{"id":137454,"date":"2025-11-03T05:15:22","date_gmt":"2025-11-03T05:15:22","guid":{"rendered":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/137454\/"},"modified":"2025-11-03T05:15:22","modified_gmt":"2025-11-03T05:15:22","slug":"critica-born-in-the-u-s-a-bruce-springsteen","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/137454\/","title":{"rendered":"Cr\u00edtica | \u201cBorn in the U.S.A.\u201d \u2013 Bruce Springsteen"},"content":{"rendered":"<p>165<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-thumbnail wp-image-219843 aligncenter\" role=\"img\" src=\"https:\/\/www.planocritico.com\/wp-content\/uploads\/2020\/08\/hal-5.svg\" alt=\"\" width=\"200\" height=\"200\"\/><\/p>\n<blockquote>\n<p>I get up in the evenin\u2019<br aria-hidden=\"true\"\/>And I ain\u2019t got nothin\u2019 to say<br aria-hidden=\"true\"\/>I come home in the mornin\u2019<br aria-hidden=\"true\"\/>I go to bed feelin\u2019 the same way<br aria-hidden=\"true\"\/>I ain\u2019t nothin\u2019 but tired<br aria-hidden=\"true\"\/>Man, I\u2019m just tired and bored with myself<br aria-hidden=\"true\"\/>Hey there, baby, I could use just a little help<\/p>\n<\/blockquote>\n<p style=\"text-align: justify\">Lan\u00e7ado em 1984, Born in the U.S.A. n\u00e3o \u00e9 apenas o \u00e1lbum mais famoso de <a href=\"https:\/\/www.planocritico.com\/tag\/bruce-springsteen\/\" rel=\"nofollow noopener\" target=\"_blank\">Bruce Springsteen<\/a>, pois \u00e9, tamb\u00e9m, um contradit\u00f3rio monumento cultural que traz um espelho inc\u00f4modo dos Estados Unidos que retrata. Ao longo de doze faixas, o \u201cBoss\u201d transforma frustra\u00e7\u00f5es nacionais em uma radiografia da Am\u00e9rica reaganista, capturando o desencanto de uma classe trabalhadora que viu seu sonho evaporar diante da desigualdade crescente, da globaliza\u00e7\u00e3o brutal e das feridas abertas do Vietn\u00e3. O que poderia ser apenas um disco de rock com refr\u00f5es gigantes, sintetizadores oitentistas e energia de arenas se revela como uma obra que esconde certas cr\u00edticas atr\u00e1s da imagem patriota que a produ\u00e7\u00e3o ganhou.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Esse paradoxo foi, desde o in\u00edcio, o grande mal-entendido de Born in the U.S.A.. Seu single-t\u00edtulo foi rapidamente apropriado como hino patri\u00f3tico, quando, na verdade, Springsteen canta o oposto: o abandono dos veteranos, o cinismo do governo e a fal\u00eancia do sonho americano. A faixa Born in the U.S.A. \u00e9 uma elegia travestida de alegria. A for\u00e7a da can\u00e7\u00e3o est\u00e1 justamente no contraste em que a banda explode num arranjo triunfal enquanto a letra descreve um trabalhador descartado pela mesma na\u00e7\u00e3o que o enviou \u00e0 guerra. \u00c9 o rock do desencanto com bandeira e tudo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Esse \u00e9 o tom do \u00e1lbum inteiro, em uma profunda empatia pelas pessoas comuns esmagadas pelo sistema. Springsteen observa os deslocados da Am\u00e9rica industrial, como oper\u00e1rios e veteranos, transformando suas micro-hist\u00f3rias em cr\u00f4nicas que soam universais. Mesmo quando fala de um caso de amor, o pano de fundo social nunca desaparece. O \u00e1lbum \u00e9 pol\u00edtico no conte\u00fado, mas sempre encaixado por melodias divertidas e bem humoradas nos gestos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">A produ\u00e7\u00e3o marca uma guinada sonora. Se Nebraska (1982) foi um trabalho nu e sombrio gravado no gravador de quatro canais em casa, Born in the U.S.A. chega como seu inverso est\u00e9tico: sintetizadores brilhantes, bateria explosiva de Max Weinberg, teclados de Roy Bittan guiando boa parte dos arranjos e riffs de guitarra mais polidos, com um mix de inspira\u00e7\u00f5es, apesar de ainda influenciado pelo jazz e o blues. \u00c9 um Springsteen grandioso, aberto ao pop, mas sem perder a densidade narrativa. Essa dualidade faz o \u00e1lbum soar simultaneamente acess\u00edvel e profundo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Depois da faixa-t\u00edtulo, Cover Me acelera o ritmo com groove e sensualidade quase funk, como se oferecesse abrigo emocional