{"id":168807,"date":"2025-11-28T23:07:51","date_gmt":"2025-11-28T23:07:51","guid":{"rendered":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/168807\/"},"modified":"2025-11-28T23:07:51","modified_gmt":"2025-11-28T23:07:51","slug":"1-700-anos-do-concilio-de-niceia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/168807\/","title":{"rendered":"1.700 anos do Conc\u00edlio de Niceia"},"content":{"rendered":"<p>&#8220;N\u00e3o quero esquecer que nesta vossa terra foram celebrados os primeiros oito Conc\u00edlios Ecum\u00eanicos. Este ano comemora-se o anivers\u00e1rio dos 1700 anos do Primeiro Conc\u00edlio de Niceia, \u00abmarco no caminho da Igreja e tamb\u00e9m de toda a humanidade\u00bb, um acontecimento sempre atual (&#8230;). Em torno do S\u00edmbolo da f\u00e9, a Igreja em Niceia reencontrou a unidade&#8221;. (Le\u00e3o XIV na Catedral do Esp\u00edrito Santo, Istambul)<\/p>\n<p><b>Vatican News<\/b><\/p>\n<p>Na tarde desta sexta-feira, 28 de novembro, o Papa Le\u00e3o XIV participa do Encontro Ecum\u00eanico de Ora\u00e7\u00e3o junto \u00e0s escava\u00e7\u00f5es arqueol\u00f3gicas da antiga Bas\u00edlica de S\u00e3o Ne\u00f3fito na antiga Niceia, atual \u00cdznik. No contexto das celebra\u00e7\u00f5es dos 1.700 anos do Conc\u00edlio de Niceia, repropomos o texto de autoria do cardeal Kurt Koch, prefeito do Dicast\u00e9rio para a promo\u00e7\u00e3o da unidade dos crist\u00e3os, publicado no L&#8217;Osservatore Romano em 5 de fevereiro de 2025.<\/p>\n<p>&#8220;Em pleno Jubileu 2025 \u2014 Ano Santo proclamado pelo Papa Francisco e destinado a reavivar a esperan\u00e7a crist\u00e3 \u2014 celebrar-se-\u00e1 tamb\u00e9m o 1700\u00ba anivers\u00e1rio do primeiro Conc\u00edlio Ecum\u00e9nico da hist\u00f3ria da Igreja, realizado em Niceia em 325. Este anivers\u00e1rio tem importantes dimens\u00f5es ecum\u00e9nicas, discern\u00edveis j\u00e1 pelo facto de o Santo Padre ter expressado o desejo de se deslocar a Niceia para celebrar esta comemora\u00e7\u00e3o juntamente com o Patriarca ecum\u00e9nico, Bartolomeu\u00a0I. Tamb\u00e9m a Comiss\u00e3o \u201cF\u00e9 e Constitui\u00e7\u00e3o\u201d do Conselho Ecum\u00e9nico das Igrejas se est\u00e1 a preparar para esta celebra\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>A profiss\u00e3o comum da f\u00e9 crist\u00e3<br \/>\n\u00a0 <\/p>\n<p>De significado ecum\u00e9nico s\u00e3o, antes de mais, as quest\u00f5es doutrinais que o Conc\u00edlio abordou, resumidas na \u201cDeclara\u00e7\u00e3o dos 318 Padres\u201d. Com ela, os Padres professaram a sua f\u00e9 \u00abnum s\u00f3 Deus, Pai omnipotente, criador de todas as coisas vis\u00edveis e invis\u00edveis. E num s\u00f3 Senhor, Jesus Cristo, Filho de Deus, gerado, unig\u00e9nito, pelo Pai, ou seja pela subst\u00e2ncia do Pai, Deus de Deus, luz da luz, Deus verdadeiro de Deus verdadeiro, gerado n\u00e3o criado, da mesma subst\u00e2ncia do Pai, mediante o qual todas as coisas foram feitas, tanto as que est\u00e3o no c\u00e9u, como as que est\u00e3o na terra\u00bb. E na carta do S\u00ednodo aos Eg\u00edpcios, os Padres anunciaram que o primeiro verdadeiro objeto de estudo era o facto de que \u00c1rio e os seus seguidores fossem inimigos da f\u00e9 e contr\u00e1rios \u00e0 lei, e afirmaram por isso que tinham \u00abdecidido unanimemente condenar com an\u00e1tema a sua doutrina contr\u00e1ria \u00e0 f\u00e9, as suas afirma\u00e7\u00f5es e as suas descri\u00e7\u00f5es blasfemas, com as quais ultrajava o Filho de Deus\u00bb.