{"id":131701,"date":"2025-10-29T20:06:08","date_gmt":"2025-10-29T20:06:08","guid":{"rendered":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/131701\/"},"modified":"2025-10-29T20:06:08","modified_gmt":"2025-10-29T20:06:08","slug":"petzold-ve-misterios-do-humano-em-mirrors-no3-na-mostra-29-10-2025-ilustrada","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/131701\/","title":{"rendered":"Petzold v\u00ea mist\u00e9rios do humano em Mirrors N\u00ba3, na Mostra &#8211; 29\/10\/2025 &#8211; Ilustrada"},"content":{"rendered":"<p>Para escrever sobre &#8220;Mirrors N\u00ba3&#8221;, novo filme do diretor alem\u00e3o <a href=\"https:\/\/www1.folha.uol.com.br\/ilustrada\/2021\/12\/christian-petzold-dirige-com-mais-calor-undine-versao-de-mito-alemao.shtml\" rel=\"nofollow noopener\" target=\"\">Christian Petzold<\/a>, talvez valha a pena come\u00e7ar remetendo ao grande mestre Robert Bresson. Em algum dos seus escritos, ele fala da ocasi\u00e3o em que cruzou com um homem e, em dado momento, notou uma inexplic\u00e1vel transforma\u00e7\u00e3o em sua fisionomia. S\u00f3 depois que o homem passou, percebeu que essa mudan\u00e7a se devia ao fato de ter visto, chegando, sua mulher e seu filho.<\/p>\n<p>Bresson notara apenas o rosto do homem e sua transforma\u00e7\u00e3o, e observou que, se soubesse qual o motivo disso antes, a impress\u00e3o que sentiu n\u00e3o teria tido a mesma for\u00e7a.<\/p>\n<p>Em outras palavras, ele est\u00e1 falando do encanto que podemos ter diante de rostos que n\u00e3o se deixam decifrar \u2014nem seu estado de esp\u00edrito nem seus motivos. E \u00e9 justamente isso que faz o prazer do espectador no filme de Petzold.<\/p>\n<p>Ali existe, de in\u00edcio, uma mo\u00e7a, Laura. Parece perplexa, ou desgostosa, talvez at\u00e9 irritada com a cidade de Berlim, onde vive e estuda. Esse estado, que n\u00e3o \u00e9 propriamente de nega\u00e7\u00e3o, mas de mal-estar, prossegue durante a viagem ao campo que faz com dois amigos e o namorado.<\/p>\n<p>Devido a esse estado, eles voltam antes, mas o rapaz perde a dire\u00e7\u00e3o de maneira misteriosa e, de modo ainda mais misterioso, envolve-se num enorme desastre \u2014numa estrada de terra, sem nada em volta, bastante estranho. Ele morre, mas ela escapa quase intacta.<\/p>\n<p>Betty, uma senhora de meia-idade que mora ali perto, socorre e acolhe a mo\u00e7a. Laura passa a viver com ela. A conviv\u00eancia parece fazer bem a Betty, que quase exige que ela fique na casa.<\/p>\n<p>Logo, outros dois personagens se introduzem na trama. Richard, o marido de Betty, e Max, seu filho. Os dois, no entanto, recebem a h\u00f3spede com muitas retic\u00eancias. O filme passa a se constituir, em boa medida, de trocas de olhares entre os quatro personagens, que, ali\u00e1s, falam bem pouco entre si, o que torna esses olhares fascinantes para o espectador.<\/p>\n<p>O que eles querem dizer? N\u00e3o sabemos. Nesse mundo de sil\u00eancios, de n\u00e3o ditos, nos embrenhamos no mist\u00e9rio dessas pessoas. Por vezes parece que Max e Richard s\u00e3o apenas grosseiros. Assim, embora comam seu prato favorito, em cujo preparo Laura trabalhou por horas, n\u00e3o dizem nada. N\u00e3o sorriem. N\u00e3o sabemos se eles s\u00e3o mal-educados ou algo assim. S\u00e3o pessoas rudes, isso \u00e9 certo. Mas o fato de estarem com a delicada Betty, de terem vivido com ela \u2014agora est\u00e3o um tanto distanciados\u2014, intriga o espectador.<\/p>\n<p>Existe algo de inquietante no ambiente, o que torna um pouco recolhida, dividida entre a aten\u00e7\u00e3o que lhe dispensa Betty e as poucas palavras dos homens da casa. Aos poucos, no entanto, eles come\u00e7am a trat\u00e1-la com alguma modesta intimidade. Isso s\u00f3 refor\u00e7a a nossa inquieta\u00e7\u00e3o. Isso poderia ser um filme de mortos-vivos caso n\u00e3o se tratasse de um filme, ao mesmo tempo, luminoso.<\/p>\n<p>Esse ambiente dura aproximadamente uma hora, quando enfim se desencadeia a trama. Sobre ela \u00e9 dif\u00edcil falar sem revelar elementos que estragariam o prazer de acompanh\u00e1-la. Pode-se dizer, no entanto, que ela tem muito, quase tudo, a ver com esse ambiente descrito acima.<\/p>\n<p>Nessa parte tamb\u00e9m acontece uma transforma\u00e7\u00e3o em Laura, como se sa\u00edsse de um longo transe, ou pesadelo. N\u00e3o sabemos ao certo o que motiva essa transforma\u00e7\u00e3o \u2014outras, podemos vislumbrar melhor. N\u00e3o se deve tratar essa transforma\u00e7\u00e3o, ou a falta de explica\u00e7\u00e3o, como um defeito desse trabalho not\u00e1vel: num filme que explora os mist\u00e9rios do humano sem ceder \u00e0 facilidade, sempre vale lembrar que uma parte do interesse que ele desperta em n\u00f3s \u2014e que despertamos uns nos outros\u2014 vem, em boa medida, desse mist\u00e9rio.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"Para escrever sobre &#8220;Mirrors N\u00ba3&#8221;, novo filme do diretor alem\u00e3o Christian Petzold, talvez valha a pena come\u00e7ar remetendo&hellip;\n","protected":false},"author":2,"featured_media":131702,"comment_status":"","ping_status":"","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[144],"tags":[207,205,206,203,201,202,470,204,114,115,236,5267,32,33,600],"class_list":{"0":"post-131701","1":"post","2":"type-post","3":"status-publish","4":"format-standard","5":"has-post-thumbnail","7":"category-arte-e-design","8":"tag-arte","9":"tag-arte-e-design","10":"tag-artedesign","11":"tag-arts","12":"tag-arts-and-design","13":"tag-artsanddesign","14":"tag-cinema","15":"tag-design","16":"tag-entertainment","17":"tag-entretenimento","18":"tag-folha","19":"tag-mostra-de-cinema","20":"tag-portugal","21":"tag-pt","22":"tag-veja-video"},"share_on_mastodon":{"url":"https:\/\/pubeurope.com\/@pt\/115459259378142845","error":""},"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/131701","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=131701"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/131701\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/media\/131702"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=131701"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=131701"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=131701"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}