{"id":173735,"date":"2025-12-03T00:53:20","date_gmt":"2025-12-03T00:53:20","guid":{"rendered":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/173735\/"},"modified":"2025-12-03T00:53:20","modified_gmt":"2025-12-03T00:53:20","slug":"afeganistao-mulheres-fintam-talibas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.europesays.com\/pt\/173735\/","title":{"rendered":"Afeganist\u00e3o. Mulheres fintam talib\u00e3s"},"content":{"rendered":"<p>O Afeganist\u00e3o vive atualmente num total obscurantismo imposto pelo regime talib\u00e3. O dia a dia dos afeg\u00e3os \u00e9 negro, tal como as vestes dos fundamentalistas isl\u00e2micos que tomaram conta do pa\u00eds em agosto de 2021, depois da sa\u00edda atabalhoada das tropas norte-americanas. O grupo talib\u00e3 \u00e9 considerado uma organiza\u00e7\u00e3o terrorista pela Uni\u00e3o Europeia, Estados Unidos, R\u00fassia e Emirados \u00c1rabes Unidos, entre muitos outros pa\u00edses.<\/p>\n<p>Trata-se de um regime anacr\u00f3nico, onde o sistema judicial e legal foi desmantelado e substitu\u00eddo por uma interpreta\u00e7\u00e3o r\u00edgida da Sharia, a lei isl\u00e2mica baseada no Alcor\u00e3o.<\/p>\n<p>Desde que chegaram ao poder, os talib\u00e3s emitiram mais de 70 ordens restritivas contra as mulheres, negando-lhes a educa\u00e7\u00e3o, o trabalho e a assist\u00eancia m\u00e9dica. \u00c9 o \u00fanico pa\u00eds do mundo onde o ensino secund\u00e1rio e superior \u00e9 estritamente proibido a mulheres e raparigas com mais de 12 anos, o que significa que cerca de 2,5 milh\u00f5es de raparigas est\u00e3o privadas do seu direito \u00e0 educa\u00e7\u00e3o. Em 2022, o Minist\u00e9rio de Promo\u00e7\u00e3o da Virtude e Preven\u00e7\u00e3o do V\u00edcio proibiu a presen\u00e7a de mulheres em parques e academias desportivas, o mesmo \u00e9 dizer que est\u00e3o impedidas de praticar desporto. A crueldade das suas pr\u00e1ticas levou os juristas das ONG internacionais a falarem em apartheid de g\u00e9nero.<\/p>\n<p>Quando os talib\u00e3s tomaram o poder o sonho do futebol mudou para o modo de sobreviv\u00eancia. As atletas que ficaram no pa\u00eds tornaram-se alvos do regime e foram aconselhadas a destruir todas as provas da sua atividade desportiva, nomeadamente as camisolas e medalhas, e a fazerem uma vida normal. Existe um ambiente de terror, e quase todos os dias h\u00e1 a not\u00edcia de que um atleta foi morto pelos talib\u00e3s.<\/p>\n<p><strong>Futebol contra a opress\u00e3o<\/strong><\/p>\n<p>A sele\u00e7\u00e3o feminina afeg\u00e3 disputou a \u00faltima partida oficial em 2021 frente ao Qatar e j\u00e1 n\u00e3o aparece no ranking mundial da FIFA. Os talib\u00e3s acabaram com a sele\u00e7\u00e3o de futebol feminina pela simples raz\u00e3o de que o Isl\u00e3o n\u00e3o permite que as mulheres pratiquem qualquer desporto em que o seu corpo seja exposto, mas n\u00e3o acabaram com a determina\u00e7\u00e3o, ousadia e paix\u00e3o das jogadoras em representar o seu pa\u00eds.<\/p>\n<p>Quatro anos depois de terem fugido do Afeganist\u00e3o, as jogadoras formaram a equipa de refugiadas Afghan Women United (Mulheres Afeg\u00e3s Unidas), que participou no FIFA Unites Women\u2019s Series. O regresso das mulheres afeg\u00e3s a um campo de futebol foi mais do que um jogo, foi uma vit\u00f3ria dos direitos humanos no campo desportivo. O facto de competirem como equipa de refugiadas significa que n\u00e3o t\u00eam o pleno direito de representar o seu pa\u00eds, mas podem levar a bandeira do Afeganist\u00e3o. Cabe agora ao sistema desportivo internacional ultrapassar a situa\u00e7\u00e3o, e existe essa vontade.<\/p>\n<p>Sem o reconhecimento da federa\u00e7\u00e3o afeg\u00e3 de futebol, que est\u00e1 alinhada com o governo talib\u00e3, a FIFA tomou uma decis\u00e3o muito significativa e sem precedentes de permitir que as jogadoras participassem num torneio internacional, ou seja, passou por cima da autonomia da federa\u00e7\u00e3o perante a evidente viola\u00e7\u00e3o dos direitos humanos. O \u00f3rg\u00e3o que gere o futebol mundial aprovou ainda uma estrat\u00e9gia de apoio \u00e0s jogadoras que est\u00e3o no ex\u00edlio e a participa\u00e7\u00e3o da equipa em outros torneios.