{"id":14353,"date":"2025-08-03T15:31:09","date_gmt":"2025-08-03T15:31:09","guid":{"rendered":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/14353\/"},"modified":"2025-08-03T15:31:09","modified_gmt":"2025-08-03T15:31:09","slug":"francisco-pedalou-20-mil-quilometros-de-portugal-a-mocambique-perfil","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/14353\/","title":{"rendered":"Francisco pedalou 20 mil quil\u00f3metros, de Portugal a Mo\u00e7ambique | Perfil"},"content":{"rendered":"<p dir=\"ltr\">Francisco Fran\u00e7a tinha 21 anos quando decidiu enfrentar o mundo sobre duas rodas. Sozinho, percorreu 20 mil quil\u00f3metros de bicicleta, atravessando o continente africano de norte a sul. Hoje, com 23, recorda o in\u00edcio dessa aventura, a 19 de Fevereiro de 2024.<\/p>\n<p dir=\"ltr\">\u201cLembro-me de acampar ao lado de uma igreja, cheio de medo. Acho que, nesse momento, percebi a dimens\u00e3o do que estava a come\u00e7ar\u201d, conta ao P3.<\/p>\n<p dir=\"ltr\">O que estava a come\u00e7ar era uma viagem que o levaria por mais de 15 pa\u00edses: Marrocos, Maurit\u00e2nia, Senegal, G\u00e2mbia, Guin\u00e9-Bissau, Guin\u00e9-Conacri, Serra Leoa, Lib\u00e9ria, Costa do Marfim, Gana, Togo, Benim, Nig\u00e9ria, Rep\u00fablica do Congo, Angola, Mal\u00e1ui e Zimbabu\u00e9 \u2013 at\u00e9 chegar a Mo\u00e7ambique, em Maio de 2025.<\/p>\n<p dir=\"ltr\">A aventura come\u00e7ou em S\u00e3o Jo\u00e3o da Talha e terminou oficialmente a 14 de Junho de 2025, dia em que Francisco chegou a Maputo, a meta que tinha imaginado quando tra\u00e7ava os primeiros planos, anos antes.<\/p>\n<p dir=\"ltr\"><a href=\"https:\/\/www.publico.pt\/2022\/08\/25\/p3\/noticia\/casal-desenhou-maior-bicicleta-mundo-mapa-pedalar-europa-clima-2017954\" target=\"_blank\" rel=\"nofollow noopener\">Na bicicleta, <\/a>levava apenas o essencial: uma tenda para dormir, um fog\u00e3o a gasolina, roupa e ferramentas para a bicicleta. Escolheu este meio de transporte por ser fisicamente desafiante e por oferecer \u201cuma perspectiva \u00fanica, permitindo absorver tudo de forma diferente\u201d.<\/p>\n<p dir=\"ltr\">\u201cA qualquer lugar que chego, sei que foi com o meu esfor\u00e7o, com as minhas pernas. E isso d\u00e1 uma sensa\u00e7\u00e3o de realiza\u00e7\u00e3o diferente\u201d, afirma.<\/p>\n<p>        &#13;<\/p>\n<blockquote><p>&#13;<\/p>\n<p>\u201cMuita gente, e percebo que n\u00e3o por mal, espelhava em mim os seus pr\u00f3prios medos em rela\u00e7\u00e3o a \u00c1frica ou a viajar sozinho\u201d<\/p>\n<p>&#13;<br \/>\n                &#13;<br \/>\n                &#13;\n            <\/p><\/blockquote>\n<p>&#13;<br \/>\n&#13;<br \/>\n            &#13;<\/p>\n<p dir=\"ltr\">Com o tempo, criou a sua pr\u00f3pria rotina: pedalava durante o dia, parava para comer em pequenas vilas ou em cruzamentos e, por volta das 15h ou 16h, come\u00e7ava a pensar onde iria dormir \u2013 no mato, numa escola, num posto da pol\u00edcia.<\/p>\n<p dir=\"ltr\">Entre as muitas mem\u00f3rias, destaca os quase dois meses em Marrocos, a travessia da Maurit\u00e2nia, a passagem por Angola e Mo\u00e7ambique e, sobretudo, a experi\u00eancia \u00fanica de pedalar pelo deserto do Saara.<\/p>\n<p dir=\"ltr\">\u201cNo deserto, durante duas ou tr\u00eas semanas, os meus dias eram simples: acordar cedo, pedalar, ouvir m\u00fasica e podcasts. Era s\u00f3 eu, a estrada e alguns camelos. Gostei muito disso\u201d, recorda.<\/p>\n<p dir=\"ltr\">Outra lembran\u00e7a especial vem do Senegal, onde ficou quase um m\u00eas com uma fam\u00edlia. Francisco diz que estava a passar por uma aldeia, no seu terceiro ou quarto dia no pa\u00eds, quando ofereceu ajuda a um dos filhos da fam\u00edlia que estava a arranjar a bicicleta junto \u00e0 entrada da casa. <\/p>\n<p dir=\"ltr\">\u201cDepois convidaram-me para almo\u00e7ar com eles e ficar l\u00e1 nessa noite. Depois, mais outra. Come\u00e7\u00e1mos a trabalhar juntos na apanha das mangas e, a certa altura, disseram-me que devia ficar at\u00e9 um dia especial \u2013 uma grande festa mu\u00e7ulmana, que ia acontecer dali a tr\u00eas semanas. E assim foi: acabei por ficar todo esse tempo. Foi incr\u00edvel\u201d, diz.