{"id":148854,"date":"2025-11-12T03:17:09","date_gmt":"2025-11-12T03:17:09","guid":{"rendered":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/148854\/"},"modified":"2025-11-12T03:17:09","modified_gmt":"2025-11-12T03:17:09","slug":"perda-de-biodiversidade-contribui-para-o-aumento-de-especies-que-sao-reservatorios-de-doencas-zoonoticas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/148854\/","title":{"rendered":"Perda de biodiversidade contribui para o aumento de esp\u00e9cies que s\u00e3o reservat\u00f3rios de doen\u00e7as zoon\u00f3ticas"},"content":{"rendered":"<p><strong>Andr\u00e9 Juli\u00e3o | Ag\u00eancia FAPESP<\/strong> \u2013 Os estudos que tentaram prever pandemias falharam em grande parte, o que obriga cientistas a pensar em novas formas de antecipar o surgimento de novos pat\u00f3genos que podem se espalhar pelo mundo. Uma abordagem pouco considerada, e que deve ser aprofundada, \u00e9 o papel da conserva\u00e7\u00e3o e da restaura\u00e7\u00e3o da biodiversidade em impedir ou amenizar esses eventos.<\/p>\n<p>Este foi o tema central da fala de Felicia Keesing, professora do Bard College, nos Estados Unidos, durante o primeiro dia de confer\u00eancias da <a href=\"https:\/\/escolafapesp2025exatas.webeventos.tec.br\/\" target=\"_blank\" rel=\"nofollow noopener\"><strong>Escola Interdisciplinar FAPESP: Ci\u00eancias Exatas e Naturais, Engenharia e Medicina<\/strong><\/a>, que come\u00e7ou nesta segunda-feira (10\/11) e vai at\u00e9 sexta (14\/11), em S\u00e3o Paulo.<\/p>\n<p>Uma vez que 75% das doen\u00e7as infecciosas emergentes em humanos s\u00e3o zoon\u00f3ticas, ou seja, causadas por pat\u00f3genos que podem ser compartilhados entre pessoas e outros animais vertebrados, o foco das a\u00e7\u00f5es de sa\u00fade p\u00fablica tem sido nelas. No entanto, segundo a pesquisadora, as estrat\u00e9gias usadas para preveni-las n\u00e3o t\u00eam impedido eventos como a pandemia de COVID-19, por exemplo.<\/p>\n<p>Para Keesing, \u00e9 preciso ir al\u00e9m das abordagens atuais preconizadas pela Organiza\u00e7\u00e3o Mundial da Sa\u00fade (OMS) de construir resili\u00eancia, garantir acesso equitativo a contramedidas e melhorar preven\u00e7\u00e3o, detec\u00e7\u00e3o e resposta aos surtos. Todos esses passos s\u00e3o muito importantes, mas insuficientes.<\/p>\n<p>\u201cPrecisamos ampliar nossa busca para al\u00e9m de alguns poucos lugares como potenciais iniciadores de pandemias, de apenas v\u00edrus como pat\u00f3genos que podem caus\u00e1-las e de alguns poucos animais como os mais prov\u00e1veis reservat\u00f3rios\u201d, resumiu a pesquisadora, que prop\u00f5es medidas que, segunda ela, podem ser promissoras.<\/p>\n<p>A mais simples seria testar as previs\u00f5es que foram feitas no passado e tentar entender do que elas n\u00e3o deram conta e por qu\u00ea. Dessa forma, podem-se melhorar os modelos e ter mais acur\u00e1cia em novas previs\u00f5es.<\/p>\n<p>Outra a\u00e7\u00e3o necess\u00e1ria \u00e9 aumentar o espectro das buscas al\u00e9m dos coronav\u00edrus, que com raz\u00e3o t\u00eam sido foco de aten\u00e7\u00e3o principalmente ap\u00f3s a pandemia de COVID-19. Isso, por\u00e9m, n\u00e3o elimina o fato de que um novo surto pode vir de outros v\u00edrus e mesmo de bact\u00e9rias. A pesquisadora, inclusive, aposta que o pr\u00f3ximo pat\u00f3geno que pode se espalhar pelo mundo e causar grandes problemas ser\u00e1 uma bact\u00e9ria resistente aos tratamentos atuais.