{"id":170300,"date":"2025-11-30T08:40:58","date_gmt":"2025-11-30T08:40:58","guid":{"rendered":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/170300\/"},"modified":"2025-11-30T08:40:58","modified_gmt":"2025-11-30T08:40:58","slug":"marie-ndiaye-elegantissimo-drama-observador","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/170300\/","title":{"rendered":"Marie Ndiaye: elegant\u00edssimo drama \u2013 Observador"},"content":{"rendered":"<p>Marie Ndiaye lan\u00e7a-se \u00e0 prosa como quem mergulha. Em Ladivine, terceiro livro da autora publicado em Portugal (seguindo-se a Tr\u00eas Mulheres Poderosas, pela Texto Editores, em 2010, e a A Vingan\u00e7a \u00e9 Minha, pela Alfaguara, em 2024), temos uma narrativa que pega nesse territ\u00f3rio t\u00e3o imensamente f\u00e9rtil em literatura, que \u00e9 a fam\u00edlia \u2013 assunto que bastaria, ali\u00e1s, para se fazer a literatura inteira.<\/p>\n<p>Aqui, temos uma hist\u00f3ria familiar agarrada a segredos \u2014 hist\u00f3ria que, durante grande parte da narrativa, se erige precisamente na manuten\u00e7\u00e3o e no sussurrar desses mist\u00e9rios. A tens\u00e3o fica evidente no enredo, mas vai al\u00e9m disso, e marca a psique das personagens. Ao longo da leitura, acompanhamos a rela\u00e7\u00e3o que a agora Clarisse Rivi\u00e8re \u2013 outrora Malinka \u2013 tem com a m\u00e3e, Ladivine, por quem foi criada a s\u00f3s na periferia de Paris. Clarisse tem agora uma filha e mudou de vida e de nome: ao apartar-se das suas ra\u00edzes, garantiu que n\u00e3o estas chegavam at\u00e9 \u00e0 sua nova vida, e alimenta o seu passado com migalhas, visitando a m\u00e3e uma vez por m\u00eas, \u00e0s escondidas do marido \u2013 tamb\u00e9m a m\u00e3e lhe desconhece o presente. \u00c9 esta rela\u00e7\u00e3o entre m\u00e3e e filha que estrutura o romance, ao ser este o elemento que traz para a narrativa elementos que v\u00e3o al\u00e9m da descri\u00e7\u00e3o de factos, ou seja, do delinear dos eventos. Pela hist\u00f3ria de ditos e n\u00e3o-ditos, tratam-se as subtilezas emocionais de ambas, num cen\u00e1rio em que se sublinham as quest\u00f5es de identidade, perten\u00e7a, mem\u00f3ria e at\u00e9 heran\u00e7a emocional. \u00c9 na forma como a autora tece tudo isto, como quem cose pontos com precis\u00e3o cir\u00fargica, que se entrela\u00e7am os mundos interiores com os contextos familiares e sociais, numa articula\u00e7\u00e3o que \u00e9 apresentada ao leitor de forma escorreita.<\/p>\n<p>Ndiaye apresenta Ladivine de forma quase cl\u00ednica. Logo nas primeiras p\u00e1ginas, o leitor leva com um retrato panor\u00e2mico, que n\u00e3o apenas evidencia o seu estado actual de vida, mas tamb\u00e9m traz para a narrativa a rela\u00e7\u00e3o conflituosa com o passado. Al\u00e9m disso, temos acesso a uma radiografia do que tem por dentro, e o segredo que oculta, a vida dupla, aparece como parte constitutiva de quem \u00e9. A forma como as duas vidas coexistem, com ela a transformar-se noutra \u2013 em si \u2013 a partir do momento em que se mete no comboio em direc\u00e7\u00e3o \u00e0 m\u00e3e, mostra o jogo de conjuga\u00e7\u00e3o de hist\u00f3rias, de fam\u00edlias. A rela\u00e7\u00e3o entre Ladivine e Malinka mostra o efeito que as palavras de quem cuida t\u00eam em quem \u00e9 cuidado, ou seja, de que forma uma m\u00e3e molda emocional e socialmente uma filha. N\u00e3o \u00e9 que haja, entre as duas, na prosa que nos \u00e9 dada, di\u00e1logos expansivos ou confrontos expl\u00edcitos; em vez disso, s\u00e3o os sil\u00eancios e as pequenas transgress\u00f5es quotidianas que evidenciam perante o leitor a tens\u00e3o. Com uma m\u00e3o segura, Ndiaye vai mostrando de que forma \u00e9 que gestos contidos carregam informa\u00e7\u00e3o, de que forma pausas t\u00eam mais informa\u00e7\u00e3o emocional do que qualquer discurso expl\u00edcito, e \u00e9 nesta subtileza \u2013 nesta eleg\u00e2ncia \u2013 que a autora mais brilha, mais voa.<\/p>\n<p>        <img src=\"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-content\/uploads\/2025\/11\/ladivine-marie-ndiaye-capa.webp.jpeg\" alt=\"\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone\" onload=\"this.parentElement.classList.remove('spinner')\" onerror=\"this.parentElement.classList.remove('spinner')\" width=\"427\" height=\"661\"\/>    <\/p>\n<p><strong>T\u00edtulo:<\/strong> \u201cLadivine\u201d<br \/><strong>Autora:<\/strong> Marie Ndiaye<br \/><strong>Tradu\u00e7\u00e3o:<\/strong> Catarina Ferreira de Almeida<br \/><strong>Editora:<\/strong> Alfaguara<br \/><strong>P\u00e1ginas:<\/strong> 416<\/p>\n<p>Com Ladivine a trabalhar como empregada dom\u00e9stica, e com Malinka a ter feito uma