{"id":163825,"date":"2025-11-24T19:19:26","date_gmt":"2025-11-24T19:19:26","guid":{"rendered":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/163825\/"},"modified":"2025-11-24T19:19:26","modified_gmt":"2025-11-24T19:19:26","slug":"vivemos-numa-era-da-pressa-e-ninguem-nos-ensinou-a-parar","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/163825\/","title":{"rendered":"\u201cVivemos numa era da pressa e ningu\u00e9m nos ensinou a parar\u201d"},"content":{"rendered":"<p>\t                O antigo jornalista e agora escritor Nelson Nunes aborda o esgotamento e a pressa que marcam a vida moderna, revelando como o cansa\u00e7o f\u00edsico, emocional e existencial nos afeta. No seu \u00faltimo livro, mistura ci\u00eancia, testemunhos e experi\u00eancias pessoais para refletir sobre a sobrecarga di\u00e1ria e a necessidade de redefinir prioridades. Uma conversa sobre ritmo, escolhas e como recuperar tempo, aten\u00e7\u00e3o e bem-estar numa sociedade acelerada<\/p>\n<p style=\"margin-bottom:11px\">Em \u201cDe onde vem este cansa\u00e7o? Um manifesto de combate \u00e0 era da pressa\u201d, Nelson Nunes lan\u00e7a um olhar atento sobre o esgotamento e a pressa que definem a vida moderna, explorando como o cansa\u00e7o f\u00edsico, emocional e existencial se tornou quase inevit\u00e1vel. O livro mistura investiga\u00e7\u00e3o cient\u00edfica, experi\u00eancias pessoais e testemunhos de figuras p\u00fablicas para mapear as m\u00faltiplas formas de sobrecarga que todos enfrentamos, no trabalho, em casa e at\u00e9 nas redes sociais.<\/p>\n<p>Mais do que diagnosticar um problema, Nelson Nunes prop\u00f5e uma reflex\u00e3o sobre escolhas, h\u00e1bitos e prioridades, convidando-nos a questionar o ritmo fren\u00e9tico em que vivemos. Entre a press\u00e3o da produtividade, o excesso de est\u00edmulos digitais e a necessidade de estar sempre dispon\u00edveis, o autor alerta para as consequ\u00eancias profundas do cansa\u00e7o acumulado, que afeta n\u00e3o s\u00f3 a nossa sa\u00fade, mas tamb\u00e9m a forma como nos relacionamos com os outros, incluindo os nossos filhos, e tomamos decis\u00f5es.<\/p>\n<p>Numa conversa com a CNN Portugal, falou de burnout, tecnologia, t\u00e9dio e da busca de equil\u00edbrio, mas tamb\u00e9m de solu\u00e7\u00f5es pr\u00e1ticas e mudan\u00e7as poss\u00edveis. Nelson Nunes partilha perspetivas pessoais e profissionais, mostrando que \u00e9 poss\u00edvel recuperar aten\u00e7\u00e3o, sil\u00eancio e bem-estar mesmo num mundo acelerado e refor\u00e7a a import\u00e2ncia de assumir responsabilidade sobre o pr\u00f3prio tempo e sobre o impacto que o nosso esgotamento tem na sociedade. Ainda h\u00e1 esperan\u00e7a, assegura. Assim \u201chaja vontade e prioridade\u201d.<\/p>\n<p> <img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" alt=\"\" height=\"940\" src=\"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-content\/uploads\/2025\/11\/690e3f9cd34e2bd5c6d3c2d3.webp\" width=\"600\"\/> <\/p>\n<p>   No mais recente livro, Nelson Nunes provoca a nossa reflex\u00e3o sobre a vida que levamos e aquelas que s\u00e3o as nossas prioridades. (Foto: Divulga\u00e7\u00e3o) <\/p>\n<p><strong>Entrevistar jornalistas (um jornalista nunca deixa de o ser\u2026) \u00e9 sempre ingrato. Ia come\u00e7ar por a\u00ed\u2026 N\u00f3s, jornalistas, meios de comunica\u00e7\u00e3o social, n\u00e3o temos uma quota-parte de responsabilidade na era da pressa em que vive a atual sociedade? N\u00f3s, que andamos sempre atr\u00e1s daquela hist\u00f3ria, que a queremos dar primeiro a not\u00edcia, que enviamos notifica\u00e7\u00f5es para o leitor sentir necessidade de saber, de ver, de ouvir, de estar em todo o lado, de estar sempre ligado?