{"id":131251,"date":"2025-10-29T14:21:23","date_gmt":"2025-10-29T14:21:23","guid":{"rendered":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/131251\/"},"modified":"2025-10-29T14:21:23","modified_gmt":"2025-10-29T14:21:23","slug":"em-da-lata-fernanda-abreu-retrata-sociedade-a-partir-do-suingue-diario-da-manha-o-jornal-do-leitor-inteligente","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/131251\/","title":{"rendered":"Em \u2018Da Lata\u2019, Fernanda Abreu retrata sociedade a partir do suingue \u2013 Di\u00e1rio da Manh\u00e3 \u2013 O Jornal do leitor Inteligente"},"content":{"rendered":"<p><strong>Marcus Vin\u00edcius Beck<\/strong><\/p>\n<p>  <a href=\"https:\/\/camaragoiania.nucleogov.com.br\/cidadao\/informacao\/sic\" target=\"_blank\" rel=\"noopener nofollow\">&#13;<br \/>\n    <img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-content\/uploads\/2025\/10\/728X90PX_RACISMO_CMG-1.gif\" alt=\"Publicidade\" style=\"max-width:100%;height:auto\"\/>&#13;<br \/>\n  <\/a><\/p>\n<p>Na sexta faixa, o disco \u201cDa Lata\u201d traz a cantora Fernanda Abreu recitando o suingue brasileiro. Para ela, temos sangue carnavalesco. Fernanda aconselha: \u201cDeixa solta essa bundinha, deixa solto esse quadril. Vamo l\u00e1, rapaziada. Todo mundo pulando. Vamo l\u00e1, rapaziada.\u201d<\/p>\n<p>O corpo n\u00e3o deve ser submetido \u00e0 ditadura da cabe\u00e7a pensante. Dan\u00e7ando, debate-se a conjuntura sociopol\u00edtica. Afinal, como refletiu certa vez Fernanda em dois dedos de prosa com este escriba, a sociedade brasileira se constituiu pelos povos origin\u00e1rios e mais tarde pelos europeus que trouxeram para c\u00e1 os negros africanos de modo a escraviz\u00e1-los.\u00a0<\/p>\n<p>Lan\u00e7ado h\u00e1 30 anos, \u201cDa Lata\u201d \u00e9 a cara do Brasil. N\u00e3o tem jeito: a lata brilha. Como \u00e9 barata, usam-na com prop\u00f3sito percussivo. Carrega luxos e lixos. Talvez carregue maconha, maconha tailandesa, fort\u00edssima, vinte e duas toneladas de fumo du b\u00e3o despejado no mar e encontrado nas praias do Rio de Janeiro, em setembro de 1987.\u00a0Malucos fizeram a cabe\u00e7a ali.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"512\" height=\"768\" src=\"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-content\/uploads\/2025\/10\/175979492968e456f19f741_1759794929_3x2_md.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-461036\" style=\"width:419px;height:auto\"  \/>\u201cDa Lata\u201d faz uma esp\u00e9cie de sociologia dos sons brasileiros \u2013 <strong>Foto: Walter Carvalho <\/strong><\/p>\n<p>De Cabo Frio (RJ) a Cassino (RS), milhares de latas tocaram a costa brasileira. Quem deu um pega diz que aquilo ali nocauteava. Fernanda se ligou na g\u00edria: da lata. Ela trabalhava nas m\u00fasicas do que viria a ser o disco sobre o qual me atenho quando lembro daquele ver\u00e3o pret\u00e9rito. Eis o seu \u201cVeneno da Lata\u201d: \u201cSwing-balan\u00e7o-funk\/ \u00c9 o novo som na pra\u00e7a.\u201d<\/p>\n<p>Essa m\u00fasica traduz \u201cDa Lata\u201d, esp\u00e9cie de sociologia sonora brasileira. Uma sociologia em forma de disco, por assim dizer. Se tamborim e pandeiro s\u00e3o representa\u00e7\u00f5es m\u00e1ximas do samba como s\u00edmbolo cultural, a lata reflete o batuque e a desigualdade nacionais. \u201cA lata \u00e9 a alternativa do caminho oficial\u201d, fraseia a cantora, numa entrevista a \u201cO Globo\u201d, em 1995.