{"id":12860,"date":"2025-08-02T12:06:17","date_gmt":"2025-08-02T12:06:17","guid":{"rendered":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/12860\/"},"modified":"2025-08-02T12:06:17","modified_gmt":"2025-08-02T12:06:17","slug":"mau-acordo-da-ue-com-os-eua-sinaliza-um-problema-mais-profundo-trump-esta-a-fazer-o-maior-favor-estrategico-a-china","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/12860\/","title":{"rendered":"Mau acordo&#8221; da UE com os EUA sinaliza um problema mais profundo: &#8220;Trump est\u00e1 a fazer o maior favor estrat\u00e9gico \u00e0 China"},"content":{"rendered":"<p>\t                ENTREVISTA || Face \u00e0 incerteza lan\u00e7ada por Donald Trump, &#8220;era necess\u00e1rio que a Uni\u00e3o Europeia pudesse gerar certezas&#8221;, e foi por isso que fechou o acordo que prev\u00ea tarifas de 15% sobre a maioria dos produtos que exporta para os EUA. Para Manuel Caldeira Cabral, antigo ministro da Economia, Bruxelas teve &#8220;pragmatismo&#8221; a lidar com &#8220;o bully americano&#8221;, mas tamb\u00e9m houve &#8220;alguma capitula\u00e7\u00e3o&#8221;, nomeadamente no que toca \u00e0 compra de armamento aos americanos, dado o qu\u00e3o &#8220;determinante&#8221; continua a ser o apoio dos EUA \u00e0 Ucr\u00e2nia<\/p>\n<p>\u00c9 preciso esperar para conhecer todos os detalhes do acordo escrito que a administra\u00e7\u00e3o Trump e a comiss\u00e3o Von der Leyen anunciaram no in\u00edcio da semana. Por agora, a guerra comercial parece ter acabado e as tarifas de 15% que deveriam ter entrado em vigor na sexta-feira foram adiadas para a pr\u00f3xima semana.<\/p>\n<p>Contas feitas, defende Caldeira Cabral, em entrevista \u00e0 CNN Portugal, este acordo \u00e9 s\u00f3 mais um exemplo do comportamento &#8220;extremamente destrutivo e negativo para o mundo ocidental&#8221;, que &#8220;em poucos meses&#8221; escancarou as portas do mundo inteiro a Pequim.\u00a0&#8220;Se os EUA saem do jogo, perdem por falta de compar\u00eancia e o que isto vai fazer \u00e9 facilitar a vida \u00e0 China.&#8221;<\/p>\n<p><strong>Falando deste acordo que acaba de ser alcan\u00e7ado \u2013 foi pragmatismo ou capitula\u00e7\u00e3o da Uni\u00e3o Europeia?<\/strong><\/p>\n<p>Estranhamente, \u00e9 um pouco das duas coisas. Por um lado, pragmatismo de uma Uni\u00e3o Europeia (UE) que exporta muito mais bens do que importa aos EUA e que tem na exporta\u00e7\u00e3o de bens uma parte importante da sua economia, incluindo economias como a alem\u00e3, que s\u00e3o fortes exportadoras e que t\u00eam no mercado americano o seu principal mercado. Nesse aspeto, era necess\u00e1rio que, face \u00e0 incerteza lan\u00e7ada por Trump, pudesse haver alguma capacidade da UE para gerar certezas. E cheg\u00e1mos a um acordo que n\u00e3o \u00e9 bom, mas que \u00e9 certo que pode ser melhor do que acordo nenhum, dada a incerteza que isso gera no investimento e em tudo o resto.\u00a0<\/p>\n<p>Da parte de Trump estamos diante de um pragmatismo pouco pragm\u00e1tico e economicamente desastroso, n\u00e3o apenas com a UE mas com todo o mundo. N\u00e3o podemos lidar com o bully americano com este n\u00edvel de incerteza e o pragmatismo da UE vem permitir alguma estabilidade atrav\u00e9s de um acordo que \u00e9 um mau acordo para os dois lados.<\/p>\n<p><strong>N\u00e3o s\u00e3o s\u00f3 os europeus que perdem com este acordo?