<\/strong><\/p>\n<p>\u00c9 uma excelente pergunta, que pede uma resposta com dois gumes: por um lado, \u00e9 verdade que o jornalismo \u00e9, cada vez mais, um neg\u00f3cio. E, perante o falhan\u00e7o do seu modelo, qualquer instrumento para captar a aten\u00e7\u00e3o da sua audi\u00eancia parece ser bem acolhida. Por outro lado, n\u00e3o quero estar a matar o mensageiro por estar a querer fazer passar a sua mensagem, num mundo barulhento e assoberbado. Para o leitor\/espectador comum, o efeito dessa inunda\u00e7\u00e3o de informa\u00e7\u00e3o pode ser paralisante e, por isso, \u00e9 fundamental que todos n\u00f3s, enquanto cidad\u00e3os consumidores de informa\u00e7\u00e3o, saibamos construir um muro ao nosso redor e controlar o quando e o como do consumo de not\u00edcias. Este livro explica, entre outras coisas, como podemos estar informados sem nos deixarmos esmagar pela ditadura da notifica\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p><strong>Este \u00e9 um livro que parte de uma inquieta\u00e7\u00e3o pessoal ou de uma observa\u00e7\u00e3o social? Em que momento \u00e9 que sentiu que era \u201cobrigat\u00f3rio\u201d escrev\u00ea-lo?<\/strong><\/p>\n<p>Todos os meus livros partem de uma inquieta\u00e7\u00e3o, cada um \u00e0 sua maneira. Este n\u00e3o foi exce\u00e7\u00e3o, mas o percurso foi atribulado. Inicialmente, a minha ideia era fazer uma esp\u00e9cie de ode aos hobbies e ao t\u00e9dio, mas rapidamente me apercebi desta epidemia silenciosa de que todos padecemos. J\u00e1 todos dissemos as palavras fat\u00eddicas: \u201cestou muito cansado, ando cheio de trabalho\u201d.<\/p>\n<p>Por isso, comecei a investigar de que modo \u00e9 que o c\u00e9rebro pode encontrar al\u00edvio atrav\u00e9s de uma certa fronteira de circunscri\u00e7\u00e3o ao trabalho. Mas o funcionamento neurol\u00f3gico n\u00e3o conhece essa fronteira, apesar de n\u00f3s termos constru\u00eddo um lugar-comum segundo o qual \u00e9 poss\u00edvel separar trabalho do resto da vida. N\u00e3o \u00e9. Da\u00ed em diante, fui-me apercebendo que a Ci\u00eancia aponta toda na mesma dire\u00e7\u00e3o: o nosso estilo de vida urbano contempor\u00e2neo desgasta-nos, em todas as suas dimens\u00f5es, desde as mais evidentes \u00e0s mais sub-rept\u00edcias. \u00a0<\/p>\n<p><strong>O t\u00edtulo do primeiro cap\u00edtulo do seu livro \u00e9 \u201cN\u00e3o estamos s\u00f3 nervosos \u2013 Estamos esgotados\u201d. E a pergunta que d\u00e1 t\u00edtulo ao livro \u00e9 inevit\u00e1vel: de onde vem este cansa\u00e7o, este esgotamento? \u00c9 uma pergunta ret\u00f3rica ou foi mesmo \u00e0 procura de respostas? J\u00e1 encontrou essas respostas<\/strong>?