{"id":14714,"date":"2025-08-03T21:14:11","date_gmt":"2025-08-03T21:14:11","guid":{"rendered":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/14714\/"},"modified":"2025-08-03T21:14:11","modified_gmt":"2025-08-03T21:14:11","slug":"georges-simenon-e-o-caso-da-literatura-em-quantidade-observador","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/14714\/","title":{"rendered":"Georges Simenon e o caso da literatura em quantidade \u2013 Observador"},"content":{"rendered":"<p>Desde a morte de Georges Simenon, em 1989, o mundo editorial portugu\u00eas parece teimar em, por fases, ir redescobrindo e invocando o romancista belga. Em vida do escritor, os seus leitores portugueses estavam cingidos \u00e0s edi\u00e7\u00f5es da Livros do Brasil, que ia publicando regularmente as hist\u00f3rias do c\u00e9lebre comiss\u00e1rio Maigret. Contudo, ap\u00f3s 1989, tivemos quatro vagas de dimens\u00f5es diferentes de tradu\u00e7\u00f5es das suas obras, primeiro, com o t\u00edmido esfor\u00e7o da Cotovia (Carta para minha m\u00e3e, 2001), depois, com dezenas de hist\u00f3rias de Maigret publicadas entre a Asa e, de novo, a Livros do Brasil, entre 2006 e 2014; de seguida, atrav\u00e9s dos oito romances publicados na Rel\u00f3gio d\u2019\u00c1gua no espa\u00e7o de um ano (2016\/17) e, por fim, em mar\u00e7o deste ano, com a edi\u00e7\u00e3o de A neve estava suja e As janelas defronte pela Cavalo de Ferro.<\/p>\n<p>O leitor mais incauto suspeitaria de que, com 78 tradu\u00e7\u00f5es de livros em portugu\u00eas, a inclus\u00e3o de Simenon no excelente cat\u00e1logo da Cavalo de Ferro viesse apenas chover no molhado. Mas o leitor mais incauto desconhecer\u00e1 talvez a dimens\u00e3o do cat\u00e1logo simenoneano. Sen\u00e3o vejamos. Ao longo de 86 anos de vida, Georges Simenon escreveria 21 volumes de mem\u00f3rias, quatro autobiografias, 192 romances ou novelas em nome pr\u00f3prio e mais de duzentos repartidos por 27 pseud\u00f3nimos. A isto somam-se centenas de artigos e contos. No total, teremos para cima de quatrocentos livros escritos pela m\u00e3o do autor belga mais vendido de todos os tempos, que soma j\u00e1 quinhentos milh\u00f5es de exemplares espalhados por todo o mundo (fiz as contas, se quisesse igualar a sua produtividade, e assumindo que viveria o mesmo tempo que Simenon, teria de publicar um livro de dois em dois meses). Como se n\u00e3o bastasse o sucesso comercial, Simenon foi alvo de rasgados elogios por parte de escritores t\u00e3o consagrados como Andr\u00e9 Gide, Le\u00efla Slimani ou Walter Benjamin. \u00c9 dif\u00edcil, portanto, questionar a sua centralidade na literatura do s\u00e9culo XX.<\/p>\n<p>                    <img src=\"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-content\/uploads\/2025\/08\/simenon-as-janelas-defronte.webp.jpeg\" alt=\"\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"1729\" height=\"2560\" class=\"news-photo\" onload=\"this.parentElement.classList.remove('spinner')\" onerror=\"this.parentElement.classList.remove('spinner')\"\/>                <\/p>\n<p class=\"legenda\">\n            \u25b2 A capa de &#8220;As Janelas Defronte&#8221;, na edi\u00e7\u00e3o da Cavalo de Ferro<\/p>\n<p>No entanto, mais do que os m\u00e9ritos liter\u00e1rios de Simenon, que s\u00e3o muitos e assentam, parece-me, numa espantosa precis\u00e3o lingu\u00edstica e descritiva que mereceria decerto outro artigo, interessa-me pensar esta extraordin\u00e1ria prolificidade. Em primeiro lugar, faz sentido esclarecer que Simenon n\u00e3o \u00e9, longe disso, caso \u00fanico na hist\u00f3ria da literatura.