{"id":154135,"date":"2025-11-16T19:56:15","date_gmt":"2025-11-16T19:56:15","guid":{"rendered":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/154135\/"},"modified":"2025-11-16T19:56:15","modified_gmt":"2025-11-16T19:56:15","slug":"o-reality-show-de-alex-couto-observador","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/154135\/","title":{"rendered":"O reality show de Alex Couto \u2013 Observador"},"content":{"rendered":"<p>Quase cr\u00f3nica, quase tudo ac\u00e7\u00e3o, quase gui\u00e3o: assim \u00e9 Os Periquitos Somos N\u00f3s, o novo romance de Alex Couto, que talvez seja o escritor mais pop da contemporaneidade em Portugal. Depois de <a href=\"https:\/\/observador.pt\/especiais\/alex-couto-entre-o-bairro-a-juventude-e-a-ficcao-nao-e-facil-regressar-a-casa-para-escrever-uma-historia\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener nofollow\">Sinais de Fumo, que saltou \u00e0 vista pela linguagem desempoeirada, de rua, sem armar ao liter\u00e1rio ou erudito<\/a>, o novo romance parte de uma premissa engra\u00e7ada: um reality show que promete oferecer um ateli\u00ea ao pr\u00f3ximo grande artista de Lisboa. Perdoe-se a aus\u00eancia de it\u00e1lico em reality show \u2013 \u00e9 assim que, ao longo do romance, cheio de express\u00f5es em ingl\u00eas, tudo aparece: em redondo, como parte da linguagem natural, como se n\u00e3o tivesse clivagem. Ou seja, por toda a narrativa, a linguagem liter\u00e1ria \u00e9 horizontal, e n\u00e3o se marca a estranheza, o estrangeirismo. Ao assumir tudo em redondo, o autor assume que n\u00e3o h\u00e1 desvio. Com isto, marca na prosa a pr\u00f3pria vida: a incorpora\u00e7\u00e3o contempor\u00e2nea na l\u00edngua inglesa na oralidade dos falantes portugueses.<\/p>\n<p>Nota-se em Alex Couto uma vontade de usar o territ\u00f3rio do romance para cristalizar a vida contempor\u00e2nea. Ali\u00e1s, a sua coetaneidade vai desde a linguagem \u00e0s refer\u00eancias, cujo n\u00edvel de erudi\u00e7\u00e3o varia muito. Por exemplo: \u201cParece que os periquitos de colar j\u00e1 foram reportados num trabalho do \u00c1lvaro Filho, n\u00e3o foi? Aquela pe\u00e7a da Mensagem de Lisboa tinha-nos contado tudo sobre o que precis\u00e1vamos de saber acerca dos verdadeiros invasores, de Lisboa, os periquitos mais ex\u00f3ticos\u2026\u201d (p. 41). Os pr\u00f3prios di\u00e1logos, como aqueles sobre redes sociais, levam \u00e0 narrativa realidades contempor\u00e2neas que aparentemente circulariam fora do eixo do romance, mas que ajudam a comp\u00f4-lo. Leia-se:<\/p>\n<blockquote>\n<p>\u2013 Olha l\u00e1, Tom\u00e1s\u2026 n\u00e3o est\u00e1s a notar in\u00fameros coment\u00e1rios de contas falsas nas p\u00e1ginas do programa?<\/p>\n<p>\u2013 Estou. Nas contas oficiais do programa e nas nossas tamb\u00e9m, nomeadamente na minha e na tua.<\/p>\n<p>\u2013 Pois \u00e9. Acho um fen\u00f3meno estranho.<\/p>\n<p>\u2013 Estranho e horr\u00edvel, conseguem estragar todos os posts. Custa-me a crer que sa\u00ed do Twitter porque o fascismo n\u00e3o parava de fazer dessa rede social o seu habitat natural e ainda tenho de levar com narrativas racistas em pleno Instagram.\u201d (p. 81)<\/p>\n<\/blockquote>\n<p>A fic\u00e7\u00e3o \u00e9 criada, mas h\u00e1 sempre um fio \u2013 uma corda \u2013 que a ata \u00e0 realidade. Atrav\u00e9s de um reality show, Alex Couto tenta mostrar a vida, sem abdicar de uma ironia que a p\u00f5e a nu para os leitores: desde um concorrente \u201csacado \u00e0 \u00faltima hora por parte da produ\u00e7\u00e3o\u201d a outro \u201cdo gangue da faculdade de Belas-Artes\u201d ou a outra \u201cucraniana que n\u00e3o foi escolhida s\u00f3 para nos demonstrarmos muito preocupados com a situa\u00e7\u00e3o na Ucr\u00e2nia ap\u00f3s a invas\u00e3o russa ou, se forem russ\u00f3filos, invas\u00e3o militar especial\u201d (p. 18). H\u00e1 ainda \u201cum nepo baby\u201d e \u201cuma beleza\u201d (\u201ccontrata\u00e7\u00e3o dos operadores de c\u00e2mara, decerto\u201d, p. 19), numa pan\u00f3plia de personagens que parece ter o intuito de apanhar alguns dos arqu\u00e9tipos da contemporaneidade urbana, sem os reduzir ao s\u00edmbolo.