{"id":13960,"date":"2025-08-03T09:00:33","date_gmt":"2025-08-03T09:00:33","guid":{"rendered":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/13960\/"},"modified":"2025-08-03T09:00:33","modified_gmt":"2025-08-03T09:00:33","slug":"como-apanhar-um-comboio-de-seculos-por-bernardo-afonso","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/13960\/","title":{"rendered":"&#8220;Como apanhar um comboio de s\u00e9culos?&#8221;, por Bernardo Afonso"},"content":{"rendered":"<p>\t\tSubscreve a newsletter Fuma\u00e7a<\/p>\n<p>Este texto foi lan\u00e7ado, em primeira m\u00e3o, na nossa newsletter. Se quiseres receber estas cr\u00f3nicas, textos exclusivos e recomenda\u00e7\u00f5es de reportagens, podcasts e filmes no teu email,\u00a0subscreve aqui.<\/p>\n<p>Ol\u00e1.<\/p>\n<p>Hoje escrevo-te para que leias. N\u00e3o este texto especificamente, mas uma cole\u00e7\u00e3o de sugest\u00f5es que fui acumulando nos \u00faltimos dois anos, numa prateleira da estante c\u00e1 de casa com a etiqueta \u201cPalestina\u201d. P\u00e1ginas que julguei serem apenas para partilhar e comentar entre amigos, mas que a 7 de outubro de 2023 ganharam uma renovada urg\u00eancia e import\u00e2ncia. Nesse dia de desespero, um dia que dura at\u00e9 hoje, procurei nos livros respostas para a impot\u00eancia. Sabendo que nada come\u00e7ou a\u00ed.\u00a0\u00a0<\/p>\n<p>Qual o plano para se apanhar um comboio em movimento h\u00e1 mais de um s\u00e9culo? O trabalho est\u00e1 facilitado para quem l\u00ea ingl\u00eas. \u00c9 que a tradu\u00e7\u00e3o de literatura palestiniana ou com um \u00e2ngulo palestiniano escasseia no mercado portugu\u00eas. Uma desigualdade gritante no acesso \u00e0 informa\u00e7\u00e3o que continua por resolver.\u00a0<\/p>\n<p>Tentei come\u00e7ar pelo que tantos reclamam como a origem de tudo: <strong>A B\u00edblia<\/strong>, numa vers\u00e3o traduzida por Frederico Louren\u00e7o a partir da vers\u00e3o septuaginta. Esta \u00e9 considerada a vers\u00e3o completa mais pr\u00f3xima dos textos originais, escrita na l\u00edngua em que Jesus Cristo teria lido os textos judaicos, o grego. Aqui est\u00e1 a raiz da moral judaico-crist\u00e3 e um dos pilares fundamentais do sionismo. Um livro sociologicamente fascinante, historicamente falso.<\/p>\n<p>Para relatos historiogr\u00e1ficos, fui aos mais reputados. Para desconstruir parte da mitologia b\u00edblica, judaica e sionista, os tr\u00eas livros de Shlomo Sand traduzidos para portugu\u00eas: <strong>Como Uma Ra\u00e7a Foi Imaginada<\/strong>,<strong> <\/strong><strong>Como a Terra de Israel Foi Inventada<\/strong>, e <strong>Como Deixei de Ser Judeu<\/strong>. Para um enfoque na hist\u00f3ria e cultura \u00e1rabe, especialmente palestiniana, s\u00e3o extraordin\u00e1rios para leigos, como eu, <strong>Hist\u00f3ria dos Povos \u00c1rabes<\/strong>, de Albert Hourani, <strong>Palestina \u2013 Uma Biografia<\/strong>, de Rashid Khalidi, <strong>Hist\u00f3ria da Palestina Moderna<\/strong>, de Ilan Papp\u00e9, e <strong>Palestine: A Four Thousand Year History<\/strong>, de Nur Masalha. S\u00e3o livros introdut\u00f3rios, mas abrangentes, que ousam sintetizar grandes per\u00edodos hist\u00f3ricos. Algo acad\u00e9micos, mas acess\u00edveis.\u00a0<\/p>\n<p>Se preferires um livro introdut\u00f3rio, mas um pouco mais curto e simples, <strong>Dez Mitos Sobre Israel<\/strong>, de Ilan Papp\u00e9, e <strong>Porque Teme Israel A Palestina<\/strong>, de Raja Shehadeh, s\u00e3o boas op\u00e7\u00f5es. E, aparentemente mais espec\u00edfico no tema, mas t\u00e3o vasto como os restantes, <strong>Nine Quarters of Jerusalem<\/strong>, do jornalista brit\u00e2nico Matthew Teller \u2013 uma biografia da cidade, que vai da cultura cigana \u00e0s origens das <strong>Mil e Uma Noites<\/strong> (outro t\u00edtulo para a lista).