{"id":155074,"date":"2025-11-17T13:20:14","date_gmt":"2025-11-17T13:20:14","guid":{"rendered":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/155074\/"},"modified":"2025-11-17T13:20:14","modified_gmt":"2025-11-17T13:20:14","slug":"o-arn-mais-antigo-do-mundo-foi-encontrado-num-mamute-lanudo-com-40-000-anos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/155074\/","title":{"rendered":"O ARN mais antigo do mundo foi encontrado num mamute lanudo com 40.000 anos"},"content":{"rendered":"<p class=\"description\">Assine a revista National Geographic agora por apenas <b>1\u20ac por m\u00eas<\/b>.<\/p>\n<p>Em 2010, ca\u00e7adores de presas que vasculhavam a margem de um rio <strong>junto \u00e0 costa \u00e1rctica da Sib\u00e9ria<\/strong>, descobriram a m\u00famia de um mamute juvenil. O animal, que recebeu a alcunha de <strong>\u201cYuka\u201d<\/strong> em homenagem \u00e0 aldeia vizinha de Yukagir, estava <strong>congelado h\u00e1 quase 40.000 anos<\/strong>. O <strong>permafrost <\/strong>preservara a sua carca\u00e7a com um elevad\u00edssimo n\u00edvel de pormenor, incluindo peda\u00e7os de p\u00ealo avermelhado, a tromba torcida \u2013 e at\u00e9 o seu <a href=\"http:\/\/www.sciencedirect.com\/science\/article\/abs\/pii\/S1040618214007332?via%3Dihub\" rel=\"nofollow noopener\" target=\"_blank\">c\u00e9rebro se encontrava intacto<\/a>.<\/p>\n<p>Agora, os investigadores relataram que os tecidos de Yuka preservaram outro tesouro pr\u00e9-hist\u00f3rico raro: <strong>vest\u00edgios de \u00e1cido ribonucleico <\/strong>(ARN), mol\u00e9culas gen\u00e9ticas fundamentais para a vida que costumam deteriorar-se pouco depois da morte. As descobertas da equipa, <a href=\"https:\/\/www.cell.com\/cell\/fulltext\/s0092-8674(25)01231-0\" rel=\"nofollow noopener\" target=\"_blank\">publicadas recentemente na revista Cell<\/a>, representam <strong>as mais antigas sequ\u00eancias de ARN alguma vez recuperadas <\/strong>e a primeira vez que as mol\u00e9culas foram extra\u00eddas de um mamute-lanudo (Mammuthus primigenius).<\/p>\n<p>H\u00e1 d\u00e9cadas que os cientistas estudam peda\u00e7os de ADN antigo de <strong>mamutes-lanudos<\/strong> bem preservados como Yuka. Estes peda\u00e7os de material gen\u00e9tico contribu\u00edram para construir o genoma da esp\u00e9cie, revelando <strong>qu\u00e3o pr\u00f3ximo \u00e9 o parentesco entre os mamutes e os elefantes actualmente vivos<\/strong>.<\/p>\n<p>No entanto, os <strong>vest\u00edgios de ARN antigo<\/strong> t\u00eam sido esquivos. Estes compostos, que existem tipicamente como uma \u00fanica cadeia de mol\u00e9culas, s\u00e3o essenciais para activar genes espec\u00edficos e criar prote\u00ednas importantes, mas s\u00e3o <strong>menos dur\u00e1veis do que o ADN<\/strong>.<\/p>\n<p>\u201cO ARN antigo d\u00e1-nos uma imagem dos genes que s\u00e3o activados, ou que se encontram activos, em determinado tecido\u201d, diz <a href=\"https:\/\/www.researchgate.net\/profile\/Love-Dalen\" rel=\"nofollow noopener\" target=\"_blank\">Love Dal\u00e9n<\/a>, que estuda gen\u00f3mica evolutiva na Universidade de Estocolmo e \u00e9 co-autor do novo estudo. \u201cIsto \u00e9 algo que nunca conseguir\u00edamos ver no ADN.\u201d<\/p>\n<p>&#13;<img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-content\/uploads\/2025\/11\/anticuerpo-1a9b9228_d7b245d2_251109020408_251110181739_800x800.webp.webp\" alt=\"anticuerpo 1a9b9228\" class=\"image lazyload\"\/><\/p>\n<p><strong>O ARN tamb\u00e9m \u00e9 famoso pela sua rela\u00e7\u00e3o com os v\u00edrus<\/strong>, nomeadamente o influenza e os coronav\u00edrus como o SARS-CoV-2, respons\u00e1vel pela Covid-19. Estes pat\u00f3genos armazenam a sua informa\u00e7\u00e3o gen\u00e9tica em cadeias de ARN. Dal\u00e9n acha que este ARN antigo ser\u00e1 fundamental para detectar vest\u00edgios de <strong>v\u00edrus da Idade do Gelo<\/strong> que se encontrem preservados em exemplares mumificados de megafauna.