{"id":165297,"date":"2025-11-25T23:45:36","date_gmt":"2025-11-25T23:45:36","guid":{"rendered":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/165297\/"},"modified":"2025-11-25T23:45:36","modified_gmt":"2025-11-25T23:45:36","slug":"pobres-de-espirito-acreditam-que-25-de-novembro-salvou-portugal-de-trocar-a-agua-pe-pela-vodka-e-dancar-a-kalinka-em-vez-do-vira","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/165297\/","title":{"rendered":"Pobres de esp\u00edrito&#8221; acreditam que 25 de Novembro salvou Portugal de &#8220;trocar a \u00e1gua-p\u00e9 pela vodka e dan\u00e7ar a kalinka em vez do vira"},"content":{"rendered":"<p data-remotead-prev-elm=\"true\" data-remotead-elm-id=\"inread\">Abandonou os Comandos em setembro do Ver\u00e3o Quente e quando o novembro chegou apanhou Carlos Matos Gomes fora do pa\u00eds. No regresso, viu o nome nas paredes e passou \u00e0 clandestinidade. Entregou-se depois a Ramalho Eanes: &#8220;Tratamentos que nos dignificam a todos.&#8221; J\u00e1 n\u00e3o usa o camuflado, mas o porte continua altivo.<\/p>\n<p>Abandonou os Comandos em setembro do Ver\u00e3o Quente e quando o novembro chegou apanhou Carlos Matos Gomes fora do pa\u00eds. No regresso, viu o nome nas paredes e passou \u00e0 clandestinidade. Entregou-se depois a Ramalho Eanes: &#8220;Tratamentos que nos dignificam a todos.&#8221; J\u00e1 n\u00e3o usa o camuflado, mas o porte continua altivo.<\/p>\n<p>Garante que nunca houve em Portugal a inten\u00e7\u00e3o de trocar a \u00e1gua-p\u00e9 pela vodka e n\u00e3o acredita em justifica\u00e7\u00f5es &#8220;para os pobres de esp\u00edrito e crentes em toda a verdade&#8221;. Defende que o que o xadrez jogado em Portugal ultrapassou em muito a dimens\u00e3o do pa\u00eds. &#8220;A Revolu\u00e7\u00e3o portuguesa introduz como fator de perturba\u00e7\u00e3o o surgimento de um Movimento Popular num Estado da NATO.&#8221; E desafia os que querem festejar Novembro a indicar uma inova\u00e7\u00e3o na sociedade portuguesa &#8220;que n\u00e3o estivesse j\u00e1 garantida pelo 25 de Abril&#8221;. &#8220;Talvez do mercado, do lucro&#8221;, admite o coronel na reforma.<\/p>\n<p data-remotead-prev-elm=\"true\" data-remotead-elm-id=\"centro1\"><strong>No 25 de Novembro, o Carlos Matos Gomes n\u00e3o est\u00e1 em Portugal&#8230;.<\/strong><\/p>\n<p>Eu no dia 25 de Novembro de 1975 estava na Alemanha. Tinha sido convidado por uma institui\u00e7\u00e3o, que se chama Socialist Bureau, que \u00e9 uma associa\u00e7\u00e3o ligada ao Partido Social Democrata ao SPD alem\u00e3o, que integrava v\u00e1rios n\u00facleos de estudos sociais e pol\u00edticos das grandes universidades, como a Universidade de Frankfurt, a Universidade de Estugarda, a Universidade Edilberg e depois a Universidade de Munique e eu fui convidado, juntamente, ali\u00e1s, com um grande jornalista, o Adelino Gomes, para darmos uma vis\u00e3o do processo pol\u00edtico portugu\u00eas na Alemanha, que estava a ser muito condicionado com a narrativa, que vem a ser a narrativa do 25 de Novembro, que era a narrativa do Partido Socialista: de que Portugal corria o risco de cair numa ditadura comunista; de virem a ser impedidas as liberdades; de Portugal passar para outro bloco. E havia tamb\u00e9m caso Rep\u00fablica, que tinha sido muito empolado e muito manipulado pelo Partido Socialista.<\/p>\n<p>Agora, eu conhecia e sabia da exist\u00eancia do 25 de Novembro desde agosto de 1975, quando eu era oficial nos comandos e quando o 25 de Novembro come\u00e7a a ser preparado aqui, em Portugal. Em parte, atrav\u00e9s da Constitui\u00e7\u00e3o ainda clandestina da associa\u00e7\u00e3o de comandos, em parte tamb\u00e9m com as visitas que eram feitas ao Regimento pelo ent\u00e3o coronel Soares Carneiro, que esteve tamb\u00e9m depois envolvido e da rela\u00e7\u00e3o pessoal que eu tinha com o Jos\u00e9 Neves. Eu era o representante do Regimento de Comandos na Assembleia do MFA e era tamb\u00e9m o representante da Regi\u00e3o Militar de Lisboa na Assembleia.<br \/>E, portanto, estava dentro deste processo e fui-me apercebendo das movimenta\u00e7\u00f5es que iam ocorrendo \u00e0 margem de todo esse processo e que v\u00e3o culminar, em parte, na Assembleia de Tancos. Que \u00e9 uma Assembleia onde estou presente, porque eu sou ainda, oficialmente, o delegado do Regimento de Comandos e tamb\u00e9m o delegado da regi\u00e3o militar de Lisboa.