{"id":144670,"date":"2025-11-08T21:34:13","date_gmt":"2025-11-08T21:34:13","guid":{"rendered":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/144670\/"},"modified":"2025-11-08T21:34:13","modified_gmt":"2025-11-08T21:34:13","slug":"o-filme-de-noah-baumbach-na-netflix-que-vai-conversar-com-suas-feridas-familiares","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/144670\/","title":{"rendered":"O filme de Noah Baumbach na Netflix que vai conversar com suas feridas familiares"},"content":{"rendered":"<p>O caos dom\u00e9stico tem uma estranha habilidade de se disfar\u00e7ar de afeto. \u00c0s vezes, ele usa a forma de esculturas pretensamente geniais; noutras, veste o terno de um pai que jurou ter feito o melhor que p\u00f4de, especialmente quando n\u00e3o fez. Em\u00a0\u201cOs Meyerowitz \u2014 Fam\u00edlia N\u00e3o Se Escolhe\u201d, Noah Baumbach nos convida a visitar um cl\u00e3 que domina essa arte com talento quase heredit\u00e1rio: o de amar com cotovelos, pedir aten\u00e7\u00e3o esfregando m\u00e1goas e sobreviver ao legado emocional de um patriarca que jamais entendeu a diferen\u00e7a entre orgulho e acolhimento.<\/p>\n<p>Harold Meyerowitz, vivido com precis\u00e3o irritante por<a href=\"https:\/\/www.revistabula.com\/65767-o-filme-com-dustin-hoffman-e-adam-sandler-na-netflix-que-e-uma-jornada-de-reflexao-e-cura-para-sua-alma\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener nofollow\"> Dustin Hoffman<\/a>, acredita ser uma figura maior do que o mundo lhe reconhece. Escultor, professor, g\u00eanio incompreendido \u2014 ou assim gosta de se ver. Seus filhos orbitam esse sol decadente: Danny, interpretado por Adam Sandler em sua melhor chave dram\u00e1tica, e Matt, o irm\u00e3o bem-sucedido interpretado por Ben Stiller, que tenta equilibrar o desejo de aprova\u00e7\u00e3o com o cansa\u00e7o de sempre vencer por W.O. Ao fundo, como um eco que lembra que as fam\u00edlias raramente se resumem a quem fala mais alto, est\u00e1 Jean, a irm\u00e3 que engoliu sua pr\u00f3pria hist\u00f3ria para n\u00e3o atrapalhar a galeria de ressentimentos masculinos.<\/p>\n<p>A Manhattan que eles habitam n\u00e3o \u00e9 a da fantasia tur\u00edstica nem a da boemia rom\u00e2ntica: \u00e9 o cen\u00e1rio ideal para neuroses heredit\u00e1rias que se alimentam de refer\u00eancias intelectuais enquanto implodem lentamente. Baumbach constr\u00f3i cada di\u00e1logo como se estivesse esculpindo pequenas fissuras, nada explode de imediato, mas tudo responde a press\u00f5es acumuladas por d\u00e9cadas de sil\u00eancios, tapas afetivos e compara\u00e7\u00f5es que ferem mais do que qualquer sinceridade brutal.<\/p>\n<p>Sandler, livre da obriga\u00e7\u00e3o de fazer rir, exp\u00f5e a fragilidade do filho que nunca recebeu um aplauso inteiro. Seu Danny nos faz pensar no que resta de algu\u00e9m quando a vida profissional nunca compensou o abandono emocional. Stiller, por sua vez, extrai humor da trag\u00e9dia de ser o filho \u201cvencedor\u201d que coleciona vit\u00f3rias sem sentir que alguma delas realmente lhe pertence. Quando esses irm\u00e3os trombam, n\u00e3o \u00e9 apenas sobre quem realizou mais, \u00e9 sobre quem doeu mais em sil\u00eancio.<\/p>\n<p>A com\u00e9dia existe, claro, mas chega como aquele gole de vinho servido no vel\u00f3rio: para que as l\u00e1grimas n\u00e3o transbordem todas de uma vez. Baumbach tem essa eleg\u00e2ncia: rir de n\u00f3s mesmos enquanto percebemos que o riso n\u00e3o desfaz as marcas, apenas torna suport\u00e1vel reconhec\u00ea-las. At\u00e9 nas cenas de hospital, onde a fam\u00edlia tenta negociar com a fragilidade do patriarca o que nunca conseguiu em vida, afeto verdadeiro, talvez at\u00e9 um \u201cdesculpa\u201d, o humor permanece, c\u00famplice e cruel.