<\/p>\n<p>As respostas est\u00e3o no livro, mas posso falar delas superficialmente: o cansa\u00e7o vem de uma sobrecarga constante sob a qual vivemos no quotidiano e que n\u00e3o est\u00e1 s\u00f3 relacionada com o trabalho. Fa\u00e7amos um exerc\u00edcio mais ou menos comum a milh\u00f5es de pessoas: acordamos e, provavelmente, somos imediatamente estimulados pelo ecr\u00e3 do nosso telefone. Essa luz \u00e9 nociva para o funcionamento neurol\u00f3gico \u2013 na verdade, assim que acordamos, devemos receber luz do sol, pela sua tipologia qu\u00edmica, e n\u00e3o de uma fonte artificial. Simultaneamente, o que vemos no telefone vai provavelmente ativar o nosso sistema nervoso, coisa para a qual o nosso organismo n\u00e3o est\u00e1 programado. De seguida, levantamo-nos e come\u00e7amos a lutar contra o rel\u00f3gio: despachamo-nos, tratamos dos mi\u00fados, metemo-nos no carro&#8230; Essa viol\u00eancia matutina \u00e9 um saco de agress\u00f5es para o qual o corpo n\u00e3o est\u00e1 preparado \u2013 pensemos no estilo de vida do Neol\u00edtico e veremos que o nosso ritmo contempor\u00e2neo \u00e9 esgotante.<\/p>\n<p>E ainda s\u00f3 cheguei \u00e0 manh\u00e3: depois de enfrentarmos o barulho do tr\u00e2nsito, a aten\u00e7\u00e3o intensa que temos de prestar \u00e0 condu\u00e7\u00e3o do nosso autom\u00f3vel, mais alguns momentos de nervosismo pouco saud\u00e1veis, chegamos ao trabalho. As solicita\u00e7\u00f5es s\u00e3o permanentes e tamb\u00e9m n\u00e3o estamos programados para viver debaixo de tal intensidade.<\/p>\n<p>Se comemos qualquer coisa \u00e0 pressa, ou qualquer coisa pouco saud\u00e1vel, esse h\u00e1bito tamb\u00e9m ter\u00e1 impacto no bom funcionamento do organismo. Trabalhamos mais algumas horas, at\u00e9 corrermos contra o tr\u00e2nsito para recolher os mi\u00fados, chegamos a casa e cumprimos as tarefas dom\u00e9sticas noutra corrida intensa contra o rel\u00f3gio. Quando finalmente terminamos tudo o que havia por fazer, s\u00e3o dez da noite e estamos estafados.<\/p>\n<p>Mas h\u00e1 um novo sarilho que nos passa despercebido: as nossas casas est\u00e3o profusamente iluminadas, e isso disrompe o nosso ciclo circadiano e a nossa rela\u00e7\u00e3o com o sono, contribuindo ainda mais para o cansa\u00e7o extremo que sentimos.<\/p>\n<p>Quando tentamos adormecer, das duas uma: ou ca\u00edmos estafados, ou temos dificuldade em adormecer por termos estado a olhar para est\u00edmulos sa\u00eddos de ecr\u00e3s, como as Netflix ou os TikTok da vida. Um dia nesta intensidade j\u00e1 seria mais do que suficiente para ficarmos cansados. Agora imagine-se viver assim durante dias, semanas, meses, anos. \u00c9 da\u00ed que vem este cansa\u00e7o.<\/p>\n<p><strong>O cansa\u00e7o de que fala no livro \u00e9 mais f\u00edsico, emocional, moral ou existencial?<\/strong><\/p>\n<p>Diria que o cansa\u00e7o, pelos motivos que apresentei h\u00e1 pouco, come\u00e7a por ser f\u00edsico e emocional. Quanto mais fisicamente cansados estamos, mais irritadi\u00e7os e pouco pacientes ficamos. Se este tipo de cansa\u00e7o \u00e9 duradouro, \u00e9 verdade que acabar\u00e1 por tornar-se moral e existencial, a menos que o indiv\u00edduo n\u00e3o tenha pendor para questionar as suas decis\u00f5es de vida.<\/p>\n<p>Mas, inevitavelmente, com menos tempo e mais irritabilidade, acabar\u00e1 a ficar influenciado negativamente pelo ambiente que o circunda, tomando decis\u00f5es menos l\u00facidas, menos informadas, com uma apet\u00eancia para a frieza na rela\u00e7\u00e3o com o outro. Ao contr\u00e1rio de tudo o que disse at\u00e9 agora, e que est\u00e1 cientificamente comprovado, esta \u00e9 a parte da minha tese que \u00e9 imposs\u00edvel de comprovar e que n\u00e3o passa de uma convic\u00e7\u00e3o pessoal: o nosso cansa\u00e7o generalizado tem implica\u00e7\u00f5es pol\u00edticas existenciais, uma vez que nos tornamos atomizados, preocupados apenas com a nossa roda de hamster e votamos muito mais com a f\u00faria do que com um sentido comunit\u00e1rio.