{"id":13882,"date":"2025-08-03T07:16:07","date_gmt":"2025-08-03T07:16:07","guid":{"rendered":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/13882\/"},"modified":"2025-08-03T07:16:07","modified_gmt":"2025-08-03T07:16:07","slug":"portugal-le-mais-e-depois-megafone","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/13882\/","title":{"rendered":"Portugal l\u00ea mais, e depois? | Megafone"},"content":{"rendered":"<p>N\u00e3o h\u00e1 d\u00favida: os portugueses est\u00e3o a ler mais. Oi\u00e7o-o nas not\u00edcias, leio-o em relat\u00f3rios entusi\u00e1sticos, sinto-o at\u00e9 nas filas das livrarias onde agora se empurra para comprar o \u00faltimo \u201cfen\u00f3meno TikTok\u201d, uma express\u00e3o que, at\u00e9 h\u00e1 pouco tempo, associava mais a coreografias com c\u00e3es do que a obras liter\u00e1rias.<\/p>\n<p>Mas deixemo-nos de ilus\u00f5es. Estar a ler mais n\u00e3o significa, de todo, estar a ler melhor. Houve um tempo em que isso era claro: distinguia-se o livro da esta\u00e7\u00e3o do livro de cabeceira. Hoje, tudo se confunde num s\u00f3 corredor \u2014 o dos tops, que grita com capas fluorescentes, t\u00edtulos sensacionalistas e uma obsess\u00e3o quase pornogr\u00e1fica com reviravoltas e cliffhangers. Puro capitalismo. A livraria tornou-se um feed de Instagram com lombadas.<\/p>\n<p>Admito: tamb\u00e9m me sabe bem, num dia abrasador de praia, deitado na toalha com uma bola de Berlim colada ao umbigo, ler um thriller barato sobre criadas com segredos obscuros e amantes com agendas escondidas. H\u00e1 espa\u00e7o para esse tipo de leitura \u2014 h\u00e1 espa\u00e7o para tudo. Mas n\u00e3o me venham depois vender a ideia de que acabaram de consumir um festim liter\u00e1rio digno de um Nobel, s\u00f3 porque <a href=\"https:\/\/www.publico.pt\/2023\/04\/21\/p3\/noticia\/sergio-iris-estao-criar-nova-geracao-leitores-tiktok-livro-video-2046352\" rel=\"nofollow noopener\" target=\"_blank\">viram algu\u00e9m no TikTok<\/a> dizer que \u201cmudou a vida\u201d depois de tr\u00eas cap\u00edtulos.<\/p>\n<p>O mercado editorial portugu\u00eas, hoje, parece mais interessado em algoritmos do que em argumentos. A qualidade do texto? Detalhe secund\u00e1rio. O importante \u00e9 o n\u00famero de seguidores do autor no Instagram. Escrever bem tornou-se um adere\u00e7o. E editar com rigor, uma rel\u00edquia. A revis\u00e3o? Mal paga, feita \u00e0 pressa, \u00e0 margem da dignidade que o of\u00edcio merece. Livros chegam \u00e0s estantes com gralhas, erros de continuidade e personagens que n\u00e3o sabem o que fazem na hist\u00f3ria. A culpa? Ningu\u00e9m sabe \u2014 talvez do narrador omnisciente, que tamb\u00e9m j\u00e1 n\u00e3o \u00e9 o que era.<\/p>\n<p>        &#13;<\/p>\n<p>&#13;<br \/>\n                &#13;\n            <\/p>\n<p>&#13;<\/p>\n<p>Depois h\u00e1 os livros que prometem mudar vidas e enriquecer em vinte e quatro horas. T\u00eam capas apelativas, t\u00edtulos arrebatadores e a promessa de um amanh\u00e3 mais radiante por apenas vinte euros. S\u00e3o manuais de auto-ajuda disfar\u00e7ados de epifanias liter\u00e1rias, engolindo almas perdidas que acreditam estar a investir em sabedoria quando, na verdade, compram f\u00f3rmulas gastas. O problema? Para evoluir \u00e9 preciso pensar \u2014 e esse tipo de leitura n\u00e3o convida ao pensamento. Trata o leitor como um ser mec\u00e2nico, raso, que precisa apenas de ser conduzido, nunca desafiado. N\u00e3o estar\u00e1 na hora de perceberem isso?