<\/strong><\/p>\n<p>Claro. A ideia de que os EUA ganham e que a UE perde n\u00e3o \u00e9 verdade, ambos perdem com as tarifas e principalmente com uma subida t\u00e3o forte das tarifas. Lembro que a tarifa m\u00e9dia entre EUA e UE era de cerca de 2%, 2,5% e s\u00f3 havia um conjunto pequeno de produtos cujas tarifas tinham subido para 10%. Com Trump agora vai para os 15% e depois teremos de ver os pormenores do acordo, nomeadamente se no setor autom\u00f3vel e no a\u00e7o se mant\u00eam as tarifas de 25%. Vamos ter esta tarifa geral de 15%, mas que eventualmente poder\u00e1 ser ainda maior, e isso tem um impacto grande no com\u00e9rcio que \u00e9 claramente negativo. Mas, no fundo, tivemos pragmatismo no sentido em que, entre o mau e o p\u00e9ssimo, ficou-se no mau, no muito mau, mas pelo menos evitou-se o p\u00e9ssimo.<\/p>\n<p> <img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" alt=\"\" height=\"399\" src=\"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-content\/uploads\/2025\/08\/688c93bad34ef72ee448fcce.webp\" width=\"600\"\/> <\/p>\n<p>   Para Caldeira Cabral, que foi ministro da Economia de Portugal entre 2015 e 2018, a UE teve &#8220;pragmatismo no sentido em que, entre o mau e o p\u00e9ssimo, ficou-se no mau&#8221;; o acordo alcan\u00e7ado \u00e9 &#8220;muito mau, mas pelo menos evitou-se o p\u00e9ssimo&#8221;\u00a0foto:\u00a0Zoltan Balogh\/MTI via AP <\/p>\n<p><strong>E onde v\u00ea o reverso da medalha, a dita capitula\u00e7\u00e3o da Uni\u00e3o Europeia?<\/strong><\/p>\n<p>Houve alguma capitula\u00e7\u00e3o mais na parte das compras militares, e essa capitula\u00e7\u00e3o tem a ver com a vulnerabilidade na \u00e1rea da Defesa, em que a UE precisa dos EUA. H\u00e1 aqui uma certa capitula\u00e7\u00e3o no sentido de aceitar um acordo de compra de armamento em troca de manuten\u00e7\u00e3o de uma promessa dos EUA.<\/p>\n<p><strong>Fala da Ucr\u00e2nia?<\/strong><\/p>\n<p>Sim, quando na verdade, no \u00e2mbito da NATO, j\u00e1 existe um acordo entre todos os Estados-membros sobre defesa m\u00fatua, mas os EUA puseram a coisa nos termos de \u201cs\u00f3 mantemos [o apoio \u00e0 Ucr\u00e2nia] se nos comprarem mais armas\u201d. Isto, ali\u00e1s, \u00e9 tamb\u00e9m um pouco estranho, porque dentro do acordo da NATO, a Europa tem sempre feito grande parte das suas compras de armamento aos EUA, os EUA j\u00e1 beneficiavam muito com isso.<\/p>\n<p>No que toca \u00e0 Ucr\u00e2nia, os EUA tiveram uma viragem de 180 graus. Inicialmente pareciam estar a alinhar mais com Putin com vista a um acordo de paz que previa uma capitula\u00e7\u00e3o da Ucr\u00e2nia \u00e0s condi\u00e7\u00f5es da R\u00fassia, incluindo a ced\u00eancia de territ\u00f3rio. Trump foi ing\u00e9nuo, diz-se um grande negociador que imp\u00f5e as suas condi\u00e7\u00f5es, mas basicamente Putin n\u00e3o fez o que ele queria, e a paz que Trump disse que acontecia em 24 horas n\u00e3o aconteceu, nem est\u00e1 na perspetiva de acontecer. E nesse sentido a Europa conseguiu assegurar uma posi\u00e7\u00e3o em que os EUA est\u00e3o outra vez abertos a fornecer armamento \u00e0 Ucr\u00e2nia, o que muda um pouco os termos deste conflito. Ainda que, sendo Trump, isto s\u00f3 dura enquanto durar.