{"id":127239,"date":"2025-10-26T16:27:10","date_gmt":"2025-10-26T16:27:10","guid":{"rendered":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/127239\/"},"modified":"2025-10-26T16:27:10","modified_gmt":"2025-10-26T16:27:10","slug":"goncalo-waddington-o-ator-que-ha-30-anos-quase-nao-o-foi-observador","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/127239\/","title":{"rendered":"Gon\u00e7alo Waddington, o ator que h\u00e1 30 anos quase n\u00e3o o foi \u2013 Observador"},"content":{"rendered":"<p><a href=\"https:\/\/observador.pt\/programas\/a-eleio-mais-louca-de-sempre\/\" rel=\"nofollow noopener\" target=\"_blank\">Narrar A Elei\u00e7\u00e3o Mais Louca de Sempre, o novo Podcast Plus do Observador, foi uma aut\u00eantica viagem \u00e0 inf\u00e2ncia<\/a> para Gon\u00e7alo Waddington. Em 1986, ano das primeiras e \u00fanicas elei\u00e7\u00f5es presidenciais decididas a duas voltas, tinha nove anos e lembra-se perfeitamente das muitas discuss\u00f5es familiares sobre a corrida entre M\u00e1rio Soares e Diogo Freitas do Amaral.<\/p>\n<p>\u201cOs meus pais, av\u00f3s paternos e maternos vieram de Mo\u00e7ambique. Eram todos anti-Soares, exceto o meu av\u00f4 materno, que tinha bochechas \u00e0 Soares e tinha um grande apre\u00e7o pela luta antifascista. Acabou ele a rir\u201d, recorda ao Observador. \u201cFoi um fen\u00f3meno popular\u201d e, por isso, o ator ainda tinha presentes alguns detalhes da hist\u00f3ria. Foi preciso depois afinar o tom da narra\u00e7\u00e3o. \u201cTive acesso ao texto completo e li-o uma vez. E depois h\u00e1 o lado t\u00e9cnico, que \u00e9 vir dispon\u00edvel, que \u00e9 o que tento fazer em todos os meus trabalhos.\u201d<\/p>\n<p>\u00c9 a primeira vez que narra um podcast, mas a sua voz \u00e9 reconhec\u00edvel e reconhecida depois de v\u00e1rias d\u00e9cadas de provas dadas no cinema, teatro e televis\u00e3o. Ironicamente, foi precisamente por causa dela, da voz, que foi recusado na Escola Profissional de Teatro de Cascais, aos 16 anos.<\/p>\n<p>\u201cEstavam tr\u00eas pessoas na audi\u00e7\u00e3o. Fal\u00e1mos um bocadinho, mandaram-me ler um texto e a Rosarinho, que era professora de voz, vem ter comigo e diz: \u2018Voc\u00ea n\u00e3o tem voz, n\u00e3o pode ser ator. V\u00e1 para cenografia\u2019. Eu respondi: \u2018Mas isto \u00e9 uma escola, vou aprender, n\u00e3o \u00e9\u2019? N\u00e3o serviu de muito, ela foi perempt\u00f3ria\u201d, conta Gon\u00e7alo Waddington.<\/p>\n<p>Anos mais tarde, os caminhos de ambos voltariam a cruzar-se quando o ator participou numa pe\u00e7a dos Artistas Unidos sobre Adolf Hitler. \u201cEu tinha um mon\u00f3logo, uma coisa enorme de dez p\u00e1ginas. No final de uma sess\u00e3o, veio a Rosarinho ter comigo e disse: \u2018Voc\u00ea tem uma voz incr\u00edvel\u2019. N\u00e3o se lembrava de mim. Ainda pensei que me fosse dizer que se tinha enganado, mas n\u00e3o\u201d, recorda. O ator tamb\u00e9m n\u00e3o viu necessidade de lhe refrescar a mem\u00f3ria. \u201cFoi engra\u00e7ado\u201d, relativiza.<\/p>\n<p>Antes de contarmos a hist\u00f3ria da passagem pela Escola Profissional de Teatro de Cascais, que aconteceu mesmo, e de recuarmos \u00e0s origens, \u00e9 preciso deixar uma corre\u00e7\u00e3o, feita pelo pr\u00f3prio, que admite ter passado 48 anos a pronunciar mal o pr\u00f3prio apelido: Waddington l\u00ea-se \u201cW\u00e9ddington\u201d ou, pelo menos, foi o que lhe garantiram recentemente. \u201cDisseram-me: \u2018Aten\u00e7\u00e3o, que isto diz-se assim \u2018W\u00e9ddington\u2019, como a esta\u00e7\u00e3o de Paddington\u2019. Entretanto pode vir um escoc\u00eas\u00a0dizer que n\u00e3o \u00e9 assim, n\u00e3o sei.