<\/p>\n<p>Estas afirma\u00e7\u00f5es tra\u00e7am o contexto do credo formulado pelo Conc\u00edlio, que professa a f\u00e9 em Jesus Cristo como Filho de Deus, \u00abconsubstancial ao Pai\u00bb. O pano de fundo hist\u00f3rico \u00e9 o de uma violenta disputa que eclodiu no cristianismo da \u00e9poca, especialmente na parte oriental do imp\u00e9rio romano; da\u00ed emerge que, no in\u00edcio do s\u00e9culo\u00a0IV, a quest\u00e3o cristol\u00f3gica tinha-se tornado o problema crucial do monote\u00edsmo crist\u00e3o. A controv\u00e9rsia girava principalmente em torno da quest\u00e3o de como conciliar a profiss\u00e3o de f\u00e9 crist\u00e3 em Jesus Cristo como Filho de Deus com a f\u00e9 igualmente crist\u00e3 num \u00fanico Deus, no sentido da confiss\u00e3o monote\u00edsta.<\/p>\n<p>O te\u00f3logo alexandrino \u00c1rio, em particular, preconizava um monote\u00edsmo rigoroso, de acordo com o pensamento filos\u00f3fico da \u00e9poca e, para manter um monote\u00edsmo de tal modo r\u00edgido, exclu\u00eda Jesus Cristo do conceito de Deus. Nesta perspetiva, Cristo n\u00e3o podia ser \u00abFilho de Deus\u00bb no verdadeiro sentido da palavra, mas apenas um ser interm\u00e9dio utilizado por Deus para a cria\u00e7\u00e3o do mundo e para a sua rela\u00e7\u00e3o com os homens. Os Padres do Conc\u00edlio rejeitaram este modelo de monote\u00edsmo filos\u00f3fico r\u00edgido difundido por \u00c1rio, opondo-lhe a cren\u00e7a segundo a qual Jesus Cristo, como Filho de Deus, \u00e9 \u00abconsubstancial ao Pai\u00bb.<\/p>\n<p>Com a palavra \u201chomoousios\u201d, os Padres conciliares queriam exprimir o mist\u00e9rio mais profundo de Jesus Cristo, que a Sagrada Escritura testemunha como o Filho fiel do Pai, ao qual est\u00e1 intimamente unido na ora\u00e7\u00e3o. De facto, \u00e9 na ora\u00e7\u00e3o que Jesus aparece mais claramente como Filho do Pai celeste. No Novo Testamento \u00e9 sobretudo o evangelista Lucas que apresenta Jesus na sua vida terrena como o Filho de Deus em constante ora\u00e7\u00e3o, que tem como foco existencial o di\u00e1logo com o Pai celeste e vive com Ele em profunda unidade. Jesus viveu tanto na ora\u00e7\u00e3o e da ora\u00e7\u00e3o que toda a sua vida e a sua obra podem ser definidas como uma \u00fanica ora\u00e7\u00e3o. Sem esta atitude orante, n\u00e3o se pode, de facto, compreender a figura de Jesus Cristo. Foi precisamente isto que intu\u00edram com sensibilidade os Padres do Conc\u00edlio de Niceia, usando o termo \u201chomoousios\u201d para oferecer a interpreta\u00e7\u00e3o correta da ora\u00e7\u00e3o de Jesus e a leitura mais profunda da sua vida e da sua morte, marcadas em cada momento pelo di\u00e1logo com o Pai.<\/p>\n<p>Com a palavra \u201chomoousios\u201d, o Conc\u00edlio de Niceia n\u00e3o \u201chelenizou\u201d de modo algum a f\u00e9 b\u00edblica, submetendo-a a uma filosofia estranha, mas captou o incomparavelmente novo que se tinha tornado vis\u00edvel na ora\u00e7\u00e3o de Jesus dirigida ao Pai. Foi antes \u00c1rio que conformou a f\u00e9 crist\u00e3 ao pensamento filos\u00f3fico de ent\u00e3o, enquanto o Conc\u00edlio de Niceia retomou a filosofia da \u00e9poca para exprimir o que era carater\u00edstico da f\u00e9 crist\u00e3. No credo de Niceia, o Conc\u00edlio exprime-se novamente como Pedro e com Pedro em Cesareia de Filipe: \u00abTu \u00e9s o Cristo, o Filho de Deus vivo\u00bb (Mt\u00a016, 16).