<\/p>\n<p data-remotead-prev-elm=\"true\" data-remotead-elm-id=\"centro2\">Nisto aparece o Jaime Neves, com um outro oficial dos Comandos, como representantes do Regimento. N\u00e3o houve nenhum conflito entre n\u00f3s porque n\u00e3o era o local para se haver conflito desse g\u00e9nero. Mas levou quando n\u00f3s regress\u00e1mos \u00e0 Amadora, aquilo que era comum fazemos, era debriefing das reuni\u00f5es que normalmente era eu que fazia. Apresentava a situa\u00e7\u00e3o aos meus camaradas, cada um deles pronunciava-se e discut\u00edamos os assuntos democraticamente nas chamadas assembleias de unidade.<br \/>Nessa reuni\u00e3o, o Jaime Neves diz: &#8216;N\u00e3o, eu \u00e9 que vou falar e depois fala aqui o Arnaldo Cruz.&#8217; Eu assisti, ele falou, disse o que tinha para dizer. Eu j\u00e1 n\u00e3o disse mais nada porque entendi que n\u00e3o devia dizer mais nada. Quando sa\u00edmos da reuni\u00e3o, fui ao meu gabinete, depois fui ao gabinete do Jaime Neves e disse: &#8216;Olha, fazes favor de me passar a guia de marcha para o Estado Maior do Ex\u00e9rcito, porque eu vou-me j\u00e1 embora. J\u00e1!&#8217;<\/p>\n<p><strong>E \u00e9 assim que sai dos comandos?<\/strong><\/p>\n<p>Sa\u00ed dos comandos. Arrumei os meus pertences, que tamb\u00e9m eram poucos, sempre poucos. Porque sabia que era este um golpe que estava a ser montado e sabia tamb\u00e9m de outras movimenta\u00e7\u00f5es que estavam ligadas ao Grupo dos Nove.<\/p>\n<p data-remotead-prev-elm=\"true\" data-remotead-elm-id=\"centro3\"><strong>Mas esta prepara\u00e7\u00e3o militar n\u00e3o \u00e9 feita em conson\u00e2ncia com os Nove?<\/strong><\/p>\n<p>A prepara\u00e7\u00e3o militar do golpe \u00e9 feita, do meu ponto de vista, \u00e0 margem dos Nove. E \u00e9 feita sob o comando do Ramalho Eanes. Isto \u00e9, para entendermos o que \u00e9 o 25 de Novembro, \u00e9 um golpe conduzido do exterior, um golpe dos Estados Unidos e \u00e9 um golpe dentro da sequ\u00eancia &#8211; da estrat\u00e9gia &#8211; que os Estados Unidos tinham.<\/p>\n<p>Nos anos 70, debaixo da designa\u00e7\u00e3o geral da d\u00e9tente, em que se procurou um equil\u00edbrio e uma conviv\u00eancia entre os Estados Unidos e a NATO, por um lado, e por outro a Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica e o Pacto de Vars\u00f3via. Isto culminou nos Acordos de Hels\u00ednquia de controlo de determinado tipo de armamento.<\/p>\n<p data-remotead-prev-elm=\"true\" data-remotead-elm-id=\"centro4\">Aquilo que a revolu\u00e7\u00e3o portuguesa introduz como fator de perturba\u00e7\u00e3o \u00e9 o surgimento de um movimento popular, num Estado da NATO, e que punha em causa o equil\u00edbrio de for\u00e7as e fundamentalmente enfraquecia estrategicamente o flanco sul da NATO. Em [19]74, temos na Gr\u00e9cia uma agita\u00e7\u00e3o social j\u00e1 profunda de contesta\u00e7\u00e3o \u00e0 chamada ditadura dos coron\u00e9is. Al\u00e9m disso, havia uma tradi\u00e7\u00e3o &#8211; que vem desde a Segunda Guerra Mundial &#8211; de um Partido Comunista grego forte e aut\u00f3nomo. Havia um movimento fort\u00edssimo e considerado pelos Estados Unidos perigoso de compromisso hist\u00f3rico em It\u00e1lia entre a Democracia Crist\u00e3 de Aldo Moro e o Partido Comunista de Berlinger, que levou ao assassino do Aldo Moro. Havia uma agita\u00e7\u00e3o social grave e profunda em Fran\u00e7a, com a aproxima\u00e7\u00e3o dos socialistas ao poder. Havia a ideia, que se veio a comprovar, do final da ditadura de Franco, que estava j\u00e1 prestes a morrer, vai morrer em novembro de 1975, no dia 22.<\/p>\n<p>Portugal era uma pedra n\u00e3o control\u00e1vel que poderia, por um lado, animar as contesta\u00e7\u00f5es em toda esta margem norte do Mediterr\u00e2neo e fundamentalmente podia prejudicar a transi\u00e7\u00e3o que se queria muito pac\u00edfica da Espanha para a democracia. E \u00e9 isto que faz com que os Estados Unidos tenham de intervir. Os Estados Unidos, em termos estrat\u00e9gicos, eu era militar, era?! N\u00e3o sei se ainda sou, mas enquanto militar tinha estudado estrat\u00e9gia e percebia isto.