{"id":138312,"date":"2025-11-03T20:03:09","date_gmt":"2025-11-03T20:03:09","guid":{"rendered":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/138312\/"},"modified":"2025-11-03T20:03:09","modified_gmt":"2025-11-03T20:03:09","slug":"o-que-fazem-as-imagens-ou-a-foto-do-dia-seguinte","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/138312\/","title":{"rendered":"O que fazem as imagens, ou a foto do dia seguinte"},"content":{"rendered":"<p>Uma foto se transformou na grande personagem da semana passada. Para algumas pessoas, dentre as quais me incluo, ela \u00e9 \u00edcone de um Brasil da viol\u00eancia e da desigualdade. Para outras, um \u00edndice da seguran\u00e7a provida por um Estado que pensa ter o direito supremo sobre a vida e a morte de pessoas pobres, pretas e pardas das comunidades.\u00a0<\/p>\n<p>Essa \u00e9 uma foto que escancara a divis\u00e3o reinante no Brasil: entre os que t\u00eam asfalto e os que n\u00e3o t\u00eam; os que vivem com estrutura e aqueles que carecem dela; aqueles que t\u00eam seguran\u00e7a e os que parecem ter perdido o direito a ela; aqueles que t\u00eam nome e os que devem permanecer no anonimato: os inclu\u00eddos e os exclu\u00eddos.<\/p>\n<p>No mesmo dia 28 de outubro, dia da trag\u00e9dia que levou ao assassinato de cerca de 120 pessoas, Jurema Werneck, diretora-executiva da Anistia Internacional Brasil, em entrevista ao Uol, afirmou que \u201cGovernador de estado nenhum tem mandato para mandar chacinar pessoas\u201d. Corajosa, na mesma mat\u00e9ria, ela falou sobre o crime organizado e as comunidades que vivem no Complexo do Alem\u00e3o e no Complexo da Penha. Insistiu na vida e n\u00e3o apenas na morte, no direito \u00e0 justi\u00e7a e n\u00e3o \u00e0 chacina, na inclus\u00e3o e n\u00e3o no apartheid social.\u00a0<\/p>\n<p>A fala de Jurema Werneck ecoa a decis\u00e3o dos pr\u00f3prios moradores, que apareceram no dia seguinte \u00e0 trag\u00e9dia revelando uma sorte de memorial da morte. L\u00e1 estavam, no dia 29, as fotos dos corpos enfileirados, praticamente nus, descal\u00e7os, sujos, com marcas de bala, e com seus rostos sem vida. A pr\u00f3pria vizinhan\u00e7a os despira para que fossem mais facilmente identificados.<\/p>\n<p>Tratava-se de, como diz Sergio Burgi, um r\u00e9quiem: os mortos foram retirados das matas e do abandono pelos seus parentes, conhecidos, vizinhos e amigos e, assim, resistiram \u00e0 pol\u00edtica de invisibiliza\u00e7\u00e3o brasileira, que pratica chacinas e as conclui com esse tipo de performance do anonimato. O anonimato na vida e na morte.<\/p>\n<p>Com certeza, essa n\u00e3o era a maneira como as v\u00edtimas gostariam de ser mostradas ou lembradas na posteridade, mas era como \u201cpodiam\u201d ser expostas por seus pr\u00f3ximos. Como podiam virar \u201cimagens de den\u00fancia\u201d em vez de meras \u201cevid\u00eancias\u201d policiais. Essa era tamb\u00e9m uma forma de a comunidade lidar com suas perdas e chorar seus mortos. Era igualmente uma prova da barb\u00e1rie do Estado, da m\u00e1quina de matar do governador Cl\u00e1udio Castro, e, ao mesmo tempo, de evocar a lembran\u00e7a de outras chacinas. A da Candel\u00e1ria (em 1993 e que resultou na morte de 8 jovens em situa\u00e7\u00e3o de rua); a de Vig\u00e1rio Geral (em 1993, com a morte de 21 pessoas); a do Fallet-Fogueteiro, em Santa Tereza (com a morte de 15 pessoas); a da Baixada Fluminense, em 2005, que resultou no assassinato de 29 pessoas; a do Jacarezinho em 2021 (com a morte de 28 pessoas); a da Vila Cruzeiro, em 2022,\u00a0 no complexo da Penha, quando 23 pessoas perderam suas vidas.