<\/p>\n<p>O credo cristol\u00f3gico do Conc\u00edlio tornou-se a base da f\u00e9 crist\u00e3 comum. O Conc\u00edlio reveste-se de uma grande import\u00e2ncia, sobretudo porque teve lugar numa \u00e9poca em que a cristandade ainda n\u00e3o estava dilacerada pelas numerosas divis\u00f5es que se produziriam mais tarde. O credo niceno \u00e9 comum n\u00e3o s\u00f3 \u00e0s Igrejas orientais, \u00e0s Igrejas ortodoxas e \u00e0 Igreja cat\u00f3lica, mas tamb\u00e9m \u00e0s Comunidades eclesiais nascidas da Reforma; por isso, a sua relev\u00e2ncia ecum\u00e9nica n\u00e3o deve ser subestimada. De facto, para restaurar a unidade da Igreja, \u00e9 necess\u00e1rio que haja acordo sobre o conte\u00fado essencial da f\u00e9, n\u00e3o s\u00f3 entre as Igrejas e as Comunidades eclesiais de hoje, mas tamb\u00e9m com a Igreja do passado e, em particular, com a sua origem apost\u00f3lica. A unidade da Igreja baseia-se na f\u00e9 apost\u00f3lica, que no batismo \u00e9 transmitida e confiada a cada novo membro do Corpo de Cristo.<\/p>\n<p>O fundamento do ecumenismo espiritual cristol\u00f3gico<br \/>\n\u00a0 <\/p>\n<p>Uma vez que a unidade s\u00f3 pode ser reencontrada na f\u00e9 comum, a confiss\u00e3o cristol\u00f3gica do Conc\u00edlio de Niceia revela-se o fundamento do ecumenismo espiritual. Isto \u00e9 obviamente um pleonasmo. O ecumenismo crist\u00e3o ou \u00e9 espiritual ou n\u00e3o \u00e9 ecumenismo. Eis o motivo pelo qual o Decreto sobre o ecumenismo do Conc\u00edlio Vaticano\u00a0II\u00a0define o ecumenismo espiritual como \u00aba alma de todo o movimento ecum\u00e9nico\u00bb (UR\u00a08). Isto era j\u00e1 evidente nos primeiros tempos do movimento ecum\u00e9nico, com a introdu\u00e7\u00e3o da Semana de ora\u00e7\u00e3o pela unidade dos crist\u00e3os, ela pr\u00f3pria uma iniciativa ecum\u00e9nica. O movimento ecum\u00e9nico foi desde as suas origens um movimento de ora\u00e7\u00e3o. Foi a ora\u00e7\u00e3o pela unidade dos crist\u00e3os que abriu o caminho ao movimento ecum\u00e9nico.<\/p>\n<p>A centralidade da ora\u00e7\u00e3o evidencia o facto de que o empenho ecum\u00e9nico \u00e9, antes de mais, uma tarefa espiritual, baseada na convic\u00e7\u00e3o de que o Esp\u00edrito Santo completar\u00e1 a obra ecum\u00e9nica que iniciou e nos mostrar\u00e1 o caminho. Isto \u00e9 particularmente verdadeiro quando o ecumenismo espiritual \u00e9 concebido e implementado como ecumenismo cristol\u00f3gico, do qual o Conc\u00edlio de Niceia representa um fundamento s\u00f3lido. O cora\u00e7\u00e3o do ecumenismo crist\u00e3o reside, de facto, na convers\u00e3o comum de todos os crist\u00e3os e das Igrejas a Jesus Cristo, no qual a unidade j\u00e1 nos foi dada. O ecumenismo crist\u00e3o s\u00f3 pode progredir de forma cred\u00edvel se os crist\u00e3os regressarem juntos \u00e0 fonte da f\u00e9, que s\u00f3 pode ser encontrada em Jesus Cristo, como professado pelos Padres conciliares em Niceia.