{"id":163356,"date":"2025-11-24T13:04:12","date_gmt":"2025-11-24T13:04:12","guid":{"rendered":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/163356\/"},"modified":"2025-11-24T13:04:12","modified_gmt":"2025-11-24T13:04:12","slug":"sara-meireles-a-evolucao-preocupante-da-mortalidade-do-cancro-do-pancreas-resulta-da-sua-biologia-agressiva","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/163356\/","title":{"rendered":"Sara Meireles: \u201cA evolu\u00e7\u00e3o preocupante da mortalidade do cancro do p\u00e2ncreas resulta da sua biologia agressiva\u201d"},"content":{"rendered":"<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-full wp-image-311260\" src=\"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-content\/uploads\/2025\/11\/transp.png\" alt=\"\" width=\"1\" height=\"1\"\/><\/p>\n<p><strong>O cancro do p\u00e2ncreas caminha para se tornar a 2.\u00aa principal causa de morte por cancro. Em entrevista exclusiva ao Healthnews, a Dra. Sara Meireles, especialista em Oncologia M\u00e9dica da ULS S\u00e3o Jo\u00e3o, analisa os fatores por tr\u00e1s desta tend\u00eancia preocupante, os obst\u00e1culos ao diagn\u00f3stico precoce e as medidas urgentes que o sistema de sa\u00fade e a popula\u00e7\u00e3o devem adotar para enfrentar este desafio<\/strong><\/p>\n<p><strong>HN \u2013 As proje\u00e7\u00f5es indicam que o cancro do p\u00e2ncreas poder\u00e1 tornar-se a 2.\u00aa principal causa de morte por cancro em Portugal e no mundo at\u00e9 2035. A que se deve esta evolu\u00e7\u00e3o t\u00e3o preocupante e o que significa, na pr\u00e1tica, para o sistema de sa\u00fade portugu\u00eas?<\/strong><\/p>\n<p><strong>SM \u2013<\/strong>\u00a0A evolu\u00e7\u00e3o preocupante da mortalidade do cancro do p\u00e2ncreas resulta, em grande parte, de caracter\u00edsticas muito particulares deste tumor, nomeadamente da sua biologia agressiva e microambiente tumoral, que favorecem a invas\u00e3o e a metastiza\u00e7\u00e3o muito mais rapidamente do que noutros cancros. Paralelamente, a localiza\u00e7\u00e3o do p\u00e2ncreas na cavidade abdominal dificulta o acesso e a sua visualiza\u00e7\u00e3o, o que, aliado \u00e0 aus\u00eancia de sintomas espec\u00edficos nas fases iniciais, leva a que 80-90% dos casos sejam detetados em fases avan\u00e7adas. Apesar dos avan\u00e7os na investiga\u00e7\u00e3o, especialmente no estudo de tratamentos mais personalizados com base em alvos terap\u00eauticos, ainda n\u00e3o dispomos de tratamentos t\u00e3o eficazes quanto noutros tumores. Tamb\u00e9m os fatores de risco modific\u00e1veis, como o aumento da obesidade, dietas desequilibradas, sedentarismo, tabagismo, pancreatite cr\u00f3nica associada ao \u00e1lcool, contribu\u00edram significativamente para o aumento da sua incid\u00eancia e, infelizmente, este cancro carece de um rastreio eficaz para a popula\u00e7\u00e3o geral. Na pr\u00e1tica, para o sistema de sa\u00fade portugu\u00eas, esta tend\u00eancia implica maior press\u00e3o sobre os cuidados hospitalares, tanto para o diagn\u00f3stico como para o tratamento, aumentado as listas de espera para cirurgia e tratamentos sist\u00e9micos. A mortalidade elevada implica tamb\u00e9m grande carga social e econ\u00f3mica. Acresce ainda a necessidade de reorganiza\u00e7\u00e3o de cuidados com equipas multidisciplinares altamente diferenciadas e uma articula\u00e7\u00e3o mais forte com os cuidados de sa\u00fade prim\u00e1rios, quer no controlo dos fatores de risco, quer na identifica\u00e7\u00e3o precoce de sinais para uma referencia\u00e7\u00e3o mais r\u00e1pida. Ter\u00e1 ainda de haver um maior investimento na preven\u00e7\u00e3o e investiga\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p><strong>HN \u2013 Em 2022, os dados da OMS revelaram 2.086 mortes por cancro do p\u00e2ncreas em Portugal, tornando-o a 5.