<\/p>\n<p>Keesing dedica quatro dos sete itens de sua lista de propostas aos animais reservat\u00f3rios de pat\u00f3genos. Ela lembrou que a maioria dos microrganismos causadores de doen\u00e7as \u2013 que se instalam tanto em vertebrados humanos como n\u00e3o humanos \u2013 n\u00e3o tem apenas um animal favorito, mas v\u00e1rios. Por isso, \u00e9 preciso avaliar melhor a relev\u00e2ncia de certos grupos de animais como reservat\u00f3rios, pois muitas vezes alguns podem ser superestimados (como morcegos) e outros subestimados (como roedores).<\/p>\n<p>Por fim, \u00e9 preciso lembrar que pat\u00f3genos zoon\u00f3ticos n\u00e3o apenas s\u00e3o transmitidos de animais para humanos, mas tamb\u00e9m dos humanos para os animais. Ali\u00e1s, alguns pat\u00f3genos de animais s\u00e3o mais estudados do que outros justamente porque infectaram humanos, segundo a pesquisadora. Para ela, isso gera um vi\u00e9s nos dados depositados, por exemplo, no GenBank \u2013 banco de dados de genomas mais usado globalmente para estudar v\u00edrus e bact\u00e9rias \u2013, restringindo as pesquisas a alguns poucos animais e pat\u00f3genos.<\/p>\n<p>Keesing mostrou ainda que os animais menos amea\u00e7ados de extin\u00e7\u00e3o s\u00e3o os mais prop\u00edcios a transmitir doen\u00e7as para os humanos. Algumas das raz\u00f5es s\u00e3o as pr\u00f3prias caracter\u00edsticas biol\u00f3gicas desses animais, como ocupar uma grande \u00e1rea, ter um ciclo de vida curto, maturidade sexual precoce e muitos filhotes de uma s\u00f3 vez. S\u00e3o caracter\u00edsticas opostas \u00e0s de esp\u00e9cies amea\u00e7adas de extin\u00e7\u00e3o. Basta comparar o criticamente amea\u00e7ado rinoceronte e o disseminado rato dom\u00e9stico.<\/p>\n<p>Outras raz\u00f5es para essa correla\u00e7\u00e3o ainda n\u00e3o s\u00e3o conhecidas, mas em seus estudos no Qu\u00eania\u00a0Keesing observou que \u00e1reas que perderam grandes mam\u00edferos, como girafas e le\u00f5es, tiveram um aumento de roedores e serpentes venenosas, por exemplo.<\/p>\n<p>Por isso, a pesquisadora credita \u00e0 conserva\u00e7\u00e3o e \u00e0 restaura\u00e7\u00e3o da biodiversidade um fator de peso para mitigar ou mesmo impedir o surgimento de novas pandemias de doen\u00e7as zoon\u00f3ticas.<\/p>\n<p>\u201cA isso devem ser somados o desenvolvimento de antivirais de amplo espectro e novos antibacterianos, o desenvolvimento r\u00e1pido de vacinas e da confian\u00e7a da popula\u00e7\u00e3o nelas, al\u00e9m de cria\u00e7\u00e3o e melhoria de pol\u00edticas p\u00fablicas e de uma forte estrutura global de sa\u00fade\u201d, encerrou.<\/p>\n<p><strong>Matem\u00e1tica para o desenvolvimento<\/strong><\/p>\n<p>Marcelo Viana, diretor do Instituto de Matem\u00e1tica Pura e Aplicada (Impa), falou sobre o papel da forma\u00e7\u00e3o em Ci\u00eancia, Tecnologia, Engenharia e Matem\u00e1tica (STEM, na sigla em ingl\u00eas) na renda dos pa\u00edses. Viana listou estudos realizados no exterior sobre o impacto de \u00e1reas relacionadas a matem\u00e1tica no Produto Interno Bruto (PIB) de Reino Unido, Fran\u00e7a, Austr\u00e1lia e Espanha.