<\/p>\n<p>Deste modo, o ecumenismo crist\u00e3o corresponde mais profundamente \u00e0 vontade do Senhor, que como todos crist\u00e3os, na sua ora\u00e7\u00e3o sacerdotal, rezou pela unidade dos seus disc\u00edpulos: \u00abpara que todos sejam um s\u00f3\u00bb (Jo\u00a017, 21). O que \u00e9 not\u00e1vel na ora\u00e7\u00e3o de Jesus \u00e9 que ele n\u00e3o ordena a unidade aos seus disc\u00edpulos, nem a exige; antes, reza por ela dirigindo-se ao Pai celeste. Esta ora\u00e7\u00e3o revela em que consiste e em que deve consistir a busca ecum\u00e9nica dirigida a restaurar a unidade \u00e0 luz da f\u00e9. O ecumenismo crist\u00e3o n\u00e3o pode ser outra coisa sen\u00e3o a ades\u00e3o de todos os crist\u00e3os \u00e0 ora\u00e7\u00e3o sacerdotal do Senhor, e torna-se isso quando os crist\u00e3os fazem seu, no seu \u00edntimo, o forte desejo de unidade. Se o ecumenismo n\u00e3o se limita a uma dimens\u00e3o interpessoal e filantr\u00f3pica, mas tem uma inspira\u00e7\u00e3o e um fundamento verdadeiramente cristol\u00f3gicos, n\u00e3o pode ser outra coisa sen\u00e3o a participa\u00e7\u00e3o na ora\u00e7\u00e3o sacerdotal de Jesus. O significado mais profundo do ecumenismo espiritual como ecumenismo cristol\u00f3gico \u00e9 que todos n\u00f3s nos deixamos envolver no movimento de ora\u00e7\u00e3o ao Pai celeste, dirigido por Jesus, e assim nos tornamos um s\u00f3. A morada interior da unidade dos crist\u00e3os s\u00f3 pode ser a ora\u00e7\u00e3o de Jesus.<\/p>\n<p>A atualidade duradoura do Conc\u00edlio<br \/>\n\u00a0 <\/p>\n<p>Se tivermos em conta estes diferentes aspetos da confiss\u00e3o cristol\u00f3gica do Conc\u00edlio de Niceia, torna-se clara, como imperativo importante do ecumenismo de hoje, a necessidade de celebrar o seu 1700\u00ba anivers\u00e1rio na comunh\u00e3o ecum\u00e9nica entre todas as Igrejas crist\u00e3s, de redescobrir e valorizar novamente a sua confiss\u00e3o de f\u00e9 em Jesus Cristo. Esta necessidade imp\u00f5e-se tamb\u00e9m por outra raz\u00e3o. Se olharmos com honestidade para o contexto atual da f\u00e9 nas nossas latitudes, temos de reconhecer que nos encontramos numa situa\u00e7\u00e3o semelhante \u00e0 do s\u00e9culo\u00a0IV, pois estamos a assistir a um forte ressurgimento das tend\u00eancias arianas.<\/p>\n<p>J\u00e1 nos anos 90, o cardeal Joseph Ratzinger via num \u201cnovo arianismo\u201d o verdadeiro desafio que o cristianismo contempor\u00e2neo enfrentava. O esp\u00edrito do arianismo \u00e9 percet\u00edvel sobretudo no facto de, ainda hoje, n\u00e3o poucos crist\u00e3os serem sens\u00edveis a todas as dimens\u00f5es humanas da figura de Jesus de Nazar\u00e9, mas t\u00eam problemas perante a confiss\u00e3o cristol\u00f3gica segundo a qual Jesus de Nazar\u00e9 \u00e9 o Filho unig\u00e9nito do Pai Celestial e, portanto, perante a f\u00e9 cristol\u00f3gica da Igreja. Hoje, muitas vezes, mesmo na Igreja e no ecumenismo, \u00e9 muito dif\u00edcil discernir no homem Jesus o rosto do pr\u00f3prio Deus e confess\u00e1-lo como Filho de Deus, porque se tende a v\u00ea-lo apenas como um ser humano, embora sumamente bom e excecional.