\u00aa causa de morte oncol\u00f3gica. Como interpreta estes n\u00fameros no contexto europeu, onde a doen\u00e7a j\u00e1 \u00e9 a 4.\u00aa causa de morte, e que fatores podem explicar a disparidade?<\/strong><\/p>\n<p><strong>SM \u2013<\/strong>\u00a0Infelizmente Portugal est\u00e1 alinhado com a tend\u00eancia global, n\u00e3o existindo uma disparidade muito significativa face \u00e0 Europa, porque os desafios s\u00e3o semelhantes: diagn\u00f3stico tardio, complexidade biol\u00f3gica e respostas limitadas aos tratamentos atuais. Contudo, fatores de risco como a obesidade, a diabetes, o tabagismo e o \u00e1lcool poder\u00e3o variar entre as popula\u00e7\u00f5es, assim como o seu envelhecimento. As desigualdades no acesso a cuidados oncol\u00f3gicos em centros especializados e a pr\u00f3pria capacidade de diagn\u00f3stico avan\u00e7ada podem influenciar tamb\u00e9m as discrep\u00e2ncias. Por outro lado, tamb\u00e9m a qualidade dos sistemas de registo e de codifica\u00e7\u00e3o de mortalidade podem variar entre pa\u00edses.<\/p>\n<p><strong>HN \u2013 Tem-se verificado um aumento significativo de casos em doentes mais jovens, entre os 40 e os 50 anos. A que atribui este fen\u00f3meno e que desafios cl\u00ednicos espec\u00edficos apresenta o diagn\u00f3stico da doen\u00e7a em idades mais precoces?<\/strong><\/p>\n<p><strong>SM \u2013<\/strong>\u00a0O aumento de casos em faixas et\u00e1rias mais jovens parece estar associado, sobretudo, ao maior impacto dos fatores de risco e a estilos de vida menos saud\u00e1veis, como a obesidade, a diabetes, o tabagismo e o consumo excessivo de \u00e1lcool. Estes fatores t\u00eam vindo a surgir mais precocemente na popula\u00e7\u00e3o, o que pode antecipar tamb\u00e9m o aparecimento da doen\u00e7a. Por outro lado, entre 5\u201310% dos cancros pancre\u00e1ticos t\u00eam origem heredit\u00e1ria e surgem em idades mais jovens, estando atualmente o teste gen\u00e9tico mais acess\u00edvel. Alguns dos desafios nesta faixa et\u00e1ria s\u00e3o a baixa suspei\u00e7\u00e3o cl\u00ednica e o atraso no diagn\u00f3stico, assim como a potencial agressividade tumoral associada a estas idades. Isto vai acarretar consider\u00e1veis consequ\u00eancias sociais e familiares.<\/p>\n<p><strong>HN \u2013 Cerca de 80% dos doentes s\u00e3o diagnosticados em fases j\u00e1 avan\u00e7adas da doen\u00e7a, o que \u00e9 um dos principais fatores para o seu mau progn\u00f3stico. Quais s\u00e3o os maiores obst\u00e1culos para um diagn\u00f3stico precoce e que sinais de alerta a popula\u00e7\u00e3o n\u00e3o deve ignorar?<\/strong><\/p>\n<p><strong>SM \u2013<\/strong>\u00a0Um dos principais obst\u00e1culos est\u00e1 relacionado com a pr\u00f3pria localiza\u00e7\u00e3o do \u00f3rg\u00e3o: o p\u00e2ncreas est\u00e1 localizado na cavidade abdominal o que torna a sua visualiza\u00e7\u00e3o mais dif\u00edcil. Al\u00e9m disso, os seus sintomas podem ser muito inespec\u00edficos, nomeadamente a perda de apetite, perda de peso e dor abdominal, sendo, por isso, facilmente atribu\u00eddos a outras causas. Sinais mais espec\u00edficos, como icter\u00edcia (pele e olhos amarelados), surgem quando o tumor se localiza na cabe\u00e7a do p\u00e2ncreas, sendo que noutras localiza\u00e7\u00f5es os sintomas surgem em fase mais avan\u00e7ada. Tamb\u00e9m a aus\u00eancia de um rastreio populacional eficaz, porque n\u00e3o dispomos ainda de exames que permitam detetar a doen\u00e7a numa fase precoce, assim como a falta de biomarcadores sens\u00edveis, t\u00eam sido uma grande limita\u00e7\u00e3o. Isto refor\u00e7a a necessidade de procurar avalia\u00e7\u00e3o m\u00e9dica imediata perante sintomas persistentes e inexplicados.<\/p>\n<p><strong>HN \u2013 A preven\u00e7\u00e3o assume um papel crucial. Que medidas concretas de estilo de vida, como a redu\u00e7\u00e3o do tabagismo, obesidade e controlo da diabetes tipo 2, podem efetivamente diminuir o risco de desenvolver cancro do p\u00e2ncreas?