{"id":129611,"date":"2025-10-28T10:02:16","date_gmt":"2025-10-28T10:02:16","guid":{"rendered":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/129611\/"},"modified":"2025-10-28T10:02:16","modified_gmt":"2025-10-28T10:02:16","slug":"de-criminosos-tolerados-a-patrimonio-cultural","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/129611\/","title":{"rendered":"De Criminosos Tolerados a Patrim\u00f4nio Cultural"},"content":{"rendered":"<p>O historiador S\u00e9rgio Lu\u00eds de Carvalho tem vindo a publicar v\u00e1rios retratos de Lisboa; seis livros at\u00e9 h\u00e1 pouco,\u00a0e\u00a0recentemente mais um volume:\u00a0Lisboa Fadista. Se antes, o perfil desta cole\u00e7\u00e3o\u00a0era mais hist\u00f3rico \u2013Lisboa Nazi, Judaica, \u00c1rabe, Africana\u00a0e\u00a0Ma\u00e7\u00f3nica\u00a0-, no\u00a0entanto <strong>j\u00e1\u00a0existia o\u00a0<\/strong><strong>Lisboa Maldita<\/strong><strong>\u00a0e\u00a0agora\u00a0este\u00a0<\/strong><strong>Lisboa Fadista<\/strong>\u00a0n\u00e3o \u00e9 um\u00a0fait-divers, afinal o fado \u00e9 desde 2011 Patrim\u00f3nio Cultural Imaterial da Humanidade declarado pela UNESCO.<\/p>\n<p>Quando se confronta o autor com\u00a0esta nova op\u00e7\u00e3o, a do Fado, n\u00e3o concorda que\u00a0esta seja uma investiga\u00e7\u00e3o desnecess\u00e1ria, nem distante do\u00a0esp\u00edrito da s\u00e9rie: \u201cN\u00e3o sei se podemos dizer que\u00a0este volume \u00e9 menos hist\u00f3rico que os anteriores. O Fado \u00e9 um fen\u00f3meno\u00a0em si mesmo,\u00a0e\u00a0o facto de ser t\u00e3o associado a uma cidade\u00a0espec\u00edfica, merece\u00a0estudo\u00a0e\u00a0reflex\u00e3o, para melhor se perceber quer o Fado-fen\u00f3meno, quer a cidade que o gerou. Sinceramente -e\u00a0posso\u00a0estar\u00a0enganado &#8211; <strong>n\u00e3o conhe\u00e7o nenhuma outra cidade que tenha gerado um tipo pr\u00f3prio de m\u00fasica\/can\u00e7\u00e3o, com caracter\u00edsticas t\u00e3o marcantes\u00a0e\u00a0t\u00e3o vincadas.<\/strong> Mais uma vez,\u00a0esta \u00e9 uma Hist\u00f3ria de Lisboa &#8211; como os demais livros foram &#8211; atrav\u00e9s de uma m\u00fasica\/can\u00e7\u00e3o \u00fanica\u00a0e\u00a0aut\u00f3ctone.\u201d<\/p>\n<p>Quando se lhe pergunta se ficou satisfeito com as fontes que\u00a0encontrou para\u00a0esta investiga\u00e7\u00e3o ou se considera que ainda ficaram mist\u00e9rios por\u00a0esclarecer, o autor responde: <strong>\u201cAntes de mais, temos o mist\u00e9rio das origens do Fado.\u00a0Esse \u00e9 o grande mist\u00e9rio<\/strong>. Fora isso, h\u00e1 hoje material suficiente para abordarmos, sem grandes d\u00favidas, o desenvolvimento do Fado a partir da primeira metade de oitocentos, desde as origens mais populares at\u00e9 \u00e0 sua lenta aceita\u00e7\u00e3o social. Note-se que, a partir dessa altura, h\u00e1 muitos registos\u00a0escritos, fonogr\u00e1ficos\u00a0e\u00a0mais tarde videogr\u00e1ficos, o que ajuda imenso.\u201d<\/p>\n<p><strong>S\u00e3o v\u00e1rias as teses sobre a origem do Fado\u00a0e\u00a0at\u00e9 agora foi imposs\u00edvel determinar\u00a0exatamente qual \u00e9 a mais correta ou se\u00a0existir\u00e1 outra que ser\u00e1 verdadeira.<\/strong> S\u00e9rgio Lu\u00eds de Carvalho considera que\u00a0existe um trio de\u00a0explica\u00e7\u00f5es com mais for\u00e7a\u00a0entre todas as outras: \u201cNo primeiro cap\u00edtulo, intitulado Gesta\u00e7\u00e3o, aponto as tr\u00eas teses mais divulgadas\u00a0e\u00a0debatidas. A tese de Rui Vieira Nery, que filia a origem do Fado nas m\u00fasicas\u00a0e\u00a0dan\u00e7as africanas\/bras\u00edlicas, com destaque para o lundum. A tese de Jos\u00e9 Alberto Sardinha, que filia a origem do Fado na tradi\u00e7\u00e3o trovadoresca portuguesa, tradi\u00e7\u00e3o\u00a0essa que se mant\u00e9m nos posteriores cantadores ambulantes. A tese &#8211; ainda que hoje menos aceite &#8211; que filia o Fado nas cantilenas\u00a0e\u00a0na tradi\u00e7\u00e3o musical \u00e1rabe, da qual o arabista Adalberto Alves \u00e9 um dos defensores. <strong>Creio que nunca se chegar\u00e1 a uma resposta definitiva, pois\u00a0estamos a falar de uma longa tradi\u00e7\u00e3o, que se perde na noite dos tempos<\/strong>, trazida pelas vozes\u00a0e\u00a0pela mem\u00f3ria de muita gente sem rosto, mas com voz.