{"id":164538,"date":"2025-11-25T10:24:06","date_gmt":"2025-11-25T10:24:06","guid":{"rendered":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/164538\/"},"modified":"2025-11-25T10:24:06","modified_gmt":"2025-11-25T10:24:06","slug":"a-banda-que-nunca-acabou-observador","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/164538\/","title":{"rendered":"a banda que nunca acabou \u2013 Observador"},"content":{"rendered":"<p>A 10 de abril de 1970, Paul McCartney esclarecia oficialmente que j\u00e1 n\u00e3o estava a trabalhar com os Beatles. O mundo tremeu, aguentou-se na medida do poss\u00edvel depois daquela que era a mais grave, dura e, apesar de tudo, esperada das separa\u00e7\u00f5es. Que aquela novela j\u00e1 estava mal, talvez poucos soubessem de forma absolutamente esclarecida, talvez outros quisessem viver enganados, mas a inevitabilidade manifesta-se sempre.<\/p>\n<p>J\u00e1 entre 1970 e 1971, Neil Aspinall (1941-2008), respons\u00e1vel por tudo o que era coisa com a marca The Beatles, teve a ideia (como teve tantas outras ao longo da carreira da banda) de juntar tudo o que era imagem de arquivo com John, Paul, George e Ringo para fazer um filme documental sem entrevistas, apenas com os registos de atua\u00e7\u00f5es, sess\u00f5es de est\u00fadio, gra\u00e7olas, pequenos dramas, desfiles de bons casacos entre a sa\u00edda dos carros e a entrada em Abbey Road. A ideia era \u00f3tima, claro que era, mas o tempo era p\u00e9ssimo: seriam necess\u00e1rios v\u00e1rios anos at\u00e9 que um acordo entre as partes tornasse o fim da banda uma realidade diger\u00edvel e a rela\u00e7\u00e3o com o passado poss\u00edvel.<\/p>\n<p>Em 1992, quando os Beatles-menos-John (1940-1980) j\u00e1 eram novamente um grupo de amigos mais ou menos saud\u00e1vel e se juntaram para fazer Anthology (um document\u00e1rio em 6 epis\u00f3dios a contar a hist\u00f3ria do grupo, acompanhado por edi\u00e7\u00f5es discogr\u00e1ficas ambiciosas, em tr\u00eas volumes), a ideia de Aspinall tinha-se transformado na melhor de sempre em todos os sentidos e at\u00e9 teve planos alterados. Afinal houve entrevistas, conduzidas por Jools Holland (pianista-comunicador de enorme fama no Reino Unido), afinal os seis epis\u00f3dios transformaram-se em oito, os discos (originalmente tr\u00eas, agora com um quarto volume, com mais grava\u00e7\u00f5es e vers\u00f5es in\u00e9ditas, 36 no total) ganharam capas ilustradas com magn\u00edficas colagens e, quando o primeiro epis\u00f3dio foi revelado em 1995, os Beatles voltaram a lembrar que nunca deixaram de estar na moda. A dist\u00e2ncia era apenas aparente e, por vezes, deliberada.<\/p>\n<p><strong>[o quarto volume de Anthology, j\u00e1 dispon\u00edvel em m\u00faltiplos formatos e tamb\u00e9m em streaming:]<\/strong><\/p>\n<p>No in\u00edcio dos encontros dessa mesma d\u00e9cada, para arrancar com os trabalhos de escava\u00e7\u00e3o e sele\u00e7\u00e3o de arquivos, George Harrison (1943-2001) ter\u00e1 dito s\u00e1bias palavras, como ali\u00e1s costumava fazer (at\u00e9 mesmo quando n\u00e3o dizia nada era s\u00e1bio, <a href=\"https:\/\/observador.pt\/especiais\/get-back-o-que-sete-horas-no-sofa-com-os-beatles-nos-dizem-sobre-o-ultimo-ano-da-banda\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener nofollow\">ora vejam o filme Get Back<\/a>): \u201cFoi bom as pessoas esquecerem os Beatles durante algum tempo, deixar a poeira assentar\u201d. Mas as pessoas nunca os esqueceram, apenas aprenderam a viver com eles de outra maneira.<\/p>\n<p>John Lennon j\u00e1 tinha dito, por volta de 1964, quando os Beatles estavam a caminho de ser maiores do que Jesus Cristo nos EUA, que sabia l\u00e1 ele se a banda ia durar mais 2 anos ou 10 anos. Sabia l\u00e1 ele onde iria estar, onde os companheiros iriam estar. Ringo Starr, inteligent\u00edssimo a gerir o estrelato como coisa que sabia passageira, pl\u00e1stica e ef\u00e9mera, diz, a certa altura desta Antologia, que nem deu por nada: multid\u00f5es, gritos, correrias, esc\u00e2ndalos, amea\u00e7as, sucessos, tudo lhe passou ao lado porque ele estava no meio. Contas feitas, foi tudo \u201cmuito divertido\u201d. Quem nos dera ser amigo de Richard Starkey.