{"id":148133,"date":"2025-11-11T15:29:10","date_gmt":"2025-11-11T15:29:10","guid":{"rendered":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/148133\/"},"modified":"2025-11-11T15:29:10","modified_gmt":"2025-11-11T15:29:10","slug":"no-tempo-em-que-nao-se-comia-batata-mandava-sua-excelencia-a-castanha","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/148133\/","title":{"rendered":"No tempo em que n\u00e3o se comia batata mandava sua excel\u00eancia a castanha"},"content":{"rendered":"<p data-start=\"375\" data-end=\"776\">Com os sinais de um tempo mais fresco, condizendo com o outono, \u00e9 reconfortante o calor proporcionado pela d\u00fazia de castanhas a escaldar nas m\u00e3os, compradas em resposta ao apelo apregoado do \u201cquentes e boas\u201d. Hoje quase uma guloseima sazonal, a castanha foi, durante s\u00e9culos, um alimento essencial em grande parte do territ\u00f3rio portugu\u00eas, substituindo o p\u00e3o quando este faltava nos rigores do inverno.<\/p>\n<p data-start=\"778\" data-end=\"1395\">Cozidas, assadas ou transformadas em farinha, as castanhas integram a alimenta\u00e7\u00e3o humana desde a Antiguidade. O castanheiro europeu (Castanea sativa), \u00e1rvore de grande porte e excecional longevidade, tem origem prov\u00e1vel na \u00c1sia Menor, Balc\u00e3s e C\u00e1ucaso, regi\u00f5es onde existem registos palinol\u00f3gicos com mais de tr\u00eas mil anos. A difus\u00e3o pelo Mediterr\u00e2neo ocidental deveu-se aos Romanos, que valorizavam a castanha como fonte energ\u00e9tica port\u00e1til para as legi\u00f5es. Encontrando na Pen\u00ednsula Ib\u00e9rica condi\u00e7\u00f5es ideais de solo e clima, o castanheiro tornou-se parte do quotidiano agr\u00edcola muito antes da funda\u00e7\u00e3o de Portugal.<\/p>\n<p data-start=\"1397\" data-end=\"1987\"><strong>A Castanha na cozinha e tradi\u00e7\u00e3o portuguesas<\/strong><\/p>\n<p data-start=\"1397\" data-end=\"1987\">O termo \u201ccastanheiro\u201d surge citado num documento de 960 d.C. em terras onde mais tarde se formaria Portugal. Durante a Idade M\u00e9dia, a castanha aparece recorrentemente em listas de d\u00edzimos ao lado de produtos como azeite e cereais, ind\u00edcio claro da sua relev\u00e2ncia econ\u00f3mica. Antes da introdu\u00e7\u00e3o da batata e do milho, nos s\u00e9culos XV e XVI, foi alimento basilar no Norte e Centro do pa\u00eds. Em anos dif\u00edceis, chegou a substituir o p\u00e3o: fazia-se a \u201cfalacha\u201d, massa de castanha pilada e \u00e1gua, ou papas espessas consumidas em \u00e9pocas de maior escassez.<\/p>\n<p data-start=\"1989\" data-end=\"2435\">No s\u00e9culo XVII, continuava a ser um dos produtos de base dos beir\u00f5es e transmontanos. Em Terras de Barroso, fazia-se um caldo de castanhas reduzidas a pur\u00e9, enriquecido apenas com um pouco de unto. No Minho, Beira Interior e Alto Douro, as castanhas piladas \u2014 secas e demolhadas durante v\u00e1rios dias \u2014 eram usadas em sopas e guisados. A tradi\u00e7\u00e3o mant\u00e9m-se ainda em muitas aldeias, ligada ao ciclo da colheita e \u00e0s pr\u00e1ticas comunit\u00e1rias dos soutos.<\/p>\n<p data-start=\"2437\" data-end=\"2751\">Portugal \u00e9 hoje o quarto maior produtor europeu de castanha, depois da It\u00e1lia, Turquia e Espanha. Tr\u00e1s-os-Montes representa cerca de 90% da produ\u00e7\u00e3o nacional, com destaque para as variedades Judia, Longal e C\u00f4ta. As exporta\u00e7\u00f5es rondam anualmente os 40 a 50 milh\u00f5es de euros, sobretudo para Fran\u00e7a, It\u00e1lia e Brasil.