contra o mundo hostil l\u00e1 fora (claramente uma met\u00e1fora sobre estresse p\u00f3s-traum\u00e1tico), mas embalado numa can\u00e7\u00e3o amorosa mais padr\u00e3o. Essa abordagem segue na c\u00f4mica Darlington County, em que dois amigos buscando trabalho dirigem para o sul apenas para encontrar promessas vazias e mulheres. A m\u00fasica soa leve, quase festiva, mas h\u00e1 um subtexto que refor\u00e7a um pa\u00eds que n\u00e3o tem mais lugar para seus rapazes de m\u00e3os calejadas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">O que fica bem claro logo no in\u00edcio do disco \u00e9 a facilidade da produ\u00e7\u00e3o em capturar o imagin\u00e1rio coletivo estadunidense com can\u00e7\u00f5es feitas para uma road-trip de muitas cantorias. Afinal, como resistir ao Sha la la la? Essa pegada c\u00f4mica atravessa muito bem as cr\u00edticas para evitar que o \u00e1lbum se torne muito dram\u00e1tico, mas tampouco superficial. \u00c9 uma linha t\u00eanue que Springsteen caminha surpreendentemente bem.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Uma esp\u00e9cie de contraparte para 9 to 5, temos Working on the Highway assumindo a perspectiva do oper\u00e1rio condenado a trabalhos for\u00e7ados em uma hist\u00f3ria triste mascarada por upbeats, enquanto Downbound Train mergulha no desamparo de um homem que perdeu tudo, meio que uma cr\u00f4nica \u00e0 l\u00e1 J\u00f3 para o meio-oeste americano. O arranjo destacado pelos teclados sustenta o lamento quase silencioso de quem j\u00e1 n\u00e3o espera reden\u00e7\u00e3o, no que \u00e9 a faixa mais triste do \u00e1lbum. De certa forma, inicialmente parece at\u00e9 destoar um pouco do ritmo da produ\u00e7\u00e3o, mas nada que atrapalhe a experi\u00eancia.\u00a0<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Inclusive, a altern\u00e2ncia fica ainda mais clara em I\u2019m on Fire, que destila o minimalismo emocional do disco. Em menos de tr\u00eas minutos, Bruce constr\u00f3i uma can\u00e7\u00e3o assombrada por desejo, v\u00edcio e solid\u00e3o. Cada batida \u00e9 um suspiro. Um eco. A interpreta\u00e7\u00e3o de Springsteen \u00e9 contida, mas latejante em um blues interior, daqueles que queimam devagar, como se estiv\u00e9ssemos num quarto escuro onde a frustra\u00e7\u00e3o respira junto do ouvinte. Sem d\u00favidas, um dos momentos mais hipn\u00f3ticos da carreira do cantor.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">No segundo lado da obra, No Surrender reacende a chama da juventude, mas com um olhar maduro: amizades e ideais que resistem ao tempo, mesmo quando o mundo insiste em apag\u00e1-los. A juventude idealista ficou para tr\u00e1s e o mundo real exige concess\u00f5es. Mesmo assim, Springsteen insiste: alguns sonhos merecem ser teimosos. \u00c9 melancolia com a energia de um show de rock. As guitarras v\u00eam em camadas, uma base r\u00edtmica aberta e outra com acordes ascendentes. O refr\u00e3o dobra vozes e empilha energia, \u00e9 uma das maiores paredes sonoras do disco, quase Springsteen se encontrando com o power pop.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Bobby Jean, por sua vez, \u00e9 despedida e celebra\u00e7\u00e3o em uma carta para um amigo que partiu, escrita com nostalgia doce, mas sem amargura. Bruce canta a aus\u00eancia como quem reconhece que crescer \u00e9 tamb\u00e9m deixar ir e que certas pessoas ficam presas no que fomos, n\u00e3o no que somos. As guitarras soam como mem\u00f3rias que se desmancham no ar, com o piano liderando a harmonia, enquanto o sax de Clarence Clemons d\u00e1 a cara emocional da faixa em um solo final que \u00e9 uma despedida pura em forma de sopro. \u00c9 adeus sem trauma, mas com saudade transbordando.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">I\u2019m Goin\u2019 Down alterna humor e melancolia, com um romance que se desgasta ao som de risos nervosos; uma leitura ir\u00f4nica da rotina amorosa. Bateria e baixo formam uma base \u201cpuxada para baixo\u201d (algo muito bem personificado pela voz de Springsteen), com groove simples e repetitivo, com aparente inten\u00e7\u00e3o de mostrar desgaste por repeti\u00e7\u00e3o. J\u00e1 Glory Days \u00e9 quase uma s\u00e1tira melanc\u00f3lica da velha e boa nostalgia, com um hino sobre o passado que todos insistem em reviver, enquanto o presente escapa. \u00c9 outra can\u00e7\u00e3o que se apropria bem de certos clich\u00eas estadunidenses com uma melodia agrad\u00e1vel e ligeiramente reflexiva.