<\/p>\n<p>Se gostares da escrita biogr\u00e1fica de Raja Shehadeh, qualquer livro dele que te apare\u00e7a \u00e0 frente \u00e9 bom. A sensa\u00e7\u00e3o que tenho \u00e9 que cada um \u00e9 melhor do que o anterior. O mais conhecido ser\u00e1 <strong>Palestinian Walks<\/strong>, sobre as suas viagens a p\u00e9 pela Cisjord\u00e2nia e o impacto ambiental da ocupa\u00e7\u00e3o. Os que mais gostei foram <strong>We Could Have Been Friends, My Father and I<\/strong><strong> <\/strong>e <strong>Where The Line Is Drawn<\/strong><strong> <\/strong>\u2013 o primeiro sobre a rela\u00e7\u00e3o com o pai, Aziz Shehadeh, famoso advogado palestiniano, que defendeu a solu\u00e7\u00e3o de dois estados desde os anos 50 e que morreu assassinado \u00e0 porta de casa; o segundo sobre a (tentativa de) rela\u00e7\u00e3o com um amigo de inf\u00e2ncia israelita, sionista cultural. H\u00e1 ainda o relato do seu crescimento e forma\u00e7\u00e3o sob um regime militar ocupante em <strong>Strangers In The House<\/strong>, e uma longa tarde a caminhar por Ramallah e a refletir sobre os seus 50 anos a viver sob ocupa\u00e7\u00e3o em <strong>Going Home<\/strong>.\u00a0<\/p>\n<p>Talvez a melhor descoberta que fiz nesta obsess\u00e3o liter\u00e1ria tenha sido Ghassan Kanafani. Cheguei a ele tarde e envergonhado desse tardar. Escritor, jornalista e porta-voz da Frente Popular para a Liberta\u00e7\u00e3o da Palestina, conhecido como \u201co comando que nunca disparou uma arma\u201d, \u00e9 um prosador como li poucos, um dos mais inteligentes e articulados analistas do que se passa na Palestina. Em Beirute, em 1972, aos 36 anos, foi assassinado com a sobrinha pela Mossad, que armadilhou com explosivos o seu carro. Mais de 50 anos depois, o que escreveu \u00e9 atual. Para cole\u00e7\u00f5es de contos e pequenas hist\u00f3rias, h\u00e1 <strong>Men In The Sun and Other Palestinian Stories<\/strong> (a hist\u00f3ria referida no t\u00edtulo \u00e9 um dos textos mais conhecidos da literatura palestiniana, adaptada para filme, em 1973, em al-Makhdu\u2019un). Para uma continua\u00e7\u00e3o desta colect\u00e2nea, l\u00ea <strong>Palestine\u2019s Children<\/strong>.\u00a0<\/p>\n<p>Se a escrita de Kanafani for a tua praia, aventura-te em <strong>All That\u2019s Left To You<\/strong>, uma novela curta, mas complexa, em que o tempo e o deserto s\u00e3o personagens \u2013 tudo passado em 24 horas da vida de dois irm\u00e3os em Gaza. No final deste m\u00eas, poderemos mergulhar no pensamento pol\u00edtico dele quando sair <strong>Ghassan Kanafani: Selected Political Writings<\/strong>, a primeira compila\u00e7\u00e3o dos seus textos pol\u00edticos em ingl\u00eas.<\/p>\n<p>Para encerrar o cap\u00edtulo da boa prosa palestiniana que tive o tempo e o acaso de ler, tenho de te deixar ainda estas recomenda\u00e7\u00f5es: <strong>Um Dia Na Vida De Abed Salama<\/strong>, do jornalista norte-americano Nathan Thrall, que denuncia o estado de apartheid a partir de um acidente com um autocarro de crian\u00e7as; a com\u00e9dia negra <strong>Sharon and My Mother In Law<\/strong>, de Suad Amiry, sobre os absurdos ris\u00edveis do apartheid sionista; <strong>The Secret Life of Saeed the Pessoptimist<\/strong>, de Emile Habibi, palestiniano que foi deputado no parlamento israelita e que pensa aprofundadamente sobre as contradi\u00e7\u00f5es sionistas e levantinas (traduzido para portugu\u00eas, mas esgotado fora de alfarrabistas); <strong>The Tale of a Wall<\/strong>, de Nasser Abu Srour, refugiado do campo de Aida, preso pol\u00edtico h\u00e1 mais de 30 anos e que conseguiu fazer chegar clandestinamente o manuscrito ao editor; e <strong>Homes of the Heart<\/strong>, de Farouq Wadi, sobre o choque de uma visita \u00e0 terra natal, Ramallah, depois de anos no ex\u00edlio.