<\/p>\n<p>Os Estados Unidos orientam toda a sua a\u00e7\u00e3o em termos internacionais at\u00e9 hoje por dois vetores: a teoria do alinhamento ou da lealdade. Isto \u00e9, em que medida \u00e9 que cada um dos Estados \u00e9 leal e est\u00e1 alinhado com a pol\u00edtica dos Estados Unidos? Este \u00e9 um ponto. O outro \u00e9 o da conten\u00e7\u00e3o. Eu tenho de estar onde o inimigo quer estar e tenho de o impedir. \u00c9 com estes dois vetores que os Estados Unidos interveem em Portugal. A primeira a\u00e7\u00e3o em que os Estados Unidos revelam as grandes preocupa\u00e7\u00f5es t\u00eam com Portugal aconteceu em outubro de 1974. Quinze dias depois da demiss\u00e3o de Sp\u00ednola. \u00c9 uma reuni\u00e3o que \u00e9 realizada em Washington, onde est\u00e1 o Henry Kissinger, de um lado, e do outro o Presidente Costa Gomes, acompanhado por M\u00e1rio Soares enquanto ministro dos Neg\u00f3cios Estrangeiros. \u00c9 a c\u00e9lebre conversa em que o Kissinger diz a M\u00e1rio Soares: &#8216;O senhor vai ser o Kerensky portugu\u00eas&#8217; e M\u00e1rio Soares responde: &#8216;Mas eu n\u00e3o quero ser o Kerensky.&#8217; E o Kissinger volta responder: &#8216;Mas o Kerensky tamb\u00e9m n\u00e3o queria ser o Kerensky.&#8217;<br \/>E \u00e9 a partir da\u00ed que as antenas dos Estados Unidos se viram aqui para Portugal, com as preocupa\u00e7\u00f5es sempre a aumentar. O que faz com que, em janeiro, logo no in\u00edcio do ano, venha para Portugal um especialista em contra-golpes no terreno: Frank Carlucci. Ele tinha estado envolvido no golpe do Brasil.<\/p>\n<p data-remotead-prev-elm=\"true\" data-remotead-elm-id=\"centro5\"><strong>Tinha estado tamb\u00e9m no Congo&#8230;<\/strong><\/p>\n<p>No Congo e, al\u00e9m disso, j\u00e1 era o patr\u00e3o do golpe do Pinochet no Chile. \u00c9 muito interessante n\u00f3s repararmos que os padrinhos do 25 de Novembro, da defesa, da democracia e do anticomunismo s\u00e3o os chefes do golpe do Pinochet, que n\u00e3o tem nada que ver nem com a democracia, nem com os Direitos do Homem. E vemos um agente da CIA dubl\u00ea em embaixador, que j\u00e1 tinha estado no golpe do Congo &#8211; a primeira grande interven\u00e7\u00e3o dos Estados Unidos em \u00c1frica e que est\u00e1 no golpe dos generais do Brasil.<\/p>\n<p>E esses \u00e9 que v\u00e3o ser ent\u00e3o os patronos do golpe e aquilo que \u00e9 muito conversado, que \u00e9 a diverg\u00eancia entre Carlucci e o Kissinger. Tudo isto est\u00e1 publicado num livro muito interessante. &#8220;Os Americanos na Revolu\u00e7\u00e3o Portuguesa&#8221; do Bernardo Gomes e do Tiago Moreira de S\u00e1, onde isto est\u00e1 l\u00e1 tudo explicado.<br \/>Kissinger \u00e9 sempre adepto de um golpe de cortar. O Carlucci \u00e9 adepto de fazer uma negocia\u00e7\u00e3o. E essa negocia\u00e7\u00e3o \u00e9 feita entre os Estados Unidos e a Europa, atrav\u00e9s de um grupo da Internacional Socialista, que \u00e9 constitu\u00eddo pelo Willy Brandt, pelo Bruno Kreisky, Giscard d&#8217;Estaing, que n\u00e3o era socialista mas tamb\u00e9m est\u00e1, e pelo James Callaghan da Inglaterra.<br \/>E \u00e9 atrav\u00e9s deste grupo que s\u00e3o transferidos milh\u00f5es de d\u00f3lares dos Estados Unidos para a Europa atrav\u00e9s da Internacional Socialista e que permitem investir fortemente nas elei\u00e7\u00f5es do 25 de Abril de 1975, que o Partido Socialista ganha. Eu sabia desta hist\u00f3ria e penso que esta ideia dos Estados Unidos intervirem aqui em Portugal \u00e9 aquilo que \u00e9 decisivo.<\/p>\n<p data-remotead-prev-elm=\"true\" data-remotead-elm-id=\"centro6\"><strong>Faz p\u00f4r o golpe em marcha?<\/strong><\/p>\n<p>Sim e o homem que \u00e9 a chave deste processo \u00e9 o Melo Antunes. Isto \u00e9, o Melo Antunes \u00e9 escolhido por Carlucci para ser o seu homem aqui em Portugal. E tem como primeiro objetivo o derrube do V Governo provis\u00f3rio. Vasco Gon\u00e7alves \u00e9 que \u00e9 o diabo deste processo e a quest\u00e3o \u00e9 colocada em termos de chantagem: ou o Vasco Gon\u00e7alves sai do Governo ou n\u00e3o h\u00e1 avi\u00f5es americanos para fazer a ponte a\u00e9rea de Angola para Portugal. E Melo Antunes escolhe Ramalho Eanes para chefe do Grupo Militar. E \u00e9 este grupo militar que vai ter depois como for\u00e7a de manobra principal o Regimento de comandos.