201cdar mais margem de manobra aos pa\u00edses\u201d. Traduzindo: boa sorte com isso, Malta.<\/p>\n<p>E assim seguimos. Lisboa continua linda, mas s\u00f3 para quem a v\u00ea de fora. C\u00e1 dentro, \u00e9 uma distopia fofinha, com azulejos e tuk-tuks. Um s\u00edtio onde o amor \u00e9, acima de tudo, uma estrat\u00e9gia de sobreviv\u00eancia e a express\u00e3o \u201ccasa de sonho\u201d significa apenas \u201ctem janelas\u201d.<\/p>\n<p>Portugal n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 Lisboa, mas Lisboa tamb\u00e9m n\u00e3o est\u00e1 nada bem.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"Segundo o mais recente relat\u00f3rio do Conselho Europeu, os lisboetas destinam 116% do sal\u00e1rio \u00e0 renda da casa.&hellip;\n","protected":false},"author":2,"featured_media":125641,"comment_status":"","ping_status":"","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[10],"tags":[27,28,7962,445,15,16,456,14,25,26,797,21,22,12,13,19,20,534,1824,542,32,23,24,33,17,18,29,30,31,636],"class_list":{"0":"post-125640","1":"post","2":"type-post","3":"status-publish","4":"format-standard","5":"has-post-thumbnail","7":"category-portugal","8":"tag-breaking-news","9":"tag-breakingnews","10":"tag-conselho-europeu","11":"tag-europa","12":"tag-featured-news","13":"tag-featurednews","14":"tag-habitacao","15":"tag-headlines","16":"tag-latest-news","17":"tag-latestnews","18":"tag-lisboa","19":"tag-main-news","20":"tag-mainnews","21":"tag-news","22":"tag-noticias","23":"tag-noticias-principais","24":"tag-noticiasprincipais","25":"tag-p3","26":"tag-p3-cronica","27":"tag-para-redes","28":"tag-portugal","29":"tag-principais-noticias","30":"tag-principaisnoticias","31":"tag-pt","32":"tag-top-stories","33":"tag-topstories","34":"tag-ultimas","35":"tag-ultimas-noticias","36":"tag-ultimasnoticias","37":"tag-uniao-europeia"},"share_on_mastodon":{"url":"https:\/\/pubeurope.com\/@pt\/115434455233153378","error":""},"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/125640","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=125640"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/125640\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/media\/125641"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=125640"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=125640"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=125640"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}