{"id":12611,"date":"2025-08-02T08:02:14","date_gmt":"2025-08-02T08:02:14","guid":{"rendered":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/12611\/"},"modified":"2025-08-02T08:02:14","modified_gmt":"2025-08-02T08:02:14","slug":"quando-uma-nomada-digital-se-desilude-com-lisboa-megafone","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/12611\/","title":{"rendered":"Quando uma n\u00f3mada digital se desilude com Lisboa | Megafone"},"content":{"rendered":"<p data-end=\"825\" data-start=\"122\">Quando o primeiro aterrou, j\u00e1 todos sab\u00edamos o que ia acontecer. E por\u00e9m, antes disso, h\u00e1 v\u00e1rias defini\u00e7\u00f5es de \u201cnomadismo digital\u201d. Arriscaria dizer que todas confluem num ponto: o do trabalho remoto, isto \u00e9, <a href=\"https:\/\/www.publico.pt\/2023\/05\/31\/p3\/noticia\/querem-nomadas-digitais-eis-forma-etica-2051696\" target=\"_blank\" rel=\"nofollow noopener\">n\u00f3mada digital<\/a> \u00e9 algu\u00e9m que trabalha remotamente. O que, desde logo, \u00e9 divertido, pelas limita\u00e7\u00f5es que comporta. Posso ser um n\u00f3mada digital vivendo no Porto e trabalhando para um projecto ou organiza\u00e7\u00e3o baseado em Lisboa? Ou s\u00f3 se aplica em contextos internacionais? Nomadismo, historicamente, implica migrar de um local para outro ciclicamente. Tamb\u00e9m \u00e9 verdade neste caso? Se me mudar de Londres para Lisboa uma vez e ficar na cidade, sou um n\u00f3mada digital? So many options, so little time.<\/p>\n<p data-end=\"1726\" data-start=\"827\">Quando o primeiro aterrou, j\u00e1 todos sab\u00edamos o que ia acontecer porque nos conhecemos e sabemos todos que a motiva\u00e7\u00e3o \u00e9 autocentrada. O que \u00e9 normal vejamos. Os <a href=\"https:\/\/www.publico.pt\/2023\/01\/18\/economia\/editorial\/nomadas-digitais-versus-sedentarios-analogicos-2035574\" target=\"_blank\" rel=\"nofollow noopener\">n\u00e3o-n\u00f3madas-digitais<\/a>, emigrantes ao longo das d\u00e9cadas (portugueses ou de qualquer nacionalidade), e mesmo sem benef\u00edcios fiscais obscenos, tamb\u00e9m mudaram de geografia por motivos pessoais.<\/p>\n<p data-end=\"1726\" data-start=\"827\">Para fugir \u00e0 pobreza (de esp\u00edrito, alimentar, habitacional ou outras), para encontrar um lugar seguro, para ganhar espa\u00e7o pr\u00f3prio de liberdade, para se sentirem realizados. Pensaram, e bem, em si e nos seus, que vem daquele lugar humano de querer ser mais feliz ou estar melhor ou viver de forma diferente. Neste caso, nesta Lisboa e neste Portugal, a borla fiscal deu uma ajuda inestim\u00e1vel. A humanidade por estes dias n\u00e3o \u00e9 um lugar bonito e junta-se a essa maravilha de desigualdade: um lifestyle de latte na m\u00e3o.<\/p>\n<p>        &#13;<\/p>\n<blockquote><p>&#13;<\/p>\n<p>Aqui nunca me quis \u201cintegrar\u201d. Quero, mais que tudo, ser cidad\u00e3o. Enquanto a integra\u00e7\u00e3o aprofunda l\u00f3gicas grupais do \u201cn\u00f3s\u201d e \u201celes\u201d o que nos pode interessar \u00e9 a ideia de cidadania.<\/p>\n<p>&#13;<br \/>\n                &#13;<br \/>\n                &#13;\n            <\/p><\/blockquote>\n<p>&#13;<br \/>\n&#13;<br \/>\n            &#13;<\/p>\n<p data-end=\"2642\" data-start=\"1728\">Alex Holder mudou-se de Londres para Lisboa h\u00e1 cinco anos, com os olhos no sol, praia, nos caf\u00e9s fotog\u00e9nicos. <a href=\"https:\/\/www.theguardian.com\/world\/2025\/jul\/27\/lisbon-portugal-digital-nomads-foreign-remote-workers-integration\" target=\"_blank\" rel=\"nofollow noopener\">Escreve agora sobre isso no The Guardian<\/a>, admitindo a motiva\u00e7\u00e3o fiscal, percebendo que est\u00e1 numa bolha de privil\u00e9gio e questionando se est\u00e1 no momento de abandonar. Numa leve anatomia do texto, percebemos que olha em volta, que sabe quem est\u00e1 e porqu\u00ea, que habita a mesma bolha de milhares de outros, que questiona a integra\u00e7\u00e3o ou a falta dela, o \u201cgive back\u201d, mesmo tendo aberto uma livraria ou percebendo que tudo o que est\u00e1 a acontecer se calhar n\u00e3o \u00e9 particularmente feliz para todos.