{"id":145220,"date":"2025-11-09T11:24:55","date_gmt":"2025-11-09T11:24:55","guid":{"rendered":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/145220\/"},"modified":"2025-11-09T11:24:55","modified_gmt":"2025-11-09T11:24:55","slug":"o-filme-mais-comentado-de-2025-estreou-na-netflix-e-esta-arrepiando-os-assinantes-voce-vai-esquecer-o-mundo-la-fora","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/145220\/","title":{"rendered":"O filme mais comentado de 2025 estreou na Netflix e est\u00e1 arrepiando os assinantes: voc\u00ea vai esquecer o mundo l\u00e1 fora"},"content":{"rendered":"<p>Um quarto interditado, anota\u00e7\u00f5es febris, tempestades como rito de passagem: a partir desse laborat\u00f3rio \u00edntimo, um jovem cientista decide fabricar aquilo que a natureza lhe negara \u2014 a aboli\u00e7\u00e3o da morte. Em \u201cFrankenstein\u201d, dirigido por Guillermo del Toro, Victor (Oscar Isaac) ergue um corpo a partir de sobras, convoca a eletricidade como fa\u00edsca e, ao encarar o olhar do ser rec\u00e9m-nascido (Jacob Elordi), recua. O abandono torna-se o primeiro gesto de paternidade. A partir da\u00ed, a narrativa acompanha dois exilados: o doutor, que tenta esconder a falha sob camadas de orgulho e racionaliza\u00e7\u00e3o; e o ser, que caminha sem nome por florestas, vielas e sal\u00f5es, aprendendo a ler, a falar e a sofrer. Mia Goth comp\u00f5e Elizabeth com presen\u00e7a moral, exigindo v\u00ednculo l\u00e1 onde Victor s\u00f3 oferece discurso. O filme adapta o romance de Mary Shelley, mantendo a discuss\u00e3o sobre cria\u00e7\u00e3o, responsabilidade e reconhecimento do outro.<\/p>\n<p>Guillermo del Toro constr\u00f3i a trajet\u00f3ria como romance g\u00f3tico de aprendizado: a criatura \u00e9 crian\u00e7a e fil\u00f3sofo, capaz de ternura, f\u00faria e curiosidade. O horror n\u00e3o aparece como atalho; h\u00e1 tempo para escutar o corpo \u2014 respira\u00e7\u00f5es, descompassos, o peso de uma m\u00e3o que reconhece o pr\u00f3prio contorno. Jacob Elordi atua com a gravidade de um gigante constrangido, devolvendo humanidade \u00e0s cicatrizes sem ocult\u00e1-las. Oscar Isaac oferece um Victor dividido entre ambi\u00e7\u00e3o e culpa, vaidoso no discurso e fr\u00e1gil nos gestos, sempre prestes a justificar-se com a mesma ret\u00f3rica que o conduziu ao abismo. Elizabeth n\u00e3o \u00e9 ornamento rom\u00e2ntico; sua delicadeza guarda nervos expostos, e suas exig\u00eancias empurram Victor para um territ\u00f3rio onde n\u00e3o basta inventar: \u00e9 preciso cuidar.<\/p>\n<p>A imagem, fotografada por Dan Laustsen, trata a luz como instrumento narrativo: brancos que queimam pele, meias-luzes que escondem vergonhas, pretos que engolem corpos quando a recusa vence. A c\u00e2mera acompanha a respira\u00e7\u00e3o, aproxima-se quando algu\u00e9m descobre uma palavra ou admite uma culpa, recua para que as sombras conversem com a arquitetura. Ambientes \u2014 hospitais frios, sal\u00f5es rutilantes, corti\u00e7os \u00famidos \u2014 funcionam como espelhos morais. A partitura de Alexandre Desplat aparece com parcim\u00f4nia, afinada ao amadurecimento da criatura: os temas come\u00e7am hesitantes e ganham melodia quando o ser conquista linguagem, sem soar triunfal.<\/p>\n<p>Del Toro preserva a espinha \u00e9tica de Shelley: n\u00e3o h\u00e1 vil\u00e3o absoluto, h\u00e1 responsabilidades que se negam. A pergunta inc\u00f4moda se imp\u00f5e: o que define humanidade \u2014 a origem do corpo, a inten\u00e7\u00e3o de quem o molda, ou a capacidade de reconhecer dor no outro? Quando o ser tenta integrar-se, encontra medo e crueldade; quando exige justi\u00e7a, descobre que justi\u00e7a sem nome pesa menos. Essa via-cr\u00facis rende passagens comoventes: a primeira frase articulada sem trope\u00e7os; o instante em que a m\u00fasica que antes acolhera vira motivo de esc\u00e1rnio; o encontro com quem oferece abrigo e paga caro por isso. Cada passo \u00e9 filmado com paci\u00eancia, para que o espectador partilhe descobertas, n\u00e3o apenas reaja a sustos.<\/p>\n<p>O roteiro, assinado pelo diretor, evita pirotecnia e trata a ci\u00eancia como del\u00edrio organizado pela dor. Victor quer consertar o que a morte levou, mas recusa compromissos que a vida exige. Essa recusa contamina o ritmo: sempre que parece assumir a criatura, uma nova justificativa o empurra para longe. Em sentido oposto, o ser abandona a brutalidade inicial, domina fonemas, alcan\u00e7a sintaxe, descobre nuances. O arco n\u00e3o procura santificar a criatura \u2014 h\u00e1 viol\u00eancia e vingan\u00e7a \u2014, mas mostra como sua \u00e9tica nasce do contato, n\u00e3o de dogmas. Quando comete atrocidades, o filme n\u00e3o fecha a conta; a responsabilidade circula entre abandono, medo e orgulho.