<\/strong><\/p>\n<p><strong>SM \u2013<\/strong>\u00a0Embora n\u00e3o exista preven\u00e7\u00e3o absoluta, h\u00e1 medidas que podem reduzir significativamente o risco: \u2013 Cessar o tabagismo, um dos principais fatores de risco. \u2013 Controlar o peso, evitando obesidade e adotando uma alimenta\u00e7\u00e3o equilibrada, com menos gorduras saturadas e menos carnes processadas. \u2013 Promover atividade f\u00edsica regular. \u2013 Manter a diabetes tipo 2 bem controlada, sempre que presente. \u2013 Evitar o consumo de \u00e1lcool. Estas medidas contribuem para reduzir o risco global, n\u00e3o s\u00f3 para o cancro do p\u00e2ncreas, mas tamb\u00e9m para muitas outras doen\u00e7as oncol\u00f3gicas e cardiovasculares.<\/p>\n<p><strong>HN \u2013 Tendo em conta a agressividade deste cancro, qual \u00e9 o panorama atual em Portugal no que diz respeito ao acesso a terapias inovadoras e a ensaios cl\u00ednicos para estes doentes?<\/strong><\/p>\n<p><strong>SM \u2013<\/strong>\u00a0Apesar de o cancro do p\u00e2ncreas n\u00e3o ter evolu\u00eddo ao mesmo ritmo terap\u00eautico que outros tumores, considero que h\u00e1 progressos importantes em termos de investiga\u00e7\u00e3o e ensaios cl\u00ednicos. Em Portugal, v\u00e1rios centros j\u00e1 disp\u00f5em de ensaios cl\u00ednicos, oferecendo acesso a terap\u00eauticas inovadoras que podem representar oportunidades adicionais para estes doentes. Portugal tamb\u00e9m j\u00e1 disp\u00f5e de centros especializados de investiga\u00e7\u00e3o em cancro do p\u00e2ncreas, e a realiza\u00e7\u00e3o de estudos moleculares e gen\u00e9ticos na maioria dos doentes, t\u00eam permitido tanto a identifica\u00e7\u00e3o c\u00e9lere de s\u00edndromes heredit\u00e1rios como a procura de potencias alvos terap\u00eauticos. Contudo, ainda h\u00e1 um longo caminho a percorrer: aumentar a testagem molecular, refor\u00e7ar os centros especializados no tratamento deste cancro e aumentar o n\u00famero de ensaios cl\u00ednicos espec\u00edficos s\u00e3o estrat\u00e9gias essenciais. O n\u00famero de ensaios para cancro do p\u00e2ncreas ainda \u00e9 limitado comparado com outros tipos de cancro mais prevalentes.<\/p>\n<p><strong>HN \u2013 Existe em Portugal uma lacuna no que toca a uma associa\u00e7\u00e3o espec\u00edfica dedicada aos doentes com cancro do p\u00e2ncreas. De que forma \u00e9 que esta falta de uma \u201cvoz coletiva\u201d pode impactar o apoio aos doentes, a defini\u00e7\u00e3o de pol\u00edticas de sa\u00fade e a atra\u00e7\u00e3o de investimento para a investiga\u00e7\u00e3o desta doen\u00e7a em particular?<\/strong><\/p>\n<p><strong>SM \u2013<\/strong>\u00a0A falta de uma associa\u00e7\u00e3o dedicada cria uma lacuna significativa. Estas organiza\u00e7\u00f5es s\u00e3o fundamentais para: \u2013 Desenvolver campanhas de sensibiliza\u00e7\u00e3o sobre fatores de risco e sinais de alerta; \u2013 Dar apoio emocional e social aos doentes e fam\u00edlias, promovendo a partilha de experi\u00eancias e a interajuda; \u2013 Refor\u00e7ar a defesa dos direitos dos doentes para garantir acesso a cuidados de qualidade e em centros especializados; \u2013 Aumentar a visibilidade da doen\u00e7a. Noutros tipos de cancro, estas associa\u00e7\u00f5es t\u00eam sido um motor de progresso not\u00e1vel, e o mesmo poderia acontecer no cancro do p\u00e2ncreas. Reconhecer a elevada incid\u00eancia e mortalidade por cancro do p\u00e2ncreas deve orientar pol\u00edticas de sa\u00fade p\u00fablica, melhorar a preven\u00e7\u00e3o, fortalecer centros especializados e promover investiga\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Outros artigos com interesse:<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"O cancro do p\u00e2ncreas caminha para se tornar a 2.\u00aa principal causa de morte por cancro. 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