{"id":13672,"date":"2025-08-03T01:34:24","date_gmt":"2025-08-03T01:34:24","guid":{"rendered":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/13672\/"},"modified":"2025-08-03T01:34:24","modified_gmt":"2025-08-03T01:34:24","slug":"as-memorias-daquele-ilheu-que-viveu-a-tragedia-do-niza-o-soldado-inconformado-com-o-amor-de-lena-no-seu-braco-tatuado-mais-ribatejo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/13672\/","title":{"rendered":"As mem\u00f3rias daquele ilh\u00e9u que viveu a trag\u00e9dia do Niza, o soldado inconformado com o amor de Lena, no seu bra\u00e7o tatuado \u2013 Mais Ribatejo"},"content":{"rendered":"<p>Crist\u00f3v\u00e3o de Aguiar reservou uma parte significativa da sua escrita a mem\u00f3rias da sua comiss\u00e3o na Guin\u00e9, deixou-nos p\u00e1ginas singulares tanto no romance como da diar\u00edstica.<\/p>\n<p>O <strong>Bra\u00e7o Tatuado<\/strong> foi originariamente publicado em 1985 no romance <strong>Ciclone de Setembro<\/strong>, entendeu o autor que devia desafetar deste t\u00edtulo a segunda parte, que se prendia na sua experi\u00eancia de combatente na Guin\u00e9. Sucederam-se edi\u00e7\u00f5es em 1990 e 2008. No arranque desta comovente e dur\u00edssima narrativa, o autor transporta-nos \u00e0 sua inf\u00e2ncia, \u00e0 sua terra-ber\u00e7o, ele veio do Pico da Pedra, ilha de S\u00e3o Miguel:<\/p>\n<p>\u201cNos contrafortes do mar, s\u00fabito construiu-se a minha-nossa aldeia. Espantados, os rostos das casas cobriam-nos mantilhas de desencanto e um veio velho de sal subterr\u00e2neo atravessava as ruas, as \u00e1rvores, os olhos. Estreitara-se a rua do meu pi\u00e3o de giesta, do arco de gancheta de ferro, da caranguejola do Calca-Sacos sempre atrasada e com pulmoeira pelo Caminho Novo acima, da prociss\u00e3o do Sant\u00edssimo com a Sucata e a Ca\u00e7oila superando atr\u00e1s marchas graves. Tudo dantes cabia naquela avenida larga, airosa de hort\u00eancias e bosta, encapotada de sol antigo e do som chiante dos carros carregados de balseiros de uvas.\u201d<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-content\/uploads\/2025\/08\/Cristovao-de-Aguiar-1940-2021.png\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-157885\" src=\"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-content\/uploads\/2025\/08\/Cristovao-de-Aguiar-1940-2021.png\" alt=\"Crist\u00f3v\u00e3o de Aguiar 1940-2021\" width=\"317\" height=\"412\"  \/><\/a>Crist\u00f3v\u00e3o de Aguiar 1940-2021<\/p>\n<p>E depois Coimbra, a recruta em Mafra, depois a CCA\u00c7 666 (j\u00e1 entr\u00e1mos na fic\u00e7\u00e3o), companhia de interven\u00e7\u00e3o, ele \u00e9 alferes, chama-se Arquelau Mendon\u00e7a, vai para Dunane, leste da Guin\u00e9, atravessaram o pont\u00e3o sobre o Rio Geba, passaram por Jabicunda, seguem viagem pela estrada de Sonaco, ficamos a saber que o Chefe de Posto \u00e9 um cabo-verdiano odiado pela maior parte dos aut\u00f3ctones, vai se seguir Dunane, e por muito tempo. Antes de c\u00e1 chegar j\u00e1 houve muito foguet\u00f3rio, cumpriram-se diversas opera\u00e7\u00f5es. Caminhar \u00e0 noite pode ser um verdadeiro tormento:<\/p>\n<p>\u201cO pior \u00e9 a escurid\u00e3o. Nada se enxerga. De vez em quando quebra-se o comboio, desfaz-se a fila indiana. Andamos ent\u00e3o \u00e0s apalpadelas, enrodilham-se-nos as lianas nos p\u00e9s, entrevando os passos. Alguns homens v\u00e3o caindo, mas n\u00e3o soltam pio \u2013 pensamento proibido despentear o cadaveroso sil\u00eancio que, desde o princ\u00edpio da noite, sobre n\u00f3s se abateu. Os alvores da antemanh\u00e3 ainda se encontram nos ensonados quintos do inferno\u2026<\/p>\n<p>Paramos para descansar. Veio o aviso da dianteira em passa-palavra. Deitamo-nos ent\u00e3o ao lado uns dos outros, prefigurando uma enorme vala-comum, mas com os cad\u00e1veres alinhados. Estamos de papo para o ar. O ar \u00e9 um cov\u00e3o de sombra onde nenhum apelo penetra nem de onde nenhum aceno nos chega. Fica de s\u00fabito cada um mais sozinho e mais chegado \u00e0 sua pequenez. O companheiro da ilharga \u00e9 um volume cozido e atado de escurid\u00e3o. E