<\/p>\n<p data-start=\"2753\" data-end=\"3217\">O castanheiro, contudo, enfrenta desafios significativos desde o final do s\u00e9culo XX. Doen\u00e7as como a tinta (Phytophthora cinnamomi) e o cancro do castanheiro (Cryphonectria parasitica) devastaram soutos inteiros. Portugal tem investido em programas de recupera\u00e7\u00e3o e resist\u00eancia gen\u00e9tica, sendo citado em estudos internacionais como caso de sucesso na aplica\u00e7\u00e3o de t\u00e9cnicas de hipovirul\u00eancia \u2014 a introdu\u00e7\u00e3o de v\u00edrus benignos que reduzem a agressividade do fungo.<\/p>\n<p data-start=\"3219\" data-end=\"3544\"><strong>Castanhas pelo S\u00e3o Martinho<\/strong><\/p>\n<p data-start=\"3219\" data-end=\"3544\">Assadas com sal grosso, cozidas com ervas arom\u00e1ticas, secas e piladas para sopas ou transformadas em pur\u00e9 a acompanhar pratos de inverno, as castanhas consumem-se entre finais de setembro e o in\u00edcio da primavera. Contudo, atingem particular protagonismo no dia de S\u00e3o Martinho, a 11 de novembro.<\/p>\n<p data-start=\"3546\" data-end=\"3967\">Os magustos, celebrados ao ar livre, reuniam comunidades em torno de grandes fogueiras. Leite de Vasconcelos descreve grupos que cantam e dan\u00e7am enquanto as castanhas estalam no calor das brasas, num ritual que assinala o fim das colheitas e o in\u00edcio das reservas para o inverno. O vinho novo, a jeropiga ou a \u00e1gua-p\u00e9 acompanhavam a celebra\u00e7\u00e3o, como recorda o ad\u00e1gio: \u201cNo dia de S\u00e3o Martinho vai \u00e0 adega e prova o vinho.\u201d<\/p>\n<p data-start=\"3969\" data-end=\"4504\"><strong>Entre tradi\u00e7\u00e3o, mem\u00f3ria e renova\u00e7\u00e3o<\/strong><\/p>\n<p data-start=\"3969\" data-end=\"4504\">Apesar das amea\u00e7as fitossanit\u00e1rias, os soutos continuam a marcar a paisagem do Norte e Centro \u2014 de Tr\u00e1s-os-Montes ao Barroso, da Beira Interior a serras mais atl\u00e2nticas como Sintra e Monchique. Todos os anos, com a chegada do outono, a castanha volta a reunir o pa\u00eds \u00e0 volta de mesas simples, fogueiras de aldeia e receitas que atravessaram s\u00e9culos. Ora alimento de subsist\u00eancia, ora s\u00edmbolo festivo, ora iguaria sazonal, mant\u00e9m-se como uma das express\u00f5es mais vivas da cultura outonal portuguesa.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"Com os sinais de um tempo mais fresco, condizendo com o outono, \u00e9 reconfortante o calor proporcionado pela&hellip;\n","protected":false},"author":2,"featured_media":148134,"comment_status":"","ping_status":"","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[50],"tags":[27,28,15,16,14,25,26,21,22,62,12,13,19,20,23,24,17,18,29,30,31,63,64,65],"class_list":{"0":"post-148133","1":"post","2":"type-post","3":"status-publish","4":"format-standard","5":"has-post-thumbnail","7":"category-mundo","8":"tag-breaking-news","9":"tag-breakingnews","10":"tag-featured-news","11":"tag-featurednews","12":"tag-headlines","13":"tag-latest-news","14":"tag-latestnews","15":"tag-main-news","16":"tag-mainnews","17":"tag-mundo","18":"tag-news","19":"tag-noticias","20":"tag-noticias-principais","21":"tag-noticiasprincipais","22":"tag-principais-noticias","23":"tag-principaisnoticias","24":"tag-top-stories","25":"tag-topstories","26":"tag-ultimas","27":"tag-ultimas-noticias","28":"tag-ultimasnoticias","29":"tag-world","30":"tag-world-news","31":"tag-worldnews"},"share_on_mastodon":{"url":"https:\/\/pubeurope.com\/@pt\/115531780128708402","error":""},"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/148133","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=148133"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/148133\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/media\/148134"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=148133"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=148133"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=148133"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}