<\/p>\n<p><strong>N\u00e3o ter\u00e1 sido uma coincid\u00eancia que a postura de Trump face \u00e0 R\u00fassia e \u00e0 Ucr\u00e2nia tenha aparentemente mudado horas depois de este acordo comercial com a UE ter sido anunciado\u2026<\/strong><\/p>\n<p>N\u00e3o. Temos de ver se isto far\u00e1 parte do acordo escrito ou n\u00e3o, mas o facto \u00e9 que, com os EUA do lado da Ucr\u00e2nia, Putin estar\u00e1 a manter uma guerra em que dificilmente poder\u00e1 avan\u00e7ar muito. Mesmo que consiga manter-se [nos territ\u00f3rios ocupados] dificilmente poder\u00e1 ter a supremacia militar que lhe permita conquistar toda a Ucr\u00e2nia. Com os EUA na posi\u00e7\u00e3o em que estavam inicialmente com Trump, penso que Putin tinha a esperan\u00e7a de que os EUA abandonassem a Ucr\u00e2nia \u2013 o que significaria que, mesmo com algum apoio europeu, a Ucr\u00e2nia n\u00e3o poderia sustentar a sua posi\u00e7\u00e3o por muito tempo.<\/p>\n<p>Isto \u00e9 um aspeto importante, a defesa da Ucr\u00e2nia, que \u00e9 a defesa de um pa\u00eds que foi invadido por outro para conquista de territ\u00f3rio, uma coisa que, de facto, n\u00e3o acontecia nem era tolerado desde a II Guerra Mundial, porque toler\u00e1-lo abriria a porta a uma enorme instabilidade, a um regresso \u00e0 l\u00f3gica preponderante do s\u00e9culo XIX, sob a qual os pa\u00edses poderosos invadiam e anexavam territ\u00f3rio dos vizinhos mais pequenos apenas porque tinham for\u00e7a para isso. No caso da Europa em concreto, a Ucr\u00e2nia ser militarmente derrotada pela R\u00fassia significaria que a fronteira direta da UE passaria a ser a pr\u00f3xima frente de batalha, o pr\u00f3ximo territ\u00f3rio que Putin poderia resolver conquistar. O apoio dos EUA \u00e9, de facto, determinante e \u00e9 nesse sentido que houve capitula\u00e7\u00e3o da UE com este acordo \u2013 porque a UE n\u00e3o tem alternativa.<\/p>\n<p><strong>Atrav\u00e9s disto, Trump tem conseguido reescrever as regras do com\u00e9rcio mundial e da economia global. Num <a href=\"https:\/\/www.ft.com\/content\/11aa3964-5460-405f-981b-9d284f5de354\" target=\"_blank\" rel=\"nofollow noopener\">editorial<\/a> esta semana, o Financial Times dizia que o Presidente americano \u201cinaugurou uma nova era em que o p\u00e2nico, e n\u00e3o a pol\u00edtica, \u00e9 que dirige o sistema de com\u00e9rcio global\u201d e que esta capitula\u00e7\u00e3o da UE \u2013 sendo a UE o maior mercado mundial de consumidores\u00a0\u2013 \u201cdeu aval \u00e0 nova ordem mundial implementada por Trump\u201d. Partilha desta vis\u00e3o?<\/strong><\/p>\n<p>Concordo que, de facto, perante a instabilidade de Trump, a UE aceitou um mau acordo, porque um mau acordo \u00e9 melhor do que acordo nenhum. Agora o que n\u00e3o aceito \u00e9 que se diga que \u00e9 mau s\u00f3 para a UE, como j\u00e1 disse tamb\u00e9m o \u00e9 para os EUA. Os americanos v\u00e3o ser t\u00e3o prejudicados e, nalguns casos, at\u00e9 mais prejudicados por este mau acordo do que os europeus. Os consumidores americanos v\u00e3o passar a ter produtos mais caros e v\u00e3o ter de consumir produtos nacionais de pior qualidade face a produtos europeus de melhor qualidade.<\/p>\n<p>E os EUA n\u00e3o est\u00e3o apenas a fazer estes maus acordos com a Europa, mas tamb\u00e9m com o M\u00e9xico, o Canad\u00e1 e outros pa\u00edses do mundo e isso vai prejudicar os cidad\u00e3os americanos. \u00c9 mau para todos. O com\u00e9rcio quando \u00e9 bom \u00e9 bom para todos, mas quando \u00e9 mau \u00e9 mau para todos. E quando \u00e9 que \u00e9 bom? Quando as trocas s\u00e3o volunt\u00e1rias. Em teoria, n\u00f3s s\u00f3 vamos comprar aos EUA coisas que achamos que os EUA produzem melhor e eles s\u00f3 compram \u00e0 UE produtos que tenham mais qualidade e\/ou melhor pre\u00e7o. Nesse sentido, vai ser uma perda para todos esses consumidores.