<\/p>\n<p>        &#13;<br \/>\n            &#13;<br \/>\n            &#13;<br \/>\n                Foto tirada por Francisco na Botswana&#13;<br \/>\nDR            &#13;<br \/>\n&#13;<\/p>\n<p dir=\"ltr\">Recorda tamb\u00e9m um dos momentos mais stressantes da viagem: o receio de atravessar para os Camar\u00f5es por mar. Conta que a praia de onde partiam as lanchas era uma \u201cconfus\u00e3o enorme\u201d e que a pequena embarca\u00e7\u00e3o onde seguia estava \u201ccompletamente cheia de mercadorias\u201d.<\/p>\n<p dir=\"ltr\">\u201cTivemos de colocar a bicicleta por cima e eu fui sentado no topo, com tr\u00eas ou quatro pessoas. O barco era pequeno demais para tanta carga. Quando cheg\u00e1mos a mar aberto, o motor avariou e fic\u00e1mos \u00e0 deriva no oceano durante quase uma hora. A tens\u00e3o era palp\u00e1vel; dois dos homens come\u00e7aram a rezar, at\u00e9 que, de repente, o motor voltou a funcionar. Depois de oito horas finalmente cheg\u00e1mos \u00e0 costa dos Camar\u00f5es\u201d, relata Francisco.<\/p>\n<p>\u201cQueria enfrentar a situa\u00e7\u00e3o, viver por mim pr\u00f3prio\u201d<\/p>\n<p dir=\"ltr\">As aventuras de Francisco de bicicleta come\u00e7aram aos poucos. Primeiro, com uma viagem de dois dias, da sua casa at\u00e9 \u00e0 dos av\u00f3s, onde conheceu um homem que tinha pedalado at\u00e9 ao Nepal.<\/p>\n<p dir=\"ltr\">\u201cFoi uma inspira\u00e7\u00e3o enorme. Eu estava numa viagem t\u00e3o pequena e, de repente, tinha \u00e0 minha frente algu\u00e9m que tinha feito algo t\u00e3o grande. Pude ouvir hist\u00f3rias e experi\u00eancias.\u201d, recorda.<\/p>\n<p dir=\"ltr\">No ano seguinte,<a href=\"https:\/\/www.publico.pt\/2025\/01\/01\/fugas\/reportagem\/pedalar-vai-longe-portugueses-exploram-mundo-bicicleta-2115836\" target=\"_blank\" rel=\"nofollow noopener\"> atravessou Portugal de bicicleta<\/a> durante um m\u00eas, acampando em quintais, no mato, na praia. \u201cGostei daquela adrenalina, daquela sensa\u00e7\u00e3o de levar tudo comigo\u201d, diz.<\/p>\n<p dir=\"ltr\">Em 2023, depois de terminar a licenciatura em Psicologia e sem saber qual seria o pr\u00f3ximo passo, decidiu transformar o sonho em realidade. Trabalhou num hostel e como promotor de eventos para juntar dinheiro. <\/p>\n<p dir=\"ltr\">Os medos foram muitos, conta. Os principais eram n\u00e3o conseguir cumprir o percurso, estar sozinho tanto tempo e todos os receios que as pessoas lhe transmitiam.<\/p>\n<p dir=\"ltr\">\u201cMuita gente, e percebo que n\u00e3o por mal, espelhava em mim os seus pr\u00f3prios medos em rela\u00e7\u00e3o a \u00c1frica ou a viajar sozinho. Isso assustava-me, mas quis enfrentar a situa\u00e7\u00e3o e viver por mim pr\u00f3prio. Contrastava esses relatos com os de<a href=\"https:\/\/www.publico.pt\/2022\/09\/17\/fugas\/noticia\/kamram-ali-viagem-bicicleta-forma-questionar-vida-melhorar-mundo-2020551\" target=\"_blank\" rel=\"nofollow noopener\"> quem j\u00e1 tinha feito<\/a> o que eu queria fazer\u201d, explica.