{"id":135234,"date":"2025-11-01T11:10:12","date_gmt":"2025-11-01T11:10:12","guid":{"rendered":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/135234\/"},"modified":"2025-11-01T11:10:12","modified_gmt":"2025-11-01T11:10:12","slug":"devemos-ser-cautelosos-sempre-que-considerarmos-uma-acao-russa-irracional-ou-improvavel-a-russia-fara-tudo-o-que-lhe-permitirmos-que-faca","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/135234\/","title":{"rendered":"Devemos ser cautelosos sempre que considerarmos uma a\u00e7\u00e3o russa irracional ou improv\u00e1vel. A R\u00fassia far\u00e1 tudo o que lhe permitirmos que fa\u00e7a"},"content":{"rendered":"<p>\t                ENTREVISTA || Distinguido com o Pr\u00e9mio Dwight D. Eisenhower da Associa\u00e7\u00e3o Atl\u00e2ntica dos Pa\u00edses Baixos com a sua tese sobre a &#8220;Grande Estrat\u00e9gia&#8221; dos Estados Unidos e da R\u00fassia, Markus Iven esteve em Lisboa a convite da embaixada da Alemanha para falar sobre a &#8220;nova arquitetura de seguran\u00e7a europeia&#8221;, em particular face \u00e0 desvincula\u00e7\u00e3o dos EUA e \u00e0 guerra da R\u00fassia na Ucr\u00e2nia. \u00c0 CNN Portugal, o analista do Hague Centre for Strategic Studies fala sobre o real motor dos ataques h\u00edbridos russos \u00e0 UE e o que podemos esperar num futuro pr\u00f3ximo e n\u00e3o t\u00e3o pr\u00f3ximo, agora que o grande concorrente direto dos EUA \u00e9 a China. &#8220;Para quem acredita que o pr\u00f3ximo governo norte-americano voltar\u00e1 a priorizar a NATO: isso parece muito improv\u00e1vel&#8221;, avisa<\/p>\n<p>\t                Come\u00e7ando com esta ordem de Donald Trump para que o Departamento de Defesa <a href=\"https:\/\/cnnportugal.iol.pt\/guerra\/armas-nucleares\/cresce-a-tensao-trump-quer-os-eua-a-testarem-armas-nucleares-em-pe-de-igualdade-com-russia-e-china\/20251030\/6903a636d34e3caad84abb79\" target=\"_blank\" rel=\"nofollow noopener\">retome os testes de armas nucleares<\/a>, sob o argumento de que os EUA t\u00eam de estar &#8220;em p\u00e9 de igualdade&#8221; com a R\u00fassia e a China. Como encara este an\u00fancio e como \u00e9 que ele se relaciona com a sua tese da Grande Estrat\u00e9gia?<\/p>\n<p>Em primeiro lugar, n\u00e3o h\u00e1 confirma\u00e7\u00e3o de que a R\u00fassia e a China estejam atualmente a realizar novos testes com armas nucleares. Recentemente, vimos que regimes de controlo de armas como o Novo START e o Tratado INF, que mantiveram a estabilidade global durante d\u00e9cadas, est\u00e3o a deteriorar-se ainda mais. Isso come\u00e7ou com a n\u00e3o renova\u00e7\u00e3o dos acordos de controlo de armas entre os EUA e a R\u00fassia, mas tamb\u00e9m com o r\u00e1pido aumento do arsenal nuclear chin\u00eas.<\/p>\n<p>Do ponto de vista estrat\u00e9gico, \u00e9 poss\u00edvel compreender por que raz\u00e3o Trump est\u00e1 agora a tentar pressionar as outras pot\u00eancias nucleares com o an\u00fancio de novos testes at\u00f3micos potenciais. Ao mesmo tempo, isso n\u00e3o faz muito sentido na pr\u00e1tica, uma vez que o arsenal nuclear dos Estados Unidos est\u00e1 bem testado e a sua for\u00e7a destrutiva n\u00e3o est\u00e1 em causa. Desse ponto de vista, o an\u00fancio pode ser interpretado como um sinal: uma forma de persuadir a China e a R\u00fassia a regressarem \u00e0s negocia\u00e7\u00f5es sobre o controlo de armas. Trump j\u00e1 utilizou esta t\u00e9cnica anteriormente nas negocia\u00e7\u00f5es tarif\u00e1rias, come\u00e7ando com uma posi\u00e7\u00e3o maximalista ou provocadora para ganhar vantagem antes das negocia\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Portanto, de certa forma, considera que \u00e9, acima de tudo, uma demonstra\u00e7\u00e3o de for\u00e7a?