{"id":163370,"date":"2025-11-24T13:19:07","date_gmt":"2025-11-24T13:19:07","guid":{"rendered":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/163370\/"},"modified":"2025-11-24T13:19:07","modified_gmt":"2025-11-24T13:19:07","slug":"deixe-a-porta-aberta-ana-carla-gomes","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/163370\/","title":{"rendered":"&#8216;Deixe a porta aberta&#8217; | Ana Carla Gomes"},"content":{"rendered":"<p>                                        Cinco livros na estante \u00e9 o que restou de todas as coisas que Ana Catarina teve que desapegar antes da viagem. Com dedicat\u00f3rias, cheiros e marcas, Ana n\u00e3o consegue do\u00e1-los e decide devolv\u00ea-los para quem a presenteou, dando in\u00edcio a reencontros marcados pelas mais diferentes emo\u00e7\u00f5es &#8211; Arte de Kiko com fotos de Ralf Tambke\/ Divulga\u00e7\u00e3o<\/p>\n<p class=\"content-media__description\">Cinco livros na estante \u00e9 o que restou de todas as coisas que Ana Catarina teve que desapegar antes da viagem. Com dedicat\u00f3rias, cheiros e marcas, Ana n\u00e3o consegue do\u00e1-los e decide devolv\u00ea-los para quem a presenteou, dando in\u00edcio a reencontros marcados pelas mais diferentes emo\u00e7\u00f5esArte de Kiko com fotos de Ralf Tambke\/ Divulga\u00e7\u00e3o<\/p>\n<p>                                                        Publicado 23\/11\/2025 08:00 | Atualizado 23\/11\/2025 14:47\n                    <\/p>\n<p>Logo que Denise Fraga apareceu nas primeiras cenas do filme &#8216;Livros Restantes&#8217;, minha mente come\u00e7ou a viajar pela minha pr\u00f3pria hist\u00f3ria e n\u00e3o apenas pela da professora Ana Catarina, personagem vivida pela atriz. J\u00e1 havia lido a sinopse do longa previamente e sabia que a obra iria retratar o momento em que a protagonista, depois de passar a vida em uma comunidade de pesca em Florian\u00f3polis, prepara-se para mudar para Portugal. Cinco livros na estante \u00e9 o que restou de todas as coisas que Ana Catarina teve que desapegar antes da viagem. Com dedicat\u00f3rias, cheiros e marcas, Ana n\u00e3o consegue do\u00e1-los e decide devolv\u00ea-los para quem a presenteou, dando in\u00edcio a reencontros marcados pelas mais diferentes emo\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Os livros de Ana, minha xar\u00e1, me fizeram lembrar dos bilhetes que guardo com carinho na prateleira do meu quarto. A maioria est\u00e1 em um livro pequeno: os pap\u00e9is das mensagens guardadas est\u00e3o dentro de suas p\u00e1ginas, mas extrapolam suas dimens\u00f5es. Um dos pap\u00e9is, escrito \u00e0 m\u00e3o, traz \u00e0 tona um ensinamento do m\u00e9dium Chico Xavier: &#8220;Ningu\u00e9m cruza nosso caminho por acaso e n\u00f3s n\u00e3o entramos na vida de ningu\u00e9m sem nenhuma raz\u00e3o&#8221;. J\u00e1 outro bilhete, mais recente, ainda est\u00e1 entrela\u00e7ado a uma embalagem por meio de um pregador colorido. Com papel amarelado, como se j\u00e1 tivesse sofrido a a\u00e7\u00e3o do tempo, ele traz um emoji que me faz rir em conversas no WhatsApp, al\u00e9m da dedicat\u00f3ria: &#8216;Com carinho&#8217;. Quando recebi esse mimo, estava em um momento t\u00e3o sens\u00edvel que chorei muito diante daquelas duas palavras escritas \u00e0 m\u00e3o: &#8216;Com carinho&#8217;.<\/p>\n<p>Essas mem\u00f3rias permearam minha mente enquanto Denise Fraga nadava no mar em uma das cenas iniciais do filme, que tem dire\u00e7\u00e3o de\u00a0Marcia Paraiso e estreia nos cinemas no dia 11 de dezembro. E tamb\u00e9m enquanto barcos cruzavam as \u00e1guas daquele vilarejo catarinense. Tamb\u00e9m fiquei atra\u00edda pela can\u00e7\u00e3o de Zininho,\u00a0compositor catarinense, que faz parte da trilha sonora: &#8220;Deixe a porta aberta\/ Qualquer dia vou voltar&#8230;&#8221;<\/p>\n<p>No primeiro encontro para devolver um dos cinco livros restantes, a professora Ana Catarina\u00a0rev\u00ea uma amiga. &#8220;Eu vou para um lugar onde ningu\u00e9m me conhece. Ningu\u00e9m sabe quem eu sou. L\u00e1 eu n\u00e3o sou a filha da Dona Ant\u00f4nia, a irm\u00e3 do S\u00e9rgio, a professora Ana Catarina, que agora tem ex-aluno que j\u00e1 \u00e9 pai e m\u00e3e. Enfim, eu posso inventar at\u00e9 uma identidade nova para mim&#8221;, diz Ana. No entanto, fiquei pensando que, por mais que a gente se mude para um lugar que ningu\u00e9m nos conhe\u00e7a, nosso passado jamais deixar\u00e1 de estar conosco. Serei para sempre filha e irm\u00e3 de quem sou e tenho a convic\u00e7\u00e3o de que tudo isso constitui a minha hist\u00f3ria. Mesmo que eu me mudasse para muito longe, as emo\u00e7\u00f5es que vivi na minha terra, com as pessoas que amo, tamb\u00e9m embarcariam comigo.