{"id":142603,"date":"2025-11-07T06:44:39","date_gmt":"2025-11-07T06:44:39","guid":{"rendered":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/142603\/"},"modified":"2025-11-07T06:44:39","modified_gmt":"2025-11-07T06:44:39","slug":"o-que-era-governar-com-cavaco-silva-segundo-miguel-cadilhe","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/142603\/","title":{"rendered":"O que era governar com Cavaco Silva, segundo Miguel Cadilhe"},"content":{"rendered":"<p>Organiza\u00e7\u00e3o, pontualidade, prepara\u00e7\u00e3o, incis\u00e3o: assim se decidia no Conselho de Ministros de 1985. Quatro d\u00e9cadas depois, Miguel Cadilhe,\u00a0ent\u00e3o ministro das\u00a0Finan\u00e7as,\u00a0revisita o \u201cestilo Cavaco\u201d \u2014 exigente, distante, algo tecnocr\u00e1tico, orientado para resultados \u2014 e explica porque \u00e9 que nunca viu aquele Governo como transit\u00f3rio, mas como o in\u00edcio de uma transforma\u00e7\u00e3o profunda do pa\u00eds.\u00a0<\/p>\n<p>Em 2005, Miguel Cadilhe comparou Cavaco Silva a um eucalipto que &#8220;seca&#8221; o terreno \u00e0 sua volta. Um tema que evita em dia de comemora\u00e7\u00e3o de quatro d\u00e9cadas do primeiro governo cavaquista, escusando-se a outra pergunta: se\u00a0o\u00a0facto\u00a0de\u00a0ter\u00a0tutelado\u00a0a\u00a0\u00e1rea de\u00a0elei\u00e7\u00e3o\u00a0de Cavaco Silva\u00a0foi\u00a0uma\u00a0desvantagem.\u00a0<\/p>\n<p><strong>Como descreve o estilo de lideran\u00e7a de Cavaco Silva no\u00a0governo?<\/strong>\u00a0<\/p>\n<p>Era um estilo fecundo, construtivo, algo tecnocr\u00e1tico, digo-o no melhor sentido da palavra, e muito diferente do visto at\u00e9 ent\u00e3o, nos quase doze anos do p\u00f3s-25 de Abril.\u00a0Era um misto de realismo, clarivid\u00eancia, determina\u00e7\u00e3o, frieza. Havia, claro, alguma inspira\u00e7\u00e3o vinda do estilo de lideran\u00e7a de S\u00e1 Carneiro, de 1980.\u00a0\u00a0<\/p>\n<p><strong>Como era uma reuni\u00e3o de Conselho de Ministros com Cavaco Silva? Algum ritual, m\u00e9todo ou regra que se destacasse?\u00a0<\/strong>\u00a0<\/p>\n<p>Havia organiza\u00e7\u00e3o, pontualidade, prepara\u00e7\u00e3o, incis\u00e3o, decis\u00e3o. N\u00e3o havia divaga\u00e7\u00e3o, nem rendas e bordados, por vezes havia uma fugaz ponta de humor. E em geral, t\u00ednhamos de esgotar as mat\u00e9rias agendadas, era raro adiar assuntos.\u00a0\u00a0<\/p>\n<p><strong>Que tipo de\u00a0rela\u00e7\u00e3o\u00a0mantinha com os ministros?<\/strong>\u00a0\u00a0<\/p>\n<p>Era distante e seco, conhecedor, motivado e motivador, como \u00e9 pr\u00f3prio de um l\u00edder forte que, acima de tudo, visa a produtividade e o desempenho das equipas, em prol dos objetivos do programa de governo. Um l\u00edder forte com este perfil vai sempre ao leme, conduz, mede e afere, constata e compara,\u00a0reavalia circunst\u00e2ncias,\u00a0recomp\u00f5e, muda, n\u00e3o desiste, mas dificilmente agradece ou\u00a0se abre em sentimentos, salvo em raras e justas horas de solidariedade. \u00a0<\/p>\n<p><strong>Qual era a principal expectativa que Cavaco colocava nos membros do seu governo?\u00a0<\/strong>\u00a0<\/p>\n<p>Penso que era o grau de realiza\u00e7\u00e3o. O ministro devia saber tra\u00e7ar objetivos, pratic\u00e1veis e congruentes \u00e0 luz do programa de governo, e ser capaz de os cumprir.\u00a0<\/p>\n<p><strong>O que tornava o ambiente pol\u00edtico de 1985 especialmente desafiante para governar?\u00a0<\/strong>\u00a0<\/p>\n<p>Havia imensa necessidade de novas e boas pol\u00edticas. Sobretudo, est\u00e1vamos precisados de\u00a0pol\u00edticas estruturais.\u00a0E quanto a estas, as importantes pol\u00edticas estruturais, acontecia que no Minist\u00e9rio das\u00a0Finan\u00e7as estava quase tudo por fazer, como ent\u00e3o se podia observar de fora. Desde o 25 de Abril, tinham predominado as pol\u00edticas de curto prazo, os remendos sob press\u00e3o dos tempos e as pol\u00edticas macroecon\u00f3micas de estabiliza\u00e7\u00e3o tuteladas duas vezes pelo FMI.