{"id":127158,"date":"2025-10-26T15:12:13","date_gmt":"2025-10-26T15:12:13","guid":{"rendered":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/127158\/"},"modified":"2025-10-26T15:12:13","modified_gmt":"2025-10-26T15:12:13","slug":"joao-queiroz-e-a-invencao-do-ver-opiniao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/127158\/","title":{"rendered":"Jo\u00e3o Queiroz e a inven\u00e7\u00e3o do ver | Opini\u00e3o"},"content":{"rendered":"<p dir=\"ltr\">H\u00e1 tempos, numa entrevista, o cineasta Pedro Costa dizia gostar da ideia de que &#8220;vamos envelhecendo filmando, como se vai envelhecendo pintando&#8221;, para depois acrescentar que tinha &#8220;um grande amigo, um dos maiores artistas portugueses, o pintor Jo\u00e3o Queiroz&#8221;, que estava muito mais avan\u00e7ado do que ele. &#8220;Basta olhar para as pinturas dele. \u00c9 um trabalho completo, inteiro, de procura.&#8221;<\/p>\n<p dir=\"ltr\">Falar da pintura de Jo\u00e3o Queiroz, que morreu nesta semana antes de completar 70 anos, como &#8220;estando mais avan\u00e7ada&#8221;, designadamente por rela\u00e7\u00e3o ao cinema assombroso de <a href=\"https:\/\/www.publico.pt\/2024\/10\/10\/culturaipsilon\/entrevista\/pedro-costa-preciso-manter-fogo-vivo-dias-musica-nao-deixa-apagarse-2107101\" rel=\"nofollow noopener\" target=\"_blank\">Pedro Costa<\/a>, pode parecer um contrassenso. Desde logo porque a obra de Queiroz se dedicou ao que, por facilitismo, podemos classificar como formatos do passado que foram perdendo import\u00e2ncia \u2014 o desenho e a pintura, circunscritos aos limites das folhas de papel e da tela e constru\u00eddos atrav\u00e9s de t\u00e9cnicas e instrumentos tamb\u00e9m eles insens\u00edveis ao tempo (em particular, o carv\u00e3o e a enc\u00e1ustica). E, acima de tudo, porque tematicamente a sua pintura assentou obsessivamente no retrato de paisagens, um g\u00e9nero que na ressaca do naturalismo caiu num certo desuso.<\/p>\n<p dir=\"ltr\">Mas, na verdade, Pedro Costa est\u00e1 certo. Num momento em que h\u00e1 uma propens\u00e3o para a arte promover uma nova ortodoxia, assente num questionamento superficial dos temas do momento, <a href=\"https:\/\/www.publico.pt\/2025\/10\/22\/culturaipsilon\/noticia\/joao-queiroz-19572025-pintor-ajudou-redescobrir-paisagem-2151791\" rel=\"nofollow noopener\" target=\"_blank\">a pintura de Queiroz<\/a> dedicada \u00e0s paisagens demarcou-se, expondo paradoxalmente uma vis\u00e3o mais profunda, menos preocupada em reproduzir, mesmo que transformando, a realidade pr\u00e9via e mais interessada em criar imagens.<\/p>\n<p dir=\"ltr\">Numa longa li\u00e7\u00e3o no CIAC \u2013 Centro de Investiga\u00e7\u00e3o em Arte e Comunica\u00e7\u00e3o, que vale bem a pena ser vista (est\u00e1 dispon\u00edvel no YouTube), Queiroz a certo momento fala da &#8220;inven\u00e7\u00e3o do ver&#8221;, reconhecendo que o que lhe interessava enquanto artista era, no essencial, incitar uma determinada maneira de olhar, em lugar de modificar artisticamente o que j\u00e1 existe.<\/p>\n<p dir=\"ltr\">Esta abordagem n\u00e3o mim\u00e9tica da natureza, constru\u00edda a partir de paisagens imaginadas, tinha implica\u00e7\u00f5es vastas, indissoci\u00e1veis certamente da forma\u00e7\u00e3o de base de Queiroz, que era licenciado em filosofia. A busca da &#8220;subst\u00e2ncia da paisagem&#8221; \u2014 para utilizar o t\u00edtulo que <a href=\"https:\/\/www.publico.pt\/autor\/bernardo-pinto-de-almeida\" rel=\"nofollow noopener\" target=\"_blank\">Bernardo Pinto de Almeida<\/a> deu ao livro dedicado ao pintor, lan\u00e7ado na semana passada \u2014 correspondia em Queiroz a um impulso total, no qual, enquanto implicava o seu pr\u00f3prio corpo na gestualidade de pintar, buscava uma inven\u00e7\u00e3o da natureza, procurando uma paisagem que n\u00e3o era a representa\u00e7\u00e3o pict\u00f3rica de um lugar espec\u00edfico, mas um &#8220;jogo do olhar&#8221;.<\/p>\n<p dir=\"ltr\">N\u00e3o se pense, contudo, que a pintura de Queiroz correspondia a uma rea\u00e7\u00e3o ao movimento de politiza\u00e7\u00e3o identit\u00e1ria da arte contempor\u00e2nea. Mesmo que nos seus quadros fosse poss\u00edvel vislumbrar um certo regresso aos ideais de beleza, emo\u00e7\u00e3o e mist\u00e9rio, a sua arte distanciava-se da est\u00e9tica rom\u00e2ntica que procurava a express\u00e3o sublime da vida interior da natureza, captando a alma da paisagem \u2014 como sugerido por Carus. Na verdade, as paisagens de Queiroz n\u00e3o funcionam como um est\u00edmulo \u00e0 contempla\u00e7\u00e3o, mas, na sua paleta improv\u00e1vel de cores, tratam-se antes de uma afirma\u00e7\u00e3o de que \u00e9 poss\u00edvel &#8220;entrar, sair, saltar&#8221; de um determinado espa\u00e7o. No fundo, a sua pintura abre as portas para uma imagina\u00e7\u00e3o infinita, transformando a forma como nos vemos e ensaiando uma possibilidade de felicidade. E tamb\u00e9m nisso estava &#8220;mais avan\u00e7ado&#8221;. <\/p>\n<p dir=\"ltr\">Que o seu desaparecimento prematuro pelo menos ajude a que, finalmente, um dos maiores pintores portugueses das \u00faltimas d\u00e9cadas se torne mais conhecido.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"H\u00e1 tempos, numa entrevista, o cineasta Pedro Costa dizia gostar da ideia de que &#8220;vamos envelhecendo filmando, como&hellip;\n","protected":false},"author":2,"featured_media":127159,"comment_status":"","ping_status":"","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[144],"tags":[207,205,206,1753,203,201,202,470,315,204,114,115,835,6899,32,33],"class_list":{"0":"post-127158","1":"post","2":"type-post","3":"status-publish","4":"format-standard","5":"has-post-thumbnail","7":"category-arte-e-design","8":"tag-arte","9":"tag-arte-e-design","10":"tag-artedesign","11":"tag-artes","12":"tag-arts","13":"tag-arts-and-design","14":"tag-artsanddesign","15":"tag-cinema","16":"tag-cultura","17":"tag-design","18":"tag-entertainment","19":"tag-entretenimento","20":"tag-opiniao","21":"tag-pintura","22":"tag-portugal","23":"tag-pt"},"share_on_mastodon":{"url":"https:\/\/pubeurope.com\/@pt\/115441116299528018","error":""},"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/127158","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=127158"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/127158\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/media\/127159"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=127158"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=127158"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=127158"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}