<\/p>\n<p>No mesmo encontro, Ana Catarina entrega o livro \u00e0 amiga e explica, lindamente: &#8220;Esses livros s\u00e3o especiais porque pessoas especiais me deram e escreveram neles. Tinham marcas. A letra, ali, falando comigo. De certa forma, eram livro-pessoas. E eu t\u00f4 meio que pedindo para voc\u00ea guardar um peda\u00e7o de mim, para voc\u00ea guardar um peda\u00e7o da gente, assim&#8230;&#8221; A atua\u00e7\u00e3o de Denise d\u00e1 o tom da mulher que se despede, mas revira seu passado: a fala \u00e9 entrecortada por um certo nervosismo e pela emo\u00e7\u00e3o do reencontro. Em close na tela, suas m\u00e3os muitas vezes denunciam a inquieta\u00e7\u00e3o de quem fez la\u00e7os, mas est\u00e1 prestes a partir. Eu pude sentir a apreens\u00e3o daquela mulher quando o zoom da c\u00e2mera mostrava seus dedos quase arrancando as peles das laterais das unhas.<\/p>\n<p>Fiquei encantada por essa ideia de os livros com dedicat\u00f3rias serem pessoas. Para mim, os bilhetes guardados na minha prateleira tamb\u00e9m s\u00e3o assim. Ainda pensei nas mensagens que j\u00e1 eternizei com a minha letra e dei de presente para algu\u00e9m: parte de mim se colocou ali. Assim, o filme se desenvolve costurando todos esses reencontros\u00a0por meio dos livros devolvidos. Mas nem todos saem da maneira como Ana Catarina planejou. Na vida real \u00e9 assim: h\u00e1 hist\u00f3rias que fizeram muito sentido em alguma \u00e9poca, mas que ganharam novos rumos durante os anos.<\/p>\n<p>O filme traz ainda \u00e0 tona uma mem\u00f3ria dolorosa e triste para Ana Catarina, em um embate que lhe faz revolver uma ferida de inf\u00e2ncia e ver a m\u00e3e lhe abra\u00e7ar de maneira terna. J\u00e1 no fim da obra, me lembrei mais uma vez dos meus bilhetes guardados na prateleira do quarto quando Ana Catarina, j\u00e1 em Portugal, escreve para casa e faz um pedido \u00e0 m\u00e3e: &#8220;Me escreve, quero ler voc\u00ea, pegar no papel que voc\u00ea segurou, sentir o cheiro que vem junto com a carta&#8230;&#8221; Quanta poesia em uma mensagem! Talvez seja por isso que eu tenha apre\u00e7o pelos bilhetes que guardei. Talvez seja por isso que a minha xar\u00e1 do filme tenha tanto carinho com as dedicat\u00f3rias. Em tempos cada vez mais virtuais, ainda acredito na beleza desse gesto de receber um papel que passou pelas m\u00e3os de outra pessoa. Com uma grafia s\u00f3 dela. E talvez essa seja uma porta aberta para mem\u00f3rias.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"Cinco livros na estante \u00e9 o que restou de todas as coisas que Ana Catarina teve que desapegar&hellip;\n","protected":false},"author":2,"featured_media":163371,"comment_status":"","ping_status":"","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[140],"tags":[29395,34606,34607,10260,114,115,147,471,148,34605,892,146,32,33,34608],"class_list":{"0":"post-163370","1":"post","2":"type-post","3":"status-publish","4":"format-standard","5":"has-post-thumbnail","7":"category-filmes","8":"tag-bilhetes","9":"tag-dedicatorias","10":"tag-deixe-a-porta-aberta","11":"tag-denise-fraga","12":"tag-entertainment","13":"tag-entretenimento","14":"tag-film","15":"tag-filme","16":"tag-filmes","17":"tag-livros-restantes","18":"tag-mensagens","19":"tag-movies","20":"tag-portugal","21":"tag-pt","22":"tag-zininho"},"share_on_mastodon":{"url":"https:\/\/pubeurope.com\/@pt\/115604879090763682","error":""},"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/163370","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=163370"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/163370\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/media\/163371"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=163370"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=163370"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=163370"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}