{"id":162288,"date":"2025-11-23T16:24:23","date_gmt":"2025-11-23T16:24:23","guid":{"rendered":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/162288\/"},"modified":"2025-11-23T16:24:23","modified_gmt":"2025-11-23T16:24:23","slug":"a-netflix-tem-um-dos-melhores-filmes-do-ultimo-ano-e-quase-ninguem-percebeu","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/162288\/","title":{"rendered":"A Netflix tem um dos melhores filmes do \u00faltimo ano e quase ningu\u00e9m percebeu"},"content":{"rendered":"<p>Uma correspondente de guerra aposentada recebe o diagn\u00f3stico de uma doen\u00e7a terminal e decide administrar o tempo que ainda tem com a mesma disciplina que aplicava em zonas de conflito. Em \u201cO Quarto ao Lado\u201d, essa decis\u00e3o leva Martha, interpretada por Tilda Swinton, a procurar Ingrid, vivida por Julianne Moore, antiga amiga dos tempos de reda\u00e7\u00e3o. As duas estavam afastadas havia anos, mas esse pedido espec\u00edfico reorganiza a conviv\u00eancia: Martha quer que Ingrid a acompanhe na etapa final da doen\u00e7a, desde exames e medica\u00e7\u00f5es at\u00e9 a prepara\u00e7\u00e3o de uma morte assistida. O reencontro reabre lembran\u00e7as e ressentimentos, mas tamb\u00e9m uma intimidade que nenhuma das duas imaginava retomar.<\/p>\n<p>Dirigido por Pedro Almod\u00f3var, \u201cO Quarto ao Lado\u201d adapta o romance \u201cWhat Are You Going Through\u201d, da norte-americana Sigrid Nunez, condensando cap\u00edtulos inteiros em di\u00e1logos extensos e ambientes fechados. O filme trabalha com poucos cen\u00e1rios, quase todos ligados a rotinas de cuidado: quarto de hospital, carros, caf\u00e9s, a casa alugada por Martha para o desfecho do plano. Essa conten\u00e7\u00e3o f\u00edsica serve ao pr\u00f3prio tema, pois a hist\u00f3ria se desenvolve nos limites impostos pelo corpo adoecido, pelo tempo encurtado e pelo pacto feito entre as duas amigas.<\/p>\n<p>O enredo avan\u00e7a com a negocia\u00e7\u00e3o constante desse pacto. Ingrid hesita em aceitar o pedido, mas admite que a liga\u00e7\u00e3o com Martha resiste ao desgaste dos anos. A escritora vive da observa\u00e7\u00e3o, acostumada a transformar experi\u00eancias alheias em mat\u00e9ria liter\u00e1ria, o que gera tens\u00e3o em conversas sobre passado e privacidade. J\u00e1 Martha recusa sentimentalismos: \u00e9 direta ao descrever o avan\u00e7o da doen\u00e7a, organiza documentos, consulta m\u00e9dicos, avalia medicamentos e tenta preservar um m\u00ednimo de controle diante do que n\u00e3o pode evitar. A din\u00e2mica das duas resulta em atrito e cumplicidade. Uma tenta aliviar o peso com humor; a outra preserva o foco no plano que tra\u00e7ou, mesmo quando o corpo j\u00e1 n\u00e3o sustenta a pr\u00f3pria determina\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>A dire\u00e7\u00e3o aposta na proximidade para registrar esse processo. A c\u00e2mera de Edu Grau mant\u00e9m rostos e m\u00e3os em primeiro plano, refor\u00e7ando a import\u00e2ncia de gestos pequenos, como o esfor\u00e7o para levantar um copo ou a pausa prolongada antes de uma resposta dif\u00edcil. A fotografia evita contrastes fortes e prefere interiores de linhas retas, com cores discretas distribu\u00eddas entre roupas, paredes e m\u00f3veis. Essa escolha reduz a presen\u00e7a de elementos chamativos e concentra a aten\u00e7\u00e3o na respira\u00e7\u00e3o curta de Martha, na inquieta\u00e7\u00e3o de Ingrid e nas mudan\u00e7as de humor que surgem ao longo dos dias.<\/p>\n<p>A atua\u00e7\u00e3o de Tilda Swinton se apoia na colis\u00e3o entre fragilidade f\u00edsica e firmeza de decis\u00e3o. Martha n\u00e3o pede compaix\u00e3o, ainda que dependa dela para atravessar os rituais de consulta, transporte e repouso. O corpo debilitado se torna parte do conflito, pois cada deslocamento exige planejamento. Julianne Moore d\u00e1 a Ingrid um movimento pendular: a personagem tenta equilibrar racionalidade e afeto, mas trope\u00e7a em sua pr\u00f3pria ansiedade. Quando precisa ajudar Martha em tarefas simples, hesita. Quando tenta aliviar o ambiente com pequenas ironias, nem sempre acerta. Essas falhas tornam a conviv\u00eancia mais cr\u00edvel e sustentam a tens\u00e3o do pacto, que se renova a cada conversa.