{"id":146887,"date":"2025-11-10T18:11:11","date_gmt":"2025-11-10T18:11:11","guid":{"rendered":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/146887\/"},"modified":"2025-11-10T18:11:11","modified_gmt":"2025-11-10T18:11:11","slug":"o-romance-sobre-a-pior-doenca","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/146887\/","title":{"rendered":"O romance sobre a pior doen\u00e7a"},"content":{"rendered":"<p>Jos\u00e9 Lu\u00eds Peixoto \u00e9 desde o seu primeiro romance,\u00a0Morreste-me\u00a0(2000), um dos escritores que mais leitores tem no seu pr\u00f3prio pa\u00eds, como no estrangeiro, onde s\u00e3o bastantes as tradu\u00e7\u00f5es dos seus livros. Este seu primeiro romance nasceu de um breve texto ficcional que Peixoto escreveu e publicou em edi\u00e7\u00e3o de autor. Segue-se a sua publica\u00e7\u00e3o no suplemento\u00a0DN Jovem\u00a0e a rea\u00e7\u00e3o faz com que o reescreva e que no seu percurso seja declarado um dos dez melhores livros da primeira d\u00e9cada deste s\u00e9culo. O tema est\u00e1 preanunciado no t\u00edtulo, a morte do pai. <strong>Este\u00a0<\/strong><strong>A Montanha<\/strong><strong>, regressa \u00e0 sua morte e (tenta) fecha o ciclo sobre a dor provocada pelo desaparecimento paternal.<\/strong><\/p>\n<p>\u00c9 um livro mais duro do que a maioria dos que tem escrito nos \u00faltimos tempos e pergunta-se a Peixoto se existe uma raz\u00e3o espec\u00edfica para essa situa\u00e7\u00e3o: \u201cAs coisas proporcionaram-se para que o livro acontecesse e que tivesse necessariamente esse tema. <strong>\u00c9 um livro cuja primeira fa\u00edsca que lhe deu origem n\u00e3o foi da minha iniciativa<\/strong>, mas vem no decurso dos meus mais dois recentes romances:\u00a0Autobiografia\u00a0(2019), que tem Jos\u00e9 Saramago muito presente, e depois\u00a0Almo\u00e7o de Domingo\u00a0(2021) que tem o comendador Rui Nabeiro no cen\u00e1rio. E houve um acaso que me trouxe definitivamente at\u00e9 este projeto, que se deu antes dos dois romances que referi e <strong>me fora proposto pelos m\u00e9dicos do IPO do Porto: escrever sobre as hist\u00f3rias de alguns pacientes. Fiquei sempre com essa ideia em mente<\/strong>, mas queriam um livro coletivo e foi sendo adiado. H\u00e1 uns tempos, reencontrei um desses m\u00e9dicos e tive oportunidade de prosseguir esse caminho.\u201d<\/p>\n<p>A Montanha\u00a0tem a particularidade de ser tamb\u00e9m sobre hist\u00f3rias de pessoas que existem realmente, tal como os dois anteriores: <strong>\u201cCombinavam-se uma s\u00e9rie de componentes que faziam com que fosse um degrau acima em termos de ambi\u00e7\u00e3o.<\/strong> Ao chegar o tempo de olhar de forma concreta para este projeto foi quando decidi que o livro seria um romance, porque antes n\u00e3o me parecia que fosse o g\u00e9nero mais evidente. <strong>Essa situa\u00e7\u00e3o de juntar v\u00e1rios testemunhos num romance moldou muito a estrutura do texto e, efetivamente, o tema do cancro imp\u00f4s-se.<\/strong> Era o assunto que unia todas as \u00abpersonagens\u00bb e estava no centro de tudo.\u201d<\/p>\n<p>N\u00e3o foi por acaso que a partir de um certo momento Jos\u00e9 Lu\u00eds Peixoto aceitou o convite: <strong>\u201cEra um tema que, sob um ponto de vista autobiogr\u00e1fico e tamb\u00e9m da obra, uma vez que tenho o livro\u00a0<\/strong><strong>Morreste-me<\/strong><strong>, que fala sobre a morte do meu pai me interessava\u201d<\/strong>. Pergunta-se se o novo romance pretende fechar o ciclo da morte? N\u00e3o \u00e9 assim t\u00e3o certo, como diz: \u201cHouve uma altura em que pensei que com este livro dizia tudo o que havia sobre esse tema, mas n\u00e3o sei se ser\u00e1 assim, porque quando inicio um projeto olho muito mais para tr\u00e1s do que para a frente e tento sempre estabelecer liga\u00e7\u00f5es com o que j\u00e1 fiz e tenho \u00e0s vezes muito menos certezas em rela\u00e7\u00e3o ao lugar para onde me dirijo. Em\u00a0A Montanha, isso acontece bastante e, de uma forma at\u00e9 muito direta, existem v\u00e1rias refer\u00eancias a livros que j\u00e1 escrevi. Ali\u00e1s, nos \u00faltimos a quest\u00e3o do biogr\u00e1fico versus autobiogr\u00e1fico tem estado sempre muito presente e neste caso <strong>uma das coisas que foi muito importante era o ponto de partida do biogr\u00e1fico da vida daquelas pessoas, mas tamb\u00e9m do autobiogr\u00e1fico, o que favorece uma perce\u00e7\u00e3o de realidade.