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Dancing in the Dark, o maior single do disco, mostra o desejo urgente de se movimentar, de respirar dentro de um corpo que parece parado na vida. A harmonia de synth-pop e os teclados em alto volume criam um clima de festa, mas a letra \u00e9 desespero puro: \u201cI ain\u2019t nothing but tired \/ Man, I\u2019m just tired and bored with myself\u201d. Bruce est\u00e1 cansado, entediado consigo mesmo e implorando por mudan\u00e7a, enquanto entrega um dos refr\u00f5es mais ic\u00f4nicos da d\u00e9cada. A pista de dan\u00e7a vira v\u00e1lvula de escape do desencanto e do t\u00e9dio.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">O encerramento, My Hometown, retoma o tom contemplativo de Nebraska. O ciclo se fecha: Bruce olha para a cidade onde cresceu, lembra das ruas que moldaram sua identidade e testemunha o decl\u00ednio que as consome. H\u00e1 uma cena espec\u00edfica \u2014 a f\u00e1brica fechando \u2014 que parece resumir toda a trag\u00e9dia americana que o disco narra. O hino \u00e9pico do come\u00e7o encontra sua verdade dura aqui: a p\u00e1tria que prometeu dignidade n\u00e3o entregou. Fecho agridoce, onde a mem\u00f3ria coletiva se encontra com a fal\u00eancia econ\u00f4mica. A m\u00fasica se transforma em despedida e a despedida em s\u00edntese do colapso da classe trabalhadora americana, no que \u00e9 um desfecho contradit\u00f3rio para uma produ\u00e7\u00e3o majoritariamente conhecida por sua energia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">No conjunto, Born in the U.S.A. \u00e9 uma obra que se equilibra entre o pop massivo e o coment\u00e1rio social mais agudo da carreira de Springsteen. A genialidade do \u00e1lbum est\u00e1 na forma como ele disfar\u00e7a o desespero em festa e, ao fazer isso, revela que, na Am\u00e9rica de Bruce, esperan\u00e7a e frustra\u00e7\u00e3o s\u00e3o indissoci\u00e1veis, transformando a desilus\u00e3o da classe trabalhadora em m\u00fasica para est\u00e1dios e para r\u00e1dios. \u00c9 poss\u00edvel cantar a plenos pulm\u00f5es sobre tudo que se perdeu porque, de alguma maneira, isso tamb\u00e9m \u00e9 sobreviver. Bruce n\u00e3o ergue bandeiras, ele veste as cicatrizes, fazendo o ouvinte ficar animado e pensativo ao mesmo tempo.<\/p>\n<p><strong>Born in the U.S.A.<\/strong><br \/><strong>Artista:<\/strong> Bruce Springsteen<br \/><strong>Pa\u00eds:<\/strong> EUA<br \/><strong>Lan\u00e7amento:<\/strong> 1984<br \/><strong>Gravadora:<\/strong>\u00a0Skarkali<br \/><strong>Estilo: <\/strong>Rock, Pop<br \/><strong>Dura\u00e7\u00e3o:<\/strong> 46 min.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"165 I get up in the evenin\u2019And I ain\u2019t got nothin\u2019 to sayI come home in the mornin\u2019I&hellip;\n","protected":false},"author":2,"featured_media":137455,"comment_status":"","ping_status":"","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[141],"tags":[14571,114,115,149,150,214,32,33,1645],"class_list":{"0":"post-137454","1":"post","2":"type-post","3":"status-publish","4":"format-standard","5":"has-post-thumbnail","7":"category-musica","8":"tag-bruce-springsteen","9":"tag-entertainment","10":"tag-entretenimento","11":"tag-music","12":"tag-musica","13":"tag-pop","14":"tag-portugal","15":"tag-pt","16":"tag-rock"},"share_on_mastodon":{"url":"https:\/\/pubeurope.com\/@pt\/115484067498320423","error":""},"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/137454","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=137454"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/137454\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/media\/137455"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=137454"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=137454"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=137454"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}