{"id":146669,"date":"2025-11-10T15:04:10","date_gmt":"2025-11-10T15:04:10","guid":{"rendered":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/146669\/"},"modified":"2025-11-10T15:04:10","modified_gmt":"2025-11-10T15:04:10","slug":"a-balada-de-colin-farrell-por-macau-e-obra-autobiografica-observador","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/146669\/","title":{"rendered":"A balada de Colin Farrell por Macau \u00e9 obra &#8220;autobiogr\u00e1fica&#8221; \u2013 Observador"},"content":{"rendered":"<p>Em Ballad of a small player, Lord Doyle (Colin Farrell), jogador compulsivo, \u00e9 a voz do pr\u00f3prio criador, assume \u00e0 Lusa Lawrence Osborne, autor do livro que inspirou o filme da Netflix. Tudo come\u00e7ou num remoto mosteiro chin\u00eas.<\/p>\n<p>Logo numa das primeiras cenas de Ballad of a small player, Lord Doyle \u2014 \u00e9 assim que se d\u00e1 a conhecer Brendan Reilly, um vigarista que fugiu do Reino Unido com fortuna roubada \u2014 desce as longas escadas rolantes do casino (ficcionado) Rainbow, para nova sess\u00e3o de bacar\u00e1.<\/p>\n<p>E \u00e9 nesta descida ao inferno que o jogador inveterado, com contas milion\u00e1rias por acertar, se cruza pela primeira vez com Dao Ming (Fala Chan), do interior da China, a trabalhar como agiota em Macau e uma poss\u00edvel avenida para a reden\u00e7\u00e3o (e para o cr\u00e9dito).<\/p>\n<p>Dao Ming \u00e9, ali\u00e1s, o ponto de partida desta balada noturna, ainda antes do realizador Edward Berger (<a href=\"https:\/\/observador.pt\/2024\/11\/07\/conclave-intrigas-de-bastidores-jogos-politicos-e-um-papa-absurdo-no-vaticano\/\" rel=\"nofollow noopener\" target=\"_blank\">Conclave, 2024<\/a>) imaginar transferi-la para o grande ecr\u00e3, conta em entrevista \u00e0 Lusa Lawrence Osborne, autor do livro The ballad of a small player\u00a0(2014).<\/p>\n<p>\u00c9 preciso recuar a 2007 quando, enviado pela revista Vogue, o jornalista brit\u00e2nico passa uma noite num mosteiro remoto, a oeste da prov\u00edncia chinesa de Sichuan. \u201cOs monges contaram-nos que todas as raparigas daquela localidade tinham ido para Hong Kong e Macau e a maioria nunca mais voltou, ningu\u00e9m sabia o que tinha acontecido\u201d, lembra Osborne, a viver em Banguecoque.<\/p>\n<p>Ideia \u201cestranha e inquietante\u201d, que ressurgiu quando viajou a Macau e se hospedou, como era habitual, no hotel-casino Lisboa, obra dos anos 1970 e parte do imp\u00e9rio do magnata do jogo Stanley Ho (1921-2020) \u2014 \u201cnunca tinha estado num s\u00edtio assim\u201d.<\/p>\n<p>\u201cQuantas dessas raparigas ser\u00e3o de Sichuan?\u201d, lembra-se de pensar ao ver circularem prostitutas pelo \u00e1trio do Lisboa. \u201cDescia \u00e0 noite e tinham na cave uma esp\u00e9cie de \u00e1rea onde se apostava nas corridas de galgos, e uns tipos ficavam ali sentados de \u00f3culos escuros \u00e0 noite \u2014 era bastante divertido. Eu sentava-me no caf\u00e9 e observava essas raparigas a andarem no sentido dos ponteiros do rel\u00f3gio, circulavam assim o dia todo\u201d, lembra.<\/p>\n<p>Dao Ming desenhava-se naqueles corredores \u2014 no livro de Osborne \u00e9 prostituta \u2014 mas a resist\u00eancia de se p\u00f4r na pele de uma migrante chinesa, acabou por releg\u00e1-la para segundo plano nesta hist\u00f3ria. A escolha do protagonista resolveu-se quando, uma noite, o jornalista se cruzou com um \u201cbrit\u00e2nico solit\u00e1rio, todo suado, com uma esp\u00e9cie de casaco aveludado meio fajuto\u201d, a jogar.<\/p>\n<p>\u201cParecia completamente perdido, o \u00fanico gwai lou\u00a0naquele lugar\u201d, diz, ao usar uma express\u00e3o cantonesa local, em refer\u00eancia a estrangeiros caucasianos, mas que significa literalmente \u201cdiabo\u201d ou \u201cfantasma\u201d.<\/p>\n<p>Osborne descobriu assim Doyle, um pretenso aristocrata (Lord) \u2014 com o t\u00edtulo nobili\u00e1rquico inspirado, contou numa entrevista \u00e0 Monocle, por Lord Stow, como foi batizado por locais Andrew Stow (1955-2006), o farmac\u00eautico brit\u00e2nico que fundou o imp\u00e9rio dos past\u00e9is de nata em Macau.<\/p>\n<p>Ou melhor, em Doyle descobriu quem lhe projetasse a voz. Narrado na primeira pessoa, The ballad of a small player \u00e9 uma obra \u201cmuito autobiogr\u00e1fica\u201d. \u201cN\u00e3o no sentido de ser um viciado louco ou um impostor \u2014 bem, algumas pessoas discordariam \u2014 mas a voz sou eu\u201d, acrescenta.