<br \/>O golpe em si mesmo \u00e9 um corte com um processo revolucion\u00e1rio que tinha ultrapassado os compromissos que haviam sido estabelecidos porque quer o Partido Socialista quer o Partido Comunista n\u00e3o controlavam as massas. Esta \u00e9 uma das grandes quest\u00f5es que o pr\u00f3prio Partido Comunista tem: n\u00e3o ter o controle sobre os seus militantes e sobre os seus aderentes. Aquilo que \u00e9 espec\u00edfico no processo pol\u00edtico portugu\u00eas e que causa o alarme \u00e9 a for\u00e7a do movimento popular e \u00e9 a sua inorganicidade. Ou seja, quem \u00e9 que era respons\u00e1vel por isto? Podemos dizer, era o Otelo, mas o Otelo nunca se assumiu como um salvador da p\u00e1tria, nem como um condottiero, nem como o profeta que vai \u00e0 frente da multid\u00e3o. Nunca assumiu isso e da\u00ed que fosse necess\u00e1rio fazer esse corte radical com a desordem.<\/p>\n<p>Aquilo que se fala, aquilo que \u00e9 apresentado como raz\u00e3o para o 25 de Novembro&#8230; H\u00e1 uma que \u00e9 a chamada justifica\u00e7\u00e3o para os pobres de esp\u00edrito e crentes em toda a verdade que \u00e9: havia o pap\u00e3o do Partido Comunista e, portanto, n\u00f3s \u00edamos trocar a \u00e1guap\u00e9 pela vodka e pass\u00e1vamos todos aqui a dan\u00e7ar a kalinka em vez do vira e h\u00e1 muita gente que acreditou nisso. A Igreja Cat\u00f3lica assumiu esse tipo de discurso. A outra quest\u00e3o real, que est\u00e1, ali\u00e1s, muito expressa no documento dos Nove \u00e9 que \u00e9 necess\u00e1rio que o Estado seja forte. Que haja um Estado que imponha a ordem e um Estado que represente a sociedade portuguesa em termos internacionais. E isto era decisivo para os Estados Unidos, na medida em que se estava no limite da independ\u00eancia de Angola. E era necess\u00e1rio um Estado para assumir.<\/p>\n<p>Mas, curiosamente, era necess\u00e1rio que esse Estado n\u00e3o fosse o Estado respons\u00e1vel pela descoloniza\u00e7\u00e3o, porque era previs\u00edvel que a descoloniza\u00e7\u00e3o criasse, como criou em todas as descoloniza\u00e7\u00f5es mundiais, movimentos de culpabiliza\u00e7\u00e3o de revanche. E o que vai acontecer? Curiosamente \u00e9 que a independ\u00eancia de Angola se vai dar em 11 de novembro e o 25 de Novembro vai ocorrer 14 dias depois. O que quer dizer que o novo regime j\u00e1 n\u00e3o pode ser acusado das quest\u00f5es que v\u00e3o ficar com a descoloniza\u00e7\u00e3o de Angola. Porque a descoloniza\u00e7\u00e3o e o poder em v\u00e3o ser dirimidos entre os Estados Unidos e a Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica. E \u00e9 isto que \u00e9 o 25 de Novembro.<\/p>\n<p>Tudo o resto depois \u00e9 a implanta\u00e7\u00e3o, aqui em Portugal, de um modelo uniformizado, padronizado de regime de representa\u00e7\u00e3o parlamentar, que \u00e9 id\u00eantico ao de todos os outros pa\u00edses europeus que v\u00eam desde a Segunda Guerra Mundial.<\/p>\n<p><strong>Voltemos a setembro e \u00e0 Assembleia de Tancos. Depois dessa Assembleia e depois da esquerda militar perder poder ainda se justificava? Ainda era necess\u00e1rio o golpe?<\/strong><\/p>\n<p>O golpe era necess\u00e1rio porque \u00e9 necess\u00e1ria uma representa\u00e7\u00e3o do corte. E era necess\u00e1rio haver sangue. E \u00e9 por isso que o Regimento de Comandos vai assaltar um quartel que est\u00e1 de preven\u00e7\u00e3o. O que \u00e9 normal estar fechado e arromba a porta com a chaimite do comandante. E h\u00e1 disparos porqu\u00ea? Porque era fundamental haver sangue e estava previsto que, se n\u00e3o houvesse sangue ali, havia bombardeamentos a\u00e9reos feitos, por exemplo, sobre o Ralis. Essa situa\u00e7\u00e3o depois tamb\u00e9m n\u00e3o se p\u00f4de concretizar.<\/p>\n<p><strong>J\u00e1 l\u00e1 estava o Salgueiro Maia.<\/strong><\/p>\n<p>Sim e por isso j\u00e1 se tornava muito mal visto em termos de opini\u00e3o p\u00fablica esse excesso. Agora o que n\u00e3o faz nenhum sentido \u00e9 que o ataque das chamadas For\u00e7as Democr\u00e1ticas seja feita a um quartel que est\u00e1 a 200 metros da sede do poder, que \u00e9 a Presid\u00eancia da Rep\u00fablica e de onde ningu\u00e9m tinha sa\u00eddo para atacar o Pal\u00e1cio de Bel\u00e9m, nem para alterar qualquer algu\u00e9m.<br \/>Entendo ainda que este processo do 25 de Novembro, que \u00e9 conduzido claramente o Melo Antunes, que, ali\u00e1s, tem um discurso preparado que ele prefere logo no dia a seguir.<\/p>\n<p><strong>Na noite de 26..<\/strong><\/p>\n<p>Sim e para quem conheceu o Melo Antunes&#8230; a forma fluente como ele o faz sem uma hesita\u00e7\u00e3o, \u00e9 sinal de que ele tinha aquele discurso completamente alinhado na sua cabe\u00e7a. E, portanto, este \u00e9 o processo. Por outro lado, h\u00e1 a sabedoria de duas entidades: o general Costa Gomes &#8211; que eu estou absolutamente convencido e, daquilo que sei, &#8211; estava muito limitado nas suas capacidades de comando. Isto para n\u00e3o dizer que estava sequestrado em Bel\u00e9m.