<\/p>\n<p>As escolas de escrita criativa proliferam e prometem transformar qualquer alma curiosa no pr\u00f3ximo <a href=\"https:\/\/www.publico.pt\/2021\/11\/16\/p3\/noticia\/descobriram-verdade-esperanca-jose-saramago-deixaram-ler-1985040\" rel=\"nofollow noopener\" target=\"_blank\">Saramago<\/a>. O resultado, invariavelmente, s\u00e3o livros com uma boa ideia \u2014 apenas uma \u2014 esticada at\u00e9 \u00e0s 300 p\u00e1ginas com palha, adjectivos ao molho e mon\u00f3logos existencialistas de personagens a contemplar o p\u00f4r-do-sol enquanto filosofam sobre a vida e a humidade relativa do ar.<\/p>\n<p>N\u00e3o quero parecer elitista, embora, admito, julgue um pouco quem confunde Dostoi\u00e9vski com Colleen Hoover ou <a href=\"https:\/\/www.publico.pt\/2025\/04\/07\/culturaipsilon\/noticia\/freida-mcfadden-medica-anonima-pos-milhoes-ler-thrillers-novo-livro-2127250\" rel=\"nofollow noopener\" target=\"_blank\">Freida McFadden<\/a>. Mas tamb\u00e9m n\u00e3o defendo que se leia apenas Dostoi\u00e9vski \u00e0 luz da vela, em russo e com dicion\u00e1rio ao lado. H\u00e1 bons livros de leitura f\u00e1cil, e h\u00e1 p\u00e9ssimos livros que se fazem passar por grandes obras. O problema est\u00e1 em quando se apaga a fronteira. Quando se confunde bestseller com qualidade liter\u00e1ria. Quando se exige reconhecimento cr\u00edtico a quem escreve como se estivesse a redigir legendas para reels.<\/p>\n<p>H\u00e1 uma tend\u00eancia recente: a vitimiza\u00e7\u00e3o de alguns autores nas redes sociais. Que n\u00e3o s\u00e3o levados a s\u00e9rio e que mereciam mais reconhecimento, dizem. N\u00e3o. S\u00e3o pouco levados a s\u00e9rio porque escrevem mal. N\u00e3o todos, claro. Ter publicado um livro, ou ter milhares de seguidores, n\u00e3o confere automaticamente qualidade liter\u00e1ria. Muitos destes novos autores exigem ser comparados a grandes nomes da literatura, mas n\u00e3o trazem nem a forma, nem o conte\u00fado, nem a densidade m\u00ednima para tal ambi\u00e7\u00e3o. Faltam-lhes mundo, faltam-lhes leituras, falta-lhes sobretudo texto.<\/p>\n<p>Sei que parece um discurso saudosista \u2014 e talvez seja. Mas lembro-me de ir \u00e0 biblioteca e sair com livros da colec\u00e7\u00e3o Uma Aventura. Eram simples, sim, mas havia sempre um pingo de cultura, uma mensagem. Hoje, a inf\u00e2ncia liter\u00e1ria parece resumida a hist\u00f3rias sobre casas com piscina e festas de influencers. N\u00e3o se aprende, n\u00e3o se pensa \u2014 e, se n\u00e3o se pensa, n\u00e3o se forma leitor. Ser\u00e1 que n\u00e3o est\u00e1 na hora de ensinar a ler melhor, n\u00e3o s\u00f3 mais?<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"N\u00e3o h\u00e1 d\u00favida: os portugueses est\u00e3o a ler mais. 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