{"id":127904,"date":"2025-10-27T03:51:18","date_gmt":"2025-10-27T03:51:18","guid":{"rendered":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/127904\/"},"modified":"2025-10-27T03:51:18","modified_gmt":"2025-10-27T03:51:18","slug":"saiba-por-que-a-serie-decepciona","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/127904\/","title":{"rendered":"saiba por que a s\u00e9rie decepciona"},"content":{"rendered":"<p>J\u00e1 passou da hora de pararmos com moralismo em torno do \u201ctrue crime\u201d. Existe fascina\u00e7\u00e3o em ler e consumir hist\u00f3rias reais sobre seres humanos que n\u00e3o agem como tal, que cortam, fatiam e esfacelam seus iguais.<\/p>\n<p>Talvez acompanhar produ\u00e7\u00f5es deste tipo fa\u00e7a at\u00e9 as pessoas se sentirem melhor consigo mesmas, um jeito de perceberem que no fim do dia, n\u00e3o s\u00e3o t\u00e3o ruins como pensavam ser. <strong>\u201c\u00c9, sou cheio de defeitos, mas isso eu nunca faria\u201d<\/strong>, diz qualquer um ao assistir a um document\u00e1rio sobre matan\u00e7as e banhos de sangue.<\/p>\n<p>Dito isso, <strong>\u201cMonstro: A Hist\u00f3ria de Ed Gein\u201d<\/strong>, nova s\u00e9rie de Ryan Murphy, dispon\u00edvel na Netflix, traz crime, agora o \u201ctrue\u201d parte (e muito) da boa vontade do interlocutor. <\/p>\n<p>Ap\u00f3s duas temporadas de mesmo nome, <strong>\u201cMonstro\u201d<\/strong> j\u00e1 contou a hist\u00f3ria de Jeffrey Dahmer e com uma segunda (e chat\u00edssima) instala\u00e7\u00e3o sobre os Irm\u00e3os Menendez. Agora, em sua terceira tentativa, chega a sua narrativa mais decepcionante. <\/p>\n<p>A produ\u00e7\u00e3o segue a vida de Ed Gein (vivido por Charlie Hunnam), um dos mais bizarros assassinos norte-americanos, conhecido como o <strong>\u201cA\u00e7ougueiro de Plainfield\u201d<\/strong>, Gein, tinha o h\u00e1bito de exumar corpos no cemit\u00e9rio local e com a pele de mulheres mortas adornar m\u00f3veis, fazer m\u00e1scaras e roupas: sim, o cara vestia pele de cad\u00e1veres. <\/p>\n<p>Algumas coisas s\u00e3o conhecidas sobre a vida de Gein: sua rela\u00e7\u00e3o sufocante com a m\u00e3e e como era um esquisit\u00e3o, solteiro e quase sem amigos, caracter\u00edsticas comuns a alguns serial killers. <\/p>\n<p>A cria\u00e7\u00e3o de um monstro <\/p>\n<p>Murphy mostra um Ed Gein sem muitas ambi\u00e7\u00f5es, o maluco s\u00f3 quer saber mesmo \u00e9 de agradar a m\u00e3e, que morre logo no in\u00edcio da trama. A rela\u00e7\u00e3o entre os dois \u00e9 dominante ao ponto de a matriarca proibir que o filho se relacione com qualquer mulher, pois segundo ela mesma: s\u00e3o seres devassos e sem moral. <\/p>\n<p>Este \u00e9 um ponto interessante da s\u00e9rie, que traz o sexo e a sexualidade como tabus para o protagonista. Gein tem ao mesmo tempo fascina\u00e7\u00e3o e ojeriza ao feminino, o que o torna um ser conflitante, repelido pelas mulheres na vida p\u00fablica e um homem que se veste com as roupas da m\u00e3e em particular. <\/p>\n<p>A partir da\u00ed, Murphy passa para uma narrativa totalmente fantasiosa: Ed Gein \u00e9 mostrado como um aficionado por hist\u00f3rias sobre campos de concentra\u00e7\u00e3o nazistas, em especial sobre Ilse Koch, supervisora do campo de \u00a0Sachsenhausen, que contava a lenda, fazia abajures e mob\u00edlia com a pele de prisioneiros judeus.<\/p>\n<p>O sujeito fica fascinado e dessensibilizado com o sofrimento humano, passa a fantasiar e desejar fazer igual. Pela segunda vez Ed Gein tem como \u00eddolo uma mulher s\u00e1dica. <\/p>\n<p>E este \u00e9 um ponto central. As mulheres aqui s\u00e3o vistas como seres diferentes de humanos comuns. O personagem quer se relacionar com elas, mas tamb\u00e9m ser como elas, pois s\u00e3o criaturas, em sua vis\u00e3o, que cometem o mal sem que ele seja punido. <\/p>\n<p>E mais uma vez, na s\u00e9rie, todo este sentimento desagrad\u00e1vel \u00e9 apenas um reflexo da cria\u00e7\u00e3o do assassino, a culpa \u00e9 sempre da m\u00e3e, nunca do pr\u00f3prio \u201cserial killer\u201d.