<\/p>\n<p><strong>Sequestrado por quem?<\/strong><\/p>\n<p>Sequestrado pelo Gupo dos Nove e pelo Grupo militar. E \u00e9 por isso que Vasco Louren\u00e7o est\u00e1 em Bel\u00e9m e pela genialidade do Otelo Saraiva de Carvalho, que sai da sede do seu comando do COPCON e se apresenta ao Presidente da Rep\u00fablica. O que quer dizer que, quando Otelo Saraiva de Carvalho se apresenta em Bel\u00e9m, o Presidente da Rep\u00fablica, enquanto comandante-chefe, passou a ter o comando do COPCON do seu lado. E isto altera muito a capacidade de retalia\u00e7\u00e3o ou de explora\u00e7\u00e3o do sucesso &#8211; em linguagem militar &#8211; do grupo militar.<\/p>\n<p>E da\u00ed que Costa Gomes, com a sua pompa e circunst\u00e2ncia, se desloque, enquanto comandante, a um comando subordinado na Amadora. E esta \u00e9 a imagem que \u00e9 passada: de um Presidente que comanda e que tem aquela gente subordinada, o que n\u00e3o lhes permite depois desenvolver o que se julga que seria o plano posterior, que estava preparado e que vai ter que ser feito mais tarde. A limpeza e o saneamento das For\u00e7as Armadas, da fun\u00e7\u00e3o p\u00fablica e da comunica\u00e7\u00e3o social. Tudo isto vai ter de ser feito mais lenta e suavemente.<\/p>\n<p><strong>Era esse o resto do plano? N\u00e3o, n\u00e3o h\u00e1 a\u00ed uma interven\u00e7\u00e3o da extrema-direita? N\u00e3o haveria a tenta\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m da extrema-direita de chegar ao poder?<\/strong><\/p>\n<p>O 25 de Novembro tem v\u00e1rias componentes. Tem esta componente mais institucional ligada ao Melo Antunes e ao Grupo dos Nove, tem uma outra componente ligada \u00e0 Associa\u00e7\u00e3o de Comandos e ao Regimento de Comandos, que funciona \u00e0 parte, e tem uma outra componente clandestina que est\u00e1 ligado ao Alpoim Calv\u00e3o, ao ELP e ao MDLP. Estes grupos v\u00e3o depois de ter eles pr\u00f3prios que se harmonizar. Da\u00ed que, hoje, o grupo que est\u00e1 a promover celebra\u00e7\u00e3o do 25 de Novembro, seja os herdeiros do ELP e da fa\u00e7\u00e3o do Regimento.<\/p>\n<p><strong>Havia aquelas companhias que tinham ficado fora e depois voltaram, os convocados?<\/strong><\/p>\n<p>Essas unidades s\u00e3o criadas por contratados, portanto, s\u00e3o militares que estavam na disponibilidade. E \u00e9 lhes oferecido um contrato para regressar \u00e0s For\u00e7as Armadas e fazer aquele trabalho. O que \u00e9 tamb\u00e9m estranh\u00edssimo. Ali\u00e1s, para quem quiser ler o pre\u00e2mbulo do decreto-lei da convocat\u00f3ria, que \u00e9 justificado pela necessidade de tropas experientes regressarem para manterem ordem no pa\u00eds. Ora, as tropas experientes eram tropas que estavam fora do servi\u00e7o militar h\u00e1 seis\/sete anos. Estavam gordos e destreinados. Quando? Quer o 25 de Abril, quer todo o processo pol\u00edtico, quer as melhores tropas &#8211; eu estive nos comandos com tropas de linha e de conscri\u00e7\u00e3o -, quer os paraquedistas &#8211; que tamb\u00e9m eram de conscri\u00e7\u00e3o &#8211; eram as melhores tropas que existiam e cumpriam as nossas ordens. Cumpriam as miss\u00f5es com toda a efic\u00e1cia e, portanto, n\u00e3o era necess\u00e1rio contratar ningu\u00e9m que estava fora do servi\u00e7o militar h\u00e1 cinco, seis ou sete anos, como era o caso.<\/p>\n<p><strong>Voltando ao discurso do Melo Antunes, \u00e9 nessa noite que ele integra o PCP na vida democr\u00e1tica portuguesa. Isso \u00e9 um acordo que j\u00e1 vem de tr\u00e1s? Havia negocia\u00e7\u00f5es com o PCP? <\/strong><\/p>\n<p>N\u00e3o vejo a rela\u00e7\u00e3o do PCP neste processo com cumplicidades nem com trai\u00e7\u00f5es. Vejo como uma atua\u00e7\u00e3o dentro de um pensamento estrat\u00e9gico muito elaborado e muito consistente. E era conveniente para todos. Isto \u00e9, o regime portugu\u00eas tinha de ter o mesmo modelo dos outros regimes europeus. Havia partidos comunistas em Fran\u00e7a, na It\u00e1lia, na Alemanha n\u00e3o existiam, que eram proibidos, e havia fundamentalmente a necessidade de integrar o Partido Comunista espanhol no futuro. E tudo isto faz sentido e todos os acordos do Melo Antunes, ali\u00e1s, o figurino de regime que o Melo Antunes apresenta na noite a seguir, ao 25 de Novembro, inclui esta arquitetura. Est\u00e1 previsto e tinha sido todo ele negociado. O que \u00e9 normal. Por cima desta casa em que estamos aqui mora a pessoa que foi negociar com \u00c1lvaro Cunhal e falar quer com o Otelo quer com o Melo Antunes: \u00e9 o Doutor Silva Gra\u00e7a, que era um dos membros do Partido Comunista. Essas conversas existiam e era isto que se pretendia.