<\/p>\n<p>Embora a equipa tenha examinado o Yuka em busca de v\u00edrus baseados em ARN e conclu\u00eddo que <strong>o jovem mamute estava relativamente bem de sa\u00fade<\/strong>, talvez existam outros restos de animais pr\u00e9-hist\u00f3ricos ainda por descobrir cujo material gen\u00e9tico contenha assinaturas de pat\u00f3genos antigos. \u201cQuando estudamos um esp\u00e9cimen com uma carga viral relativamente alta nos tecidos, deveremos ser capazes de isolar esses v\u00edrus de ARN\u201d, afirma.<\/p>\n<p><strong>A busca por ARN ancestral<\/strong><\/p>\n<p>Desde h\u00e1 muito que os investigadores achavam que o ARN era demasiado fr\u00e1gil para sobreviver s\u00e9culos, quanto mais milhares de anos. No entanto, esfor\u00e7os recentes contestaram esse pressuposto. Em 2023, Dal\u00e9n e a sua equipa recuperaram ARN da pele e do tecido muscular de um <strong>esp\u00e9cimen de tigre da Tasm\u00e2nia, um animal extinto<\/strong>, que se encontrava na colec\u00e7\u00e3o de um museu h\u00e1 mais de 130 anos. Em 2017, outro grupo de investigadores extraiu ARN muito mais antigo de tecidos do est\u00f4mago de uma <strong><a href=\"http:\/\/academic.oup.com\/mbe\/article\/34\/4\/793\/2741258?login=false\" rel=\"nofollow noopener\" target=\"_blank\">m\u00famia com 5.300 anos<\/a><\/strong>.<\/p>\n<p>Para descobrir ARN ainda mais antigo, Dal\u00e9n e os seus colegas concentraram a sua aten\u00e7\u00e3o em esp\u00e9cimenes descobertos no permafrost do norte da Sib\u00e9ria. \u00c0 medida que o solo congelado da regi\u00e3o vai derretendo, residentes e cientistas t\u00eam trope\u00e7ado em v\u00e1rias descobertas not\u00e1veis, incluindo a <strong>cria mumificada de um gato-com-dentes-de-sabre<\/strong> e v\u00e1rios esp\u00e9cimes de mamute que conservam pele e tecidos musculares.<\/p>\n<p>A equipa examinou amostras de Yuka e nove outros mamutes siberianos. Embora tenha sido poss\u00edvel isolar ARN dos tecidos de tr\u00eas mamutes, <strong>era Yuka quem possu\u00eda as cadeias mais longas e s\u00f3 os seus tecidos continham as mol\u00e9culas de ARN envolvidas na activa\u00e7\u00e3o de genes essenciais para desenvolver o tecido muscular<\/strong>.<\/p>\n<p>Estas mol\u00e9culas de ARN tamb\u00e9m fornecem informa\u00e7\u00f5es sobre os \u00faltimos momentos de vida do jovem mamute. Por exemplo, os cientistas observaram um n\u00famero elevado de sec\u00e7\u00f5es de ARN que s\u00e3o marcadores de stress celular.<\/p>\n<p>&#13;<img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-content\/uploads\/2025\/11\/mamute-lanoso-numa-paisagem-de-neve_1e9b0f8e_250408134023_250410111930_800x800.webp.webp\" alt=\"Mamute-lanoso numa paisagem de neve.\u00a0\" class=\"image lazyload\"\/><\/p>\n<p>\u201cPoder\u00edamos dizer que a vida de Yuka foi bastante stressante imediatamente antes da sua morte e que isso ficou marcado na paisagem molecular dos seus m\u00fasculos\u201d, diz <a href=\"https:\/\/emiliomarmol.academicwebsite.com\" rel=\"nofollow noopener\" target=\"_blank\">Emilio M\u00e1rmol<\/a>, investigador de p\u00f3s-doutoramento da Universidade de Copenhaga e autor principal do novo estudo. <strong>Alguns cientistas especularam que o jovem mamute tivesse sido atacado por le\u00f5es das cavernas <\/strong>(Panthera spelaea) antes de cair num <a href=\"http:\/\/www.nature.com\/articles\/s41598-020-57604-8\" rel=\"nofollow noopener\" target=\"_blank\">lago ou lagoa de \u00e1guas pouco profundas<\/a>, embora seja dif\u00edcil determinar as circunst\u00e2ncias exactas, disse M\u00e1rmol.