\u201d<\/strong><\/p>\n<p>Esta contradi\u00e7\u00e3o cria um momento, segundo o escritor, \u201cem que a pouco e pouco se vai instalando um certo surrealismo, del\u00edrio ou met\u00e1fora\u201d que acaba por tornar-se numa <strong>\u201cgrande fragmenta\u00e7\u00e3o e com tantos elementos, que de alguma maneira, enlouquecem o narrador.<\/strong> N\u00e3o ser\u00e1 por acaso que tal acontece, antes por que tem a ver com a quest\u00e3o do sentido da vida e cada vez mais uma dificuldade para identificar um sentido na vida evidente e simples. Que cada vez \u00e9 mais dif\u00edcil porque os par\u00e2metros mudaram todos neste mil\u00e9nio.\u201d<\/p>\n<p>Se se achou que\u00a0A Montanha\u00a0ser\u00e1 o fecho do ciclo come\u00e7ado por\u00a0Morreste-me, pouco depois o autor desfaz essa sensa\u00e7\u00e3o: \u201cQuando h\u00e1 dias fiz o lan\u00e7amento do livro no IPO do Porto houve algo que devo referir; de que nos livros que escrevi at\u00e9 hoje, nenhum esgotou o seu tema. Consigo escrever livros que esgotem o tema que prop\u00f5em, no entanto, esses s\u00e3o os que sugerem e provocam reflex\u00f5es nos leitores<strong>. No caso deste novo romance, existem tamb\u00e9m provoca\u00e7\u00f5es devido ao assunto principal: estar-se a falar sobre a verdade da doen\u00e7a e, enquanto autor, posso transformar-me em narrador<\/strong>; se ao contarem a sua perspetiva reproduzo exatamente o que aconteceu ou \u00e9 o que imaginei a partir do que as pessoas me contaram.\u201d<\/p>\n<p>Diz-se a Jos\u00e9 Lu\u00eds Peixoto que\u00a0A Montanha\u00a0mais n\u00e3o \u00e9 do que um livro de um escritor \u00f3rf\u00e3o. Responde que \u201cagora ainda mais \u00f3rf\u00e3o, pois \u00e9 natural que os pais morram antes dos filhos, mas escrevemos sobre o que conseguimos escrever e sobre aquilo que temos para dizer. <strong>Eu, infelizmente, n\u00e3o consigo escrever sobre todos os temas. Tenho no in\u00edcio perante mim um grupo limitado de assuntos sobre os quais acredito que possa dizer alguma coisa minimamente relevante\u201d<\/strong>. Da\u00ed que acrescente: \u201cEste \u00e9 um tema que provavelmente ainda n\u00e3o est\u00e1 resolvido, ou tamb\u00e9m porque encerra em si o tema da minha pr\u00f3pria morte, porque a morte do pai tamb\u00e9m \u00e9 em certa medida a minha pr\u00f3pria morte. Portanto, \u00e9 um tema a que tenho regressado e, sinceramente, n\u00e3o sinto necessidade de me censurar ou de me inibir. At\u00e9 porque <strong>ao longo dos anos foi evoluindo; no princ\u00edpio era muito direto e pessoal, hoje j\u00e1 o vejo de uma forma mais conceptual, at\u00e9 um pouco mais simb\u00f3lico.<\/strong> Al\u00e9m de que os leitores continuam a identificar-se com esta tem\u00e1tica.\u201d<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"Jos\u00e9 Lu\u00eds Peixoto \u00e9 desde o seu primeiro romance,\u00a0Morreste-me\u00a0(2000), um dos escritores que mais leitores tem no seu&hellip;\n","protected":false},"author":2,"featured_media":146888,"comment_status":"","ping_status":"","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[10],"tags":[27,28,306,15,16,14,25,26,864,8467,21,22,12,13,19,20,32,23,24,33,17,18,29,30,31],"class_list":{"0":"post-146887","1":"post","2":"type-post","3":"status-publish","4":"format-standard","5":"has-post-thumbnail","7":"category-portugal","8":"tag-breaking-news","9":"tag-breakingnews","10":"tag-edicao-impressa","11":"tag-featured-news","12":"tag-featurednews","13":"tag-headlines","14":"tag-latest-news","15":"tag-latestnews","16":"tag-literatura","17":"tag-livros-da-semana","18":"tag-main-news","19":"tag-mainnews","20":"tag-news","21":"tag-noticias","22":"tag-noticias-principais","23":"tag-noticiasprincipais","24":"tag-portugal","25":"tag-principais-noticias","26":"tag-principaisnoticias","27":"tag-pt","28":"tag-top-stories","29":"tag-topstories","30":"tag-ultimas","31":"tag-ultimas-noticias","32":"tag-ultimasnoticias"},"share_on_mastodon":{"url":"https:\/\/pubeurope.com\/@pt\/115526755087414415","error":""},"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/146887","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=146887"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/146887\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/media\/146888"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=146887"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=146887"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=146887"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}