<\/p>\n<p>        <img src=\"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-content\/uploads\/2025\/11\/alex-couto-os-periquitos-somos-nos-web-2.jpg\" alt=\"\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone\" onload=\"this.parentElement.classList.remove('spinner')\" onerror=\"this.parentElement.classList.remove('spinner')\" width=\"493\" height=\"746\"\/>    <\/p>\n<p><strong>T\u00edtulo:<\/strong> \u201cOs Periquitos Somos N\u00f3s\u201d<br \/><strong>Autor:<\/strong> Alex Couto<br \/><strong>Editora:<\/strong> Suma de Letras<br \/><strong>P\u00e1ginas:<\/strong> 256<\/p>\n<p>Num cen\u00e1rio em que quase tudo \u00e9 di\u00e1logo, o leitor v\u00ea a interac\u00e7\u00e3o entre as partes, e a ironia com ares de cr\u00edtica nunca deixa de estar latente (\u201ceram migrantes do Sudeste asi\u00e1tico porque algu\u00e9m tem de fazer o trabalho que os tugas n\u00e3o papam (e receber as culpas do pouco progresso nacional, tamb\u00e9m)\u201d, p. 27). As refer\u00eancias aparecem com subtileza, nunca sendo descritas com min\u00facia, antes como pequenos apontamentos que obrigam a prosa a fervilhar \u2013 e s\u00e3o tantas e t\u00e3o exageradas que chega a ser exuberante. Parece que, enquanto escreve, Alex Couto goza com a vida. N\u00e3o \u00e9 que haja grande beleza ou profundidade, mas at\u00e9 isso soa a intencional, uma vez que \u00e9 isso que apanha o dia-a-dia: um conjunto de ac\u00e7\u00f5es mal amarfanhadas e superficiais, passerelles de ego, a ironia como forma de sublinhar as incongru\u00eancias, as expectativas confessadas e por confessar, o passar do tempo em ziguezague. Nisso, as personagens s\u00e3o pessoas, e a ac\u00e7\u00e3o sabe a vida, e n\u00e3o a arquitectura constru\u00edda s\u00f3 para fazer um romance, com os olhos no \u00e9pico.<\/p>\n<p>\u00c9 tamb\u00e9m nisto que o autor n\u00e3o cede a vaidades sem\u00e2nticas, antes pondo no discurso directo a oralidade tal como existe, n\u00e3o como pode ser maquilhada para um texto. Em Sinais de Fumo, isto viu-se de forma clara, com tal uso de cal\u00e3o que dificultava, e ainda bem, o entendimento do leitor \u2013 posto isto, o leitor que se esfor\u00e7asse, ou intu\u00edsse pelo contexto. A linguagem era viva e real, e portanto as personagens tinham carne. Aqui, vemos o mesmo, com as conversas a versar sobre material medi\u00e1tico, e uma oralidade tal que o livro parece mais coisa de ouvido do que de papel, ao mesmo tempo que parece um arquivo da fala urbana, sem ceder ao clich\u00ea do verniz cosmopolita. Em vez de se perder em erudi\u00e7\u00f5es escusadas, o autor, usando um modelo televisivo, ecoa o pr\u00f3prio mundo enquanto reality show, e isto sem se perder um cunho algo entre a s\u00e1tira e o retrato sociol\u00f3gico num contexto em que a arte \u00e9 transformada em entretenimento e em que capital cultural e capital financeiro se misturam.<\/p>\n<p>Tudo pesado, saltam ainda \u00e0 vista os laivos de humor e, sobretudo, uma tend\u00eancia clara de n\u00e3o empolar nas frases s\u00f3 para as fazer mais liter\u00e1rias. A prosa, n\u00e3o sendo particularmente complexa ou bela, \u00e9 simples e veicula os sentidos, al\u00e9m de dar ao leitor a sensa\u00e7\u00e3o de estar a ver uma s\u00e9rie. Com isto, e estando a contemporaneidade t\u00e3o vincada em movimentos r\u00e1pidos entre as personagens, o romance parece feito mais para registar do que para durar \u2013 e \u00e9 bom ler o que n\u00e3o inventa pretens\u00f5es.<\/p>\n<p>A autora escreve segundo o antigo acordo ortogr\u00e1fico<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"Quase cr\u00f3nica, quase tudo ac\u00e7\u00e3o, quase gui\u00e3o: assim \u00e9 Os Periquitos Somos N\u00f3s, o novo romance de Alex&hellip;\n","protected":false},"author":2,"featured_media":154136,"comment_status":"","ping_status":"","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[142],"tags":[10392,315,114,115,864,170,32,33,151],"class_list":{"0":"post-154135","1":"post","2":"type-post","3":"status-publish","4":"format-standard","5":"has-post-thumbnail","7":"category-tv","8":"tag-cru00edtica-de-livros","9":"tag-cultura","10":"tag-entertainment","11":"tag-entretenimento","12":"tag-literatura","13":"tag-livros","14":"tag-portugal","15":"tag-pt","16":"tag-tv"},"share_on_mastodon":{"url":"https:\/\/pubeurope.com\/@pt\/115561142006038896","error":""},"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/154135","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=154135"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/154135\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/media\/154136"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=154135"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=154135"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=154135"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}