<\/p>\n<p><strong>Sempre fomos assim, a querer viver tudo e tudo ao mesmo tempo? Ou torn\u00e1mo-nos em seres de pressa e de urg\u00eancia?<\/strong><\/p>\n<p>N\u00e3o sei se sempre fomos assim, mas estes tempos revelam um certo pendor para a acumula\u00e7\u00e3o de experi\u00eancias e bens e tamb\u00e9m uma intoler\u00e2ncia perante o vazio. Percebe-se, por duas vias: o vazio d\u00f3i (\u00e9 por isso que eventos traum\u00e1ticos como a pandemia ou o apag\u00e3o causaram tanta queixa e sofrimento, n\u00e3o sabemos bem como se vive sem nada para fazer); e tamb\u00e9m sabemos que somos uma esp\u00e9cie com uma puls\u00e3o pela acumula\u00e7\u00e3o, heran\u00e7a trazida da nossa codifica\u00e7\u00e3o gen\u00e9tica desde os tempos da Pr\u00e9-Hist\u00f3ria. Repare-se: quando \u00e9ramos homin\u00eddeos n\u00f3madas, qualquer alimento que encontr\u00e1vamos era para comer com voracidade porque n\u00e3o sab\u00edamos quando seria a pr\u00f3xima ocasi\u00e3o em que ter\u00edamos a sorte de encontrar alimento. Hoje, na era da abund\u00e2ncia, com alimentos ao dispor 24\/7, a tend\u00eancia para a voragem continua c\u00e1 e a nossa luta passou a ser n\u00e3o comer conforme nos apetece. O mesmo serve para bens e experi\u00eancias, para que nada nos falte no futuro. E parecemos estar a comportar-nos assim em todas as dimens\u00f5es da nossa vida: no prato, nas casas, e at\u00e9 nas agendas.<\/p>\n<p><strong>Vivemos mesmo numa \u201cera da pressa\u201d ou numa era da simula\u00e7\u00e3o da pressa, porque ela j\u00e1 se entranhou em n\u00f3s e, socialmente, estamos \u201cobrigados\u201d a viver nesse estado? H\u00e1 alguma diferen\u00e7a?<\/strong><\/p>\n<p>Que vivemos numa era da pressa, n\u00e3o h\u00e1 d\u00favidas. Por exemplo, uma das coisas que mais ou\u00e7o \u00e9 \u201cgosto muito de ler, mas n\u00e3o tenho tempo\u201d. Esse \u201cn\u00e3o tenho tempo\u201d que todos ouvimos nas conversas de todos os dias, e que n\u00f3s pr\u00f3prios j\u00e1 dissemos quase sem dar conta, num estranho reflexo de linguagem, \u00e9 um sinal dos tempos. Isto \u00e9, temos a sensa\u00e7\u00e3o de estar permanentemente ocupados e, por isso, sem grande tempo para acrescentar o que quer que seja \u00e0 nossa agenda. Pior: estamos a fazer o mesmo \u00e0s gera\u00e7\u00f5es seguintes, entupindo-lhes as agendas com o futebol e o ATL e o ballet e as mil festas de anos. Sabemos, por estudos psicol\u00f3gicos e neurol\u00f3gicos, que o t\u00e9dio e a margem para o aborrecimento s\u00e3o ben\u00e9ficos na estrutura\u00e7\u00e3o de sistemas neuronais de resolu\u00e7\u00e3o de problemas, mas aquilo que eu e o leitor ter\u00e3o vivido na inf\u00e2ncia, de estar uma tarde inteira num quarto sem distra\u00e7\u00f5es, enquanto invent\u00e1vamos jogos ou brincadeiras com bonecos inanimados, \u00e9 um h\u00e1bito que est\u00e1 a perder-se. E as perspetivas sobre as consequ\u00eancias n\u00e3o s\u00e3o animadoras.<\/p>\n<p>Mas, voltando ao tema da falta de tempo, talvez a grande quest\u00e3o n\u00e3o esteja na ocupa\u00e7\u00e3o do tempo, mas na forma como o fazemos. Porque podemos queixar-nos de n\u00e3o ter tempo, mas ao final de cada semana os nossos telem\u00f3veis fazem um balan\u00e7o das horas di\u00e1rias que pass\u00e1mos a olhar para os seus ecr\u00e3s e o n\u00famero deixa-nos incomodados. Posto isto, retribuo a pergunta: estaremos sem tempo, ou estaremos a us\u00e1-lo mal?