<\/p>\n<p>\u00c9 um sinal de determina\u00e7\u00e3o. Sinalizar que os Estados Unidos est\u00e3o dispostos a retomar os testes nucleares mostra que n\u00e3o ser\u00e3o dissuadidos pela R\u00fassia ou pela China. Na pr\u00e1tica, n\u00e3o \u00e9 muito prov\u00e1vel que os Estados Unidos realmente levem isso adiante t\u00e3o cedo, mas o simples ato de sinalizar essa disposi\u00e7\u00e3o serve como mensagem em si. Ainda \u00e9 apenas a primeira fase da negocia\u00e7\u00e3o nuclear: a fase de sinaliza\u00e7\u00e3o. O pr\u00f3ximo passo poderia ser uma fase de negocia\u00e7\u00e3o ou, \u00e9 claro, um teste nuclear.<\/p>\n<p>No in\u00edcio da semana, no semin\u00e1rio em que participou aqui em Lisboa, defendeu que o governo Trump deve ser encarado &#8220;mais como um sintoma do que a raz\u00e3o&#8221; que explica a atual ordem geopol\u00edtica. Em que sentido? <\/p>\n<p>As placas tect\u00f3nicas do poder global come\u00e7aram a mudar novamente. De um sistema bipolar durante a Guerra Fria pass\u00e1mos para um sistema unipolar dominado pelos Estados Unidos. Mas agora a ordem mundial est\u00e1 a mudar mais uma vez, principalmente devido \u00e0 ascens\u00e3o da China. \u00c9 nesse sentido que podemos dizer que a pol\u00edtica da administra\u00e7\u00e3o Trump \u00e9 apenas um sintoma, n\u00e3o a causa.<\/p>\n<p>Isto significa que os futuros governos dos EUA, sejam eles democratas ou republicanos, provavelmente n\u00e3o mudar\u00e3o a sua pol\u00edtica b\u00e1sica em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 China ou \u00e0 Europa. E, estrategicamente, isso faz sentido, porque apenas a China tem a base econ\u00f3mica, o arsenal nuclear e as for\u00e7as convencionais para se tornar uma pot\u00eancia hegem\u00f3nica na \u00c1sia e, por meio dessa posi\u00e7\u00e3o, uma amea\u00e7a de longo prazo para os Estados Unidos. Portanto, para quem acredita que o pr\u00f3ximo governo norte-americano voltar\u00e1 a priorizar a NATO: isso parece muito improv\u00e1vel.\u00a0<\/p>\n<p> <img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" alt=\"\" height=\"600\" src=\"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-content\/uploads\/2025\/11\/6904d201d34e3caad84ac376.webp\" width=\"600\"\/> <\/p>\n<p>   Analista do The Hague Centre for Strategic Studies e oficial na reserva do gabinete do representante militar da Alemanha na NATO, Markus Iven serviu 14 anos nas For\u00e7as Armadas alem\u00e3s, com miss\u00f5es no Mali e no N\u00edger, tendo sido condecorado com a Cruz de Honra em parta da Bundeswehr. No in\u00edcio da semana, esteve em Lisboa a convite da embaixada alem\u00e3 para participar num semin\u00e1rio sobre a nova arquitetura europeia de seguran\u00e7a. foto HCSS <\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e9 o \u00fanico especialista a defend\u00ea-lo, a maioria dos especialistas considera que a China \u00e9 o \u00fanico pa\u00eds capaz de alterar a ordem global. Nesse sentido, como avalia o encontro desta semana entre Donald Trump e Xi Jinping?