<\/p>\n<p>O filme se revela especialmente perspicaz ao discutir narcisismo como heran\u00e7a gen\u00e9tica e cultural. Harold \u00e9 exaustivo porque o narcisismo \u00e9 exaustivo: n\u00e3o h\u00e1 espa\u00e7o para os sentimentos dos outros quando um \u00fanico ego exige o palco inteiro. Baumbach n\u00e3o denuncia com dedo em riste, apenas acende a luz na sala e nos deixa observar o inc\u00f4modo. Quem reconhece essa din\u00e2mica na pr\u00f3pria hist\u00f3ria sente um arrepio imediato; quem n\u00e3o reconhece provavelmente est\u00e1 mais pr\u00f3ximo de Harold do que imagina.<\/p>\n<p>\u201cOs Meyerowitz \u2014 Fam\u00edlia N\u00e3o Se Escolhe\u201d\u00a0\u00e9 sobre o que sobra quando a admira\u00e7\u00e3o se mistura com raiva, quando o amor chega sempre com atraso e quando a fam\u00edlia se torna ao mesmo tempo abrigo e ferida aberta. \u00c9 um lembrete \u00e1cido de que pedir perd\u00e3o n\u00e3o \u00e9 um gesto grandioso: \u00e9 um pequeno milagre que muita gente nunca aprendeu a conceder. Baumbach brinca com a ideia de reconcilia\u00e7\u00e3o, mas a trata como ela realmente \u00e9: um processo fr\u00e1gil, \u00e0s vezes ridiculamente t\u00edmido, quase sempre tardio.<\/p>\n<p>Sa\u00ed desse encontro com a sensa\u00e7\u00e3o de que Harold continuar\u00e1 convencido de sua genialidade, e seus filhos seguir\u00e3o tentando sobreviver ao terremoto emocional que ele provocou. H\u00e1 quem diga que isso \u00e9 triste. Eu, por outro lado, acho profundamente humano. Afinal, se fam\u00edlia fosse f\u00e1cil, n\u00e3o seria fam\u00edlia.<\/p>\n<p>\n<strong>Filme: <\/strong><br \/>\nOs Meyerowitz \u2014 Fam\u00edlia N\u00e3o Se Escolhe<\/p>\n<p>\n<strong>Diretor: <\/strong><\/p>\n<p>Noah Baumbach                <\/p>\n<p>\n<strong>Ano: <\/strong><br \/>\n2017<\/p>\n<p>\n<strong>G\u00eanero: <\/strong><br \/>\nCom\u00e9dia\/Drama<\/p>\n<p>\n<strong>Avalia\u00e7\u00e3o: <\/strong><\/p>\n<p>9\/10<br \/>\n1<br \/>\n1<\/p>\n<p>Helena Oliveira<\/p>\n<p>\n\u2605\u2605\u2605\u2605\u2605\u2605\u2605\u2605\u2605\u2605<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"O caos dom\u00e9stico tem uma estranha habilidade de se disfar\u00e7ar de afeto. \u00c0s vezes, ele usa a forma&hellip;\n","protected":false},"author":2,"featured_media":144671,"comment_status":"","ping_status":"","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[140],"tags":[114,115,147,148,146,716,32,33],"class_list":{"0":"post-144670","1":"post","2":"type-post","3":"status-publish","4":"format-standard","5":"has-post-thumbnail","7":"category-filmes","8":"tag-entertainment","9":"tag-entretenimento","10":"tag-film","11":"tag-filmes","12":"tag-movies","13":"tag-netflix","14":"tag-portugal","15":"tag-pt"},"share_on_mastodon":{"url":"https:\/\/pubeurope.com\/@pt\/115516228587631447","error":""},"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/144670","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=144670"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/144670\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/media\/144671"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=144670"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=144670"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=144670"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}