<\/p>\n<p><strong>Que papel tem a cultura da produtividade nesse esgotamento coletivo de que fala? Acredita que possamos estar viciados no cansa\u00e7o, quase como se estar esgotado fosse um sinal de valor pessoal que queremos mostrar \u00e0 sociedade?<\/strong><\/p>\n<p>\u00c9 verdade que, num sentido laboral, se romantiza o cansa\u00e7o e, em casos extremos, o burnout. Mas n\u00e3o me parece que a generalidade das pessoas goste de estar cansada. Creio que muitas delas s\u00f3 ainda n\u00e3o tiveram tempo (l\u00e1 est\u00e1) para interromper o ciclo intenso das suas vidas para entenderem o que est\u00e1 a causar essa exaust\u00e3o e o que poder\u00e3o fazer para melhorar. Este livro tenta acender algumas luzes sobre esses h\u00e1bitos e d\u00e1 tamb\u00e9m algumas dicas sobre o que podemos fazer (como indiv\u00edduos, nas empresas e enquanto sociedade como um todo). Acima de tudo, \u00e9 um livro que promove o conhecimento e a capacita\u00e7\u00e3o sobre tomarmos um bocadinho as r\u00e9deas dos nossos h\u00e1bitos.<\/p>\n<p><strong>\u201cTrabalhar, descansar, desfrutar: onde desenhar as fronteiras?\u201d. O Nelson \u00e9 capaz de desenhar essas fronteiras, sem invas\u00f5es de territ\u00f3rios? Quer contar-nos o segredo?<\/strong><\/p>\n<p>Muitos dos meus livros s\u00e3o escritos para encontrar respostas perante aquilo que me inquieta. Logo, eu tamb\u00e9m n\u00e3o sei exatamente como contrariar os meus h\u00e1bitos. O que sei \u00e9 que integrei alguns h\u00e1bitos da minha investiga\u00e7\u00e3o e sinto-me muito mais fresco desde ent\u00e3o. Por exemplo, evito ecr\u00e3s quando me deito (nem sempre consigo) e leio um livro durante cerca de uma hora, para que n\u00e3o tenha uma lanterna apontada aos olhos e o sono possa instalar-se de uma forma mais natural. Tenho tamb\u00e9m uma cadeira especial em casa, junto da qual n\u00e3o pode estar nada a n\u00e3o ser uma guitarra ou um livro, mas habitualmente fico l\u00e1 sem fazer nada, durante uma meia hora. Comecei a praticar t\u00e9nis h\u00e1 cerca de seis anos e os benef\u00edcios mentais t\u00eam-se revelado muito mais importantes do que os f\u00edsicos. \u00c9 por isso que o t\u00e9nis se tornou numa prioridade m\u00e1xima na minha vida. Sem ele, a minha cabe\u00e7a tende a resvalar para lugares escuros onde esteve noutras \u00e9pocas.<\/p>\n<p><strong>N\u00e3o sei se j\u00e1 faz esse exerc\u00edcio ou se alguma vez fez\u2026 mas se lhe dessem um dia sem emails, sem redes sociais, sem compromissos, sem nada para fazer\u2026 o que faria com ele?<\/strong><\/p>\n<p>H\u00e1 alguns meses tive a sorte de fazer uma resid\u00eancia liter\u00e1ria no Norte, e por isso tive esse luxo durante um m\u00eas. Apesar de ter acesso \u00e0 internet e usar o telem\u00f3vel, a verdade \u00e9 que a clareza mental que senti nessas semanas foi \u00edmpar e muitas vezes recordo-me desses dias com saudade. Os dias que a\u00ed passei podem resumir-se como dias perfeitos: acordava, tirava um caf\u00e9 e sentava-me a escrever durante quatro horas. Esse era o meu \u00fanico compromisso comigo pr\u00f3prio. Depois, fazia o almo\u00e7o enquanto ouvia um podcast. Durante a tarde, fazia o que me apetecesse: \u00e0s vezes jogava t\u00e9nis num clube ali perto, noutras lia, noutras escrevia. Senti-me aborrecido com frequ\u00eancia, mas abracei o sentimento e em nenhum momento senti qualquer esp\u00e9cie de agonia ou impaci\u00eancia.