{"id":144322,"date":"2025-11-08T15:32:08","date_gmt":"2025-11-08T15:32:08","guid":{"rendered":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/144322\/"},"modified":"2025-11-08T15:32:08","modified_gmt":"2025-11-08T15:32:08","slug":"talvez-o-agente-secreto-seja-um-filme-sobre-a-amnesia-observador","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/144322\/","title":{"rendered":"\u201cTalvez &#8216;O Agente Secreto&#8217; seja um filme sobre a amn\u00e9sia\u201d \u2013 Observador"},"content":{"rendered":"<p>O Agente Secreto \u00e9 um filme que irrita certas criaturas. Alfineta-lhes os rabos nas cadeiras da sala de cinema. Tem o cond\u00e3o de desmascarar o enfado dos simpatizantes da ditadura militar brasileira de 1964 que se deliciaram com os horrorosos anos de retrocesso c\u00edvico e econ\u00f3mico do bolsonarismo. Sem nunca falar diretamente na ditadura, por\u00e9m ambientado na cidade do Recife em 1977, vibra, endiabrado, contra \u201co tempo da pirra\u00e7a\u201d, <a href=\"https:\/\/observador.pt\/2025\/05\/19\/o-agente-secreto-em-cannes-a-fe-de-kleber-mendonca-filho-no-puro-poder-do-cinema\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener nofollow\">como aqui se escreveu de Cannes em primeira m\u00e3o, em Maio, onde a obra foi duplamente premiada<\/a>.<\/p>\n<p>No final de Julho, Kleber Mendon\u00e7a Filho esteve em Lisboa e no Porto, a convite da distribuidora portuguesa do filme, a Nitrato, para uma ronda de antestreias da obra que tamb\u00e9m testou a recep\u00e7\u00e3o da mesma entre n\u00f3s \u2014 um \u00eaxito assinal\u00e1vel. O Agente Secreto teve em Portugal algumas das primeiras sess\u00f5es p\u00fablicas p\u00f3s-Cannes, muito antes de qualquer exibi\u00e7\u00e3o no Brasil. Grav\u00e1mos ent\u00e3o no Porto uma longa entrevista de horas e fiz quest\u00e3o que a francesa Emilie Lesclaux, mulher do cineasta, produtora de todos os seus filmes desde a curta Eletrodom\u00e9stica (2005), deixasse por momentos a guarda dos dois mi\u00fados do casal, os g\u00e9meos Tom\u00e1s e Martin, de 11 anos, e se juntasse \u00e0 conversa.<\/p>\n<blockquote class=\"wp-embedded-content\" data-secret=\"KbZhZotcoG\">\n<p><a href=\"https:\/\/observador.pt\/2025\/11\/06\/o-agente-secreto-menos-do-que-a-soma-das-muitas-partes\/\" rel=\"nofollow noopener\" target=\"_blank\">\u201cO Agente Secreto\u201d: menos do que a soma das (muitas) partes<\/a><\/p>\n<\/blockquote>\n<p>Conheci Emilie ao mesmo tempo que Kleber, em janeiro de 2012, no Festival de Roterd\u00e3o, que exibiu em estreia mundial O Som ao Redor, primeira longa-metragem. \u00c9 uma pessoa central\u00edssima na consist\u00eancia e evolu\u00e7\u00e3o art\u00edstica do cineasta pernambucano, est\u00e1 sempre presente em todas as etapas de constru\u00e7\u00e3o do filme, incluindo nas rodagens, por\u00e9m nunca \u00e9 mencionada \u2014 e isto \u00e9 chocante \u2014 nas m\u00faltiplas entrevistas, cr\u00edticas e reportagens que t\u00eam vindo a ser publicadas na Europa. Que a repara\u00e7\u00e3o seja agora feita, at\u00e9 porque vem a prop\u00f3sito.<\/p>\n<p>O Agente Secreto aprofunda todas as preocupa\u00e7\u00f5es tem\u00e1ticas de Kleber Mendon\u00e7a Filho, usando uma narrativa complexa e uma reconstru\u00e7\u00e3o detalhada da \u00e9poca para explorar a hist\u00f3ria, a resist\u00eancia e as feridas abertas da sociedade brasileira. \u00c9 um filme de retrata\u00e7\u00e3o de um pa\u00eds e de um per\u00edodo hist\u00f3rico, a partir da reconstru\u00e7\u00e3o de um certo carnaval pernambucano de 1977. Procura juntar um puzzle desfeito, um tempo fraturado, contra o galope do esquecimento de uma gera\u00e7\u00e3o para outra. \u00c9 um filme que quer sacudir dias resignados \u2014 e s\u00f3 fala de hoje, do primeiro ao \u00faltimo segundo.