\u00a0<\/p>\n<p>Fernanda aglutina ritmos, op\u00e7\u00f5es est\u00e9ticas e sonoras, tend\u00eancias discursivas. Ela lan\u00e7a as bases do samba-funk. A artista reinterpreta a bossa nova de Tom Jobim e Jo\u00e3o Gilberto, o samba esquema novo de Jorge Ben, o soul de Cassiano e Hyldon, o funk do DJ Marlboro.<\/p>\n<p>Segundo o pesquisador Hermano Vianna, em texto de divulga\u00e7\u00e3o escrito em 1995, \u201cDa Lata\u201d preconiza que o pior j\u00e1 passou. Como num sonho ut\u00f3pico do antrop\u00f3logo Darcy Ribeiro, afirma Vianna, a cultura reinventou a cidade, \u201ccriando as bases para a instaura\u00e7\u00e3o de um per\u00edodo de tranquilidade e criatividade que vai tomar as ruas como um arrast\u00e3o\u201d.\u00a0<\/p>\n<p>Multicultural por excel\u00eancia, \u201cDa Lata\u201d inicia seu p\u00e9riplo musical pelo suingue das escolas de samba, passa ent\u00e3o pela pista de dan\u00e7a, pelo tropicalismo de Caetano Veloso e pela poesia marginal de Chacal. Chacoalhar o esqueleto \u2014 esse \u00e9 o grande lema ali. T\u00e1 na hora dessa gente mostrar seu valor no compasso, meio samba, meio funk, do esc\u00e2ndalo dan\u00e7ante.<\/p>\n<p>Ou seja, resta carnavalizar-se e sair requebrando numa sambadinha funky. \u201cEssa m\u00fasica tem uma divertida safadeza dan\u00e7ante e Fernanda bota pra fora, na lata, esfrega na cara de todos na maior f\u00e9 sua por\u00e7\u00e3o cabrocha bailarina go-go\u201d, pin\u00e7a Fausto Fawcett. Fernanda Sampaio de Lacerda Abreu \u00e9 a rainha na folia, esse momento no qual estruturas sociais se invertem.\u00a0<\/p>\n<p>Produzido por Liminha, \u201cDa Lata\u201d apresenta o funk unido ao samba. \u201cVeneno da Lata\u201d, parceria de Fernanda Abreu com o m\u00fasico su\u00ed\u00e7o Will Mowat, mostra que o Brasil se submerge na desigualdade enquanto seus trabalhadores naquele ano 1995, \u00e0s 7h30, desciam para trabalhar. \u201cPra ter o que ganhar\u201d, canta Fernanda, com Herbert Vianna.\u00a0<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"512\" height=\"768\" src=\"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-content\/uploads\/2025\/10\/175979490668e456daaaf93_1759794906_3x2_md-1.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-461037\" style=\"width:378px;height:auto\"  \/>Capa do disco lan\u00e7ado em 1994: sociedade retratada no batuque do samba-funk \u2013\u00a0<strong>Foto: Walther Carvalho<\/strong><\/p>\n<p><strong>Do samba ao funk<\/strong><\/p>\n<p>\u201cSuingue-balan\u00e7o-funk\/ \u00c9 o novo som na pra\u00e7a\/ Batuque-samba-funk\/ \u00c9 veneno da lata\/ Vamo\u2019 bat\u00ea lata!\u201d, vocaliza Fernanda, cuja mixagem dessa faixa e das demais ocorreu em Londres no est\u00fadio da banda Soul II Soul. Mowat, derretendo-se pelo som e pela carioca, classificou o \u00e1lbum como \u201cexcepcional\u201d e decretou que havia ali base s\u00f3lida para o futuro.\u00a0<\/p>\n<p>Tem funk\u00e3o, \u00e9 claro, como se escuta na segunda faixa, a \u201cGarota Sangue Bom\u201d. Toneladas de grooves, groov\u00e3o loquaz, tipo aquele do calibre sensual sintetizado pelas ondas de um corpo feminino. Luz gostosa da boate. D\u00e1 gosto ver a intelig\u00eancia movendo um corpinho como esse. Profus\u00e3o de melodia, harmonia e percuss\u00e3o: \u201cGarota carioca\/ suingue sangue-bom.\u201d<\/p>\n<p>Samba-funk na veia, a faixa mostra-nos o valor da gente bronzeada que sacoleja nos bailes e nas periferias com o som da pesada. Quando saiu \u201cDa Lata\u201d, em 1995, o funk acariocou-se. Antes, refresquemos o cocuruto, o estilo ficava preso \u00e0 batida do Miami Bass. DJ Marlboro mudou a hist\u00f3ria, no entanto. Certos hits reuniam multid\u00f5es a reboque dos MCs.