<\/p>\n<p><strong>Escolheu o termo &#8220;manifesto&#8221; para incluir no t\u00edtulo. \u00c9 uma palavra com peso pol\u00edtico. Tamb\u00e9m fala no livro da responsabilidade do poder pol\u00edtico. O que o leva a transformar o combate ao cansa\u00e7o e \u00e0 pressa num ato pol\u00edtico ou social?<\/strong><\/p>\n<p>Se estamos cansados, temos as defesas intelectuais em baixo. Desconfiamos menos, aceitamos com mais facilidade. Estamos mais suscet\u00edveis. A curiosidade fica pregui\u00e7osa e o estudo de alguma coisa que nos encante \u00e9 menos prop\u00edcia. Logo, o cansa\u00e7o tem efeitos pol\u00edticos porque passamos a tomar decis\u00f5es com um menor n\u00edvel de lucidez, o que pode ser danoso n\u00e3o apenas para o indiv\u00edduo que a toma, mas para a sua fam\u00edlia, a sua empresa, o seu bairro, o seu concelho ou o seu Pa\u00eds.<\/p>\n<p><strong>O livro tem testemunhos de figuras p\u00fablicas, desde a cultura \u00e0 pol\u00edtica. Porque fez quest\u00e3o de incluir no seu livro esses testemunhos? Foi dif\u00edcil levar essas personalidades a expor as suas vulnerabilidades?<\/strong><\/p>\n<p>Acima de tudo, quis mostrar que muitos de n\u00f3s t\u00eam comportamentos fugitivos perante este nosso ritmo e que at\u00e9 as pessoas que admiramos t\u00eam os seus mecanismos funcionais para p\u00f4r a sua alta performance a funcionar. Al\u00e9m disso, pareceu-me importante desromantizar a alta performance\/efic\u00e1cia: aquelas pessoas que vemos em perman\u00eancia no auge do sucesso tamb\u00e9m t\u00eam os seus trav\u00f5es para desacelerar este estilo de vida. E podemos aprender com elas.<\/p>\n<p>Mas diria que h\u00e1 entrevistados ainda mais importantes neste livro: os especialistas. S\u00e3o eles que mapeiam os comportamentos que, idealmente, devemos integrar nas rotinas para que as nossas vidas sejam mais significativas e memor\u00e1veis.<\/p>\n<p> <img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" alt=\"\" height=\"938\" src=\"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-content\/uploads\/2025\/11\/690e3f9cd34e3caad84b0a8c.webp\" width=\"600\"\/> <\/p>\n<p>   Nelson Nunes exp\u00f5e as suas pr\u00f3prias fragilidades, para nos levar a refletir sobre as nossas prioridades. (Foto: Divulga\u00e7\u00e3o) <\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p><strong>O pr\u00f3prio Nelson tamb\u00e9m acaba por expor as suas pr\u00f3prias vulnerabilidades. Teve algum receio ou sentiu alguma resist\u00eancia em faz\u00ea-lo? Ou, pelo contr\u00e1rio, sentiu mesmo essa necessidade?<\/strong><\/p>\n<p>Costumo dizer que a vaidade e a vergonha s\u00e3o artif\u00edcios que s\u00f3 atrapalham: daqui a bocado, nenhum de n\u00f3s estar\u00e1 neste planeta, por isso n\u00e3o importa ser vaidoso nem ter vergonha do que pass\u00e1mos. Essa regra pauta a minha abertura sobre as depress\u00f5es, ansiedades e hist\u00f3rico de viol\u00eancia dom\u00e9stica de que sofri: sei que a minha hist\u00f3ria pode aliviar ou ajudar algu\u00e9m a libertar-se, por isso prefiro arriscar. Na pior das hip\u00f3teses, n\u00e3o ajudo ningu\u00e9m e fica tudo na mesma. Na melhor, mudo ligeiramente a vida de algu\u00e9m e essa utilidade agrada-me.