<\/p>\n<p>Mais: a grande quest\u00e3o do processo revolucion\u00e1rio portugu\u00eas \u00e9 o movimento popular, porque a quest\u00e3o da luta entre o Partido Socialista e o Partido Comunista \u00e9 uma luta cl\u00e1ssica de partidos pelo dom\u00ednio do aparelho de Estado. E era s\u00f3 isto que eles pretendiam dominar mais ou menos. A partir do momento em que o regime est\u00e1 aberto e prev\u00ea que estes partidos existam e possam disputar o aparelho de Estado. Est\u00e1 tudo bem. O que est\u00e1 p\u00e9ssimo \u00e9 o movimento popular das cooperativas, de associa\u00e7\u00f5es,<\/p>\n<p>E a narrativa oficial, aqui para os crentes, esquece muito isto: os tr\u00eas D&#8221;s da Revolu\u00e7\u00e3o n\u00e3o t\u00eam nada de revolucion\u00e1rio. A democracia chega a Portugal com 30 anos de atraso, ou seja, a democracia representativa era aquela que tinha sido estabelecida na Europa a seguir \u00e0 Segunda Guerra Mundial. Assim como o desenvolvimento. O desenvolvimento europeu faz-se a seguir \u00e0 Segunda Guerra Mundial e a descoloniza\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m. Portanto, os tr\u00eas D&#8221;s n\u00e3o t\u00eam nada de revolucion\u00e1rio. O que tem de revolucion\u00e1rio \u00e9 quando o Otelo abre a revolu\u00e7\u00e3o ao povo. \u00c9 no momento em que ele diz ao Salgueiro Maia, que estava ali no Largo do Carro. E o maior. Enquanto militar e um profissional de elevad\u00edssima craveira. &#8216;Olha que eu tenho aqui a pior situa\u00e7\u00e3o, que \u00e9 ter soldados, tropa, armas tudo misturado com civis, p\u00e1, o que \u00e9 que eu fa\u00e7o?&#8217; E o Otelo diz: &#8216;\u00c9 p\u00e1, a Revolu\u00e7\u00e3o e para o povo&#8217; e, portanto, quando o povo entra na revolu\u00e7\u00e3o, \u00e9 que se altera tudo. Tudo isto passa a ser uma revolu\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p><strong>\u00c9 a\u00ed que o Golpe de Estado passa a ser uma Revolu\u00e7\u00e3o. E porque no 25 de Novembro porque \u00e9 que ele opta por recuar? No fundo, por ir para casa?<\/strong><\/p>\n<p>O Otelo, em primeiro lugar, era uma pessoa muito inteligente. E era, por outro lado, uma pessoa muito sensata e, por outro lado, ainda algu\u00e9m que tinha, at\u00e9 pela sua experi\u00eancia militar, a no\u00e7\u00e3o de que o pior que pode acontecer numa sociedade \u00e9 uma guerra civil. E da\u00ed que quando ele percebe, e ele percebe porque os oficiais que estavam com ele, tamb\u00e9m perceberam&#8230; N\u00f3s t\u00ednhamos estas informa\u00e7\u00f5es. O COPCON tinha informa\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>N\u00f3s sab\u00edamos o que \u00e9 que os embaixadores pensavam, de uma forma geral, sab\u00edamos o que \u00e9 que os americanos andavam a fazer, sab\u00edamos o que \u00e9 que a NATO pensava do processo pol\u00edtico. E n\u00f3s sab\u00edamos que do outro lado havia uma fa\u00e7\u00e3o que n\u00e3o hesitaria em lan\u00e7ar o pa\u00eds numa guerra civil. E sab\u00edamos que os Estados Unidos tinham colocado quantidades significativas de armamento \u00e0 disposi\u00e7\u00e3o desses grupos &#8211; curiosamente essas armas nunca apareceram -, mas o que n\u00f3s sab\u00edamos \u00e9 que tinha havido transfer\u00eancias de dinheiro para pagar a mercen\u00e1rios, que tinha havido transfer\u00eancias e fornecimentos de armamento. Mais, ainda n\u00f3s sab\u00edamos que havia uma rede clandestina que vinha do tempo ainda do Estado Novo, a Aginter Press, e que estava associada \u00e0 rede de gladio e que estavam dispostos a causar uma guerra civil, provocando pequenas explos\u00f5es ca\u00f3ticas ao longo do pa\u00eds, o que, ali\u00e1s, eles ensaiaram fazer com o ELP e o MDLP no Norte de Portugal.