tocamo-nos, tocamo-nos numa repentina necessidade de nos sentirmos irmanados na rifa do destino que nem sequer adivinhamos qual seja\u2026\u201d<\/p>\n<p>O autor tem uma clara propens\u00e3o para descri\u00e7\u00f5es apocal\u00edpticas, de validade muito discut\u00edvel, \u00e9 o caso das execu\u00e7\u00f5es dos guias, pr\u00e1tica corrente do Capit\u00e3o Castelar, um especialista a raspar-se da barafunda do tiroteio. Escrever\u00e1 sempre nos seus relat\u00f3rios que o guia procurou fugir, disparou-se para o intimidar, aconteceu morrer. Ocorreram desastres a esta Companhia, logo numa esp\u00e9cie de tiroc\u00ednio, seguia o Capit\u00e3o Miranda acompanhado pelo seu guarda-costas, o soldado Barrancos que resolve despoletar uma granada de m\u00e3o ofensiva, num momento que se julgava haver confronto, afinal n\u00e3o havia inimigo \u00e0 vista, mas o Barrancos meteu a granada no bolso do d\u00f3lman, esquecido de que lhe tinha retirado a cavilha\u2026 houve feridos graves.<\/p>\n<p>Sucedem-se as descri\u00e7\u00f5es de grandes desastres, h\u00e1 tamb\u00e9m men\u00e7\u00e3o a interrogat\u00f3rios sanguin\u00e1rios, no meio da bestialidade at\u00e9 se degolam crian\u00e7as, h\u00e1 uma coluna a que se dirige a Piche, h\u00e1 uma emboscada e um mortic\u00ednio de dez homens. Tudo isso faz parte de um passado, \u00e9 s\u00f3 de lastimar que o autor n\u00e3o nos fale mais dessas opera\u00e7\u00f5es da sua companhia de interven\u00e7\u00e3o, estamos agora focados em Dunane. Toda a medonha burocracia militar \u00e9 posta a descoberto, voltamos a ter recorda\u00e7\u00f5es do passado como o Tenente Batista que treinada os filhos g\u00e9meos nas artes marciais, sempre que fazia prisioneiros na mata chamava os filhos e incitava-os a picar com as suas navalhinhas amoladas o tronco nu dos capturados, o mesmo Capit\u00e3o Batista que em Angola, face a uma infidelidade conjugal, se enforcou.<\/p>\n<p>Temos a rotina em Dunane, mas a mem\u00f3ria n\u00e3o deixa de p\u00f4r a escrito outras desgra\u00e7as que v\u00e3o acontecendo aqui e acol\u00e1. \u201cO destacamento de Dunane fica no mamel\u00e3o da plan\u00edcie que se estende de Piche a Canquelif\u00e1. Dele se pode avistar l\u00e9guas de terra arborizada, \u00e0s vezes concentrada em mata virgem, outras raleando nas valas, ou ent\u00e3o despindo-se por completo nas bolanhas. Dunane, que dava um espl\u00eandido t\u00edtulo de livro de poemas de combate neorrealistas, como o exemplo, Dun\u00e2nicas, n\u00e3o tem mais que meio hectare de superf\u00edcie.\u201d<\/p>\n<p>Ficamos a saber que h\u00e1 dois c\u00e3es, a f\u00eamea, a Andorinha, merecer\u00e1 alta pontua\u00e7\u00e3o de ternura quando parir seis cachorrinhos. Aparece-lhe do abrigo, esgravata a terra, o alferes pega ao colo acaricia-lhe o alto da cabe\u00e7a, a cadela \u00e9 mesmo mimalhenta, seguem-se as dores de parto: \u201cAcaba de ser parida a primeira cria, \u00e9 macho e tem pelo castanho-escuro como o pai; a m\u00e3e, ap\u00f3s cortar o cord\u00e3o umbilical e comer a placenta, lambe-o, lava-o, embevecida. V\u00e3o seguindo os outros em intervalos de quinze, vinte minutos, at\u00e9 \u00e0 consuma\u00e7\u00e3o do sexto, que \u00e9 f\u00eamea e tem ares das fei\u00e7\u00f5es da m\u00e3e quando andava de bibe na parada.\u201d<\/p>\n<p>Caminhamos para a cat\u00e1strofe de caiu em cima do Niza, no mesmo dia em que a Andorinha p\u00f4s c\u00e1 fora os cachorrinhos chegou carta da Lena, ele pede ao alferes que lhe explique com toda a franqueza o que \u00e9 que a Lena lhe est\u00e1 a dizer com meias palavras, Arquelau esfarrapa uma argumenta\u00e7\u00e3o, \u00f3 Niza, espera nova carta da Lena, vais ver que tudo se comp\u00f5e, nada se veio a compor, chegou carta dos pais do Niza, \u201ca rapariga que namoravas, essa tal Lena da Maria Calva, roeu-te a corda, a grande gald\u00e9ria, anda agora de namoro pegado com o filho mais velho do Rolo, aquele que est\u00e1 para a Fran\u00e7a, ele veio c\u00e1 de visita, pelas festas da Senhora da Piedade e corre pelo povo que se v\u00e3o casar breve, que Deus o proteja e a ti te d\u00ea muitas for\u00e7as para aguentares com este grande coice da mula sabida.