\u201d<\/p>\n<p>Para o investigador \u00e9 dif\u00edcil separar\u00a0entre as v\u00e1rias \u00e9pocas\u00a0e\u00a0caracter\u00edsticas da cronologia fadista a fase mais interessante: \u201cNa minha opini\u00e3o, todas s\u00e3o muito interessantes. Decerto que,\u00a0em termos musicais, os nossos dias t\u00eam trazido muitas\u00a0e\u00a0variadas influ\u00eancias musicais para o Fado, o que, diga-se, tem permitido o seu desenvolvimento, incremento\u00a0e\u00a0transforma\u00e7\u00e3o. <strong>As mudan\u00e7as dos derradeiros 50 anos,\u00a0essa mescla bem-sucedida de tradi\u00e7\u00e3o\u00a0e\u00a0modernidade, t\u00eam permitido uma\u00a0expans\u00e3o \u00edmpar do Fado.<\/strong> A sua internacionaliza\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m passa por a\u00ed. O Fado cresceu,\u00a0evoluiu\u00a0e\u00a0transformou-se. Todavia, outros per\u00edodos foram igualmente interessantes. J\u00e1 agora, deve-se chamar a aten\u00e7\u00e3o para um aspeto por vezes\u00a0esquecido: os poetas do Fado. O Fado, como se sabe, tamb\u00e9m vive das suas letras.\u00a0E\u00a0a\u00ed, ao longo do s\u00e9culo XX\u00a0e\u00a0j\u00e1 neste s\u00e9culo, muitos\u00a0e\u00a0bons letristas deram o seu contributo para a qualidade l\u00edrica desta m\u00fasica\/can\u00e7\u00e3o.\u201d<\/p>\n<p>Quando se questiona se foram as figuras m\u00edticas do fado antigo, como a Severa\u00a0e\u00a0mais tarde Marceneiro, que lhe deram for\u00e7a para atravessar v\u00e1rios s\u00e9culos at\u00e9 ficar\u00a0estabelecido que \u00e9 a \u201ccan\u00e7\u00e3o nacional\u201d, S\u00e9rgio Lu\u00eds de Carvalho hesita um pouco: \u201c\u00c9 uma pergunta dif\u00edcil, pois <strong>se \u00e9 verdade que os fadistas s\u00e3o determinantes para a\u00a0expans\u00e3o do Fado, como o s\u00e3o noutros g\u00e9neros musicais os seus int\u00e9rpretes\u00a0e\u00a0compositores, tamb\u00e9m podemos perguntar o que sucederia se\u00a0esses dois \u00abmonstros\u00bb do Fado nunca tivessem\u00a0existido.<\/strong> Decerto que haveria Fado \u00e0 mesma. Por certo, at\u00e9 seria o mesmo fen\u00f3meno que hoje \u00e9. O que n\u00e3o quer dizer que o contributo de Am\u00e1lia\u00a0e\u00a0de Marceneiro n\u00e3o tenha moldado o Fado.\u00a0Essa \u00e9 uma velha quest\u00e3o\u00a0em Hist\u00f3ria: qual o peso das individualidades na dial\u00e9tica do processo hist\u00f3rico?\u201d<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"O historiador S\u00e9rgio Lu\u00eds de Carvalho tem vindo a publicar v\u00e1rios retratos de Lisboa; seis livros at\u00e9 h\u00e1&hellip;\n","protected":false},"author":2,"featured_media":129612,"comment_status":"","ping_status":"","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[85],"tags":[306,114,115,8467,32,33],"class_list":{"0":"post-129611","1":"post","2":"type-post","3":"status-publish","4":"format-standard","5":"has-post-thumbnail","7":"category-entretenimento","8":"tag-edicao-impressa","9":"tag-entertainment","10":"tag-entretenimento","11":"tag-livros-da-semana","12":"tag-portugal","13":"tag-pt"},"share_on_mastodon":{"url":"https:\/\/pubeurope.com\/@pt\/115451222183885466","error":""},"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/129611","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=129611"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/129611\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/media\/129612"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=129611"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=129611"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=129611"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}