\u00a0<\/p>\n<p>Ao trazer consigo o passado recente e o trauma das comunidades, a foto virou uma resposta pol\u00edtica, com os corpos comprovando que n\u00e3o h\u00e1 seguran\u00e7a p\u00fablica para os pobres e pretos. H\u00e1 apenas julgamento sum\u00e1rio e morte. Linchamento.<\/p>\n<p>Por parte da popula\u00e7\u00e3o destitu\u00edda dos Complexos da Penha e do Alem\u00e3o, trata-se de chamar aten\u00e7\u00e3o para como o Estado republicano deixa de lhes entregar o m\u00ednimo necess\u00e1rio: sa\u00fade, cuidado, respeito, educa\u00e7\u00e3o, justi\u00e7a e seguran\u00e7a.<\/p>\n<p>Mas como fotos \u201cfazem\u201d e atuam diretamente na realidade, logo no dia seguinte elas viraram outro tipo de registro. A m\u00eddia hegem\u00f4nica \u2013 a imprensa, a televis\u00e3o, o r\u00e1dio \u2013 usaram as mesmas imagens, mas, em sua maioria, inverteram o sinal.\u00a0<\/p>\n<p>Legendas e coment\u00e1rios t\u00eam o poder de transformar fotos em \u201cimagens morais\u201d, e de estabilizar outros sentidos para os mesmos registros. E em uma s\u00f3 dire\u00e7\u00e3o. Dessa maneira, as fotos n\u00e3o atuavam mais como \u201ctestemunhas\u201d da ag\u00eancia dos moradores. Eram agora \u201cregistros\u201d frios do anonimato.<\/p>\n<p>Ou seja, viraram \u201cprovas\u201d da a\u00e7\u00e3o e da justi\u00e7a de um Estado que pensa ter a capacidade de transformar cidad\u00e3os em \u201cindiv\u00edduos criminosos\u201d, reconhecidos a partir desse tipo de indexa\u00e7\u00e3o, e que devem, portanto, ser eliminados para fazer justi\u00e7a e legitimar o pr\u00f3prio poder. Devem morrer duas vezes: na vida e na mem\u00f3ria.<\/p>\n<p>Uma nova batalha entrava, ent\u00e3o, em campo: o bem que vencia o mal, a limpeza agia por sobre a sujeira. Tudo justificava a elimina\u00e7\u00e3o sum\u00e1ria de \u201cbandidos e suspeitos\u201d, sem que fosse necess\u00e1rio nome\u00e1-los ou identificar seus corpos. O corpo exposto torna-se, assim, invis\u00edvel. \u201cT\u00e1 l\u00e1 um corpo estendido no ch\u00e3o\u201d, cantam Jo\u00e3o Bosco e Aldir Blanc na m\u00fasica De Frente Pro Crime, de 1975.<\/p>\n<p>Conforme explica a cr\u00edtica de fotografia Ariella A\u00efsha Azoulay, esses s\u00e3o processos recorrentes de \u201ciconiza\u00e7\u00e3o\u201d das imagens. De imposi\u00e7\u00e3o de certos significados. Quando se imp\u00f5e uma certa leitura \u201cverdadeira\u201d das fotos, apagando-se os processos de constru\u00e7\u00e3o dessas mesmas verdades. A partir de ent\u00e3o podemos \u201cver\u201d, mas n\u00e3o conseguimos mais \u201cenxergar\u201d para al\u00e9m do que nos \u00e9 facultado entender por meio das legendas, dos coment\u00e1rios \u2013 ou das estat\u00edsticas frias que mostraram, mais ao final da semana, que 57% da popula\u00e7\u00e3o carioca aprovava a chacina.<\/p>\n<p>Chacina rima com faxina e ambos os termos lembram como na l\u00f3gica brasileira certas pessoas sempre estiveram sujeitas a desaparecer, a viver pouco, a viver mal, a viver nas margens.<\/p>\n<p>Fotografias funcionam por estilo, persuas\u00e3o e repeti\u00e7\u00e3o. De forma que a partir de certo momento apenas conseguimos entender essas imagens por meio da l\u00f3gica do confinamento e da plantation.<\/p>\n<p>A foto da semana prova de que maneira se desenvolve uma disputa de narrativas visuais e como certas interpreta\u00e7\u00f5es se tornam vencedoras.