<\/p>\n<p>Paul n\u00e3o. Paul era o c\u00e9rebro e nunca deixou de ser. O chefe oficioso, o patr\u00e3o n\u00e3o nomeado, o motivador que tamb\u00e9m era o pol\u00edcia mau. O democrata que sempre soube que a democracia no rock\u2019n\u2019roll tem limites. O Mick Jagger dos Beatles. O melodista perfeito que carregou a bagagem at\u00e9 a ter perdido e que a recuperou assim que foi poss\u00edvel. \u00c9 ele o motor de tudo. E Peter Jackson, que j\u00e1 tinha recuperado Get Back, recuperou Anthology, com McCartney como timoneiro.<\/p>\n<p><strong>[O trailer da reedi\u00e7\u00e3o da s\u00e9rie documental \u201cAntologia\u201d:]<\/strong><\/p>\n<p>Vai estar no Disney+ aos peda\u00e7os, a partir de 26 de novembro (primeiro com tr\u00eas epis\u00f3dios, mais tr\u00eas no dia 27 e os \u00faltimos no dia 29), como a contemporaneidade exige, mas \u00e9 McCartney que paira sobre tudo isto, dando a m\u00e3o a Yoko Ono, que gere o legado de Lennon, e dando corpo a outra frase chave do nono e novo epis\u00f3dio que esta reedi\u00e7\u00e3o revela. Diz Paul: \u201c\u00c9 imposs\u00edvel contar a hist\u00f3ria dos Beatles\u201d. A n\u00e3o ser que seja a hist\u00f3ria que os Beatles querem contar. E \u00e9 por isso que agora temos uma hora extra: porque os Beatles quiseram. Eles que, afinal, nunca foram a lado nenhum.<\/p>\n<p>A melhor banda de sempre, os mais vision\u00e1rios, os anos 60 em quatro pessoas, as quatro faces de Deus. Enfim, chamem-lhes o que quiserem, mesmo que prefiram os Rolling Stones, os Beach Boys ou o Quarteto 1111. Os Beatles parecem imposs\u00edveis. Como \u00e9 que aconteceram? Como \u00e9 que quatro tipos que tocavam em Hamburgo \u2014 porque era onde o rock\u2019n\u2019roll de amadores dava bom dinheiro, com \u00e1lcool, erva e sexo \u00e0 mistura (n\u00e3o deixem que a imagem inicial da banda voz engane, meninos sois v\u00f3s se pensarem o contr\u00e1rio) \u2014 deixaram os quartos com beliches e tomaram conta do mundo de tal maneira que do mesmo mundo tiveram de fugir?<\/p>\n<p>\u00c9 isso que Anthology conta. Paul, George e Ringo, a recordar Liverpool, Hamburgo, primeiros sucessos, filmes, histeria, a Am\u00e9rica, a \u00cdndia, as Filipinas, as drogas, Dylan e Elvis, a magia do est\u00fadio, o cansa\u00e7o, os ci\u00fames e o fim, como na cantiga de McCartney. Mas \u00e9 a hist\u00f3ria dos Beatles pelos Beatles. Faltam as discuss\u00f5es, os desacordos, as imposi\u00e7\u00f5es, as separa\u00e7\u00f5es feias logo no in\u00edcio, as chatices com dinheiro a caminho do fim, os desentendimentos sobre quem geria o qu\u00ea, as acusa\u00e7\u00f5es da mulher deste ou da mulher daquele, al\u00e9m do p\u00f3s-separa\u00e7\u00e3o, feio, dif\u00edcil, uma travessia no deserto que ningu\u00e9m nunca quer lembrar porque, enfim, h\u00e1 Strawberry Fields e Penny Lane e A Day in the Life e Rubber Soul e o White Album \u2014 porque raio haver\u00edamos de concentrar aten\u00e7\u00f5es em qualquer outra coisa?<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"A 10 de abril de 1970, Paul McCartney esclarecia oficialmente que j\u00e1 n\u00e3o estava a trabalhar com os&hellip;\n","protected":false},"author":2,"featured_media":164539,"comment_status":"","ping_status":"","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[141],"tags":[315,114,115,339,149,150,32,33],"class_list":{"0":"post-164538","1":"post","2":"type-post","3":"status-publish","4":"format-standard","5":"has-post-thumbnail","7":"category-musica","8":"tag-cultura","9":"tag-entertainment","10":"tag-entretenimento","11":"tag-mu00fasica","12":"tag-music","13":"tag-musica","14":"tag-portugal","15":"tag-pt"},"share_on_mastodon":{"url":"https:\/\/pubeurope.com\/@pt\/115609853480387642","error":""},"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/164538","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=164538"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/164538\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/media\/164539"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=164538"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=164538"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=164538"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}