{"id":12651,"date":"2025-08-02T08:56:14","date_gmt":"2025-08-02T08:56:14","guid":{"rendered":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/12651\/"},"modified":"2025-08-02T08:56:14","modified_gmt":"2025-08-02T08:56:14","slug":"portugal-manda-lavar-a-la-na-china-e-perde-o-fio-da-sua-industria","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/12651\/","title":{"rendered":"Portugal manda lavar a l\u00e3 na China e perde o fio da sua ind\u00fastria."},"content":{"rendered":"<p>Lavar c\u00e1 ou l\u00e1? \u00c9 a grande quest\u00e3o. Mas n\u00e3o \u00e9, nem de longe, a \u00fanica.<\/p>\n<p>A l\u00e3 portuguesa, fruto de gera\u00e7\u00f5es de pastoreio e de um poderio industrial que remonta \u00e0 \u00e9poca de\u00a0 Marqu\u00eas de Pombal, enfrenta hoje um paradoxo estrat\u00e9gico: pode ser exportada em bruto para ser lavada na China \u2014 enquanto o \u00fanico lavadouro industrial do pa\u00eds est\u00e1 parado por falta de liga\u00e7\u00e3o a uma ETAR. Falamos de poucos metros de tubo, e de alguns anos de in\u00e9rcia, de ditos e n\u00e3o ditos.<\/p>\n<p>Mas olhemos a linha de tempo desta contradi\u00e7\u00e3o institucionalizada: em outubro de 2024, Portugal celebrou um protocolo com a China que reabriu as exporta\u00e7\u00f5es de l\u00e3 n\u00e3o lavada, ap\u00f3s cinco anos de suspens\u00e3o. A Dire\u00e7\u00e3o-Geral de Alimenta\u00e7\u00e3o e Veterin\u00e1ria e a Administra\u00e7\u00e3o Geral das Alf\u00e2ndegas da China rubricaram o acordo, permitindo retomar um canal comercial que muitos produtores viam como vital e aplaudiram no seu an\u00fancio em Mar\u00e7o de 2025.<\/p>\n<p>Mas vital para qu\u00ea?<br \/>Sim, evita o desperd\u00edcio imediato. Mas \u00e0 custa de qu\u00ea?<br \/>De exportar mat\u00e9ria-prima sem qualquer transforma\u00e7\u00e3o local?! Desculpem-me mas isso \u00e9 perpetuar um modelo que tira valor ao pa\u00eds e refor\u00e7a a depend\u00eancia externa. Um modelo que contradiz todos os princ\u00edpios da sustentabilidade\u00a0 e economia circular.<\/p>\n<p>E pior: f\u00e1-lo mesmo quando existe capacidade instalada para lavar e transformar a l\u00e3 c\u00e1 dentro. S\u00f3 que essa capacidade est\u00e1 parada. Literalmente. Porque o lavadouro da Guarda,\u00a0 o \u00fanico em funcionamento no pa\u00eds (que eu sem saber que o era passei in\u00fameras vezes a p\u00e9 \u00e0 sua frente nos meus tempos de estudante), n\u00e3o pode operar por falta de liga\u00e7\u00e3o \u00e0 rede de saneamento. E n\u00e3o \u00e9 por falta de avisos e pedidos: mais de 20 entidades e grandes empresas do setor j\u00e1 exigiram a resolu\u00e7\u00e3o imediata do problema a diversas entidades, muito antes da recente peti\u00e7\u00e3o publica que j\u00e1 tem mais de 5200 assinaturas.<\/p>\n<p>Esta realidade seria aceit\u00e1vel se n\u00e3o existisse, em Portugal, uma ind\u00fastria t\u00eaxtil laneira viva, capaz, resiliente e competitiva, que resistiu e merecer ser defendida. Empresas centen\u00e1rias da zona da covilh\u00e3 e da Serra da Estrela que produzem artigos de e com l\u00e3, alem de terem resistido a uma desertifica\u00e7\u00e3o que as asfixiou,\u00a0 reinventaram-se com design, inova\u00e7\u00e3o e sustentabilidade. Produzem ainda com alguma l\u00e3 nacional, rastreabilidade certificada e impacto ambiental reduzido. Colocam os seus produtos em mercados exigentes. Mant\u00eam emprego qualificado. Transformaram f\u00e1bricas antigas em hubs de valor e identidade.