\u00a0Quando cheguei \u00e0s Finan\u00e7as, as pol\u00edticas estruturais eram,\u00a0pois,\u00a0um bom manancial em grande parte por explorar, e uma excelente raz\u00e3o de ser e fazer. Mesmo se come\u00e7\u00e1ssemos por estar em minoria parlamentar. \u00a0 \u00a0\u00a0<\/p>\n<p><strong>Havia consci\u00eancia de que aquele governo poderia vir a transformar estruturalmente o pa\u00eds ou era visto como um governo de transi\u00e7\u00e3o, uma vez que n\u00e3o tinha maioria absoluta?\u00a0<\/strong>\u00a0<\/p>\n<p>De transi\u00e7\u00e3o, ou inibi\u00e7\u00e3o, n\u00e3o, nunca, de modo nenhum. A consci\u00eancia\u00a0era a de que est\u00e1vamos ali para\u00a0transformar estruturalmente o pa\u00eds.\u00a0<\/p>\n<p><strong>O primeiro-ministro ouvia\u00a0os ministros\u00a0ou\u00a0levava as decis\u00f5es tomadas?\u00a0<\/strong>\u00a0<\/p>\n<p>Ouvia, sabia ouvir, acho que era um dom dele, cultivado. Havia di\u00e1logo no CM, por vezes duro e intenso. Em princ\u00edpio, as decis\u00f5es eram preparadas e propostas pelos ministros respetivos e seus colegas de minist\u00e9rio, os secret\u00e1rios de Estado, n\u00e3o pelo primeiro-ministro.\u00a0<\/p>\n<p><strong>Havia espa\u00e7o para discord\u00e2ncia dentro do Conselho de Ministros?<\/strong>\u00a0<\/p>\n<p>Sim, claro que sim. Havia plena liberdade de respeitar, concordar e discordar, pelo menos assim foi durante o meu tempo.\u00a0<\/p>\n<p><strong>Que observa\u00e7\u00e3o de Cavaco Silva guarda at\u00e9 hoje?<\/strong>\u00a0\u00a0<\/p>\n<p>Cedo me disse que iria governar por dez anos. Foi no gabinete do primeiro-ministro. Achei gra\u00e7a, isso permitia exerc\u00edcios de vis\u00e3o pol\u00edtica longa, mas era inating\u00edvel, pensei c\u00e1 para mim.\u00a0Cavaco tinha essa premoni\u00e7\u00e3o, mais do que premoni\u00e7\u00e3o, tinha essa convic\u00e7\u00e3o que tamb\u00e9m era estrat\u00e9gica, an\u00edmica, eminentemente pol\u00edtica, e na verdade, contra aparentes e hist\u00f3ricas probabilidades, ele acertou em cheio nos dez anos.\u00a0<\/p>\n<p><strong>Olhando hoje para tr\u00e1s, qual foi a decis\u00e3o ou reforma\u00a0cujo impacto considera mais\u00a0duradouro?<\/strong>\u00a0<\/p>\n<p>Durante os quatro anos em que estive nas Finan\u00e7as, os ventos foram de grandes reformas e, como disse, de pol\u00edticas estruturais, portanto duradouras, como as privatiza\u00e7\u00f5es, o mercado de capitais, o setor empresarial do Estado, a d\u00edvida p\u00fablica, a poupan\u00e7a familiar, a reforma fiscal, o sistema financeiro, o Tribunal de Contas,\u00a0entre outras. E tamb\u00e9m houve a gest\u00e3o articulada das pol\u00edticas macroecon\u00f3micas mais viradas para o crescimento. Nos in\u00edcios de 1990 dediquei v\u00e1rios cap\u00edtulos de um livro a descrever essas reformas estruturais do inteiro quadri\u00e9nio 1986-89.\u00a0<\/p>\n<p><strong>Qual\u00a0\u00e9\u00a0o maior\u00a0legado\u00a0de Cavaco Silva?<\/strong>\u00a0\u00a0<\/p>\n<p>Talvez a retid\u00e3o na pr\u00e1tica pol\u00edtica.\u00a0Talvez o sentido de Estado.\u00a0Talvez o reformismo. E a moderniza\u00e7\u00e3o. Talvez a economia do crescimento. Talvez a Europa. Talvez a nega\u00e7\u00e3o, mal a meu ver, da ideia de &#8220;democracia regional&#8221; de S\u00e1 Carneiro. Talvez um certo modo, exigente, dif\u00edcil, quase utopia, de compaginar social-democracia e tecnocracia. Talvez tudo junto.\u00a0<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"Organiza\u00e7\u00e3o, pontualidade, prepara\u00e7\u00e3o, incis\u00e3o: assim se decidia no Conselho de Ministros de 1985. 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