\u201d<\/p>\n<p>O resto \u00e9 de prever, o Niza anda aos tiros, acusa o alferes de ser o maior culpado, devia o ter proibido de se tatuar, agora que tem a vida toda lixada, vai dar cabo da vida dos outros. L\u00e1 o conseguem prender, o cabo-maqueiro injeta-lhe uma dose dupla de largactil. O Niza ir\u00e1 dormir como uma pedra, acaba por ser recambiado para a sede do batalh\u00e3o. N\u00e3o vou trair o leitor revelando-lhe o desfecho desta hist\u00f3ria. Ainda h\u00e1 mais desastres, o furriel Sim\u00f5es sinistra-se ao pisar uma mina. A hist\u00f3ria caminha para o fim, embarca-se em Bambadinca para Bissau, h\u00e1 discurso do Comandante Militar. O alferes s\u00f3 sonha com a sua ilha de fantasmas, caminha para um tempo que n\u00e3o existe mais.<\/p>\n<p>H\u00e1 belos par\u00e1grafos em O Bra\u00e7o Tatuado, um depoimento forte, com muita \u00eanfase na crueldade, talvez com o objetivo de n\u00e3o nos esquecermos que nenhuma guerra escapa ao horror, sobretudo das v\u00edtimas inocentes.<\/p>\n<p><strong>M\u00e1rio Beja Santos<\/strong><\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-content\/uploads\/2025\/08\/beja-santos.jpg\" width=\"100\" height=\"100\" alt=\"beja santos\" itemprop=\"image\"\/><\/p>\n<p>Toda a sua vida profissional, entre 1974 e 2012, esteve orientada para a pol\u00edtica dos consumidores. Al\u00e9m da atividade funcional, foi representante associativo, tendo exercido fun\u00e7\u00f5es no Comit\u00e9 Consultivo dos Consumidores, na Comiss\u00e3o Europeia, e na dire\u00e7\u00e3o da Associa\u00e7\u00e3o Europeia de Consumidores. Foi autor de programas televisivos e radiof\u00f3nicos, bem como de dezenas de trabalhos no campo espec\u00edfico do consumo. Ao n\u00edvel da sua participa\u00e7\u00e3o c\u00edvica e associativa, mant\u00e9m-se ligado \u00e0 problem\u00e1tica dos direitos dos doentes e da literacia em sa\u00fade, dom\u00ednio onde j\u00e1 escreveu algumas obras orientadas para o di\u00e1logo dos utentes de sa\u00fade com os respetivos profissionais, a saber Quem mexeu no meu comprimido?, 2009, e\u00a0Tens bom rem\u00e9dio, 2013.\u00a0Doente mas Previdente, d\u00e1 continuidade a esta esfera de preocupa\u00e7\u00f5es sobre a informa\u00e7\u00e3o em sa\u00fade, capacita\u00e7\u00e3o do doente, o di\u00e1logo entre os profissionais de sa\u00fade, os utentes e os doentes.<\/p>\n<p>Colabora frequentemente com a imprensa regional e blogues, e exerce benevolato com associa\u00e7\u00f5es de consumidores, como seu representante. Desde 2006 que se dedica igualmente a estudos sobre a col\u00f3nia da Guin\u00e9 portuguesa e a vida pol\u00edtica na Guin\u00e9-Bissau, temas sobre os quais publicou uma dezena de livros.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"Crist\u00f3v\u00e3o de Aguiar reservou uma parte significativa da sua escrita a mem\u00f3rias da sua comiss\u00e3o na Guin\u00e9, deixou-nos&hellip;\n","protected":false},"author":2,"featured_media":13673,"comment_status":"","ping_status":"","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[143],"tags":[169,5580,5581,114,115,5582,5583,864,170,5584,32,33],"class_list":{"0":"post-13672","1":"post","2":"type-post","3":"status-publish","4":"format-standard","5":"has-post-thumbnail","7":"category-livros","8":"tag-books","9":"tag-braco-tatuado","10":"tag-cristovao-de-aguiar","11":"tag-entertainment","12":"tag-entretenimento","13":"tag-guerra-colonial","14":"tag-leituras","15":"tag-literatura","16":"tag-livros","17":"tag-mario-beja-santos","18":"tag-portugal","19":"tag-pt"},"share_on_mastodon":{"url":"","error":""},"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/13672","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=13672"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/13672\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/media\/13673"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=13672"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=13672"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=13672"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}