<\/p>\n<p>Portanto, o Otelo sabe que, no 25 de Novembro, qualquer a\u00e7\u00e3o que ele tome iria provocar uma rea\u00e7\u00e3o desproporcionada. \u00c9 por isso que ele n\u00e3o autoriza e desmobiliza os fuzileiros e \u00e9 por isso que ele n\u00e3o autoriza e \u00e9 veemente na recusa da distribui\u00e7\u00e3o de armas aos civis pelo forte de Almada.<\/p>\n<p><strong>O Otelo recua, n\u00e3o sai.. Mas \u00e9 outra sa\u00edda que \u00e9 apresentada como um dos argumentos para a manobra militar. A sa\u00edda dos paraquedistas da base de Tancos. Isso foi uma desculpa? Foram foi uma provoca\u00e7\u00e3o?<\/strong><\/p>\n<p>Isso \u00e9 uma mistifica\u00e7\u00e3o e \u00e9 uma mistifica\u00e7\u00e3o. N\u00f3s, como militares, conhecemos as t\u00e9cnicas de lan\u00e7ar uma falsa not\u00edcia para provocar uma rea\u00e7\u00e3o. A grande quest\u00e3o que h\u00e1 com os paraquedistas \u00e9 que o chefe de Estado-Maior da For\u00e7a A\u00e9rea faz essa provoca\u00e7\u00e3o em termos administrativos. \u00c0 margem da lei e contra a lei, determina administrativamente que os sargentos paraquedistas, que s\u00e3o do Quadro Permanente da For\u00e7a A\u00e9rea, sejam transferidos para o Ex\u00e9rcito, sem falar com o chefe de Estado do Ex\u00e9rcito. E mais ainda, qualquer transfer\u00eancia deste tipo tem de ser autorizada pelo Conselho de Chefes de Estado Maior e n\u00e3o foi. Portanto, a primeira irregularidade \u00e9 a do Chefe de Estado-Maior da For\u00e7a A\u00e9rea. A passagem dos sarjantos paraquedistas para o Ex\u00e9rcito.<\/p>\n<p>A segunda irregularidade \u00e9 o chamado corte administrativo a todas as tropas. Isto \u00e9, o n\u00e3o pagamento da alimenta\u00e7\u00e3o, n\u00e3o fornecimento da alimenta\u00e7\u00e3o. N\u00e3o proporciona as condi\u00e7\u00f5es de um quartel seu. E isto \u00e9 outra ilegalidade.<\/p>\n<p>E, por fim, a ilegalidade mais grave, aquela que \u00e9 criminosa e que deveria ter merecido a ida desse Chefe de Estado-Maior a tribunal militar: \u00e9 que ele altera o dispositivo militar portugu\u00eas sem autoriza\u00e7\u00e3o, nem do chefe de Estado-Maior General, que era o general Costa Gomes, nem do Conselho Superior de Defesa Nacional. Ele coloca todas as aeronaves, todos os meios militares a\u00e9reos numa base da NATO. Altera todo o dispositivo, esvazia todo o dispositivo militar, coloca em causa a seguran\u00e7a nacional. Tudo isto para fazer um golpe por conta pr\u00f3pria.<\/p>\n<p>Todo este ros\u00e1rio de irregularidades e crimes s\u00e3o cobertos com a pergunta: &#8220;mas, afinal, quem \u00e9 que mandou os paraquedistas?&#8221; N\u00e3o! Quem provocou os paraquedistas foi quem correu com eles das suas bases. Foi o chefe de Estado-Maior quando os transfere para o Ex\u00e9rcito. E o grave da quest\u00e3o \u00e9 quando um chefe de Estado-Maior altera o dispositivo militar de uma na\u00e7\u00e3o. No momento em que ele esvazia a base, a grande base de defesa a\u00e9rea portuguesa \u00e9 a base de Montreal, quando ele retira todas as aeronaves de Montreal, ele desarma o Estado portugu\u00eas. E isto \u00e9 criminoso.<\/p>\n<p><strong>Mas isso tamb\u00e9m tornou a ocupa\u00e7\u00e3o das bases in\u00fatil&#8230;<\/strong><\/p>\n<p>Completamente, mas o que \u00e9 que o chefe de Estado-Maior pretende. Ele pretende concentrar os meios para os ter \u00e0 disposi\u00e7\u00e3o para fazer um golpe onde ele quiser. E \u00e9 por isso que todo o comando da For\u00e7a A\u00e9rea, o Comando Operacional da For\u00e7a A\u00e9rea, est\u00e1 na Cortega\u00e7a. Onde est\u00e1 porventura aquele que \u00e9 o general mais qualificado em termos operacionais, o Lemos Ferreira, que depois mais tarde ser\u00e1 chefe de Estado-Maior da For\u00e7a A\u00e9rea e chefe de Estado-Maior General.<br \/>Portanto, quando os sargentos paraquedistas v\u00eam aqui a Monsanto, o que \u00e9 que encontram? Um general e um telefone. E \u00e9 contra essa grande base que os comandos enviam uma companhia com chaimites e quando l\u00e1 chegam contam dois ou tr\u00eas pol\u00edcias militares.<\/p>\n<p><strong>Depois, quando regressa a Portugal que pa\u00eds \u00e9 que encontra? Encontrou muitas diferen\u00e7as?<\/strong><\/p>\n<p>Encontrei algumas diferen\u00e7as. Uma delas foi encontrar o meu nome em v\u00e1rias paredes. &#8220;Prende, mata, faz e acontece, faz isto e aquilo e aqueloutro.&#8221; E, portanto, \u00e9 esse o pa\u00eds que eu encontro.