<\/p>\n<p>Mas se Jesus, como acreditam muitos crist\u00e3os de hoje, fosse apenas um homem que viveu h\u00e1 dois mil anos, ent\u00e3o estaria irremediavelmente relegado para o passado, e s\u00f3 a nossa mem\u00f3ria humana poderia traz\u00ea-lo de volta ao presente, mais ou menos claramente. Nesse caso, Jesus n\u00e3o poderia ser o \u00fanico Filho de Deus, no qual o pr\u00f3prio Deus est\u00e1 presente entre n\u00f3s. S\u00f3 se for verdadeira a confiss\u00e3o da Igreja segundo a qual o pr\u00f3prio Deus se fez homem e Jesus Cristo \u00e9 verdadeiro Deus e verdadeiro homem e, por isso, participa da presen\u00e7a de Deus, que abra\u00e7a todos os tempos \u00e9 que podemos confess\u00e1-lo hoje como \u00abconsubstancial ao Pai\u00bb.<\/p>\n<p>A f\u00e9 crist\u00e3 mant\u00e9m-se ou decai hoje com a confiss\u00e3o cristol\u00f3gica do Conc\u00edlio de Niceia. Por isso, ocupar-se deste Conc\u00edlio \u00e9 importante, n\u00e3o apenas a n\u00edvel hist\u00f3rico. Pelo contr\u00e1rio, o seu credo continua a ser atual, mesmo e sobretudo na situa\u00e7\u00e3o da f\u00e9 de hoje. E reavivar a sua confiss\u00e3o cristol\u00f3gica representa um desafio que deve ser assumido em comunh\u00e3o ecum\u00e9nica.<\/p>\n<p>A procura de uma data comum da P\u00e1scoa<br \/>\n\u00a0 <\/p>\n<p>O Conc\u00edlio de Niceia \u00e9 tamb\u00e9m significativo do ponto de vista ecum\u00e9nico porque, para al\u00e9m da confiss\u00e3o cristol\u00f3gica, tratou de quest\u00f5es disciplinares e can\u00f3nicas, que, expostas em vinte c\u00e2nones, fornecem uma boa panor\u00e2mica dos problemas e das preocupa\u00e7\u00f5es pastorais da Igreja no in\u00edcio do s\u00e9culo\u00a0IV. Trata-se de quest\u00f5es que dizem respeito ao clero, a algumas disputas jurisdicionais, a casos de apostasia, \u00e0 situa\u00e7\u00e3o dos novacianos, os chamados \u201cpuros\u201d, e os seguidores de Paulo de Sam\u00f3sata.<\/p>\n<p>A quest\u00e3o pastoral mais importante era a relativa \u00e0 data da P\u00e1scoa, o que demonstra que esta j\u00e1 era controversa na Igreja primitiva e que existiam datas diferentes: sobretudo na \u00c1sia Menor, os crist\u00e3os celebravam a P\u00e1scoa em simult\u00e2neo com a P\u00e1scoa judaica, no dia 14 de Nisan, e eram por isso conhecidos como quartodecimanos. Em contrapartida, os crist\u00e3os chamados protopasquistas, sobretudo na S\u00edria e na Mesopot\u00e2mia, celebravam a P\u00e1scoa no domingo seguinte \u00e0 P\u00e1scoa judaica. Perante esta situa\u00e7\u00e3o, \u00e9 m\u00e9rito do Conc\u00edlio de Niceia ter encontrado uma regra uniforme, expressa na \u201cCarta aos Eg\u00edpcios\u201d: \u00abComo boa not\u00edcia, informamos-vos tamb\u00e9m do acordo sobre a Santa P\u00e1scoa: gra\u00e7as \u00e0s vossas ora\u00e7\u00f5es, chegou-se a uma feliz solu\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m sobre este ponto\u00bb. Isto significava que a festa da P\u00e1scoa passaria a ser celebrada de acordo com o que acontecia entre os romanos.<\/p>\n<p>Na hist\u00f3ria do cristianismo, surgiu uma nova situa\u00e7\u00e3o no s\u00e9culo\u00a0XVI, quando o Papa Greg\u00f3rio\u00a0XIII, com uma reforma fundamental do calend\u00e1rio, introduziu o chamado calend\u00e1rio gregoriano, que prev\u00ea a celebra\u00e7\u00e3o da P\u00e1scoa no domingo a seguir ao primeiro plenil\u00fanio da primavera. Enquanto as Igrejas do Ocidente calculam desde ent\u00e3o a data da P\u00e1scoa de acordo com este calend\u00e1rio, as Igrejas do Oriente continuam a utilizar maioritariamente o calend\u00e1rio juliano, que foi tamb\u00e9m a base do Conc\u00edlio de Niceia.