\u201d<\/p>\n<p><strong>[o trailer de \u201cA Elei\u00e7\u00e3o Mais Louca de Sempre\u201d:]<\/strong><\/p>\n<p>Gon\u00e7alo Filipe Waddington Marques de Oliveira nasceu em Lisboa a 25 de setembro de 1977, mas mudou-se para a Venezuela com um ano e meio. Os pais trabalhavam em constru\u00e7\u00f5es de barragens, especializados em pinturas anticorrosivas, e nessa fase estavam envolvidos no projeto da barragem de Guri. Teve uma inf\u00e2ncia livre com a rotina de vestir o fato de banho sempre que chegava da escola. No condom\u00ednio, constru\u00eddo para os trabalhadores da barragem, viviam portugueses, brasileiros, americanos e venezuelanos e os mi\u00fados com idades semelhantes juntavam-se todos os dias para brincar.<\/p>\n<p>\u201cUma vez vimos um buraco na veda\u00e7\u00e3o, atravess\u00e1mos e demor\u00e1mos muito tempo, os nossos pais tiveram de ir \u00e0 nossa procura. Est\u00e1vamos num rio a tentar apanhar crocodilos pequenos. N\u00e3o t\u00ednhamos mesmo no\u00e7\u00e3o de que ali haveria coisas maiores e perigosas.\u201d<\/p>\n<p>Regressou a Lisboa com seis anos e a realidade passou a ser \u201csombria\u201d. A fam\u00edlia instalou-se num apartamento na Portela de Sacav\u00e9m \u2014 um de tr\u00eas que o av\u00f4 paterno tinha comprado antes de regressar de Mo\u00e7ambique. \u201cVia-se do aeroporto. Ele chegou de Mo\u00e7ambique e pensou: \u2018Aquilo ali \u00e9 novo, vou comprar\u2019. Numa altura de instabilidade, antes da Revolu\u00e7\u00e3o, foi a forma de salvaguardar algum dinheiro.\u201d<\/p>\n<p>Foi esse o \u00fanico motivo pelo qual foi parar \u00e0 Portela, e n\u00e3o a outro s\u00edtio qualquer. Tudo foi um choque para ele, sobretudo a escola. \u201cVinha de uma escola chamada Col\u00e9gio Positivo, onde mesmo o que era mau era visto com uma perspetiva positiva. Havia teatro e concertos. De repente, chego c\u00e1 e calha-me uma professora salazarista que apontava para a janela e dizia: \u2018Est\u00e3o a ver aquela ponte? Chamam-lhe 25 de Abril, mas \u00e9 a ponte Doutor Oliveira Salazar, que constru\u00edram num dia\u2019.\u201d<\/p>\n<p>Quando chegou, o irm\u00e3o entrou para o quarto ano, o que lhe garantiu, diz Gon\u00e7alo, \u201cter levado porrada [reguadas os professores] s\u00f3 durante um ano\u201d. \u201cTive quatro anos de prim\u00e1ria daquilo, foi horr\u00edvel.\u201d<\/p>\n<p>A irm\u00e3, dez anos mais nova do que Gon\u00e7alo, ainda chegou a viver naquele mesmo bairro, mas pouco depois a fam\u00edlia mudou-se para o Alto da Barra, em Oeiras, e mais tarde para Carcavelos \u2014 a m\u00e3e h\u00e1 muito que queria estar perto do mar.<\/p>\n<p>Passou a adolesc\u00eancia enfiado nas salas de cinema e era s\u00f3cio de todos os clubes de v\u00eddeo da zona. \u201cTinha d\u00edvidas de coisas est\u00fapidas, esquecia-me de devolver os filmes e, depois, como n\u00e3o tinha dinheiro para pagar as multas e tinha medo de pedir aos meus pais, n\u00e3o voltava e inscrevia-me noutro.\u201d<\/p>\n<p>Tinha uma banda com o irm\u00e3o, na qual tocava bateria, mas garante que n\u00e3o era muito talentoso. \u201cToco muito pouco e n\u00e3o sou cantor, apesar de conseguir cantar se tiver um coro ou for devidamente ensaiado.\u201d<\/p>\n<p>O pai estava ligado \u00e0 m\u00fasica e pintava e isso influenciou-o na escolha da \u00e1rea de arte e design no 9.\u00ba ano. Por\u00e9m, tamb\u00e9m \u201cpintava zero\u201d. No liceu de Oeiras, onde estudava, escolheu ent\u00e3o a \u00e1rea de jornalismo, porque gostava de Letras. Estava no 11.\u00ba ano, uma fase que descreve como \u201cn\u00e3o muito feliz\u201d, quando viu um amigo com uma T-shirt da Escola Profissional de Teatro de Cascais. Perguntou o que era e, nesse dia, chegou a casa e disse aos pais que era para l\u00e1 que queria ir.<\/p>\n<p>Desistiu da escola e foi trabalhar o resto do ano letivo (era fim de abril). \u201cTrabalhei no Cascaishopping numa loja de decora\u00e7\u00e3o que se chamava Michele K. Os donos eram uma holandesa e um portugu\u00eas muito porreiros.