{"id":14109,"date":"2025-08-03T11:25:10","date_gmt":"2025-08-03T11:25:10","guid":{"rendered":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/14109\/"},"modified":"2025-08-03T11:25:10","modified_gmt":"2025-08-03T11:25:10","slug":"filho-da-pide-paulo-jorge-pereira-a-leitura-deste-livro-e-muito-actual","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/14109\/","title":{"rendered":"&#8220;Filho da Pide\u201d, Paulo Jorge Pereira: a leitura deste livro \u00e9 muito actual"},"content":{"rendered":"<p>Ao ler este livro, n\u00e3o pude deixar de recordar outras leituras e outras personagens: \u201cAs Longas Noites de Caxias\u201d de Ana Cristina Silva e a tenebrosa Leninha; Jo\u00e3o Balseiro e tantos mortos pela Pide como Germano Vidigal e Jos\u00e9 Adelino dos Santos, a quem Jos\u00e9 Saramago dedica o seu \u201cLevantado do Ch\u00e3o\u201d. E claro, Aurora Rodrigues, a grande mulher que sofreu e resistiu mais tempo \u00e0 tortura do sono \u00e0s m\u00e3os da \u00fanica Pide que subiu a chefe de brigada Madalena Oliveira, uma mulher impiedosa, s\u00e1dica e sem pingo de humanidade.<\/p>\n<p>A obra \u00e9 prefaciada pelo professor Lu\u00eds Farinha, que ressalta que \u201cpassado meio s\u00e9culo sobre a queda dos fascismos, foi ent\u00e3o poss\u00edvel come\u00e7ar a compreender os fen\u00f3menos ocultos (ou silenciados) do consentimento coletivo ou mesmo da colabora\u00e7\u00e3o de vastos grupos sociais ou institui\u00e7\u00f5es que, de forma conivente, ajudaram e permitiram manter uma viol\u00eancia irrestrita das pol\u00edcias pol\u00edticas sobre os seus compatriotas resistentes.\u201d (p\u00e1g. 6). Logo a abrir o livro, o autor faz um aviso relativamente ao facto de que se trata de uma obra de fic\u00e7\u00e3o e dedica-a a todas as pessoas que lutaram contra a ditadura em Portugal.<\/p>\n<p>Agora, que vivemos, cinquenta anos ap\u00f3s Abril, o momento mais perigoso da nossa hist\u00f3ria recente em que as for\u00e7as revanchistas e de extrema direita se sentem \u00e0 vontade para atacar os mais vulner\u00e1veis, a leitura deste livro \u00e9 muito actual e at\u00e9 premonit\u00f3ria, pois avisa para os perigos daqueles que nunca estiveram a dormir. \u201cVoltaremos, n\u00f3s n\u00e3o desistimos\u201d\u00a0(p\u00e1g. 101) diz, a certa altura, o inspector da PIDE ao neto. Tamb\u00e9m na ep\u00edgrafe ao livro, na cita\u00e7\u00e3o de Chico Buarque no discurso de aceita\u00e7\u00e3o do Pr\u00e9mio Cam\u00f5es 2019 \u201cA amea\u00e7a fascista persiste no Brasil como um pouco por toda a parte\u201d\u00a0o tema do risco do fascismo que est\u00e1 sempre \u00e0 espreita, nos alerta para o perigo constante dos saudosistas do passado. C\u00e1 os temos, umas vezes v\u00eam \u201cem pezinhos de l\u00e3\u201d outras \u201ccom botas cardadas\u201d.<\/p>\n<p>A figura central \u00e9 Carlos, o narrador, em busca de descobrir o seu passado, a sua origem. Ao longo do romance surgem v\u00e1rias personagens, em tempos e lugares distintos; algumas, aparentemente desligadas, mas que convergem para a cria\u00e7\u00e3o de uma hist\u00f3ria, de uma \u00e9poca, de um enquadramento. A personagem de Filomena \u00e9 o retrato de como se cria e cresce um(a) fascista. O amor a Salazar e o \u00f3dio aos comunistas precisou de toda uma estrutura que alimentou o \u00f3dio, que criou o medo e a desconfian\u00e7a, que viveu da impunidade e da brutalidade. Lisboa, por muito soalheira que seja, n\u00e3o pode ignorar as sombras que se escondem encostadas a uma esquina, ou atr\u00e1s de uma porta a escutar o que se passa na casa dos vizinhos. Lisboa brilhou em Abril, mas a justi\u00e7a foi branda e tolerante e at\u00e9 concedeu pens\u00f5es a torcion\u00e1rios enquanto a negou ao principal her\u00f3i da revolu\u00e7\u00e3o. Lisboa quis p\u00f4r os tra\u00e7os da ditadura para baixo do tapete, modernizou-se, chamou turistas, gentrificou-se, apagou a sede da Ant\u00f3nio Maria Cardoso e transformou-a num condom\u00ednio de luxo\u2026 Mas afinal \u00e9 poss\u00edvel um povo, um pa\u00eds libertar-se da carga duma ditadura de 48 anos? \u201cN\u00e3o sei, filho. Vou vendo as not\u00edcias e sigo de longe o que se passa em Portugal, mas h\u00e1 muita coisa que me preocupa&#8230; Continua a haver aquele estilo mesquinho de gente que d\u00e1 graxa ao patr\u00e3o para ser promovida\u2026 Depois, h\u00e1 os que est\u00e3o sempre \u00e0 espreita da vida dos outros para poderem contar qualquer coisa que prejudique o parceiro do lado, mesmo que seja mentira. Esses s\u00e3o do mesmo estilo que eram os bufos de outros tempos\u2026\u201d\u00a0(p\u00e1g. 232)<\/p>\n<p>Este romance parte da necessidade de \u201ccontar aquelas hist\u00f3rias\u201d,\u00a0para que n\u00e3o se percam na falta de mem\u00f3ria, pois h\u00e1 sempre quem esteja \u201c\u00e0 espera de uma oportunidade para que o mal volte a ganhar poder\u201d (p\u00e1g. 238). Termino fazendo refer\u00eancia ao document\u00e1rio \u201cAqueles Que Ficaram (Em Toda a Parte Todo o Mundo Tem) de Marianela Valverde e Humberto Candeias, testemunhos de familiares de presos pol\u00edticos e de opositores que viveram na clandestinidade. Documentos cuja divulga\u00e7\u00e3o se afigura cada vez mais urgente.<\/p>\n<p>Artigo publicado em\u00a0<a href=\"https:\/\/almerindaagridoce.blogs.sapo.pt\/filho-da-pide-paulo-jorge-pereira-123167\" rel=\"nofollow noopener\" target=\"_blank\">Lendo e escrevendo<\/a>, por Almerinda Bento a 16 de junho de 2025<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"Ao ler este livro, n\u00e3o pude deixar de recordar outras leituras e outras personagens: \u201cAs Longas Noites de&hellip;\n","protected":false},"author":2,"featured_media":14110,"comment_status":"","ping_status":"","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[143],"tags":[169,114,115,170,32,33],"class_list":{"0":"post-14109","1":"post","2":"type-post","3":"status-publish","4":"format-standard","5":"has-post-thumbnail","7":"category-livros","8":"tag-books","9":"tag-entertainment","10":"tag-entretenimento","11":"tag-livros","12":"tag-portugal","13":"tag-pt"},"share_on_mastodon":{"url":"","error":""},"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/14109","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=14109"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/14109\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/media\/14110"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=14109"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=14109"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=14109"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}