\u00a0<\/p>\n<p>A reuni\u00e3o desta semana entre Trump e Xi revelou algo importante para os europeus. Quando Trump se encontrou com Xi na Coreia do Sul, muitos na Europa esperavam que ele pressionasse Xi a reduzir as compras chinesas de petr\u00f3leo russo, que continuam a ser cruciais para financiar a guerra da R\u00fassia. Mas, no final da reuni\u00e3o, Trump reconheceu que eles n\u00e3o tinham realmente discutido a quest\u00e3o do petr\u00f3leo. Em vez disso, foi mais uma troca transacional focada na redu\u00e7\u00e3o das tarifas dos EUA sobre a China e na restaura\u00e7\u00e3o do acesso a terras raras que havia sido restringido por Pequim. Ent\u00e3o, o que vemos novamente \u00e9 que, quando os interesses dos EUA est\u00e3o em jogo, a seguran\u00e7a europeia est\u00e1 simplesmente ausente da agenda, e isso \u00e9 algo que nos deve preocupar.<\/p>\n<p>Nesse contexto, isso tamb\u00e9m est\u00e1 bastante alinhado com a posi\u00e7\u00e3o do governo chin\u00eas de que &#8220;Putin n\u00e3o pode perder a guerra na Ucr\u00e2nia&#8221;, como um oficial chin\u00eas admitiu h\u00e1 alguns meses. A menos de um m\u00eas do prazo estabelecido por Trump para impor san\u00e7\u00f5es \u00e0s empresas petrol\u00edferas p\u00fablica e privada da R\u00fassia &#8211; e tendo em conta o que o Markus tamb\u00e9m afirmou aqui em Lisboa, ao dizer que \u00e9 uma ilus\u00e3o acreditar que a R\u00fassia est\u00e1 \u00e0 beira do colapso econ\u00f3mico -, acha que estas san\u00e7\u00f5es americanas podem mudar isso? E acha que estas san\u00e7\u00f5es v\u00e3o realmente avan\u00e7ar?\u00a0<\/p>\n<p>O que j\u00e1 vemos agora \u00e9 que cerca de um ter\u00e7o do or\u00e7amento federal da R\u00fassia est\u00e1 a ser gasto direta ou indiretamente na guerra na Ucr\u00e2nia. Isso \u00e9 muito significativo. Muitos esperavam que a economia russa entrasse em colapso rapidamente, especialmente no in\u00edcio da guerra, mas isso n\u00e3o aconteceu. O PIB da R\u00fassia at\u00e9 cresceu ligeiramente este ano, impulsionado pela produ\u00e7\u00e3o b\u00e9lica e pelos gastos p\u00fablicos muito elevados.<\/p>\n<p>Ao mesmo tempo, as novas san\u00e7\u00f5es dos EUA contra as exporta\u00e7\u00f5es de petr\u00f3leo russo podem ser as medidas mais eficazes que vimos em muito tempo. Elas congelam todos os ativos da Rosneft e da Lukoil sob jurisdi\u00e7\u00e3o dos EUA, pro\u00edbem quaisquer transa\u00e7\u00f5es por parte de cidad\u00e3os americanos e amea\u00e7am bancos ou empresas estrangeiras com san\u00e7\u00f5es secund\u00e1rias se continuarem a fazer neg\u00f3cios com elas.<\/p>\n<p>Visar a Rosneft e a Lukoil \u00e9 um dos melhores pontos de press\u00e3o que o Ocidente ainda tem contra a R\u00fassia, porque as exporta\u00e7\u00f5es de energia representam agora mais de 40% das receitas do Estado russo. Juntas, essas duas empresas produzem cerca de 5% da produ\u00e7\u00e3o global de petr\u00f3leo, pelo que atingi-las com san\u00e7\u00f5es dos EUA \u00e9 significativo. Isso atinge diretamente o fluxo de dinheiro que financia a guerra.