<\/p>\n<p><strong>[o trailer de \u201cO Agente Secreto\u201d:]<\/strong><\/p>\n<p><strong>Na curta Eletrodom\u00e9stica (2005), o espa\u00e7o era fechado, a lavandaria de uma habita\u00e7\u00e3o. Em O Som ao Redor (2012), j\u00e1 havia um apartamento e uma rua. No Aquarius (2016), podemos falar de um bairro inteiro do Recife. Em <a href=\"https:\/\/observador.pt\/especiais\/kleber-mendonca-filho-se-bolsonaro-visse-este-filme-talvez-aprendesse-que-a-cultura-brasileira-faz-coisas-boas\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener nofollow\">Bacurau<\/a> (2019) j\u00e1 \u00e9 o Brasil inteiro. Retratos Fantasmas (2023) documenta a partir do Recife todo um tempo de viv\u00eancia brasileiro ligado ao cinema. E agora O Agente Secreto, em que o filme toca, com grande amplitude, em todas as ditaduras e totalitarismos do mundo. Estas circunfer\u00eancias foram-se alargando cada vez mais no seu trabalho. Porqu\u00ea?<\/strong><br \/><strong>Kleber Mendon\u00e7a Filho (KMF)<\/strong> \u2014 Isso faz-me lembrar uma pessoa muito querida, chamada Edna Cunha Lima, professora universit\u00e1ria da gera\u00e7\u00e3o da minha m\u00e3e e m\u00e3e de grandes amigos. Quando ela viu Enjaulado e Vinil Verde, minhas curtas ainda anteriores a Eletrodom\u00e9stica, gostou muito e perguntou: \u201cMas quando \u00e9 que voc\u00ea vai sair desse apartamento?\u201d Nunca esqueci isso, foi um apontamento anal\u00edtico, severo, no final se tornou carinhoso. Recife Frio [curta de 2009] j\u00e1 abria mais para a cidade, e os filmes come\u00e7aram ent\u00e3o a definir o espa\u00e7o que precisavam para existir. Retratos Fantasmas est\u00e1 muito ligado ao Recife. O Agente Secreto, como voc\u00ea diz, est\u00e1 na cidade, mas \u00e9 uma vis\u00e3o muito minha, e muito particular, a pensar no pa\u00eds e no seu lugar no mundo. A sua observa\u00e7\u00e3o \u00e9 muito curiosa, mas como eu sou respons\u00e1vel por ela, tenho alguma limita\u00e7\u00e3o em desenvolv\u00ea-la.<\/p>\n<p><strong>Emilie Lesclaux (EL) <\/strong>\u2014 \u00c9 l\u00f3gico algu\u00e9m come\u00e7ar por filmar coisas pr\u00e1ticas, com pequenos or\u00e7amentos, e come\u00e7ar pela nossa casa, pela casa do vizinho, como em O Som ao Redor. Era o tempo em que us\u00e1vamos a nossa casa como set, campo de treino.<\/p>\n<p><strong>O clip de apresenta\u00e7\u00e3o da vossa produtora, a Cinemasc\u00f3pio, \u00e9 um p\u00e1tio dessa casa, certo?<\/strong><br \/><strong>EL<\/strong> \u2014 Sim, \u00e9 na casa, cort\u00e1mos um pedacinho de um material bruto em pel\u00edcula de O Som ao Redor.<\/p>\n<p><strong>H\u00e1 uma altura em O Agente Secreto que a audi\u00eancia percebe que Marcelo, a personagem de Wagner Moura, se chama afinal Armando e usou aquele nome falso por seguran\u00e7a. No Recife, ele encontra e \u00e9 ajudado por outras pessoas que tamb\u00e9m usam nomes fict\u00edcios. A hist\u00f3ria dessa resist\u00eancia \u00e0 ditadura brasileira que se fazia nas fam\u00edlias, nos quartos e salas, entre quatro paredes, est\u00e1 ainda hoje por contar?