<\/p>\n<p>Apesar de, entretanto, terem sido discutidas v\u00e1rias propostas para uma data comum da P\u00e1scoa, a quest\u00e3o ainda n\u00e3o foi resolvida. J\u00e1 o Conc\u00edlio Vaticano\u00a0II\u00a0se deteve neste urgente desafio pastoral num ap\u00eandice \u00e0 Constitui\u00e7\u00e3o sobre a Sagrada Liturgia \u201cSacrosanctum Concilium\u201d, promulgada em 1963, declarando que pretendia ter \u00abem devida conta o desejo de muitos de que a festa da P\u00e1scoa seja atribu\u00edda a um domingo espec\u00edfico e de adotar um calend\u00e1rio fixo\u00bb. O Conc\u00edlio declarou-se favor\u00e1vel \u00aba que a festa da P\u00e1scoa seja atribu\u00edda a um domingo espec\u00edfico do calend\u00e1rio gregoriano, desde que haja o consentimento dos interessados, especialmente dos irm\u00e3os separados da comunh\u00e3o com a S\u00e9 Apost\u00f3lica\u00bb. O Papa Francisco manifestou v\u00e1rias vezes o mesmo esp\u00edrito de abertura.<\/p>\n<p>O 1700\u00ba anivers\u00e1rio do Conc\u00edlio de Niceia oferece uma ocasi\u00e3o especial para retomar a quest\u00e3o da data da P\u00e1scoa, tanto mais que, em 2025, ela coincidir\u00e1 no mesmo dia, 20 de abril, tanto para as Igrejas do Oriente como para as Igrejas do Ocidente. \u00c9, pois, compreens\u00edvel que se tenha despertado na comunidade ecum\u00e9nica o desejo de aproveitar o grande anivers\u00e1rio do Conc\u00edlio como uma oportunidade para retomar e intensificar os esfor\u00e7os para encontrar uma data comum para a P\u00e1scoa.<\/p>\n<p>Estilo sinodal<br \/>\n\u00a0 <\/p>\n<p>Numa perspetiva ecum\u00e9nica, o Conc\u00edlio de Niceia tem tamb\u00e9m uma particular relev\u00e2ncia, porque documenta o modo como foram discutidas e decididas em estilo sinodal a ent\u00e3o acesa disputa sobre a confiss\u00e3o cristol\u00f3gica ortodoxa e a quest\u00e3o pastoral-disciplinar da data da P\u00e1scoa. O historiador da Igreja Eus\u00e9bio de Cesareia, que foi ele pr\u00f3prio um dos Padres conciliares e viu no Conc\u00edlio de Niceia um novo Pentecostes, assinalou expressamente que os primeiros servos de Deus se reuniram no Conc\u00edlio \u00abde todas as Igrejas de toda a Europa, \u00c1frica e \u00c1sia\u00bb. Pode-se, portanto, considerar o Conc\u00edlio de Niceia como o in\u00edcio, a n\u00edvel da Igreja universal, do modo sinodal de discutir quest\u00f5es e tomar decis\u00f5es.<\/p>\n<p>O 1700\u00ba anivers\u00e1rio do Conc\u00edlio de Niceia deveria, portanto, ser visto tamb\u00e9m como um convite e um desafio a aprender com a hist\u00f3ria e a aprofundar o pensamento sinodal, ancorando-o na vida da Igreja. A atual revitaliza\u00e7\u00e3o da dimens\u00e3o sinodal da Igreja n\u00e3o \u00e9 uma novidade; pelo contr\u00e1rio, pode ser unida \u00e0s tradi\u00e7\u00f5es sinodais da Igreja primitiva. J\u00e1 o famoso Padre da igreja Jo\u00e3o Cris\u00f3stomo explicava que \u201cIgreja\u201d \u00e9 um nome \u00abque indica um caminho comum\u00bb e que Igreja e S\u00ednodo s\u00e3o, portanto, \u00absin\u00f3nimos\u00bb.