<\/p>\n<p>A rela\u00e7\u00e3o com Macau j\u00e1 tinha anos e evoluiu quando come\u00e7ou a viajar mais at\u00e9 ao territ\u00f3rio por precisar de sair da Tail\u00e2ndia para renovar o visto de entrada. Os dias orbitavam muito em torno do Lisboa. \u00c0 noite descia at\u00e9 ao casino e pasmava-se com \u201caquela incr\u00edvel esp\u00e9cie de \u00f3pera\u201d. Depois come\u00e7ou a jogar.<\/p>\n<p>\u201cFoi bastante divertido, perdi dinheiro, e isso foi ainda mais divertido. E toda aquela atmosfera sobrenatural que os chineses t\u00eam em rela\u00e7\u00e3o ao jogo era algo que eu nunca tinha visto\u201d, diz.<\/p>\n<p>Sobre Macau, nota que \u00e9 hoje uma cidade diferente daquela que passou para livro em 2014. Tamb\u00e9m a retratada por Berger distancia-se, de certa forma, da de Osborne \u2014 n\u00e3o aparecem muitas das refer\u00eancias do livro \u00e0 gastronomia ou locais portugueses ou mesmo aos velhos casinos do territ\u00f3rio. O Greek Mythology, na \u00e1rea da Taipa, onde Osborne arranca o livro, j\u00e1 nem existe.<\/p>\n<p>Macau descobre-se num \u201cfilme oper\u00e1tico, que \u00e9 muito colorido, muito intenso, muito barulhento\u201d, avalia.<\/p>\n<p>E para quem v\u00ea o filme, \u00e9 poss\u00edvel que fique exausto ao fazer por acompanhar Farrell, que vai avan\u00e7ando, suado, \u00e0 beira do colapso, por sal\u00f5es e quartos opulentos, a fugir \u00e0 lei e \u00e0 lei das probabilidades, e sem saber o que o espera na pr\u00f3xima m\u00e3o \u2014 \u201ca sensa\u00e7\u00e3o pela qual todos os jogadores vivem\u201d, como escreve Osborne na obra, que lhe valeu compara\u00e7\u00f5es a Dostoievsky e Graham Greene.<\/p>\n<p>O livro \u201c\u00e9 mais tranquilo, mais interior e mais calmo, \u00e9 um tipo diferente de voz\u201d, considera o autor, admitindo, por\u00e9m, estar surpreendido \u201cde forma positiva\u201d com este \u201cfilme sensual\u201d, que veio ainda adicionar novos elementos ao universo de Doyle, como a investigadora enviada a Macau para o encontrar, Cynthia Blithe (Tilda Swinton).<\/p>\n<p>\u201cA hist\u00f3ria \u00e9 muito dark, n\u00e3o \u00e9 um folheto tur\u00edstico, mas a cidade parece incr\u00edvel no filme. (\u2026) Acho que fizemos algo bom para Macau. E n\u00e3o \u00e9 uma coisa pequena, \u00e9 grande\u201d, refere.<\/p>\n<p>Lawrence Osborne diz ter visto o filme apenas quando estreou em Londres, a 9 de outubro no Royal Festival Hall, e admite ter \u201cficado muito emocionado\u201d: \u201cParecia que estava a olhar para a minha vida h\u00e1 20 anos.\u201d<\/p>\n<p>\u201cE eu sentado naquele cinema e ningu\u00e9m sabia quem eu era, completamente an\u00f3nimo (\u2026) Na sess\u00e3o de perguntas e respostas, era apenas Collin Farrell e Tilda Swinton, mas ainda assim \u00e9 o meu mundo e \u00e9 uma sensa\u00e7\u00e3o estranha. Fui at\u00e9 l\u00e1 completamente sozinho, tinha uma pequena limusina da Netflix \u00e0 minha espera, bebi um u\u00edsque sozinho e fui para casa. Foi estranhamente satisfat\u00f3rio\u201d, conta.<\/p>\n<p>Ballad of a small player\u00a0estreou na Netflix a 29 de outubro.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"Em Ballad of a small player, Lord Doyle (Colin Farrell), jogador compulsivo, \u00e9 a voz do pr\u00f3prio criador,&hellip;\n","protected":false},"author":2,"featured_media":146670,"comment_status":"","ping_status":"","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[145],"tags":[842,211,210,470,315,114,115,864,170,15366,62,716,32,33,954,110,3546],"class_list":{"0":"post-146669","1":"post","2":"type-post","3":"status-publish","4":"format-standard","5":"has-post-thumbnail","7":"category-celebridades","8":"tag-apps","9":"tag-celebridades","10":"tag-celebrities","11":"tag-cinema","12":"tag-cultura","13":"tag-entertainment","14":"tag-entretenimento","15":"tag-literatura","16":"tag-livros","17":"tag-macau","18":"tag-mundo","19":"tag-netflix","20":"tag-portugal","21":"tag-pt","22":"tag-smartphones","23":"tag-tecnologia","24":"tag-u00c1sia"},"share_on_mastodon":{"url":"https:\/\/pubeurope.com\/@pt\/115526019475751574","error":""},"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/146669","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=146669"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/146669\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/media\/146670"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=146669"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=146669"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=146669"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}