<\/p>\n<p>Em termos geoestrat\u00e9gicos, os EUA sob Donald Trump est\u00e3o a ter uma pol\u00edtica que, internamente, divide, e que, externamente, os separa dos seus aliados, pondo em causa as rela\u00e7\u00f5es com o Canad\u00e1, o M\u00e9xico e a UE, enfraquecendo o mundo ocidental, que era um mundo onde era a Am\u00e9rica que liderava. A Am\u00e9rica claramente liderava o mundo ocidental e poderia ter continuado a liderar, sendo que o peso desse mundo ocidental \u00e9 muito maior do que o peso dos EUA apenas, por oposi\u00e7\u00e3o ao peso que a China tem hoje no mundo.<\/p>\n<p> <img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" alt=\"\" height=\"400\" src=\"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-content\/uploads\/2025\/08\/6841adf8d34ef72ee446dc8d.webp\" width=\"600\"\/> <\/p>\n<p>   &#8220;A China n\u00e3o \u00e9 obrigatoriamente um pa\u00eds inimigo, mas \u00e9 um rival econ\u00f3mico e agora tem a oportunidade de dominar porque os EUA est\u00e3o a sair de cena ou a impor tarifas aos aliados ou a ser completamente inst\u00e1veis&#8221; foto: AP <\/p>\n<p>A quest\u00e3o \u00e9 que, para al\u00e9m de criar uma enorme inefici\u00eancia e comprometer o crescimento econ\u00f3mico e a riqueza em todo este espa\u00e7o ocidental, esta pol\u00edtica de desintegra\u00e7\u00e3o em rela\u00e7\u00e3o ao mercado \u00fanico europeu e \u00e0 NAFTA tamb\u00e9m enfraquece o mundo ocidental face \u00e0 China. E faz tamb\u00e9m com que outros pa\u00edses do mundo, como \u00e9 o caso das na\u00e7\u00f5es da Am\u00e9rica Latina e de \u00c1frica \u2013 como quando <a href=\"https:\/\/cnnportugal.iol.pt\/usaid\/elon-musk\/fim-de-uma-era-musk-diz-que-trump-concorda-que-a-usaid-tem-de-ser-encerrada\/20250203\/67a0894ad34e3f0bae99f4e5\" target=\"_blank\" rel=\"nofollow noopener\">decidiu acabar com o USAID<\/a> \u2013 que at\u00e9 hoje contavam com os EUA, passem a contar mais com a China. O que Trump fez nestes poucos meses foi <a href=\"https:\/\/cnnportugal.iol.pt\/admiravel-mundo-trump\/donal-trump\/foram-necessarios-250-anos-para-construir-o-que-trump-esta-a-tentar-destruir\/20250607\/683c8d49d34e3f0bae9edfa2\" target=\"_blank\" rel=\"nofollow noopener\">extremamente destrutivo e negativo<\/a> para o mundo ocidental, para a confian\u00e7a dos aliados. Trump firmou uma perda de valor para o mundo ocidental e f\u00ea-lo numa l\u00f3gica que ele pr\u00f3prio defende de rivalidade com a China, quando na verdade est\u00e1 a fazer o maior favor estrat\u00e9gico \u00e0 China.<\/p>\n<p>Se os EUA saem do jogo, perdem por falta de compar\u00eancia e o que isto vai fazer \u00e9 facilitar a vida \u00e0 China. A China n\u00e3o \u00e9 obrigatoriamente um pa\u00eds inimigo, mas \u00e9 um rival em termos econ\u00f3micos e agora tem a oportunidade de dominar porque os EUA est\u00e3o a sair de cena ou a impor tarifas aos aliados ou a ser completamente inst\u00e1veis.