<\/p>\n<p>Neste dom\u00ednio, podemos tamb\u00e9m aprender muito uns com os outros nos di\u00e1logos ecum\u00e9nicos, uma vez que a sinodalidade se desenvolveu de formas diferentes nas v\u00e1rias Igrejas e Comunidades eclesiais. Demonstraram-no, por exemplo, os Simp\u00f3sios ecum\u00e9nicos internacionais organizados pelo Instituto para os Estudos Ecum\u00e9nicos da Pontif\u00edcia Universidade de S. Tom\u00e1s de Aquino, em prepara\u00e7\u00e3o para o S\u00ednodo dos bispos, em torno de conceitos e experi\u00eancias relativas \u00e0 sinodalidade nas Igrejas crist\u00e3s no Oriente e no Ocidente, e intitulados \u201c\u00c0 escuta do Oriente\u201d e \u201c\u00c0 escuta do Ocidente\u201d. Tais encontros demonstraram de forma significativa que a Igreja cat\u00f3lica pode enriquecer-se com o pensamento teol\u00f3gico e as experi\u00eancias de outras Igrejas no esfor\u00e7o de reavivar um estilo de vida sinodal e de refor\u00e7ar as estruturas correspondentes, e que o aprofundamento da dimens\u00e3o sinodal na teologia e na pr\u00e1tica da Igreja cat\u00f3lica representa um contributo importante que esta pode introduzir nos di\u00e1logos ecum\u00e9nicos, tamb\u00e9m em vista de uma compreens\u00e3o mais adequada da estreita liga\u00e7\u00e3o entre sinodalidade e primado.<\/p>\n<p>A dimens\u00e3o ecum\u00e9nica da sinodalidade foi tamb\u00e9m real\u00e7ada de modo particular na Assembleia geral do S\u00ednodo dos bispos. O Papa Francisco recordou v\u00e1rias vezes a interdepend\u00eancia entre a sinodalidade e o caminho ecum\u00e9nico, afirmando que o caminho sinodal empreendido pela Igreja cat\u00f3lica deve ser ecum\u00e9nico, tal como \u00e9 sinodal o caminho ecum\u00e9nico. O modo em que a sinodalidade \u00e9 apresentada e discutida na Igreja cat\u00f3lica ocorre, portanto, numa perspetiva ecum\u00e9nica.<\/p>\n<p>A autoridade da Igreja e do Estado<br \/>\n\u00a0 <\/p>\n<p>No entanto, h\u00e1 uma diferen\u00e7a fundamental que n\u00e3o deve ser negligenciada entre os esfor\u00e7os atuais destinados a revitalizar a sinodalidade e o Conc\u00edlio de Niceia. \u00c0 primeira vista pode parecer insignificante, mas a sua relev\u00e2ncia emerge sobretudo se a considerarmos numa perspetiva ecum\u00e9nica. Trata-se do facto hist\u00f3rico do Conc\u00edlio de Niceia ter sido convocado por uma autoridade estatal, mais precisamente pelo imperador Constantino. Constantino sentia que a disputa que tinha surgido sobre a confiss\u00e3o cristol\u00f3gica constitu\u00eda uma grande amea\u00e7a ao seu projeto de consolidar a unidade do imp\u00e9rio sobre o fundamento da unidade da f\u00e9 crist\u00e3. Na possibilidade de uma divis\u00e3o iminente na Igreja, ele via principalmente um problema pol\u00edtico; no entanto, era vision\u00e1rio o suficiente para perceber que a unidade da Igreja tinha de ser resolvida n\u00e3o de modo pol\u00edtico, mas eclesi\u00e1stico-teol\u00f3gico. Para reconciliar as comunidades ent\u00e3o em conflito, convocou o Primeiro Conc\u00edlio Ecum\u00e9nico na cidade de Niceia, na \u00c1sia Menor, perto da resid\u00eancia imperial de Nicom\u00e9dia.