<\/p>\n<p><strong>Uma invers\u00e3o de g\u00e9nero da Idade do Gelo<\/strong><\/p>\n<p>Enquanto examinava o material gen\u00e9tico do jovem mamute em busca de vest\u00edgios de ARN, a equipa fez outra descoberta surpreendente: <strong>geneticamente, Yuka era um macho<\/strong>. Esta conclus\u00e3o veio contestar v\u00e1rias an\u00e1lises iniciais do esp\u00e9cimen, segundo as quais, com base nas suas caracter\u00edsticas anat\u00f3micas, Yuka era uma f\u00eamea jovem.<\/p>\n<p>No in\u00edcio, os investigadores acharam que tinham misturado as amostras de mamute. Para verificarem as suas conclus\u00f5es, os investigadores tamb\u00e9m examinaram sec\u00e7\u00f5es de ADN antigo de Yuka recolhidas por duas outras equipas de investiga\u00e7\u00e3o e confirmaram que o mamute tinha <strong>um cromossoma X e um Y<\/strong>.<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/scholar.google.com\/citations?user=zmQIvRMAAAAJ&amp;hl=en\" rel=\"nofollow noopener\" target=\"_blank\">Daniel Fisher<\/a>, um paleont\u00f3logo da Universidade do Michigan que estuda mamutes, mas n\u00e3o participou no novo artigo, n\u00e3o est\u00e1 surpreendido com esta reviravolta. \u201cN\u00e3o \u00e9 um sistema f\u00e1cil de interpretar, sobretudo tendo em conta os vastos danos p\u00f3s-morte sofridos pelo corpo de Yuka\u201d, afirma. Ele acha que confirmar que Yuka era geneticamente macho ir\u00e1 obrigar os investigadores a <strong>reinterpretar v\u00e1rios aspectos da hist\u00f3ria de vida do famoso mamute<\/strong>, nomeadamente a forma como amadureceu e cresceu.<\/p>\n<p><strong>Implica\u00e7\u00f5es para a recupera\u00e7\u00e3o dos mamutes<\/strong><\/p>\n<p>Embora a ideia de resgatar um mamute-lanudo de extin\u00e7\u00e3o tenha sido not\u00edcia nos \u00faltimos anos, as amostras espec\u00edficas de ARN real\u00e7adas no novo artigo t\u00eam pouco valor directo para quaisquer esfor\u00e7os de <a href=\"https:\/\/www.nationalgeographic.pt\/ciencia\/desextincao-do-lobo-terrivel-um-feito-longe-da-ficcao-simplificacao-miguel-araujo-opiniao-homenagem-genetica_5960\" rel=\"nofollow noopener\" target=\"_blank\"><strong>desextin\u00e7\u00e3o<\/strong><\/a>, diz Dal\u00e9n. Tal deve-se ao facto de o ARN controlar os fundamentos gen\u00e9ticos do desenvolvimento muscular, que s\u00e3o essencialmente os mesmos para os mamutes e os elefantes contempor\u00e2neos.<\/p>\n<p>No entanto, encontrar ARN antigo \u00e9<strong> um marco cient\u00edfico fundamental<\/strong>, que poder\u00e1 contribuir para esfor\u00e7os de desextin\u00e7\u00e3o, diz <a href=\"https:\/\/scholar.google.com\/citations?user=8Mv9l1oAAAAJ&amp;hl=en\" rel=\"nofollow noopener\" target=\"_blank\">Beth Shapiro<\/a>, bi\u00f3loga evolutiva que n\u00e3o participou no novo estudo e que trabalha como directora cient\u00edfica da Colossal Biosciences, uma empresa que est\u00e1 a tentar ressuscitar geneticamente os mamutes-lanudos e v\u00e1rias outras esp\u00e9cies extintas (Dal\u00e9n tamb\u00e9m pertence ao Conselho Cient\u00edfico da Colossal).<\/p>\n<p>\u201cNo futuro, poderemos utilizar esta abordagem para explorar a forma como a express\u00e3o dos genes difere entre as esp\u00e9cies extintas e as esp\u00e9cies vivas\u201d, diz Shapiro.<\/p>\n<p>Por exemplo, podemos identificar os genes respons\u00e1veis pela pelagem felpuda do mamute. Dal\u00e9n diz que encontrar ARN antigo nos fol\u00edculos do p\u00ealo do mamute poder\u00e1 dar-nos informa\u00e7\u00f5es sobre as vias gen\u00e9ticas que activam os genes e ajudar os cientistas a reproduzirem a pelagem densa do animal num an\u00e1logo contempor\u00e2neo.<\/p>\n<p>Ele considera essa possibilidade intrigante:<strong> \u201cquem n\u00e3o gostaria de saber quais os genes que tornavam um mamute-lanudo?\u201d<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"Assine a revista National Geographic agora por apenas 1\u20ac por m\u00eas. 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