<\/p>\n<p>E foram as colet\u00e2neas de cultura palestiniana que me levaram aos pr\u00f3ximos autores que queria descobrir. Foi o caso de <strong>Corpos na trouxa \u2013 Hist\u00f3rias-art\u00edsticas-de-vida de mulheres palestinianas no ex\u00edlio<\/strong>, escrito por Shahd Wadi, palestiniana a viver em Portugal, filha de Farouq Wadi. <strong>This Is Not a Border<\/strong>, uma enorme colet\u00e2nea do PalFest, festival de literatura da Palestina, foi o livro que mais livros me fez comprar, a par de <strong>A Map of Absence<\/strong>, uma antologia de textos sobre a Nakba, editada por Atef Alshaer. J\u00e1 <strong>Palestinian Cultures of Resistance<\/strong>, de Michael Lavalette, acad\u00e9mico brit\u00e2nico, foca-se na vida e obra de quatro nomes maiores da arte palestiniana: Ghassan Kanafani; o cartoonista Naj Al Ali, autor de Handala, o menino de costas que s\u00f3 revelar\u00e1 o rosto quando a Palestina for livre (tamb\u00e9m Naj Al Ali, como Kanafani, foi assassinado); a poeta Fadwa Tuqan, <a href=\"https:\/\/www.theatlantic.com\/culture\/archive\/2023\/12\/poets-palestine\/676928\/\" rel=\"nofollow noopener\" target=\"_blank\">de quem se disse<\/a> que por cada poema que escrevia, dez novas pessoas se alistavam na resist\u00eancia; e Mahmoud Darwich, de quem n\u00e3o sei sugerir nenhum livro de t\u00e3o conhecido, reconhecido, publicado e extraordin\u00e1rio que \u00e9.<\/p>\n<p>Come\u00e7o a ficar sem espa\u00e7o e acabo esta j\u00e1 demasiada grande lista precisamente com poesia. Fundamental na vida palestiniana, moldada por uma longa tradi\u00e7\u00e3o oral, a quantidade e qualidade de poetas e textos \u00e9 verdadeiramente not\u00e1vel. As colet\u00e2neas, novamente, foram fundamentais, tr\u00eas delas em portugu\u00eas: <strong>As Pedras T\u00eam Entranhas<\/strong>, <strong>Se Eu Tiver de Morrer<\/strong> e <strong>Um \u00c1rabe \u00e9 um \u00c1rabe, \u00e9 um \u00c1rabe, um \u00c1rabe.<\/strong><strong> <\/strong>Mohammed El-Kurd, que ficou conhecido ainda crian\u00e7a ao documentar a limpeza \u00e9tnica no bairro de Sheikh Jarrah, em Jerusal\u00e9m, escreveu <strong>Rifqa<\/strong> (que ser\u00e1 editado em portugu\u00eas no pr\u00f3ximo m\u00eas);<strong> <\/strong><strong>You Can Be the Last Leaf<\/strong>, de Maya Abu Al-Hayyat, \u00e9 dos livros mais comoventes desta lista; <strong>In Jerusalem and Other Poems<\/strong>, de Tamim Al-Barghouti, expandiu-me os horizontes palestinianos para todo o mundo \u00e1rabe; ent\u00e3o, veio depois <strong>O Arco-\u00cdris do Instante<\/strong>, de Adonis, o poeta s\u00edrio, tornado liban\u00eas, que \u00e9 uma das maiores refer\u00eancias contempor\u00e2neas da poesia \u00e1rabe.<\/p>\n<p>O monte a que chamo \u201cos que vou ler a seguir\u201d n\u00e3o p\u00e1ra de crescer. Agora posso ver por l\u00e1, entre tantos outros, <strong>Memoirs of an Early Arab Feminist<\/strong>, da libanesa Anbara Salam Khalidi, <strong>Gate of the Sun<\/strong>, do tamb\u00e9m romancista liban\u00eas, recentemente desaparecido, Elias Khoury, <strong>Wild Thorns<\/strong>, de Sahar Khalifeh (publicado, na Palestina, em 1976), <strong>Palestinian Identity<\/strong>, de Rashid Khalidi, <strong>A Limpeza \u00c9tnica da Palestina<\/strong>, de Ilan Papp\u00e9, e <strong>A Quest\u00e3o da Palestina<\/strong>, de Edward Said. Neste momento, ocupo-me com o comp\u00eandio de pequenos di\u00e1rios, reportagens e mem\u00f3rias que \u00e9 <strong>Daybreak in Gaza, <\/strong>de Mahmoud Muna e Matthew Teller, acabado de sair.<strong> <\/strong>Fico feliz se tiver contribu\u00eddo com uns livros para o teu monte \u201cvou ler a seguir\u201d, e estou sempre dispon\u00edvel para poder aumentar o meu com sugest\u00f5es tuas. O importante \u00e9 apanhar e n\u00e3o perder mais o comboio.<\/p>\n<p>At\u00e9 j\u00e1,<\/p>\n<p>Bernardo Afonso<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"Subscreve a newsletter Fuma\u00e7a Este texto foi lan\u00e7ado, em primeira m\u00e3o, na nossa newsletter. 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