<\/p>\n<p>Uma das consequ\u00eancias infelizes desta abordagem \u00e9 o facto de, depois de Constantino, os imperadores, em particular o seu filho Const\u00e2ncio, terem seguido uma pol\u00edtica decisiva de distanciamento do credo do Conc\u00edlio de Niceia e promovido novamente a heresia de \u00c1rio. Isto significa que a decis\u00e3o do Conc\u00edlio de Niceia n\u00e3o p\u00f4s fim \u00e0 disputa sobre a compatibilidade entre a profiss\u00e3o de f\u00e9 na divindade de Jesus Cristo e a convic\u00e7\u00e3o monote\u00edsta do s\u00e9culo\u00a0IV, mas reacendeu a controv\u00e9rsia sobre a natureza de Jesus Cristo como pertencente a Deus ou \u00e0 cria\u00e7\u00e3o. Estes desenvolvimentos impeliram inclusive Bas\u00edlio, o conhecido bispo de Cesareia, a comparar a situa\u00e7\u00e3o ap\u00f3s o Conc\u00edlio de Niceia com uma batalha naval noturna, em que todos combatiam contra todos, chegando \u00e0 conclus\u00e3o que, em consequ\u00eancia das controv\u00e9rsias conciliares, surgiriam na Igreja \u00abuma desordem e uma confus\u00e3o terr\u00edveis\u00bb e \u00abtagarelices incessantes\u00bb.<\/p>\n<p>De um ponto de vista ecum\u00e9nico, \u00e9 importante notar que, devido a este contexto hist\u00f3rico, emergiram na Igreja no Oriente e na Igreja no Ocidente diferentes conceitos da rela\u00e7\u00e3o entre a Igreja e o Estado. A Igreja no Ocidente teve de aprender, de uma longa e complicada hist\u00f3ria, que a maneira adequada de dar forma \u00e0 sua rela\u00e7\u00e3o com o Estado \u00e9 fazer com que haja uma separa\u00e7\u00e3o entre os dois, apesar de manter uma parceria. Na Igreja do Oriente, pelo contr\u00e1rio, difundiu-se amplamente como modelo uma liga\u00e7\u00e3o estreita entre o governo estatal e a hierarquia eclesi\u00e1stica, geralmente indicada como \u201csinfonia entre Estado e Igreja\u201d, particularmente evidente nos conceitos ortodoxos de autocefalia e territ\u00f3rio can\u00f3nico.<\/p>\n<p>As diferentes tradi\u00e7\u00f5es na configura\u00e7\u00e3o da rela\u00e7\u00e3o entre Igreja e Estado estiveram frequentemente no pano de fundo dos conflitos verificados ao longo da hist\u00f3ria entre a Igreja do Oriente e a Igreja do Ocidente, e tiveram um impacto significativo tamb\u00e9m nas rela\u00e7\u00f5es ecum\u00e9nicas. No entanto, estes integram os temas at\u00e9 agora menos debatidos nos di\u00e1logos ecum\u00e9nicos. Por conseguinte, ser\u00e1 crucial coloc\u00e1-los entre os primeiros pontos da ordem do dia ecum\u00e9nico, sobretudo tendo em vista o grande anivers\u00e1rio do Conc\u00edlio de Niceia em 2025.<\/p>\n<p>Por conseguinte, o 1700\u00ba anivers\u00e1rio do Conc\u00edlio de Niceia n\u00e3o s\u00f3 representa uma oportunidade frutuosa para renovar, na comunh\u00e3o ecum\u00e9nica, a profiss\u00e3o de f\u00e9 em Jesus Cristo, Filho consubstancial ao Pai, mas constitui tamb\u00e9m um desafio importante, ou seja, o de abordar e discutir com clareza as problem\u00e1ticas do passado que, ainda em aberto, n\u00e3o foram suficientemente afrontadas nos debates ecum\u00e9nicos realizados at\u00e9 agora. Se tanto a oportunidade como o desafio forem igualmente aproveitados, o 1700\u00ba anivers\u00e1rio do Conc\u00edlio de Niceia poder\u00e1 revelar-se verdadeiramente um importante ponto de viragem para o futuro do ecumenismo&#8221;.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"&#8220;N\u00e3o quero esquecer que nesta vossa terra foram celebrados os primeiros oito Conc\u00edlios Ecum\u00eanicos. 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