<\/p>\n<p>A adapta\u00e7\u00e3o preserva o interesse do romance pelas conversas como mecanismo dram\u00e1tico. Almod\u00f3var concentra emo\u00e7\u00f5es, mem\u00f3rias e d\u00favidas em di\u00e1logos longos, interrompidos por flashbacks que explicam o afastamento entre as duas. Essas breves retomadas do passado exibem viagens de trabalho, rela\u00e7\u00f5es afetivas desgastadas e incidentes que provocaram rupturas. A montagem de Teresa Font mant\u00e9m o tempo como linha de press\u00e3o: planos fixos, poucas elipses e cortes pontuais nos momentos de maior desgaste f\u00edsico. Essa progress\u00e3o cria a sensa\u00e7\u00e3o de que cada decis\u00e3o pesa mais do que a anterior.<\/p>\n<p>A trilha de Alberto Iglesias ocupa espa\u00e7o moderado. Entra em deslocamentos, some em conversas delicadas e retorna em passagens de repouso. O desenho de som privilegia ru\u00eddos simples: motores, portas abertas, utens\u00edlios m\u00e9dicos sendo manuseados. Esses elementos refor\u00e7am o ritmo lento da rotina de Martha e mostram como Ingrid observa cada detalhe, \u00e0s vezes com inquieta\u00e7\u00e3o, \u00e0s vezes com cuidado.<\/p>\n<p>Personagens masculinos aparecem em poucas cenas, entre eles Damian, escritor que cruza o caminho de Ingrid. Essas presen\u00e7as ampliam a percep\u00e7\u00e3o de que o tema da morte assistida envolve mais gente do que as duas amigas, incluindo profissionais da sa\u00fade e figuras ligadas \u00e0 burocracia do procedimento. Ainda assim, o filme volta sempre ao n\u00facleo central, onde Martha administra rem\u00e9dios, revisa pap\u00e9is e pede a Ingrid que leia trechos de textos antigos, gesto que reacende mem\u00f3rias comuns sem afastar o ponto principal da trama.<\/p>\n<p>Dentro da filmografia de Almod\u00f3var, marcada por cores fortes e conflitos familiares, \u201cO Quarto ao Lado\u201d se distingue pela maneira direta com que encara a finitude. H\u00e1 humor em pequenas trocas de ironia, mas o peso da decis\u00e3o de Martha orienta o andamento das cenas. A casa escolhida para os \u00faltimos dias acumula caixas, malas e objetos necess\u00e1rios ao procedimento, criando um ambiente organizado e ao mesmo tempo provis\u00f3rio. Ingrid circula por esse espa\u00e7o tentando conciliar o cuidado que presta \u00e0 amiga com a pr\u00f3pria dificuldade em aceitar o que est\u00e1 por vir.<\/p>\n<p>A progress\u00e3o do enredo conduz a uma imagem concreta: duas mulheres cercadas por rem\u00e9dios, pap\u00e9is e bolsas abertas, tentando decidir o que ainda pode ser controlado em meio ao avan\u00e7o da doen\u00e7a. Essa vis\u00e3o final, mais pr\u00e1tica que simb\u00f3lica, condensa o que o filme acompanha desde o in\u00edcio e descreve a extens\u00e3o do esfor\u00e7o das duas para manter alguma ordem enquanto o tempo diminui.<\/p>\n<p>\n<strong>Filme: <\/strong><br \/>\nO Quarto ao Lado<\/p>\n<p>\n<strong>Diretor: <\/strong><\/p>\n<p>Pedro Almod\u00f3var                <\/p>\n<p>\n<strong>Ano: <\/strong><br \/>\n2024<\/p>\n<p>\n<strong>G\u00eanero: <\/strong><br \/>\nDrama<\/p>\n<p>\n<strong>Avalia\u00e7\u00e3o: <\/strong><\/p>\n<p>9\/10<br \/>\n1<br \/>\n1<\/p>\n<p>Amanda Silva<\/p>\n<p>\n\u2605\u2605\u2605\u2605\u2605\u2605\u2605\u2605\u2605\u2605<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"Uma correspondente de guerra aposentada recebe o diagn\u00f3stico de uma doen\u00e7a terminal e decide administrar o tempo que&hellip;\n","protected":false},"author":2,"featured_media":162289,"comment_status":"","ping_status":"","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[140],"tags":[114,115,147,148,146,716,32,33],"class_list":{"0":"post-162288","1":"post","2":"type-post","3":"status-publish","4":"format-standard","5":"has-post-thumbnail","7":"category-filmes","8":"tag-entertainment","9":"tag-entretenimento","10":"tag-film","11":"tag-filmes","12":"tag-movies","13":"tag-netflix","14":"tag-portugal","15":"tag-pt"},"share_on_mastodon":{"url":"https:\/\/pubeurope.com\/@pt\/115599944281179577","error":""},"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/162288","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=162288"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/162288\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/media\/162289"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=162288"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=162288"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=162288"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}