<\/p>\n<p>Os crimes <\/p>\n<p>Oficialmente, Gein \u00e9 considerado culpado por dois assassinatos. Mas na s\u00e9rie tudo isso fica turvo, o protagonista \u00e9 apontado como poss\u00edvel executor de diversos outros homic\u00eddios. Aqui come\u00e7a uma \u201clicen\u00e7a criativa\u201d de Ryan Murphy que perdura at\u00e9 o final da s\u00e9rie. O diretor quer contar uma hist\u00f3ria, mas n\u00e3o necessariamente a de Gein.<\/p>\n<p>As sequ\u00eancias que mostram as mortes chegam a causar at\u00e9 certa raiva. Gein, no fim da vida, foi diagnosticado com esquizofrenia paranoide, uma desculpa perfeita para que o diretor possa usar e abusar da imagina\u00e7\u00e3o enquanto o assassino tira a vida de suas v\u00edtimas. <\/p>\n<p>Para Murphy, Ed Gein confundia realidade e a fic\u00e7\u00e3o criada por sua pr\u00f3pria mente. Ele n\u00e3o simplesmente mata suas v\u00edtimas, o faz em meio a confete e lantejoulas de uma grande festa frequentada por oficiais da SS, enquanto tenta agradar a voz desencarnada da m\u00e3e morta, \u00e9 pat\u00e9tico. <\/p>\n<p>Fora que antes de matar, Ed Gein, um conhecido solit\u00e1rio, \u00e9 uma esp\u00e9cie de homem irresist\u00edvel para jovens e solteironas, que encontram no rapaz de voz mansa algum tipo de conforto e desejado alvo de conquista sexual, uma chega a se tornar noiva e comparsa do matador em seus crimes, algo digno de aulas de escrita criativa de oitava s\u00e9rie. <\/p>\n<p>Inspira\u00e7\u00e3o<\/p>\n<p>Ed Gein \u00e9 inspira\u00e7\u00e3o para alguns dos mais famosos monstros do cinema de horror: Leatherface (O Massacre da Serra El\u00e9trica), Buffalo Bill (O Sil\u00eancio dos Inocentes) e o mais famoso: Norman Bates, em Psicose. <\/p>\n<p>Isso por conta do h\u00e1bito de retirar a pele das v\u00edtimas, se vestir de mulher e tamb\u00e9m pela rela\u00e7\u00e3o com a m\u00e3e. Essas inspira\u00e7\u00f5es ao cinema s\u00e3o usadas \u00e0 exaust\u00e3o na s\u00e9rie de Ryan Murphy. <\/p>\n<p>Uma hora vemos um homem psic\u00f3tico arrombando t\u00famulos para se vestir com a pele de mortas, para logo depois sermos transportados para uma conversa entre Alfred Hitchock e seus atores em um set de filmagem. \u00c9 cansativo, desnecess\u00e1rio e transforma a s\u00e9rie em uma colcha de retalhos. <\/p>\n<p>Al\u00e9m dos monstros hollywoodianos, Gein tamb\u00e9m se torna na s\u00e9rie uma esp\u00e9cie de \u00eddolo e mentor para outros serial killers, que lhe enviam cartas apaixonadas sobre como ele os inspirou a tirar vidas. A sequ\u00eancia de encerramento entre o A\u00e7ougueiro de Plainfield e seus asseclas \u00e9 hist\u00e9rica e ris\u00edvel. <\/p>\n<p>A \u00fanica coisa aproveit\u00e1vel \u00e9 a \u00f3tima performance de Charlie Hunnam, que eleva seu alcance como ator a outro n\u00edvel para longe dos \u201cbad boys\u201d que costuma encarnar nas grandes telas. Uma pena que seu trabalho seja dilu\u00eddo em uma produ\u00e7\u00e3o t\u00e3o fraca e t\u00e3o sem alma.<\/p>\n<p>No final,<strong> \u201cMonstro: A Hist\u00f3ria de Ed Gein\u201d<\/strong>, \u00e9 apenas fic\u00e7\u00e3o ruim. E se como hist\u00f3ria inventada n\u00e3o presta, como true crime \u00e9 simplesmente uma cat\u00e1strofe. <\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"J\u00e1 passou da hora de pararmos com moralismo em torno do \u201ctrue crime\u201d. 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