<\/p>\n<p>H\u00e1 humor discreto nas tentativas de linguagem e h\u00e1 romance entendido como pacto entre vulner\u00e1veis. Del Toro, atento a objetos e mem\u00f3rias, retorna a obsess\u00f5es conhecidas \u2014 inf\u00e2ncia estendida, f\u00e9 no que \u00e9 quebrado \u2014 sem recorrer a truques repetidos. Figurinos e maquiagem permanecem na fronteira entre o grotesco e o sublime: costuras aparentes, pr\u00f3teses que n\u00e3o escondem a condi\u00e7\u00e3o h\u00edbrida, olhos que desviam quando a vergonha aperta. Em vez de fetichizar a deformidade, a encena\u00e7\u00e3o confronta a avers\u00e3o social \u00e0 diferen\u00e7a e pergunta quem, afinal, merece ser chamado de humano.<\/p>\n<p>A dire\u00e7\u00e3o privilegia interiores densos e exteriores de vento frio. O inverno parece permanente, mas h\u00e1 calor em pequenas fogueiras, velas e lamparinas que se multiplicam em cenas de leitura e cuidado. Essas luzes m\u00ednimas traduzem a tese emocional do longa: civiliza\u00e7\u00e3o \u00e9 o que se acende entre dois corpos quando um reconhece o outro como par. O desenho de som acompanha a ideia \u2014 passos, tecidos e respira\u00e7\u00f5es s\u00e3o mapeados com aten\u00e7\u00e3o, e o estalo da eletricidade nunca funciona apenas como efeito; \u00e9 mem\u00f3ria do trauma que abriu a vida.<\/p>\n<p>Do elenco coadjuvante, Christoph Waltz aparece como operador social que l\u00ea desejos alheios e os revende; sua presen\u00e7a oferece o cinismo necess\u00e1rio para lembrar que monstros tamb\u00e9m vestem bons ternos. Ao redor de Victor, m\u00e9dicos disputam prest\u00edgio, patronos financiam promessas e curiosos tratam o diferente como atra\u00e7\u00e3o. Quando a criatura tenta negociar seu lugar, enxerga que a cidade s\u00f3 aceita o que pode domesticar. A palavra \u201cnome\u201d vira disputa central: chamar \u201ccriatura\u201d de \u201chomem\u201d exige risco, e poucos se disp\u00f5em a assumi-lo.<\/p>\n<p>A narrativa mant\u00e9m foco nas consequ\u00eancias de cada escolha. O cientista evita responsabilidades e multiplica danos; o ser aprende pela proximidade e paga por cada avan\u00e7o afetivo. N\u00e3o h\u00e1 consolo f\u00e1cil nem puni\u00e7\u00e3o exemplar, e sim uma contabilidade de atos registrada em pele, voz e sil\u00eancio. O filme insiste em perguntas concretas: quem cuida, quem abandona, quem renomeia. Ao encarar essas quest\u00f5es, a obra se firma menos como par\u00e1bola e mais como drama de conviv\u00eancia, com o cora\u00e7\u00e3o batendo entre laborat\u00f3rio, rua e casa.<\/p>\n<p>No encontro que d\u00e1 sentido a tudo, criador e cria\u00e7\u00e3o dividem um espa\u00e7o sem fuga, e a imagem abandona o espet\u00e1culo para cuidar dos rostos. A ci\u00eancia, que acendeu a fa\u00edsca, j\u00e1 n\u00e3o resolve o que ficou vivo. A vela apaga e restam o corpo, o caderno fechado e um quarto que respira no escuro.<\/p>\n<p>\n<strong>Filme: <\/strong><br \/>\nFrankenstein<\/p>\n<p>\n<strong>Diretor: <\/strong><\/p>\n<p> Guillermo del Toro                <\/p>\n<p>\n<strong>Ano: <\/strong><br \/>\n2025<\/p>\n<p>\n<strong>G\u00eanero: <\/strong><br \/>\nDrama\/Fantasia\/horror\/Trag\u00e9dia<\/p>\n<p>\n<strong>Avalia\u00e7\u00e3o: <\/strong><\/p>\n<p>9\/10<br \/>\n1<br \/>\n1<\/p>\n<p>Marcelo Costa<\/p>\n<p>\n\u2605\u2605\u2605\u2605\u2605\u2605\u2605\u2605\u2605\u2605<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"Um quarto interditado, anota\u00e7\u00f5es febris, tempestades como rito de passagem: a partir desse laborat\u00f3rio \u00edntimo, um jovem cientista&hellip;\n","protected":false},"author":2,"featured_media":145221,"comment_status":"","ping_status":"","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[140],"tags":[114,115,147,148,146,716,32,33],"class_list":{"0":"post-145220","1":"post","2":"type-post","3":"status-publish","4":"format-standard","5":"has-post-thumbnail","7":"category-filmes","8":"tag-entertainment","9":"tag-entretenimento","10":"tag-film","11":"tag-filmes","12":"tag-movies","13":"tag-netflix","14":"tag-portugal","15":"tag-pt"},"share_on_mastodon":{"url":"https:\/\/pubeurope.com\/@pt\/115519496069445130","error":""},"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/145220","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=145220"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/145220\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/media\/145221"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=145220"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=145220"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=145220"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}