{"id":159983,"date":"2025-11-21T12:53:09","date_gmt":"2025-11-21T12:53:09","guid":{"rendered":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/159983\/"},"modified":"2025-11-21T12:53:09","modified_gmt":"2025-11-21T12:53:09","slug":"mary-tinha-esquizofrenia-e-de-repente-nao-tinha-mais","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/159983\/","title":{"rendered":"Mary tinha esquizofrenia \u2013 e de repente n\u00e3o tinha mais"},"content":{"rendered":"<p>H\u00e1 d\u00e9cadas os cientistas buscam \u2013 em v\u00e3o \u2013 um marcador biol\u00f3gico que confirme se algu\u00e9m sofre de esquizofrenia. No ano passado, em um artigo publicado na Schizophrenia Research, dezessete especialistas conclu\u00edram que a esquizofrenia n\u00e3o \u00e9 definida por uma \u00fanica etiologia, nem um \u00fanico sintoma, tampouco um \u00fanico mecanismo biol\u00f3gico.<\/p>\n<p>Talvez a ruptura mais marcante com a no\u00e7\u00e3o de que a esquizofrenia \u00e9 um conceito monol\u00edtico tenha come\u00e7ado em 2007. Nessa ocasi\u00e3o, Josep Dalmau, neurologista da Universidade Aut\u00f4noma de Barcelona, come\u00e7ou a publicar com colegas artigos descrevendo pacientes jovens com del\u00edrios e mudan\u00e7as s\u00fabitas de comportamento, como agita\u00e7\u00e3o e risadinhas impr\u00f3prias. Dentro de poucos dias ou semanas, esses pacientes pioravam, apresentando convuls\u00f5es, perda de consci\u00eancia ou dificuldade para respirar.<\/p>\n<p>Dalmau descobriu que eles tinham uma forma de encefalite, uma inflama\u00e7\u00e3o cerebral. O sistema imunol\u00f3gico dos pacientes havia identificado erroneamente o receptor NMDA \u2013 uma prote\u00edna no c\u00e9rebro que afeta o humor e a mem\u00f3ria \u2013 como um corpo estranho, e ent\u00e3o produzia anticorpos para atac\u00e1-lo. Quando esses jovens foram tratados com imunoterapia, a maioria se recuperou plenamente, alguns deles em menos de um m\u00eas.<\/p>\n<p>Thomas Pollak, neuropsiquiatra do King\u2019s College London e do Hospital Maudsley, disse que tratar pacientes com essa doen\u00e7a foi a um s\u00f3 tempo \u201crevelador\u201d e \u201cperturbador\u201d. Ele explicou a raz\u00e3o: \u201cAlguns deles se pareciam exatamente com os pacientes que eu via na ala psiqui\u00e1trica. Era muito estranho ver que um caminho totalmente diferente podia levar ao mesmo quadro.\u201d A doen\u00e7a desses jovens pacientes, que recebeu o nome de encefalite antirreceptor NMDA, em geral ataca pessoas na faixa dos 20 e poucos anos, tal como a esquizofrenia.<\/p>\n<p>Na sua autobiografia intitulada Insana: meu m\u00eas de loucura, publicada em 2012, a jornalista Susannah Cahalan, a 217\u00ba paciente no mundo a ser diagnosticada com encefalite antirreceptor NMDA, conta que passou um m\u00eas oscilando entre a agressividade paranoide e a euforia, mas era tratada por alguns m\u00e9dicos como se fosse apenas uma paciente psiqui\u00e1trica dif\u00edcil. Ela escreve: \u201cSe um dos melhores hospitais do mundo demorou tanto para chegar a esse diagn\u00f3stico, quantas pessoas est\u00e3o sem tratamento, diagnosticadas com uma doen\u00e7a mental, ou condenadas a passar o resto da vida numa casa de repouso ou ala psiqui\u00e1trica?\u201d<\/p>\n<p>Desde a descoberta de Dalmau, os cientistas j\u00e1 identificaram mais de vinte novos anticorpos associados a sintomas psiqui\u00e1tricos. Em 2020, um artigo feito por 28 autores e publicado na revista The Lancet Psychiatry prop\u00f4s uma nova categoria de doen\u00e7a, chamada \u201cpsicose autoimune\u201d \u2013 uma forma mais branda ou incompleta de encefalite, que se manifesta apenas por sintomas psiqui\u00e1tricos.<\/p>\n<p>Christopher Bartley, que investiga o papel da disfun\u00e7\u00e3o imunol\u00f3gica nas doen\u00e7as mentais, no Instituto Nacional de Sa\u00fade Mental dos Estados Unidos, acredita que os vinte anticorpos conhecidos at\u00e9 agora podem ser apenas \u201cuma gota d\u2019\u00e1gua no oceano\u201d. Segundo ele, h\u00e1 in\u00fameros alvos no c\u00e9rebro que podem ser atacados por anticorpos e alguns deles conseguem alterar a percep\u00e7\u00e3o e o comportamento da pessoa.<\/p>\n<p>Foi o que provavelmente aconteceu com Mary, cuja hist\u00f3ria <b>Rachel Aviv<\/b> conta na edi\u00e7\u00e3o deste m\u00eas da <b>piau\u00ed<\/b>. Os sintomas de esquizofrenia de Mary come\u00e7aram a desaparecer depois que ela iniciou o tratamento de um linfoma, um tipo de c\u00e2ncer que pode ser fatal, e fez sess\u00f5es de quimioterapia com rituximab, medicamento que atua sobre os anticorpos envolvidos na resposta imunol\u00f3gica do organismo.<\/p>\n<p>Christine, filha de Mary, disse a um dos m\u00e9dicos: \u201cEla tem um hist\u00f3rico psiqui\u00e1trico de vinte anos. Voc\u00eas j\u00e1 ouviram falar de algo assim? Ser\u00e1 que algum dos medicamentos poderia ter causado isso?\u201d Omid Heravi, um dos oncologistas de Mary, tamb\u00e9m n\u00e3o compreendeu o que estava acontecendo. \u201cA medicina \u00e9 muito especializada; n\u00f3s n\u00e3o entramos em outras \u00e1reas\u201d, explicou ele. Sua \u00fanica hip\u00f3tese era que algum dos medicamentos contra o c\u00e2ncer tivesse exercido benef\u00edcios colaterais. \u201cNa medicina, nem todos os efeitos colaterais s\u00e3o negativos\u201d, disse.\u00a0<\/p>\n<p>Assinantes da revista podem ler a \u00edntegra do texto neste <a href=\"https:\/\/piaui.folha.uol.com.br\/materia\/ela-tinha-esquizofrenia\/\" rel=\"nofollow noopener\" target=\"_blank\">link<\/a>.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"H\u00e1 d\u00e9cadas os cientistas buscam \u2013 em v\u00e3o \u2013 um marcador biol\u00f3gico que confirme se algu\u00e9m sofre de&hellip;\n","protected":false},"author":2,"featured_media":159984,"comment_status":"","ping_status":"","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[86],"tags":[116,32,33,117],"class_list":{"0":"post-159983","1":"post","2":"type-post","3":"status-publish","4":"format-standard","5":"has-post-thumbnail","7":"category-saude","8":"tag-health","9":"tag-portugal","10":"tag-pt","11":"tag-saude"},"share_on_mastodon":{"url":"https:\/\/pubeurope.com\/@pt\/115587789918925819","error":""},"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/159983","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=159983"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/159983\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/media\/159984"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=159983"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=159983"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=159983"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}