<\/p>\n<p data-end=\"2642\" data-start=\"1728\">Tamb\u00e9m p\u00f5e em causa se o valor aportado chega \u201c\u00e0s comunidades locais\u201d, observa a \u201cira compreens\u00edvel\u201d perante a &#8220;disneyfica\u00e7\u00e3o&#8221; crescente, e afirma que \u201ctudo parece superficial\u201d. Acaba na \u201cfalta de integra\u00e7\u00e3o\u201d. \u201cA verdade \u00e9, n\u00e3o estou suficientemente integrada para retribuir da mesma forma com que usufruo\u201d, diz-nos.<\/p>\n<p data-end=\"2941\" data-start=\"2644\">Salt\u00e1mos, muitos, de alegria. Partilhamos o texto nos espa\u00e7os digitais, com uma legenda velada que grita \u201colha, uma n\u00f3mada digital com consci\u00eancia em Lisboa, uma pessoa estrangeira que admite e v\u00ea o que tamb\u00e9m n\u00f3s vemos, que p\u00f5e o dedo na ferida! Que refrescante!\u201d. A emo\u00e7\u00e3o, meu Deus! Finalmente!<\/p>\n<p data-end=\"4302\" data-start=\"2943\">E depois, espera a\u00ed, ent\u00e3o mas\u2026 Os factos que Alex descreve n\u00e3o s\u00e3o surpresa para ningu\u00e9m e tamb\u00e9m n\u00e3o tinham de ser. O processo de gentrifica\u00e7\u00e3o da cidade come\u00e7ou h\u00e1 muito, alimentado por decis\u00f5es erradas, quest\u00f5es sist\u00e9micas e desinteresse por uma ideia de cidade.<\/p>\n<p data-end=\"4302\" data-start=\"2943\">Mas o que aparentemente parece ser uma reflex\u00e3o honesta e aberta \u00e9 tamb\u00e9m um sintoma. O texto de Alex acredita na narrativa dos \u201cn\u00f3s\u201d e \u201celes\u201d, como se a \u201cintegra\u00e7\u00e3o\u201d fosse um Graal por encontrar. N\u00e3o \u00e9.<\/p>\n<p data-end=\"4302\" data-start=\"2943\">&#8220;Integra\u00e7\u00e3o&#8221;, diz o Priberam, \u00e9 a \u201cincorpora\u00e7\u00e3o de um indiv\u00edduo ou grupo externo numa comunidade, num meio\u201d. Uma esp\u00e9cie de proposta de modelo societal em que algu\u00e9m pode ou deve incorporar-se em algo maior, ao qual \u00e9 externo ou estranho (l\u00e1 se foi a diversidade). Assume-se, de forma natural, que estar integrado implica pagar impostos localmente e falar a l\u00edngua \u201cnacional\u201d. Alex faz ainda um favor aos sistemas economicistas em p\u00f4r a nu motiva\u00e7\u00f5es fiscais, e sublinha as bolhas de privil\u00e9gio sem as questionar verdadeiramente. Para introduzir o exemplo da pessoa que tamb\u00e9m est\u00e1 em Lisboa por raz\u00f5es pol\u00edticas, Alex cita: \u201cVim em Maio de 2021 e estava ligada \u00e0 comunidade de expatriados aqui\u201d, como se o percurso natural fosse chegar e ficar na bolha. E termina com \u201co sentimento que o meu tempo aqui pode estar a acabar, que talvez seja tempo para seguir e deixar espa\u00e7o para outros\u201d.<\/p>\n<p data-end=\"4581\" data-start=\"4304\">Quando o primeiro aterrou, j\u00e1 todos sab\u00edamos que talvez esse primeiro, depois, percebesse que estar \u00e9 diferente de viver, e preferisse outro sol e outras praias depois. Chama-se \u201cextrativismo\u201d. Fofinho, talvez neste caso, intelectualmente honesto, mas ainda assim extrativismo.<\/p>\n<p data-end=\"5174\" data-start=\"4583\">H\u00e1 dois anos, mudei-me para o Reino Unido. A pergunta que mais ouvi neste per\u00edodo foi \u201ccomo assim, porque mudaste de Lisboa para Liverpool?!\u201d. Sol, praia, velhinhas \u00e0 janela e caf\u00e9s nas esquinas habitam os sonhos dos ingleses que, no Norte, se queixam ainda mais, fa\u00e7a chuva ou sol.