<\/p>\n<p>E agora v\u00eaem-se confrontadas com a impossibilidade de ter l\u00e3 lavada em Portugal.<br \/>O elo inicial da cadeia est\u00e1 em risco \u2014 e com ele, tudo o que vem depois.<\/p>\n<p>Mas o impacto vai al\u00e9m da ind\u00fastria t\u00eaxtil. \u00c9 a perda de todo um ecosistema que vai da l\u00e3 ao leite. \u00c9 toda uma alma de um territ\u00f3rio.<br \/>Sem valoriza\u00e7\u00e3o da l\u00e3, os pastores da Serra da Estrela, os verdadeiros guardi\u00f5es da montanha, ficam sem alternativa vi\u00e1vel para escoar a produ\u00e7\u00e3o.<br \/>A ra\u00e7a Bordaleira da Serra da Estrela, essencial ao queijo DOP, viu o seu n\u00famero cair mais de 90% desde os anos 80.<br \/>Sem animais no terreno, perde-se transum\u00e2ncia, desaparece o pastoreio, e cresce o combust\u00edvel vegetal que alimenta inc\u00eandios.<br \/>Perde-se, aos poucos, a alma da Serra da Estrela \u2014 uma alma feita de l\u00e3, leite e bravura.<\/p>\n<p>E tudo isto porque a l\u00e3 virou problema. Porque \u00e9 mais f\u00e1cil exportar em bruto do que investir em fileiras de valor. Porque se opta por discursos de transi\u00e7\u00e3o ecol\u00f3gica, mas que se bloqueia a regenera\u00e7\u00e3o de cadeias produtivas locais.<\/p>\n<p>E depois?<\/p>\n<p>Depois, ser\u00e1 o queijo.<br \/>Depois, mais desertifica\u00e7\u00e3o.<br \/>Depois, ser\u00e1 a paisagem sem vida.<br \/>Depois, vir\u00e1 a Serra sem neve \u2014 porque, sim, at\u00e9 o clima muda mais depressa do que as decis\u00f5es p\u00fablicas que nos afetam.<\/p>\n<p>H\u00e1 muita coisa em jogo. E parece que n\u00e3o se quer ver. Porque perdemos valor econ\u00f3mico, porque exportamos mat\u00e9ria-prima e importamos produtos transformados fabricados no oriente com l\u00e3 Potuguesa.<br \/>Perdemos valor ambiental, porque promovemos transporte internacional em vez de cadeias de abastecimento\u00a0 curtas.<br \/>Perdemos valor cultural, porque se desmantela o elo que liga o campo \u00e0 ind\u00fastria.<br \/>E, acima de tudo, perdemos valor estrat\u00e9gico: porque deixamos de acreditar no que \u00e9 nosso. E Como se costuma dizer com amargura, mas com alguma verdade \u2014 santos da casa n\u00e3o fazem milagres.<\/p>\n<p>O que \u00e9 preciso? N\u00e3o \u00e9 pedir subs\u00eddios. \u00c9 pedir coer\u00eancia e vis\u00e3o estrat\u00e9gica.<\/p>\n<p>Ligar o \u00fanico lavadouro de l\u00e3s da Pen\u00ednsula Ib\u00e9rica \u00e0 ETAR n\u00e3o \u00e9 apenas um ato t\u00e9cnico. \u00c9 um sinal pol\u00edtico e econ\u00f3mico de quem quer futuro com valor para a l\u00e3 portuguesa.<br \/>\u00c9 garantir que um produto com identidade, rastreabilidade e reconhecimento internacional continue a ser processado em Portugal.<br \/>\u00c9 respeitar quem ficou a guardar a serra quando tantos partiram.<br \/>\u00c9 dar valor a quem cria, transforma e inova.<\/p>\n<p>Portugal tem tudo: o saber, a ind\u00fastria, os criadores, o design, a marca, o nome.<br \/>O que falta, muitas vezes, \u00e9 s\u00f3 mesmo um tubo.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"Lavar c\u00e1 ou l\u00e1? \u00c9 a grande quest\u00e3o. Mas n\u00e3o \u00e9, nem de longe, a \u00fanica. 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