<br \/>KMF<\/strong> \u2014 \u00c9 muito interessante falar disso porque essa resist\u00eancia, pelo menos nos \u00faltimos dez anos da ditadura, foi sempre um movimento natural, n\u00e3o organizado, que ia apoiando quem precisava, um ativista, um artista, algu\u00e9m ligado aos jornais\u2026 Essa ajuda vinha, muitas vezes, de filhos ou herdeiros de fam\u00edlias ricas e conservadoras das grandes cidades, como a Elza no filme, a personagem interpretada pela Maria Fernanda C\u00e2ndido, que \u00e9 uma esp\u00e9cie de \u201cpuppet master\u201d. \u00c9 uma guerrilheira na sombra, nunca mostra o mecanismo do movimento. Acho muito mais f\u00e9rtil contar a hist\u00f3ria dessa resist\u00eancia de relance do que fazer um filme sobre isso. A gente fica fascinado por aquele mist\u00e9rio e pela presen\u00e7a da Maria Fernanda, com aquele jeito dela de \u201cstar quality\u201d de filme americano, ao mesmo tempo super-realista e mundana na maneira como ela fala.<\/p>\n<p><strong>EL<\/strong> \u2014 Historicamente, a Elza tamb\u00e9m representa um movimento de apoio \u00e0 \u201cfuga de c\u00e9rebros\u201d que procurou levar universit\u00e1rios, professores, intelectuais para fora do Brasil naquele tempo, pois j\u00e1 haviam sido marcados pela ditadura. Estavam listados.<\/p>\n<p><strong>Pessoas como o Marcelo\u2026<br \/>KMF<\/strong> \u2014 A hist\u00f3ria estabelece que ele tem uma rela\u00e7\u00e3o acad\u00e9mica muito s\u00f3lida, com boas rela\u00e7\u00f5es internacionais, e que \u00e9 preciso preservar a sua exist\u00eancia f\u00edsica. Esse \u00eaxodo de talentos aconteceu muito no Brasil. Quem estava fora, pensava: \u201cvamos tirar esse cara de l\u00e1, antes que seja tarde.\u201d A gente v\u00ea isso acontecendo hoje com os artistas pl\u00e1sticos e os realizadores iranianos por exemplo, o Rasoulof, o Panahi\u2026<\/p>\n<p><strong>O Agente Secreto tem 2h38 e nunca ouvimos, de forma direta ou indireta, a palavra \u201cditadura\u201d ao longo do filme. Isso foi propositado?<\/strong><br \/><strong>EL<\/strong> \u2014 J\u00e1 O Som ao Redor n\u00e3o tinha a palavra \u201cracismo\u201d em nenhum momento. Mas esse clima est\u00e1 l\u00e1, vai afetar a vida de toda a gente.<\/p>\n<p><strong>A verdade \u00e9 que n\u00e3o precisamos de conhecer uma linha da hist\u00f3ria pol\u00edtica do Brasil no s\u00e9culo XX para entendermos que estamos em terreno oprimido, desde a cena inicial da bomba de gasolina.<br \/><\/strong><strong>KMF<\/strong> \u2014 Acho que este gui\u00e3o foi escrito com muita ironia e estou curioso para perceber como vai ser recebido no Brasil. Por exemplo, o embate entre o Marcelo e a personagem de Ghirotti (Luciano Chirolli), com aquele duelo: \u201cVoc\u00ea \u00e9 um comunista? Ou um capitalista?\u201d.<\/p>\n<p><strong>O Ghirotti \u00e9 vil. H\u00e1 um cinismo repugnante na personagem. Quando cria um vil\u00e3o, ele tem der ser muito mau?<\/strong><br \/><strong>KMF<\/strong> \u2014 Ele \u00e9 um cara que segue \u00e0 risca um programa pol\u00edtico do sudeste, das grandes metr\u00f3poles, onde est\u00e1 o poder, e acha que o Brasil s\u00f3 pode ser de um certo jeito. E \u00e9 evidente que, no Nordeste de 1977, vai correr mal porque o Nordeste era de esquerda, que ainda tem hoje uma vota\u00e7\u00e3o muito significativa. N\u00e3o mudou muita coisa desde o tempo da ac\u00e7\u00e3o do filme para c\u00e1, sabe? At\u00e9 h\u00e1 pouco tempo, um certo pol\u00edtico fazia piadas do Nordeste que eu julgava j\u00e1 aposentadas. Continuava dizendo que temos cabe\u00e7a chata, somos pregui\u00e7osos e que o resto do pa\u00eds carrega o Nordeste nas costas. Que a gente vota mal porque, no Nordeste, ele perdeu em todos os Estados. Seu nome \u00e9 Bolsonaro. Esse pensamento do personagem do Ghirotti ainda \u00e9 muito verdadeiro hoje. Est\u00e1 tamb\u00e9m muito presente em Bacurau.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"O Agente Secreto \u00e9 um filme que irrita certas criaturas. 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