<\/p>\n<p data-end=\"5174\" data-start=\"4583\">Com jeitinho tamb\u00e9m sou um \u201cn\u00f3mada digital\u201d. Trabalho tamb\u00e9m para uma organiza\u00e7\u00e3o em Portugal, remotamente. Ganhando um sal\u00e1rio portugu\u00eas (ah, a ironia). Fugi de Lisboa porque n\u00e3o era seguro viver na Disney: implicava assistir \u00e0 destrui\u00e7\u00e3o cultural da cidade e isso tem impacto na sa\u00fade mental de qualquer um.<\/p>\n<p data-end=\"5822\" data-start=\"5176\">Vou a Lisboa a cada tr\u00eas meses e amigos e fam\u00edlia parecem arrasados pelo que est\u00e1 a acontecer, a cada trimestre mais perto da fuga. Em Liverpool nunca procurei portugueses para entrar numa bolha, mas conhe\u00e7o a Glen, velhinha galesa da porta ao lado que arranca ervas do jardim cada vez que o tempo d\u00e1 uma aberta e guarda o carro na garagem antes de nevar. Com a Holly, que gere um cineclube queer numa lavandaria comunit\u00e1ria em Anfield, partilho informa\u00e7\u00e3o e oi\u00e7o-a. Criei uma empresa de interesse comunit\u00e1rio para fazer projectos com jovens na vila onde vivo e come\u00e7ar a mostrar filmes no teatro local, porque n\u00e3o h\u00e1 cinema em todo o concelho.<\/p>\n<p data-end=\"6665\" data-start=\"5824\">Vou cortar o cabelo ao Tom, que est\u00e1 no in\u00edcio de carreira como barbeiro, e mencionei isso ao Paul, que tem 50 anos a gerir barbas e cabelos do outro lado da cidade e pode ajudar. Passo pela loja do Mark para trocar discos e conversa, antes de parar na loja indiana mais antiga da cidade. Uma vez por m\u00eas, encontro os g\u00e9meos batateiros, que me contam que a esp\u00e9cie que cultivam veio da Irlanda e j\u00e1 ganhou pr\u00e9mios por ser rara. Aos s\u00e1bados junto-me aos velhotes do clube de fotografia para uma ch\u00e1vena de ch\u00e1, imagens em cima da mesa e ouvir como lidam com a mudan\u00e7a. J\u00e1 dei forma\u00e7\u00e3o gratuitamente a outros grupos e fiz voluntariado entrevistando uma refugiada eg\u00edpcia para um projecto de hist\u00f3ria oral. Inscrevi-me num comit\u00e9 para ajudar a abrir um cinema abandonado noutra zona da cidade e registar as reuni\u00f5es com os moradores do bairro.<\/p>\n<p data-end=\"7118\" data-start=\"6667\">Tentei fazer tudo isto em Lisboa durante anos, at\u00e9 ficar t\u00e3o amargo com tudo que nem com ado\u00e7ante. Aqui nunca me quis \u201cintegrar\u201d. Quero, mais que tudo, ser cidad\u00e3o. Enquanto a integra\u00e7\u00e3o aprofunda l\u00f3gicas grupais do \u201cn\u00f3s\u201d e \u201celes\u201d (que agora servem sobretudo para alimentar narrativas populistas pol\u00edtico-partid\u00e1rias), o que nos pode interessar \u00e9 a ideia de cidadania. Ser cidad\u00e3o implica trabalhar activamente na defesa de direitos e deveres comuns.<\/p>\n<p data-end=\"7631\" data-start=\"7120\">S\u00e3o cidad\u00e3os milhares de pessoas estrangeiras em Portugal, de todas as nacionalidades e proveni\u00eancias, que verdadeiramente querem viver a sua vida em comunidade, ligar-se a outros e \u00e0 cidade e contribuir com o que s\u00e3o para construir algo melhor. Ter\u00e1 Alex tido a motiva\u00e7\u00e3o de ser cidad\u00e3 (em Lisboa ou em Londres)? Com ou sem borla fiscal e sol e praia e expatriados, ter\u00e1 querido viver a cidade e as pessoas em vez de estar de passagem? Ser\u00e1 que a desconex\u00e3o com a vida quotidiana n\u00e3o \u00e9 uma forma f\u00e1cil de ficar na bolha?<\/p>\n<p data-end=\"7721\" data-start=\"7633\">N\u00f3madas digitais ou sedent\u00e1rios anal\u00f3gicos, estrangeiros ou nacionais, quero \u00e9 cidad\u00e3os.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"Quando o primeiro aterrou, j\u00e1 todos sab\u00edamos o que ia acontecer. 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