<\/p>\n<blockquote class=\"instagram-media\" data-instgrm-permalink=\"https:\/\/www.instagram.com\/p\/C5BoGajRWtM\/?utm_source=ig_embed&amp;utm_campaign=loading\" data-instgrm-version=\"14\" style=\" background:#FFF; border:0; border-radius:3px; box-shadow:0 0 1px 0 rgba(0,0,0,0.5),0 1px 10px 0 rgba(0,0,0,0.15); margin: 1px; max-width:540px; min-width:326px; padding:0; width:99.375%; width:-webkit-calc(100% - 2px); width:calc(100% - 2px);\"\/>\n<p dir=\"ltr\">O medo voltou a bater \u00e0 porta quando adoeceu \u2013 tr\u00eas vezes. Duas com mal\u00e1ria, na Serra Leoa e na Costa do Marfim, e uma terceira vez, no Senegal, com uma reac\u00e7\u00e3o al\u00e9rgica inexplicada at\u00e9 o dia de hoje. <\/p>\n<p dir=\"ltr\">\u201cA primeira vez que apanhei mal\u00e1ria n\u00e3o consegui identificar os sintomas a tempo e fiquei muito mal, num hospital prec\u00e1rio, sem \u00e1gua nem electricidade. Lembro-me de chorar muito, de n\u00e3o saber o que se estava a passar. Houve uma altura em que nem conseguia comunicar porque a rede caiu. E depois disso voltou a acontecer na Costa do Marfim, foi igualmente muito duro\u201d, diz.<\/p>\n<p dir=\"ltr\">O jovem confessa que, por esses dias, \u201cacabou por duvidar de tudo\u201d e pensou que aquelas pessoas que lhe tinham desaconselhado \u201ctinham raz\u00e3o.\u201d <\/p>\n<p dir=\"ltr\">\u201cSenti que tinha tomado uma decis\u00e3o inconsciente e que tinha cometido um erro enorme. A recupera\u00e7\u00e3o demorou algum tempo: \u00e9 preciso tomar medica\u00e7\u00e3o durante tr\u00eas ou quatro dias e depois ficar em repouso quase duas semanas, at\u00e9 conseguir voltar a pedalar e a fazer exerc\u00edcio\u201d, acrescenta.<\/p>\n<p dir=\"ltr\">Tamb\u00e9m mentalmente a recupera\u00e7\u00e3o foi lenta, feita aos poucos. Francisco agarrou-se ao objectivo de chegar a Mo\u00e7ambique e ao <a href=\"https:\/\/www.publico.pt\/2022\/01\/22\/fugas\/noticia\/ben-page-deu-volta-mundo-bicicleta-longo-tres-anos-1990949\" target=\"_blank\" rel=\"nofollow noopener\">entusiasmo de conhecer novos pa\u00edses <\/a>ao longo do caminho. \u201cAcho que foi isso que me manteve\u201d, conclui.<\/p>\n<p>\u201cUma ferramenta para inspirar outras pessoas\u201d<\/p>\n<p dir=\"ltr\">De volta a Portugal, Francisco diz que, para al\u00e9m das mem\u00f3rias, trouxe muitas aprendizagens pessoais desta viagem.<\/p>\n<p dir=\"ltr\">\u201cA [aprendizagem] que me salta logo \u00e0 vista \u00e9 perceber que, talvez, o mundo n\u00e3o seja t\u00e3o perigoso quanto achamos\u201d, afirma. \u201c\u00c0s vezes, a nossa percep\u00e7\u00e3o de perigo tem mais a ver com os nossos pr\u00f3prios medos do que com algo real\u201d, acrescenta.<\/p>\n<p dir=\"ltr\">Agora, sente que \u201cn\u00e3o h\u00e1 imposs\u00edveis\u201d e que \u201cpode fazer quase tudo o que quiser\u201d. \u201cSinto que tenho em mim uma ferramenta para inspirar outras pessoas. At\u00e9 visitei algumas escolas durante a viagem porque percebi que esta experi\u00eancia pode motivar algu\u00e9m a fazer o que deseja\u201d, explica Francisco Fran\u00e7a.<\/p>\n<p dir=\"ltr\">A quem queira fazer<a href=\"https:\/\/www.publico.pt\/2023\/01\/12\/fugas\/perfil\/mara-mures-ja-pedalou-dez-mil-quilometros-ideia-voltar-casa-dia-2034273\" target=\"_blank\" rel=\"nofollow noopener\"> um percurso semelhante,<\/a> recomenda aprender com pessoas que j\u00e1 passaram por isso, al\u00e9m de come\u00e7ar por viagens mais pequenas para testar o equipamento e fazer ajustes.<\/p>\n<p>        &#13;<\/p>\n<p>&#13;<br \/>\n                &#13;\n            <\/p>\n<p>&#13;<\/p>\n<p dir=\"ltr\">Quanto \u00e0 pr\u00f3xima aventura, diz que ainda n\u00e3o sabe \u201ccomo, onde, quando ou se sequer vai acontecer\u201d, mas admite que gostava de fazer outra.<\/p>\n<p dir=\"ltr\">\u201cAcho a R\u00fassia, a China, o Jap\u00e3o e o Brasil muito interessantes. Gosto de viajar de bicicleta, por isso vejo-me a fazer mais coisas assim. N\u00e3o tem de ser necessariamente nestes pa\u00edses, s\u00e3o lugares que gostaria de explorar. Mas isso n\u00e3o est\u00e1 na minha mente agora\u201d, conclui.<\/p>\n<p>            <script async src=\"\/\/www.instagram.com\/embed.js\"><\/script><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"Francisco Fran\u00e7a tinha 21 anos quando decidiu enfrentar o mundo sobre duas rodas. 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