<\/p>\n<p>Essas s\u00e3o \u201cimagens de controle\u201d, na famosa express\u00e3o de Patricia Hill Collins, que n\u00e3o apenas \u201crepresentam\u201d, mas tamb\u00e9m exercem, vigiam, normalizam o poder. Naturalizam, assim, posi\u00e7\u00f5es de mando, apagando disputas, incoer\u00eancias, ambiguidades.<\/p>\n<p>Estamos diante de processos de constru\u00e7\u00e3o da desigualdade e da desumaniza\u00e7\u00e3o que afetam sobretudo pessoas negras e pobres, que morrem prematuramente ou passam boa parte de seus dias no encarceramento.\u00a0<\/p>\n<p>Esses s\u00e3o os \u201cafter life\u201d da escravid\u00e3o, nas palavras de Saiydia Hartman, as sobrevidas de um sistema de colonialidade que n\u00e3o ficou restrito ao passado.\u00a0<\/p>\n<p>Mas n\u00e3o somos apenas telespectadores das imagens. Temos papel ativo diante delas, que costumam viver em n\u00f3s enquanto fantasmas sem tempo ou rem\u00e9dio. S\u00f3 conseguimos ver o que j\u00e1 vimos antes \u2013 e essa \u00e9 a hist\u00f3ria da foto da semana que passou.<\/p>\n<p>Imagens podem ser lidas, por\u00e9m, de forma contraintuitiva e indisciplinada, para que assim dissipem o v\u00e9u da manipula\u00e7\u00e3o do Estado e at\u00e9 da m\u00eddia hegem\u00f4nica.\u00a0<\/p>\n<p>Toda imagem carrega seu grau de ambiguidade. No nosso caso, elas podem ser lidas como \u201cfotos desobedientes\u201d, e n\u00e3o apenas como \u201cfotos de comprova\u00e7\u00e3o\u201d do que previamente julgamos saber.\u00a0<\/p>\n<p>Fotos nada t\u00eam de ing\u00eanuas. Elas se inscrevem como tatuagem, e dessa maneira viram imagens normativas e morais. S\u00e3o como que fic\u00e7\u00f5es do tempo e agentes da hist\u00f3ria. Elas moldam comportamentos, regulam conven\u00e7\u00f5es, controlam e definem o que pode e n\u00e3o pode ser visto. Passam para a m\u00eddia, para as escolas, para os livros did\u00e1ticos.\u00a0<\/p>\n<p>Ariella Azoulay sugere que fa\u00e7amos novos contratos com as fotografias. Que a partir delas passemos a enxergar situa\u00e7\u00f5es mais complexas e subjetivas. Possamos tamb\u00e9m pensar em visibilidades emancipat\u00f3rias e em repara\u00e7\u00f5es.\u00a0<\/p>\n<p>Essa \u00e9 a famosa separa\u00e7\u00e3o \u201cdo joio e do trigo\u201d. Afinal, quais s\u00e3o as fotos feitas para sobreviver e quais aquelas que n\u00e3o devem sobreviver? Quais s\u00e3o as interpreta\u00e7\u00f5es das fotos que precisam restar na mem\u00f3ria e na hist\u00f3ria e quais h\u00e3o de desaparecer?<\/p>\n<p>Eu (ainda) aposto nos projetos que restituem as pessoas como elas querem ser vistas, como pretendem existir e at\u00e9 morrer neste mundo.<\/p>\n<p>Arquivos visuais s\u00e3o criados, em boa parte, para produzir o anonimato da popula\u00e7\u00e3o despossu\u00edda. Trazem em geral narrativas b\u00e9licas em que o corpo do soberano permanece ausente.<\/p>\n<p>\u00c9 dessa maneira que esses documentos visuais entram para a hist\u00f3ria e tornam-se oficiais, funcionando como agentes do poder.<\/p>\n<p>Mas elas podem funcionar, tamb\u00e9m, enquanto projetos de recusa, como fizeram as comunidades ao expor o corpo j\u00e1 sem vida de seus entes queridos.<\/p>\n<p>Todavia, se vingar no futuro apenas a vers\u00e3o vitoriosa de \u201csucesso\u201d, como disse o governador do Rio, talvez estejamos vivendo um retumbante \u201cfracasso\u201d, pois perdemos a vontade e o desejo de estarmos afetados pela dor dos outros. Pela vida dos outros que \u00e9 tamb\u00e9m a nossa.\u00a0<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"Uma foto se transformou na grande personagem da semana passada. 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