<\/p>\n<p>Lembremo-nos, por exemplo, de Isaac Asimov (357 livros), de Gon\u00e7alo M. Tavares, que, com apenas 54 anos j\u00e1 conta com 45 livros publicados, e, sobretudo, do recordista absoluto desta categoria: Ron L. Hubbard, com 1.084 livros publicados, a grande maioria deles escritos nos anos cinquenta. \u00c9 interessante perceber que nos tr\u00eas casos acima referidos, tal como, em certa medida, poder\u00edamos supor que acontece tamb\u00e9m com Simenon, esta fecundidade liter\u00e1ria parece corresponder ao desejo de constru\u00e7\u00e3o de um mundo novo, que viesse enfim substituir-se a estoutro que nos calhou em sorte habitar. N\u00e3o ser\u00e1, por isso, coincid\u00eancia que tanto Asimov como Hubbard se tenham dedicado sobretudo \u00e0 fic\u00e7\u00e3o cient\u00edfica, sendo que Hubbard, n\u00e3o contente com a realidade liter\u00e1ria que ia construindo em seu redor, cedo transferiria o seu universo ficcional da literatura para a religi\u00e3o, criando a Igreja da Cientologia, cujos fi\u00e9is s\u00e3o convidados a acreditar que descendemos de uma ra\u00e7a intergal\u00e1tica abandonada h\u00e1 quinhentos milh\u00f5es de anos por um tirano alien\u00edgena dentro de um vulc\u00e3o terr\u00e1queo, sobre o qual foram de seguida detonadas v\u00e1rias bombas de hidrog\u00e9nio.<\/p>\n<p>Poder\u00edamos imaginar \u2014 e em certa medida, ter\u00edamos raz\u00e3o \u2014 que em algumas situa\u00e7\u00f5es tamanha fecundidade corresponder\u00e1 decerto a uma f\u00f3rmula, sendo que cada novo livro corresponder\u00e1 apenas a uma itera\u00e7\u00e3o dessa mesma f\u00f3rmula aplicada a personagens e enredos ligeiramente diferentes. Com certeza. Mas \u00e9 tamb\u00e9m poss\u00edvel \u2014 e o caso de Simenon parece prov\u00e1-lo \u2014 que esta fecundidade se deva \u00e0 descoberta de que, mais do que de enredos, a literatura assenta na descoberta de um certo tom, de uma melodia que, uma vez afinada, pode ser reproduzida quase infinitamente, onde seriam embalados os leitores e, quem sabe, os pr\u00f3prios escritores, que assim migrariam de um mundo hostil para outro cujos termos seriam por si definidos. Mais do que uma cria\u00e7\u00e3o, a literatura seria, portanto, uma tradu\u00e7\u00e3o ou convers\u00e3o do mundo, como o pr\u00f3prio Simenon parece sugerir, ao afirmar no pref\u00e1cio de As janelas defronte, que todas as suas personagens existem de facto, uma vez que \u00abnunca fui capaz de inventar uma personagem, nem um cen\u00e1rio, nem sequer uma aventura (\u2026) sinceramente, a n\u00e3o ser que eu fosse Deus, como \u00e9 que me ia p\u00f4r a criar toda esta gente? Simplesmente n\u00e3o existem tal como surgem nas minhas hist\u00f3rias, no lugar onde as coloco (\u2026)\u00bb.<\/p>\n<p>                    <img src=\"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-content\/uploads\/2025\/08\/simenon-a-neve-estava-suja.webp.jpeg\" alt=\"\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"1731\" height=\"2560\" class=\"news-photo\" onload=\"this.parentElement.classList.remove('spinner')\" onerror=\"this.parentElement.classList.remove('spinner')\"\/>                <\/p>\n<p class=\"legenda\">\n            \u25b2 A capa de &#8220;A Neve Estava Suja&#8221;, na edi\u00e7\u00e3o da Cavalo de Ferro<\/p>\n<p>Al\u00e9m disso, t\u00e3o abundante fecundidade tem uma