<\/p>\n<p><strong>H\u00e1 quem argumente que, apesar de tudo, estamos diante de uma boa jogada da UE. Numa <a href=\"https:\/\/cnnportugal.iol.pt\/donald-trump-acordo-comercial-escocia\/gaza-fome-ucrania-guerra-putin\/trump-divertiu-se-a-mostrar-que-aparentemente-ele-manda-e-a-europa-curva-se-mas-os-europeus-sao-mais-subtis-do-que-ele-pensa\/20250729\/6888da6ad34ef72ee448dda5\" target=\"_blank\" rel=\"nofollow noopener\">an\u00e1lise ao acordo<\/a> anunciado, a CNN Internacional dizia no in\u00edcio da semana que o bloco europeu est\u00e1 a jogar a longo prazo e que \u00e9 mais subtil do que a administra\u00e7\u00e3o Trump julga. Concorda?<\/strong><\/p>\n<p>Sim. E penso que, enquanto faz este acordo, a UE deve ao mesmo tempo manter os esfor\u00e7os para ter uma ind\u00fastria de defesa mais aut\u00f3noma. H\u00e1 quem olhe para este acordo como comprometendo um pouco esta ideia de autonomia na defesa europeia, porque continua a depender dos EUA. Mas ter um acordo de compra de armamento n\u00e3o tem de comprometer a ideia de a UE desenvolver a sua pr\u00f3pria ind\u00fastria de armamento, que se torne aut\u00f3noma e independente dos EUA. \u00c9 a\u00ed que entram as nuances deste acordo. Mesmo comprando armas aos EUA para ajudar a Ucr\u00e2nia, devemos continuar os esfor\u00e7os para desenvolver a nossa pr\u00f3pria capacidade industrial militar e a nossa capacidade de inova\u00e7\u00e3o e com isso come\u00e7ar a ter uma maior autonomia nas capacidades de defesa.<\/p>\n<p>E depois h\u00e1 outra coisa. Repare no que \u00e9 que vemos hoje na guerra da Ucr\u00e2nia, por exemplo. Vemos a R\u00fassia a usar drones do Ir\u00e3o, a Ucr\u00e2nia com alguns drones comprados \u00e0 Turquia\u2026 Em algumas \u00e1reas concretas, os Estados Unidos j\u00e1 n\u00e3o s\u00e3o obrigatoriamente o melhor fornecedor de armamento hoje em dia. E o que a UE tem de garantir \u00e9 que, daqui a 10 ou 15 anos, as pessoas venham comprar equipamento militar europeu porque \u00e9 o melhor do mundo. J\u00e1 temos muitas empresas capazes de fazer os melhores autom\u00f3veis do mundo, por exemplo, e temos melhores vis\u00f5es do mundo, por exemplo comerciais, pelo que poderemos facilmente, se soubermos liderar este processo de uma forma interessante, conseguir ter esta capacidade de lideran\u00e7a em muitas \u00e1reas.<\/p>\n<p><strong>O que \u00e9 preciso fazer para alcan\u00e7ar essa posi\u00e7\u00e3o de lideran\u00e7a?<\/strong><\/p>\n<p>Temos de fazer duas coisas: investir na ind\u00fastria do armamento, mas em primeiro lugar investir na inova\u00e7\u00e3o, e uma parte dela em \u00e1reas ligadas \u00e0 defesa. Isso \u00e9 de facto algo que \u00e9 importante, porque \u00e9 muito mais pela inova\u00e7\u00e3o que a Europa pode liderar na \u00e1rea da defesa e tamb\u00e9m nas chamadas \u00e1reas de duplo uso, que servem a defesa e outros setores, mais do que pensar que \u00e9 s\u00f3 apoiando ou comprando aos outros.<\/p>\n<p>H\u00e1 uma \u00e1rea muito importante que \u00e9 muitas vezes esquecida e na qual a Europa e Portugal tamb\u00e9m j\u00e1 est\u00e3o a ser atacados pela R\u00fassia. A Ucr\u00e2nia \u00e9 atacada por terra, por ar e por mar, e Portugal n\u00e3o est\u00e1 a ser atacado por terra, por ar ou por mar, mas est\u00e1 a ser atacado no ciberespa\u00e7o. A ciberseguran\u00e7a e a capacidade de defesa nessa \u00e1rea \u00e9 hoje crucial, at\u00e9 porque a ciberseguran\u00e7a n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 virtual, \u00e9 a seguran\u00e7a de todos os equipamentos cr\u00edticos e de \u00e1reas cr\u00edticas como a defesa. Se falharmos na ciberseguran\u00e7a, essas \u00e1reas s\u00e3o comprometidas e a Europa tem de dar muito mais aten\u00e7\u00e3o a isso, a Europa e cada Estado-membro. E em todas as outras \u00e1reas \u00e9 igualmente importante que haja um refor\u00e7o muito forte da inova\u00e7\u00e3o, a capacidade de criar novas solu\u00e7\u00f5es, que \u00e9 algo que tem de ser feito com investiga\u00e7\u00e3o, com investimento direto na ind\u00fastria, com investimento em startups que j\u00e1 t\u00eam solu\u00e7\u00f5es completamente novas\u2026<\/p>\n<p> <img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" alt=\"\" height=\"400\" src=\"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-content\/uploads\/2025\/08\/673f2ee2d34ea1acf270e25e.webp\" width=\"600\"\/> <\/p>\n<p>   &#8220;J\u00e1 estamos a ver agora na Ucr\u00e2nia drones que custam menos de mil euros a produzir a destruir equipamentos que custam centenas de milh\u00f5es&#8221;\u00a0foto:\u00a0MNE russo via AP <\/p>\n<p>A verdade \u00e9 que a guerra daqui a 10, 15 anos vai ser feita de uma forma completamente diferente e alguns dos equipamentos muito caros podem tornar-se totalmente obsoletos em poucos anos. Pode haver equipamentos fabricados em massa com capacidade mais vers\u00e1til e em grande escala, que representem uma muito maior e mais forte capacidade de defesa. Ali\u00e1s, j\u00e1 estamos a ver agora na Ucr\u00e2nia drones que custam menos de mil euros a produzir a destruir equipamentos que custam centenas de milh\u00f5es.<\/p>\n<p><strong>Os processos na UE tendem a ser mais longos e complexos do que nos EUA e, para al\u00e9m de potenciais obst\u00e1culos judiciais, ser\u00e1 necess\u00e1rio que o Conselho e o Parlamento Europeu aprovem este acordo comercial. V\u00ea alguma possibilidade de isto n\u00e3o avan\u00e7ar?<\/strong><\/p>\n<p>N\u00e3o. O acordo avan\u00e7ar\u00e1. O importante aqui s\u00e3o estas caracter\u00edsticas estranhas que Trump trouxe ao mundo, em que faz acordos pelo Twitter, que agora se chama X. Os acordos comerciais sempre envolveram negocia\u00e7\u00f5es longas, porque s\u00e3o muito complexos. H\u00e1 produtos que s\u00e3o parcialmente fabricados num pa\u00eds e depois saem para outra fase de produ\u00e7\u00e3o noutro pa\u00eds e depois voltam ao seu pa\u00eds de origem. E depois h\u00e1 sempre exce\u00e7\u00f5es para produtos de valor acrescentado nacional, produtos que s\u00e3o de categorias semelhantes, mas com ligeiras diferen\u00e7as, componentes para fabrico de produtos finais\u2026<\/p>\n<p>A forma como os EUA e como Trump t\u00eam negociado os acordos \u00e9 extremamente irrespons\u00e1vel, n\u00e3o s\u00f3 por esta quest\u00e3o do deteriorar das rela\u00e7\u00f5es com pa\u00edses que t\u00eam sido aliados nas \u00faltimas d\u00e9cadas, mas tamb\u00e9m face \u00e0 pr\u00f3pria ind\u00fastria americana. Um industrial americano que importa componentes para fabricar produtos de repente andou nestes \u00faltimos meses sem saber se vai ter uma tarifa de 10% ou de 25% ou de 15% e isso cria uma situa\u00e7\u00e3o muito complicada.<\/p>\n<p>Normalmente, os acordos feitos pela UE, por ser composta por muito pa\u00edses, envolvem sempre negocia\u00e7\u00f5es mais longas, tem de se ver o detalhe de cada tarifa para cada produto, fazer a diferencia\u00e7\u00e3o, ver as regras t\u00e9cnicas&#8230; Donald Trump achou que se devia fazer negocia\u00e7\u00f5es de com\u00e9rcio desta maneira bastante ins\u00f3lita, mas que tem a ver com a forma como todos os EUA est\u00e3o a ser geridos neste momento.