esp\u00e9cie de movimento social ascendente, surge a quest\u00e3o da vergonha do trabalho e das origens da m\u00e3e \u2013 e, ao mesmo tempo, uma certa repulsa pela possibilidade de voltar a outra vida e a outra percep\u00e7\u00e3o sobre si. Ora, no momento em que a segunda Ladivine cresce (a filha de Malinka), passa a existir uma busca da sua parte pelas quest\u00f5es do seu passado, o que tamb\u00e9m serve para abrir os eixos da explora\u00e7\u00e3o identit\u00e1ria. Ainda assim, o leitor nunca se distancia de todos os movimentos que Malinka faz para, conscientemente, se distanciar do que foi a sua vida, mantendo esse passado \u00e0s escondidas at\u00e9 do marido (e, durante algum tempo, da pr\u00f3pria filha).<\/p>\n<p>Dividindo-se em tr\u00eas partes, o livro explora as v\u00e1rias ramifica\u00e7\u00f5es desta fam\u00edlia, deixando \u00e0 vista uma hist\u00f3ria infeliz de gente infeliz, n\u00e3o raras vezes a esconder quem \u00e9 para for\u00e7ar um outro lugar no mundo, com rep\u00fadio pela sua condi\u00e7\u00e3o. A rela\u00e7\u00e3o de Malinka com a m\u00e3e, por si s\u00f3, j\u00e1 tem elementos suficientes para explorar a condi\u00e7\u00e3o humana. N\u00e3o \u00e9 que a inf\u00e2ncia, passados tantos anos, lhe seja clara, mas a mem\u00f3ria ainda guarda o pequeno apartamento em que viviam as duas, assim como a posi\u00e7\u00e3o da m\u00e3e perante o mundo: mais escura do que as outras, limpava casas alheias, e vivia numa submiss\u00e3o constante. Malinka, filha dela e de um franc\u00eas branco que nunca conheceu, podia passar por branca e, por isso, dizia na escola \u00e0s amigas que a m\u00e3e era empregada. A sensa\u00e7\u00e3o de rep\u00fadio perpassa todo o livro, que se faz mais cortante nos momentos em que, j\u00e1 a filha crescida, mudado o nome, conversa de forma quase distante com a m\u00e3e, com as duas a evitar o que n\u00e3o precisa de ser dito \u2013 a m\u00e3e nem sequer sabe como corre a vida \u00e0 filha, embora perceba, pela forma como se apresenta, que corre bem. Para o leitor, fica claro que o desejo que Ladivine tinha, de que a filha n\u00e3o passasse pelo mesmo que ela passara, vinha com este pre\u00e7o.<\/p>\n<p>O grande m\u00e9rito do romance passa pela forma como a autora consegue contar esta hist\u00f3ria, tecendo tantos elementos, sem nunca ceder \u00e0 tend\u00eancia contempor\u00e2nea de etiquetar ou catequizar. Embora estejam presentes na narrativa v\u00e1rias quest\u00f5es de g\u00e9nero, de classe e de ra\u00e7a, as personagens n\u00e3o se perdem a exp\u00f4-las ou a verbaliz\u00e1-las. Em vez disso, a hist\u00f3ria \u00e9 contada com o que tem de complexo, e nem sequer precisam de entender tudo o que existe, \u00e0 acad\u00e9mico. Percebem, no entanto, que h\u00e1 camadas de tens\u00e3o que n\u00e3o tinham de estar l\u00e1, que tantas vezes s\u00e3o internalizadas.<\/p>\n<p>A prosa de Ndiaye \u00e9 enxuta, permitindo ao leitor encarar a tela de uma vida. N\u00e3o h\u00e1 par\u00e1grafos in\u00fateis, sendo estes operantes na narrativa, que saltita entre presente e passado de forma integrada, permitindo ao leitor ver de que forma as mem\u00f3rias e a consci\u00eancia actual se entrela\u00e7am para as personagens, num jogo que garante tens\u00e3o at\u00e9 ao fim.<\/p>\n<p>A autora escreve de acordo com a antiga ortografia.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"Marie Ndiaye lan\u00e7a-se \u00e0 prosa como quem mergulha. Em Ladivine, terceiro livro da autora publicado em Portugal (seguindo-se&hellip;\n","protected":false},"author":2,"featured_media":170301,"comment_status":"","ping_status":"","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[145],"tags":[211,210,10392,315,114,115,864,170,32,33],"class_list":{"0":"post-170300","1":"post","2":"type-post","3":"status-publish","4":"format-standard","5":"has-post-thumbnail","7":"category-celebridades","8":"tag-celebridades","9":"tag-celebrities","10":"tag-cru00edtica-de-livros","11":"tag-cultura","12":"tag-entertainment","13":"tag-entretenimento","14":"tag-literatura","15":"tag-livros","16":"tag-portugal","17":"tag-pt"},"share_on_mastodon":{"url":"https:\/\/pubeurope.com\/@pt\/115637759939277792","error":""},"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/170300","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=170300"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/170300\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/media\/170301"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=170300"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=170300"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=170300"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}