consequ\u00eancia libertadora. Ao escrever centenas de romances, Simenon est\u00e1, em certa medida, a dessacralizar a literatura, libertando-a das divinas amarras que teimamos em impor-lhe. Ao escreverem catrefadas de romances, ao se agrilhoarem \u00e0 inspira\u00e7\u00e3o, autores como Simenon renegam a ideia de transporte divino. Ao transformarem as musas em esposas, os escritores fecundos fazem com que a literatura des\u00e7a do Olimpo para onde a exil\u00e1mos e aproximam-na da nossa vida quotidiana, transformando-a menos num \u00eaxtase m\u00edstico e mais numa atividade semelhante ao tricot, em que entretecemos e destecemos narrativas a nosso bel-prazer.<\/p>\n<p>Por fim, gera-se disto uma consequ\u00eancia curiosa. Na pr\u00e1tica, quando um escritor publica centenas de livros, torna financeira e temporalmente imposs\u00edvel que n\u00f3s, leitores, por mais que admiremos a sua escrita, consigamos ler a sua obra completa. Ora, com isso, estes escritores compulsivos abolem a possibilidade de haver especialistas nas suas obras. Podemos, por hip\u00f3tese, falar da viol\u00eancia e correspondente reden\u00e7\u00e3o amorosa nos romances de Simenon, podemos at\u00e9 falar da constru\u00e7\u00e3o quase crist\u00e3 de uma ideia de caridade ou da repulsa que Simenon parecia sentir pelo efeito dos regimes autorit\u00e1rios nas suas c\u00e9lulas (isto \u00e9, nos cidad\u00e3os), mas, ao dizermos isto, falamos de toda a obra de Simenon, apenas dos que este apelidou de romances duros ou s\u00f3 mesmo destes dois casos concretos, talvez escolhidos pela Cavalo de Ferro precisamente \u00e0 conta dessas semelhan\u00e7as? Como poderemos esclarecer esta d\u00favida? Lendo mais dois romances? E se o padr\u00e3o se mantiver, tiraremos conclus\u00f5es disso, tendo lido menos de 1% das obras completas de Simenon?<\/p>\n<p>A frustra\u00e7\u00e3o inerente \u00e0 impossibilidade de nos tornarmos especialistas em Simenon ou Asimov poder\u00e1, contudo, levar-nos a compreender que essa impossibilidade se expande tamb\u00e9m \u00e0 literatura em geral e, por fim, \u00e0 vida. Talvez ao compreendermos a nossa inescap\u00e1vel ignor\u00e2ncia nos irritemos menos com a estupidez que grassa por todo o lado, acolhendo-a, enfim, como parte de n\u00f3s.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"Desde a morte de Georges Simenon, em 1989, o mundo editorial portugu\u00eas parece teimar em, por fases, ir&hellip;\n","protected":false},"author":2,"featured_media":14715,"comment_status":"","ping_status":"","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[143],"tags":[169,315,114,115,864,170,32,33],"class_list":{"0":"post-14714","1":"post","2":"type-post","3":"status-publish","4":"format-standard","5":"has-post-thumbnail","7":"category-livros","8":"tag-books","9":"tag-cultura","10":"tag-entertainment","11":"tag-entretenimento","12":"tag-literatura","13":"tag-livros","14":"tag-portugal","15":"tag-pt"},"share_on_mastodon":{"url":"","error":""},"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/14714","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=14714"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/14714\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/media\/14715"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=14714"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=14714"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=14714"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}