<\/p>\n<p> <img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" alt=\"\" height=\"359\" src=\"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-content\/uploads\/2025\/11\/682614bfd34e3f0bae9e366c.webp\" width=\"600\"\/> <\/p>\n<p>   A R\u00fassia tem utilizado a sua chamada \u201cfrota fantasma\u201d de navios comerciais envelhecidos\u00a0para escapar \u00e0s san\u00e7\u00f5es sobre as exporta\u00e7\u00f5es de petr\u00f3leo impostas no seguimento da invas\u00e3o em larga escala da Ucr\u00e2nia em 2022. Mas, para Markus Iven, \u00e9 melhor visar com san\u00e7\u00f5es as petrol\u00edferas russas, como Trump promete fazer, do que esta frota-fantasma. foto Getty Images <\/p>\n<p>Alguns analistas consideram que estas san\u00e7\u00f5es poderiam, na verdade, ter um impacto maior na Europa, dado que ainda h\u00e1 muitos pa\u00edses europeus a comprar petr\u00f3leo russo, o que basicamente significa que temos financiado a m\u00e1quina de guerra da R\u00fassia contra n\u00f3s mesmos, em nosso pr\u00f3prio preju\u00edzo. Concorda? Como \u00e9 que a Europa seria afetada por estas san\u00e7\u00f5es \u00e0 R\u00fassia? <\/p>\n<p>A Europa conseguiu efetivamente dissociar-se da energia russa em grande medida ap\u00f3s a guerra de 2022, quando ningu\u00e9m pensava que isso seria poss\u00edvel. Os russos at\u00e9 usaram isso como propaganda para dizer que os europeus iriam congelar no inverno, e n\u00e3o vimos nada disso acontecer. Por isso, acho muito improv\u00e1vel que as \u00faltimas san\u00e7\u00f5es ao petr\u00f3leo russo nos prejudiquem substancialmente aqui na Europa.<\/p>\n<p>Antes da guerra, cerca de metade do g\u00e1s e aproximadamente um quarto do petr\u00f3leo da Europa vinham da R\u00fassia. Hoje, as importa\u00e7\u00f5es de petr\u00f3leo russo ca\u00edram mais de 90%. Os maiores consumidores de petr\u00f3leo russo agora s\u00e3o a China e a \u00cdndia, que juntas compram cerca de 80% das exporta\u00e7\u00f5es de petr\u00f3leo bruto da R\u00fassia. Portanto, apenas alguns mercados na Europa, como a Hungria e a Eslov\u00e1quia, ainda dependem desses fornecimentos e podem agora ficar sob press\u00e3o.\u00a0<\/p>\n<p>Falando das amea\u00e7as que a Europa realmente enfrenta no curto e m\u00e9dio prazo: parece fazer parte do grupo que pessoas que considera que n\u00e3o estamos perante uma quest\u00e3o de &#8220;se&#8221; mas sim de &#8220;quando&#8221; \u00e9 que a Europa vai enfrentar ataques diretos da R\u00fassia, isto numa altura em que j\u00e1 estamos a bra\u00e7os com ataques h\u00edbridos. Com base na sua experi\u00eancia, o que acha que ir\u00e1 acontecer nos pr\u00f3ximos cinco anos? E nesse contexto, acha que estamos na rota certa para estarmos mais preparados para lidar com agress\u00f5es diretas da R\u00fassia do que est\u00e1vamos em 2022?<\/p>\n<p>Sim, vimos que a Uni\u00e3o Europeia, atrav\u00e9s do novo programa SAFE &#8211; que disponibiliza at\u00e9 cerca de 150 mil milh\u00f5es de euros em empr\u00e9stimos a juros baixos para ajudar os Estados-Membros a adquirir as capacidades militares necess\u00e1rias para atingir os objetivos individuais estabelecidos pela NATO -, est\u00e1 a come\u00e7ar a agir como um interveniente mais s\u00e9rio em mat\u00e9ria de seguran\u00e7a.