\u00a0<\/p>\n<p>Um desses estudos constatou que, na Fran\u00e7a, a propor\u00e7\u00e3o de empregos cuja principal atividade era relacionada \u00e0 matem\u00e1tica representava 13% dos trabalhos e 18% do PIB em 2022, comparado a 12% e 16% em 2012. N\u00e3o existia uma pesquisa dessas no Brasil, at\u00e9 que o Ita\u00fa Social resolveu faz\u00ea-la usando a metodologia francesa, com apoio do Impa.<\/p>\n<p>A conclus\u00e3o, <a href=\"https:\/\/www.itausocial.org.br\/noticias\/rendimentos-de-profissoes-ligadas-a-matematica-correspondem-a-4-6-do-pib-diz-pesquisa\/\" target=\"_blank\" rel=\"nofollow noopener\"><strong>publicada<\/strong><\/a> em 2024, foi que o rendimento dos profissionais que atuam em \u00e1reas ligadas \u00e0 matem\u00e1tica no Brasil equivale a 4,6% do PIB, e que tais ocupa\u00e7\u00f5es oferecem sal\u00e1rios 119% maiores que a m\u00e9dia dos demais trabalhadores. \u201cIr dos 4,6% atuais para os 18% que a Fran\u00e7a alcan\u00e7ou adicionaria R$ 1,5 trilh\u00e3o ao PIB do Brasil\u201d, disse Viana.\u00a0<\/p>\n<p>Uma das oportunidades para solucionar essa quest\u00e3o se deu com a inaugura\u00e7\u00e3o do Impa Tech em 2024, no Rio de Janeiro, que oferece a primeira gradua\u00e7\u00e3o do instituto voltada justamente para a forma\u00e7\u00e3o de m\u00e3o de obra qualificada em \u00e1reas dependentes de matem\u00e1tica.\u00a0<\/p>\n<p>\u201cS\u00e3o selecionados a partir de resultados das olimp\u00edadas de matem\u00e1tica, n\u00e3o h\u00e1 vestibular. No primeiro ano, os alunos cumprem um ciclo b\u00e1sico e depois optam por continuar em matem\u00e1tica, ci\u00eancia da computa\u00e7\u00e3o, ci\u00eancia de dados ou f\u00edsica\u201d, explicou.\u00a0<\/p>\n<p><strong>Ci\u00eancia em S\u00e3o Paulo<\/strong><\/p>\n<p>Na abertura do evento, o presidente da FAPESP, <a href=\"https:\/\/fapesp.br\/11697\/\" target=\"_blank\" rel=\"nofollow noopener\"><strong>Marco Antonio Zago<\/strong><\/a>, lembrou a lideran\u00e7a do Estado de S\u00e3o Paulo na produ\u00e7\u00e3o cient\u00edfica nacional, resultado do investimento est\u00e1vel nas universidades estaduais paulistas e na pr\u00f3pria FAPESP.<\/p>\n<p>\u201c\u00c9 preciso destacar que n\u00e3o se trata apenas de investir muito dinheiro, mas de ter estabilidade. \u00c9 o que nos permite financiar projetos de at\u00e9 dez anos, por exemplo\u201d, ressaltou.<\/p>\n<p style=\"text-align:center\"><img decoding=\"async\" alt=\"\" src=\"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-content\/uploads\/2025\/11\/abre-meio.jpg\" style=\"height:553px; width:800px\"\/><br \/>&#13;<br \/>\nMarco Antonio Zago, presidente da FAPESP, celebrou o sucesso das Escolas Interdisciplinares (foto:\u00a0Erika de Faria\/Temporal Filmes)<\/p>\n<p>Sobre a Escola Interdisciplinar, Zago lembrou o sucesso do formato, que chegou \u00e0 5\u00aa edi\u00e7\u00e3o em 2025. \u201cAcredito muito nessa abordagem e creio que seja algo muito importante para a ci\u00eancia do Brasil\u201d, disse.