<\/p>\n<p>Os europeus devem perceber de uma forma muito clara que eleger pessoas radicais e que se afirmam no poder de uma forma destrutiva \u2013 dizendo-se contra isto e contra aquilo, que n\u00e3o t\u00eam nenhum programa positivo atrav\u00e9s do qual querem fazer o bem para a sociedade \u2013 \u00e9 uma ideia muito m\u00e1 e muito perigosa. O problema com estas pessoas, que \u00e9 o que se est\u00e1 a ver com Trump, \u00e9 que depois fazem o que disseram que iam fazer. E com Trump nada \u00e9 pensado, da\u00ed anunciar uma coisa num dia, depois adiar por 90 dias e depois aplicar outra coisa completamente diferente. \u00c9 navega\u00e7\u00e3o \u00e0 vista em coisas que t\u00eam impacto nos mercados e nos investimentos, mas tamb\u00e9m na vida das pessoas. Demonstra uma enorme irresponsabilidade, mas \u00e9 basicamente Donald Trump a ser Donald Trump.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"ENTREVISTA || Face \u00e0 incerteza lan\u00e7ada por Donald Trump, &#8220;era necess\u00e1rio que a Uni\u00e3o Europeia pudesse gerar certezas&#8221;,&hellip;\n","protected":false},"author":2,"featured_media":12861,"comment_status":"","ping_status":"","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[50],"tags":[2862,609,836,611,5353,27,28,607,608,333,832,604,2537,135,610,92,476,15,16,301,830,889,14,2172,603,25,26,570,21,22,831,833,62,834,12,13,19,20,835,602,52,32,23,24,839,717,17,18,1977,29,30,31,63,64,65],"class_list":{"0":"post-12860","1":"post","2":"type-post","3":"status-publish","4":"format-standard","5":"has-post-thumbnail","7":"category-mundo","8":"tag-acordo-comercial","9":"tag-alerta","10":"tag-analise","11":"tag-ao-minuto","12":"tag-armamento","13":"tag-breaking-news","14":"tag-breakingnews","15":"tag-cnn","16":"tag-cnn-portugal","17":"tag-comentadores","18":"tag-costa","19":"tag-crime","20":"tag-defesa","21":"tag-desporto","22":"tag-direto","23":"tag-donald-trump","24":"tag-economia","25":"tag-featured-news","26":"tag-featurednews","27":"tag-governo","28":"tag-guerra","29":"tag-guerra-na-ucrania","30":"tag-headlines","31":"tag-inovacao","32":"tag-justica","33":"tag-latest-news","34":"tag-latestnews","35":"tag-live","36":"tag-main-news","37":"tag-mainnews","38":"tag-mais-vistas","39":"tag-marcelo","40":"tag-mundo","41":"tag-negocios","42":"tag-news","43":"tag-noticias","44":"tag-noticias-principais","45":"tag-noticiasprincipais","46":"tag-opiniao","47":"tag-pais","48":"tag-politica","49":"tag-portugal","50":"tag-principais-noticias","51":"tag-principaisnoticias","52":"tag-russia","53":"tag-tarifas","54":"tag-top-stories","55":"tag-topstories","56":"tag-ue","57":"tag-ultimas","58":"tag-ultimas-noticias","59":"tag-ultimasnoticias","60":"tag-world","61":"tag-world-news","62":"tag-worldnews"},"share_on_mastodon":{"url":"","error":""},"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/12860","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=12860"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/12860\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/media\/12861"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=12860"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=12860"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=12860"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}