<\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e9 uma necessidade, mas tamb\u00e9m n\u00e3o foi uma resist\u00eancia. Parece-me importante falar do que passei, por isso falo. Al\u00e9m do mais, assino o livro, seria uma desfa\u00e7atez n\u00e3o imprimir alguma coisa pessoal no texto que escrevo.<\/p>\n<p><strong>Sente que perdemos o direito ao t\u00e9dio ou ainda h\u00e1 espa\u00e7o para o sil\u00eancio, para o vazio, para a pausa? Resumindo: ainda h\u00e1 esperan\u00e7a?<\/strong><\/p>\n<p>Enquanto tivermos poder de agenda, h\u00e1 esperan\u00e7a. O fator-chave aqui \u00e9 a capacita\u00e7\u00e3o de quem se cruzar com este livro: mostrar que h\u00e1 uma realidade no cansa\u00e7o que vai muito para l\u00e1 do trabalho e que h\u00e1 muita coisa que \u00e9 poss\u00edvel mudar. O mundo em que vivemos foi, em grande medida, inventado por humanos, por isso h\u00e1 muita coisa que podemos desfazer e fazer de uma forma nova, que nos sirva melhor. E podemos mudar enquanto indiv\u00edduos, enquanto organiza\u00e7\u00f5es\/empresas e enquanto Pa\u00eds. Haja vontade e prioridade.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"O antigo jornalista e agora escritor Nelson Nunes aborda o esgotamento e a pressa que marcam a vida&hellip;\n","protected":false},"author":2,"featured_media":163826,"comment_status":"","ping_status":"","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[50],"tags":[609,836,611,538,27,28,3302,20670,607,608,333,832,604,135,610,476,34668,34669,15,16,301,830,14,603,25,26,570,21,22,831,833,62,834,34667,12,13,19,20,835,602,52,32,34670,24949,23,24,1030,17,18,29,30,31,63,64,65],"class_list":{"0":"post-163825","1":"post","2":"type-post","3":"status-publish","4":"format-standard","5":"has-post-thumbnail","7":"category-mundo","8":"tag-alerta","9":"tag-analise","10":"tag-ao-minuto","11":"tag-bem-estar","12":"tag-breaking-news","13":"tag-breakingnews","14":"tag-burnout","15":"tag-cansaco","16":"tag-cnn","17":"tag-cnn-portugal","18":"tag-comentadores","19":"tag-costa","20":"tag-crime","21":"tag-desporto","22":"tag-direto","23":"tag-economia","24":"tag-era-da-pressa","25":"tag-esgotamento","26":"tag-featured-news","27":"tag-featurednews","28":"tag-governo","29":"tag-guerra","30":"tag-headlines","31":"tag-justica","32":"tag-latest-news","33":"tag-latestnews","34":"tag-live","35":"tag-main-news","36":"tag-mainnews","37":"tag-mais-vistas","38":"tag-marcelo","39":"tag-mundo","40":"tag-negocios","41":"tag-nelson-nunes","42":"tag-news","43":"tag-noticias","44":"tag-noticias-principais","45":"tag-noticiasprincipais","46":"tag-opiniao","47":"tag-pais","48":"tag-politica","49":"tag-portugal","50":"tag-pressa","51":"tag-pressao","52":"tag-principais-noticias","53":"tag-principaisnoticias","54":"tag-saude-mental","55":"tag-top-stories","56":"tag-topstories","57":"tag-ultimas","58":"tag-ultimas-noticias","59":"tag-ultimasnoticias","60":"tag-world","61":"tag-world-news","62":"tag-worldnews"},"share_on_mastodon":{"url":"","error":"Validation failed: Text character limit of 500 exceeded"},"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/163825","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=163825"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/163825\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/media\/163826"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=163825"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=163825"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=163825"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}