<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/bv.fapesp.br\/pt\/pesquisador\/5619\/\" target=\"_blank\" rel=\"nofollow noopener\"><strong>Oswaldo Baffa Filho<\/strong><\/a>, organizador do evento, ressaltou que a iniciativa diz respeito \u00e0 constru\u00e7\u00e3o de pontes entre diferentes \u00e1reas do conhecimento, entre culturas e entre pessoas.<\/p>\n<p>\u201cTemos participantes representando o Norte, Sul, Leste e Oeste do pa\u00eds, assim como pesquisadores internacionais realizando p\u00f3s-doutorado no Brasil. Formamos uma comunidade diversa e vibrante, unida pela curiosidade e pela busca por conhecimento\u201d, discursou Baffa Filho, que \u00e9 professor da Faculdade de Filosofia, Ci\u00eancias e Letras de Ribeir\u00e3o Preto da Universidade de S\u00e3o Paulo (FFCLRP-USP).<\/p>\n<p>Durante a abertura, estiveram presentes ainda <a href=\"https:\/\/fapesp.br\/17729\/\" target=\"_blank\" rel=\"nofollow noopener\"><strong>Carlos Graeff<\/strong><\/a>, diretor-presidente do Conselho T\u00e9cnico-Administrativo (CTA) da FAPESP, <a href=\"https:\/\/fapesp.br\/16080\/\" target=\"_blank\" rel=\"nofollow noopener\"><strong>Marcio de Castro<\/strong><\/a>, diretor cient\u00edfico da FAPESP, e Norma Reggiani, diretora t\u00e9cnica do Instituto Principia.<\/p>\n<p>A edi\u00e7\u00e3o de 2025 da Escola Interdisciplinar FAPESP: Ci\u00eancias Exatas e Naturais, Engenharia e Medicina conta com 60 pesquisadores em n\u00edvel de p\u00f3s-doutorado, tanto do Estado de S\u00e3o Paulo quanto de outras partes do Brasil.<\/p>\n<p>A programa\u00e7\u00e3o completa pode ser conferida em: <a href=\"https:\/\/escolafapesp2025exatas.webeventos.tec.br\/\" target=\"_blank\" rel=\"nofollow noopener\"><strong>escolafapesp2025exatas.webeventos.tec.br\/<\/strong><\/a>.<br \/>&#13;<br \/>\n\u00a0<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"Andr\u00e9 Juli\u00e3o | Ag\u00eancia FAPESP \u2013 Os estudos que tentaram prever pandemias falharam em grande parte, o que&hellip;\n","protected":false},"author":2,"featured_media":148855,"comment_status":"","ping_status":"","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[86],"tags":[1346,2780,4770,32518,25891,9495,116,2779,32,33,2503,117,1893],"class_list":{"0":"post-148854","1":"post","2":"type-post","3":"status-publish","4":"format-standard","5":"has-post-thumbnail","7":"category-saude","8":"tag-bacterias","9":"tag-biodiversidade","10":"tag-conservacao","11":"tag-doencas-zoonoticas","12":"tag-epidemias","13":"tag-epidemiologia","14":"tag-health","15":"tag-pandemias","16":"tag-portugal","17":"tag-pt","18":"tag-restauracao","19":"tag-saude","20":"tag-virus"},"share_on_mastodon":{"url":"https:\/\/pubeurope.com\/@pt\/115534564135029770","error":""},"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/148854","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=148854"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/148854\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/media\/148855"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=148854"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=148854"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=148854"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}