\u00a0<\/p>\n<p>Ligado \u00e0s classes desfavorecidas da sociedade, o funk era ignorado pela ind\u00fastria cultural. De certa forma, pensando nessa perspectiva, a terceira can\u00e7\u00e3o de \u201cDa Lata\u201d, \u201cTudo Vale a Pena\u201d, de Fernanda e Pedro Lu\u00eds, aborda a luta dessas popula\u00e7\u00f5es \u00e0 margem: \u201cPovo bamba\/ Cai no samba, dan\u00e7a funk\/ tem suingue at\u00e9 no jeito de olhar\/ tem balan\u00e7o no trejeito.\u201d\u00a0<\/p>\n<p>Assim, vivendo \u201cUm Dia N\u00e3o Outro Sim\u201d, a cantora fala que ser\u00e1 fiel aos amigos at\u00e9 o final. Na estrofe seguinte, embalada pela batida dos bailes, avisa: \u201cFique na sua e talvez\/ ainda possa te ouvir\u201d. \u00c9 mais direta aqui: \u201cQuem \u00e9 voc\u00ea\/ pra me dizer\/ o que eu devo fazer\u201d. Caetano Veloso recebe homenagem \u2014 justa, na verdade \u2014 em \u201cA Tua Presen\u00e7a\u201d.\u00a0<\/p>\n<p>Mas o Brasil, para Fernanda, \u00e9 o pa\u00eds do suingue. Com a guitarra dan\u00e7ante de Fernando Vidal, convida-nos para requebrar em Pernambuco curtindo o manguebeat recifense. \u201cFunk Noroeste\/ Funk Centro-Oeste\u201d, fala, antes de bater a real ao dizer que \u201cEsse \u00e9 o Lugar\u201d e que \u201cJorge Ben Jor \u00e9 daqui\/ James Brown \u00e9 de l\u00e1\/ Carlinhos Brown \u00e9 de todo o lugar\u201d.\u00a0\u00a0<\/p>\n<p>Contudo, uma audi\u00e7\u00e3o detalhada \u00e9 suficiente para entendermos que \u201cDa Lata\u201d n\u00e3o se prende ao funk carioca. O disco revela voca\u00e7\u00e3o pop internacional, desde a produ\u00e7\u00e3o assinada por Will Mowat at\u00e9 a ida para Londres. \u201cDois\u201d, por exemplo, volta-se \u00e0 dance music, \u201cSomos Um (Doomed)\u201d resulta balada e \u201cSLA 3\u201d p\u00f5e samba e funk juntos.\u00a0<\/p>\n<p>Poeta marginal de versos telegr\u00e1ficos, Chacal divide os microfones com Fernanda em \u201cA Lata\u201d: \u201cA lata\/ no fundo da madrugada\/ de repente foi chutada\/ na batida.\u201d O \u00e1lbum se encerra com \u201cBabil\u00f4nia Rock\u201d, disco music alto-astral. \u201cDa Lata\u201d \u00e9 o Brasil em sons.\u00a0<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"Marcus Vin\u00edcius Beck &#13; &#13; Na sexta faixa, o disco \u201cDa Lata\u201d traz a cantora Fernanda Abreu recitando&hellip;\n","protected":false},"author":2,"featured_media":131252,"comment_status":"","ping_status":"","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[140],"tags":[726,2552,114,115,147,148,2554,2553,146,13,2555,32,33],"class_list":{"0":"post-131251","1":"post","2":"type-post","3":"status-publish","4":"format-standard","5":"has-post-thumbnail","7":"category-filmes","8":"tag-brasil","9":"tag-dm-noticias","10":"tag-entertainment","11":"tag-entretenimento","12":"tag-film","13":"tag-filmes","14":"tag-goiania","15":"tag-goias","16":"tag-movies","17":"tag-noticias","18":"tag-portal-de-noticias","19":"tag-portugal","20":"tag-pt"},"share_on_mastodon":{"url":"https:\/\/pubeurope.com\/@pt\/115457902950150865","error":""},"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/131251","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=131251"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/131251\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/media\/131252"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=131251"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=131251"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=131251"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}