<\/p>\n<p>Ao mesmo tempo, temos assistido a um claro aumento dos ataques h\u00edbridos contra n\u00f3s. Os ataques h\u00edbridos s\u00e3o geralmente a estrat\u00e9gia do lado mais fraco; essa \u00e9 a l\u00f3gica estrat\u00e9gica normal. A l\u00f3gica dos russos \u00e9 que os Estados confrontados com ataques contra as suas infraestruturas cr\u00edticas ou o seu espa\u00e7o a\u00e9reo dar\u00e3o naturalmente prioridade \u00e0 sua defesa nacional. Portanto, a verdadeira raz\u00e3o pela qual a R\u00fassia est\u00e1 cada vez mais envolvida nestes ataques h\u00edbridos \u00e9 porque quer desviar a aten\u00e7\u00e3o e os recursos europeus da guerra na Ucr\u00e2nia. E eles t\u00eam uma vantagem estrutural aqui.<\/p>\n<p> <img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" alt=\"\" height=\"338\" src=\"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-content\/uploads\/2025\/11\/68f01227d34e58bc6796ef4e.webp\" width=\"600\"\/> <\/p>\n<p>   &#8220;No momento em que os russos atacarem as na\u00e7\u00f5es europeias com drones muito baratos ou ataques subaqu\u00e1ticos muito baratos, com cortes de cabos subaqu\u00e1ticos, teremos de aumentar a nossa resili\u00eancia, e a resili\u00eancia nunca pode ser perfeita.\u00a0E no momento em que isso acontece, com os recursos limitados dispon\u00edveis, os europeus gastam menos no apoio \u00e0 Ucr\u00e2nia, que j\u00e1 est\u00e1 esgotada depois de os EUA terem interrompido o seu apoio militar direto. \u00c9\u00a0esse essencialmente o objetivo final da R\u00fassia&#8221;. foto\u00a0Yevhen Titov\/AP <\/p>\n<p>De que forma? <\/p>\n<p>No momento em que atacam na\u00e7\u00f5es europeias com drones baratos que custam apenas 20 mil d\u00f3lares, ou realizam sabotagens subaqu\u00e1ticas de baixo custo, como cortes de cabos, os europeus precisam de aumentar a sua resili\u00eancia. Mas a resili\u00eancia nunca pode ser perfeita. N\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel defendermo-nos contra todas as potenciais amea\u00e7as.<\/p>\n<p>Portanto, o mais importante para os europeus agora \u00e9 compreender a l\u00f3gica russa. Na verdade, uma das melhores medidas dissuasoras seria declarar que, por cada ataque h\u00edbrido russo em solo europeu, aumentar\u00edamos automaticamente a nossa ajuda \u00e0 Ucr\u00e2nia. No momento em que fiz\u00e9ssemos isso, tornar\u00edamos estrategicamente irracional para eles continuarem com esses ataques.\u00a0<\/p>\n<p>Assumindo que isso n\u00e3o acontece, e tendo em conta relat\u00f3rios dos servi\u00e7os de informa\u00e7\u00e3o de alguns Estados-Membros da UE que afirmam que a R\u00fassia poder\u00e1 lan\u00e7ar ataques diretos contra o territ\u00f3rio europeu nos pr\u00f3ximos cinco anos, particularmente contra os pa\u00edses b\u00e1lticos e do flanco leste, acha que a R\u00fassia estar\u00e1 mais inclinada a manter essa estrat\u00e9gia de ataques h\u00edbridos para nos esgotar e desviar a nossa aten\u00e7\u00e3o da Ucr\u00e2nia? Ou diria que existe uma possibilidade real de ataques diretos da R\u00fassia nos pr\u00f3ximos anos?