\u201d<\/p>\n<p>Depois da nega na audi\u00e7\u00e3o para o curso de representa\u00e7\u00e3o, acabou por aceitar ingressar em cenografia na Escola Profissional de Teatro de Cascais. No entanto, recorda, foi gra\u00e7as a outra aluna, Flor, que n\u00e3o desistiu simplesmente da ideia.<\/p>\n<p>\u201cConheci-a no dia em que fui fazer a audi\u00e7\u00e3o. Estava l\u00e1 na vida dela, sempre a cantar, mas desejou-me boa sorte antes de entrar. No final, eu estava l\u00e1 sentado numas escadas, ela perguntou-me como correu e eu disse que n\u00e3o tinha ficado, que me tinham dito para ir para cenografia.\u201d<\/p>\n<p>Flor incentivou-o a aceitar. \u201cDisse-me que no primeiro ano davam interpreta\u00e7\u00e3o, cenografa e luminotecnia e que, se eu mostrasse que era bom, me deixariam trocar para interpreta\u00e7\u00e3o no segundo ano. De facto, tenho de agradecer \u00e0 Flor porque, se n\u00e3o me tivesse cruzado com ela, teria desistido. N\u00e3o sei o que \u00e9 feito dela, n\u00e3o sei se ter\u00e1 sa\u00eddo da \u00e1rea.\u201d<\/p>\n<p>No segundo ano, conseguiu apresentar alguns trabalhos ao encenador Carlos Avilez e deixaram-no mudar para o curso de representa\u00e7\u00e3o. A primeira pe\u00e7a que fez, Portugal, Anos 40 (1996), foi encenada por Avilez, que Waddington sempre admirou. Por\u00e9m, havia incompatibilidades com outros professores e esse foi um dos motivos para ter sa\u00eddo da escola sem terminar o curso. Outro foi fruto do que descobriu na antiga FIL, numa feira dedicada ao ensino, onde muitas escolas tinham bancas para fornecer informa\u00e7\u00f5es. Gon\u00e7alo foi destacado para distribuir flyers e teve a perce\u00e7\u00e3o de algo que talvez tenha determinado o rumo da sua carreira. \u201cDois atores que eu conhecia, que trabalhavam na Cornuc\u00f3pia e noutra companhia, vieram ter comigo e disseram: \u2018Ouve l\u00e1, o que \u00e9 que se passa na vossa escola que, cada vez que fazemos um pedido para virem atores \u00e0s audi\u00e7\u00f5es, nunca mandam ningu\u00e9m\u2019? J\u00e1 tinha havido um filme do Leonardo Vieira, chamado A Sombra dos Abutres, em que s\u00f3 um dos atores da escola foi fazer o casting. Havia preferidos l\u00e1 dentro naquela altura e viemos depois a perceber que muitas companhias ou produtoras de cinema mandavam para l\u00e1 pedidos e eles travavam. Quando sa\u00ed, lembro-me de me terem dito que eu nunca ia trabalhar na \u00e1rea. Mas, se era aquele g\u00e9nero, n\u00e3o queria.\u201d<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"Narrar A Elei\u00e7\u00e3o Mais Louca de Sempre, o novo Podcast Plus do Observador, foi uma aut\u00eantica viagem \u00e0&hellip;\n","protected":false},"author":2,"featured_media":127240,"comment_status":"","ping_status":"","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[142],"tags":[8741,315,114,115,2123,32,33,151],"class_list":{"0":"post-127239","1":"post","2":"type-post","3":"status-publish","4":"format-standard","5":"has-post-thumbnail","7":"category-tv","8":"tag-atores","9":"tag-cultura","10":"tag-entertainment","11":"tag-entretenimento","12":"tag-podcasts","13":"tag-portugal","14":"tag-pt","15":"tag-tv"},"share_on_mastodon":{"url":"https:\/\/pubeurope.com\/@pt\/115441411322827800","error":""},"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/127239","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=127239"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/127239\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/media\/127240"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=127239"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=127239"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=127239"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}