<\/p>\n<p>\u00c9 tamb\u00e9m um pa\u00eds que eu percebo que necessita de apresentar trof\u00e9us e eu tive sempre pouco jeito para trof\u00e9u e nessa medida entrei na clandestinidade durante algum tempo. Depois, mais tarde, entrei em contacto com as novas autoridades explicando o que se passava. Nesse aspeto tive uma rela\u00e7\u00e3o muito boa em termos de grande lealdade com o general Ramalho Eanes, que eu conhecia h\u00e1 muitos anos e com quem tinha uma rela\u00e7\u00e3o pessoal que mantenho at\u00e9 hoje. E que me disse: &#8216;\u00c9 melhor tu vires aqui apresentar-te ao Estado Maior, porque sen\u00e3o tenho de te mandar prender.&#8221; Eu j\u00e1 vivia nesta casa e a minha mulher ia sair junto \u00e0quela porta e eu disse-lhe: &#8216;Ent\u00e3o mande depressa porque eu vou sair para beber caf\u00e9.&#8217; Mas fic\u00e1mos assim e depois o general Eanes recebeu-me com toda a dignidade. Eu apresentei-me \u00e0 paisana e ele teve a categoria tamb\u00e9m de, sendo chefe de Estado-Maior, e apesar de me receber no Estado Maior do Ex\u00e9rcito, de estar, ele tamb\u00e9m, \u00e0 paisana. O que quer dizer que est\u00e1vamos em igualdade de circunst\u00e2ncia e isso s\u00e3o tamb\u00e9m tratamentos que nos dignificam a todos.<\/p>\n<p><strong>Por tudo isto que fal\u00e1mos at\u00e9 agora, v\u00ea motivos para comemorar o 25 de Novembro? Entende que o pa\u00eds tenha motivos para assinalar o dia desta forma?<\/strong><\/p>\n<p>Aquilo que haveria para celebrar e aquilo que eu entendo que se deve celebrar s\u00e3o os grandes valores da humanidade. Qual \u00e9 o primeiro grande valor? Do meu ponto de vista, a Justi\u00e7a. Porque n\u00e3o h\u00e1 liberdade sem Justi\u00e7a. O 25 de Abril introduziu um regime de Justi\u00e7a. De justi\u00e7a social e de justi\u00e7a de direitos individuais, um dos quais \u00e9 o da liberdade. Outro dos grandes valores \u00e9 o direito \u00e0 palavra, \u00e0 express\u00e3o, que \u00e9 tamb\u00e9m do 25 de Abril. De maneira que todos os grandes direitos, aquilo que n\u00f3s podemos considerar que s\u00e3o os direitos naturais, foram assumidos no 25 de Abril de 1974. Que direitos naturais a mais foram adquiridos no 25 de Novembro? Nenhum. A n\u00e3o ser o direito do mercado do lucro, da privatiza\u00e7\u00e3o da banca, ao fim e ao cabo o saque de fundos europeus. Mas isso n\u00e3o s\u00e3o direitos fundamentais. Agora os direitos fundamentais adquiridos e ganhos no 25 de Abril&#8230; n\u00e3o vejo que haja qualquer um outro que tenha sido uma inova\u00e7\u00e3o do 25 de Novembro. E desafio qualquer um dos promotores destas celebra\u00e7\u00f5es a indicar o que \u00e9 que de novo ou o que \u00e9 que de verdadeiramente excecional os portugueses tiveram direito no 25 de Novembro de 1975?<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"Abandonou os Comandos em setembro do Ver\u00e3o Quente e quando o novembro chegou apanhou Carlos Matos Gomes fora&hellip;\n","protected":false},"author":2,"featured_media":165298,"comment_status":"","ping_status":"","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[8],"tags":[23642,27,28,34978,15,16,14,25,26,21,22,12,13,19,20,52,32,23,24,33,17,18,29,30,31],"class_list":{"0":"post-165297","1":"post","2":"type-post","3":"status-publish","4":"format-standard","5":"has-post-thumbnail","7":"category-principais-noticias","8":"tag-25-de-novembro","9":"tag-breaking-news","10":"tag-breakingnews","11":"tag-comemoracoes-do-25-de-novembro","12":"tag-featured-news","13":"tag-featurednews","14":"tag-headlines","15":"tag-latest-news","16":"tag-latestnews","17":"tag-main-news","18":"tag-mainnews","19":"tag-news","20":"tag-noticias","21":"tag-noticias-principais","22":"tag-noticiasprincipais","23":"tag-politica","24":"tag-portugal","25":"tag-principais-noticias","26":"tag-principaisnoticias","27":"tag-pt","28":"tag-top-stories","29":"tag-topstories","30":"tag-ultimas","31":"tag-ultimas-noticias","32":"tag-ultimasnoticias"},"share_on_mastodon":{"url":"https:\/\/pubeurope.com\/@pt\/115613002949418770","error":""},"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/165297","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=165297"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/165297\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/media\/165298"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=165297"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=165297"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=165297"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}