\u00a0<\/p>\n<p>Devemos ser cautelosos sempre que considerarmos uma a\u00e7\u00e3o russa irracional ou improv\u00e1vel. Tanto pol\u00edticos quanto analistas afirmaram o mesmo antes de 2014, quando a R\u00fassia anexou a Crimeia, e novamente antes de 2022, quando poucos acreditavam que lan\u00e7aria uma invas\u00e3o em grande escala da Ucr\u00e2nia, mas foi o que aconteceu.<\/p>\n<p>Agora, mais uma vez, as pessoas dizem: &#8216;n\u00e3o \u00e9 completamente irrealista que os russos ataquem um pa\u00eds da NATO? Porque \u00e9 que fariam isso?&#8217; A melhor resposta \u00e9 que a R\u00fassia far\u00e1 tudo o que lhe permitirmos que fa\u00e7a. Vai sempre identificar vulnerabilidades e explor\u00e1-las.<\/p>\n<p>\u00c9 importante notar que, nos Estados B\u00e1lticos, por exemplo, temos uma popula\u00e7\u00e3o total de apenas cerca de seis milh\u00f5es, em compara\u00e7\u00e3o com mais de 140 milh\u00f5es na R\u00fassia. E a R\u00fassia nunca parou o seu recrutamento militar obrigat\u00f3rio, pelo que seria capaz de mobilizar, se realmente quisesse, uma enorme for\u00e7a, atualmente com cerca de 1,5 milh\u00f5es de soldados ativos e at\u00e9 dois milh\u00f5es de reservistas. Embora a guerra esteja a tornar-se mais automatizada, num futuro previs\u00edvel ainda precisaremos de pessoas para comandar drones e tripular tanques, navios e aeronaves. Portanto, a geografia e a demografia resultam numa vulnerabilidade estrutural no flanco oriental da Europa.<\/p>\n<p>Perante este desequil\u00edbrio, \u00e9 muito importante que os pa\u00edses da NATO se envolvam mais diretamente a n\u00edvel militar na frente oriental, porque um soldado que se encontra algures na Alemanha, em Fran\u00e7a ou em Portugal teria muita dificuldade em chegar a tempo ao local onde \u00e9 realmente necess\u00e1rio. Isto \u00e9 especialmente relevante para os pa\u00edses da Europa Ocidental e Meridional. Precisamos de investir na defesa avan\u00e7ada para deixar claro, militar e psicologicamente, a Moscovo que atacar um aliado seria uma tarefa imposs\u00edvel: um conceito conhecido como dissuas\u00e3o por nega\u00e7\u00e3o. E, mesmo assim, continuariam com os seus ataques h\u00edbridos. O \u00fanico momento em que os ataques h\u00edbridos cessariam seria quando a guerra na Ucr\u00e2nia chegasse ao fim.<\/p>\n<p> <img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" alt=\"\" height=\"401\" src=\"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-content\/uploads\/2025\/11\/68d4f35dd34e58bc679626a3.webp\" width=\"600\"\/> <\/p>\n<p>   A pol\u00edcia e o ex\u00e9rcito verificam os danos causados a uma habita\u00e7\u00e3o pelos destro\u00e7os de um drone russo abatido na aldeia de Wyryki-Wola, no leste da Pol\u00f3nia, a 10 de setembro de 2025. foto Wojtek Raswanski\/AFP\/Getty Images <\/p>\n<p>A UE tem estado em intensas discuss\u00f5es nos \u00faltimos tempos sobre este &#8220;muro de drones&#8221; para travar as amea\u00e7as russas. Isto alinha-se com o que defende? Como olha para esta estrat\u00e9gia?<\/p>\n<p>O conceito de uma barreira contra drones tem uma fraqueza: \u00e9 que, uma vez constru\u00edda num local, os russos encontrar\u00e3o outra fraqueza na defesa europeia noutro local. Por isso, construir uma barreira est\u00e1tica contra drones desde a Noruega at\u00e9 ao Mar Negro \u00e9, no m\u00ednimo, extremamente dispendioso e provavelmente uma tarefa imposs\u00edvel.<\/p>\n<p>Assim, em vez de pensar em como podemos impedir perfeitamente qualquer intrus\u00e3o no espa\u00e7o a\u00e9reo da NATO, \u00e9 melhor perguntar como podemos alterar o c\u00e1lculo decis\u00f3rio da R\u00fassia. Para cada intrus\u00e3o no espa\u00e7o a\u00e9reo da NATO, poder\u00edamos responder impondo custos que superem os ganhos para a R\u00fassia. O custo mais eficaz que a Europa poderia impor \u00e9 intensificar o seu apoio \u00e0 Ucr\u00e2nia, porque \u00e9 a\u00ed que a R\u00fassia est\u00e1 a perder recursos e m\u00e3o de obra. A R\u00fassia provavelmente j\u00e1 tem mais de um milh\u00e3o de soldados mortos ou feridos. Isso tamb\u00e9m deixa claro que a Ucr\u00e2nia n\u00e3o est\u00e1 apenas a lutar pela sua pr\u00f3pria liberdade e dignidade, mas tamb\u00e9m \u00e9 a primeira linha de defesa europeia.<\/p>\n<p>Num <a href=\"https:\/\/www.atlcom.nl\/magazine\/why-the-us-russia-and-other-great-powers-wage-war\/\" target=\"_blank\" rel=\"nofollow noopener\">artigo seu<\/a>, intitulado &#8220;Porque \u00e9 que os EUA, a R\u00fassia e outras grandes pot\u00eancias entram em guerra&#8221;, cita em determinado momento o realismo ofensivo de Mearsheimer, sob o qual &#8220;nenhum Estado pode ter certeza do que os outros far\u00e3o no futuro, mesmo que atualmente ajam de forma pac\u00edfica&#8221;. Isto est\u00e1 diretamente relacionado com o que temos vindo a discutir e questiono-me: de que forma \u00e9 que o que est\u00e1 acontecer na Europa se relaciona tamb\u00e9m com a sua tese da Grande Estrat\u00e9gia? <\/p>\n<p>Ent\u00e3o, o que fizemos nesta pesquisa foi analisar 38 guerras travadas pelos Estados Unidos e pela R\u00fassia desde 1945, n\u00e3o apenas como elas foram travadas, mas porqu\u00ea. E o que realmente se destaca \u00e9 que o tipo de ordem mundial muda a l\u00f3gica da guerra. Durante a Guerra Fria, o objetivo era manter regimes amigos vivos. Nos anos unipolares que se seguiram, os Estados Unidos travaram guerras de coer\u00e7\u00e3o e mudan\u00e7a de regime. E agora, com a ascens\u00e3o da China, estamos provavelmente a regressar a um mundo bipolar, onde a sobreviv\u00eancia dos regimes e as esferas de influ\u00eancia voltam a ser os principais objetivos.<\/p>\n<p>A raz\u00e3o por tr\u00e1s disso \u00e9, na verdade, bastante simples. Os Estados nunca t\u00eam certeza absoluta sobre as inten\u00e7\u00f5es uns dos outros. Um pa\u00eds que hoje \u00e9 amigo pode parecer muito diferente amanh\u00e3, ent\u00e3o todos acumulam poder apenas por seguran\u00e7a, e isso faz com que os outros se sintam menos seguros. Na literatura acad\u00e9mica, isto seria chamado de dilema de seguran\u00e7a. \u00c9 por isso que, a longo prazo, a seguran\u00e7a europeia depender\u00e1 novamente do controlo de armas e da diplomacia de dissuas\u00e3o, tamb\u00e9m com a R\u00fassia, para encontrar algum tipo de coexist\u00eancia est\u00e1vel.<\/p>\n<p>A conclus\u00e3o positiva \u00e9 que, se compreendermos esses padr\u00f5es, poderemos gerir a competi\u00e7\u00e3o entre grandes pot\u00eancias, mesmo em lugares como o Indopac\u00edfico, sem que ela se transforme numa guerra direta.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"ENTREVISTA || Distinguido com o Pr\u00e9mio Dwight D. 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