<\/p>\n<p>Desde ent\u00e3o, a FIFA mobilizou recursos financeiros significativos, criou uma equipa dedicada \u00e0 prepara\u00e7\u00e3o f\u00edsica e nutri\u00e7\u00e3o das atletas, disponibilizou um psic\u00f3logo e colocou \u00e0 disposi\u00e7\u00e3o das jogadoras instala\u00e7\u00f5es modernas com o objetivo de oferecer as mesmas condi\u00e7\u00f5es de prepara\u00e7\u00e3o de qualquer outra equipa de alto n\u00edvel. Al\u00e9m disso, a seguran\u00e7a das atletas foi tamb\u00e9m tida em aten\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>O projeto Afghan Women United come\u00e7ou em maio deste ano com a fase de observa\u00e7\u00e3o das 70 jogadoras que competiam na liga afeg\u00e3. Esses testes realizaram-se na Austr\u00e1lia e em Inglaterra. A treinadora Pauline Hamill convocou 23 atletas, sendo 14 mulheres residentes na Austr\u00e1lia, cinco no Reino Unido, duas em It\u00e1lia e duas em Portugal, que s\u00e3o Maryam Karimyar (FC S\u00e3o Rom\u00e3o) e Aziza Zada (Esposende). Estavam criadas as condi\u00e7\u00f5es para participar no torneio FIFA Unites Women\u2019s Series, que contou tamb\u00e9m com a presen\u00e7a do Chade, que venceu a competi\u00e7\u00e3o, Tun\u00edsia e L\u00edbia, mas ainda assim surgiram obst\u00e1culos. Os Emirados \u00c1rabes Unidos recusaram vistos de entrada \u00e0s jogadoras afeg\u00e3s e a solu\u00e7\u00e3o foi organizar o torneio em Marrocos.<\/p>\n<p>Foram muitos sacrif\u00edcios e uma luta coletiva para participar na competi\u00e7\u00e3o, o que demonstra bem a for\u00e7a das mulheres afeg\u00e3s e o que elas podem alcan\u00e7ar, mesmo em circunst\u00e2ncias devastadoras. Quando viram a sua bandeira hasteada e ouviram o hino do pa\u00eds as l\u00e1grimas correram pelo rosto, agora livre, das jogadoras. \u00abEstar num palco internacional ap\u00f3s quatro anos de ex\u00edlio \u00e9 o momento mais significativo da minha vida e, seguramente, tamb\u00e9m para as outras meninas\u00bb, fez quest\u00e3o de dizer a capit\u00e3 Fatima Haidari. A jogadora explicou o significado de voltar a jogar futebol: \u00abQuando entro em campo, tudo o mais desaparece automaticamente da minha mente. Quando treino e jogo, uma chama acende-se dentro de mim. Sinto que jogo por todas as meninas que n\u00e3o t\u00eam essa possibilidade\u00bb.<\/p>\n<p>Para a hist\u00f3ria fica o primeiro golo marcado por Manozh Noori, ao Chade. \u00abFoi um momento muito especial para todas n\u00f3s. Dedico este golo \u00e0s pessoas no Afeganist\u00e3o, porque merecem ser felizes\u00bb, disse. Igualmente marcante a primeira a vit\u00f3ria, com goleada (7-0) \u00e0 L\u00edbia. \u00abEst\u00e1vamos \u00e0 espera e a sonhar com esta vit\u00f3ria\u00bb, lembrou Fatima Haidari. \u00abTivemos muitas experi\u00eancias maravilhosas. Houve uma verdadeira mistura de emo\u00e7\u00f5es na equipa. Chorei por estarmos de volta depois de muitos anos e depois de tudo aquilo que sofremos. Dentro do campo, aprendemos muito, estamos a crescer e seremos n\u00f3s a ensinar a pr\u00f3xima gera\u00e7\u00e3o de jogadoras do Afeganist\u00e3o\u00bb, salientou a capit\u00e3.\u00a0<\/p>\n<p>A Afghan Women United saiu de Marrocos com a medalha de bronze e com reconhecimento do presidente da FIFA, Gianni Infantino. \u00abA primeira equipa de refugiadas afeg\u00e3s tem um significado muito especial, n\u00e3o s\u00f3 para as 23 jogadoras, mas tamb\u00e9m para o futebol feminino em geral. \u00c9 o in\u00edcio de uma bela hist\u00f3ria que voc\u00eas est\u00e3o a escrever\u00bb, sublinhou.\u00a0<\/p>\n<p>Esta emancipa\u00e7\u00e3o da mulher afeg\u00e3 ainda est\u00e1 s\u00f3 no in\u00edcio. \u00abContinuaremos a lutar, porque n\u00e3o se trata apenas de n\u00f3s, trata-se de ser uma voz de todas as mulheres\u00bb, disse a defesa central Mural Sadat. A guarda-redes Fatima Yousufi voltou a competir. \u00abFoi uma grande mensagem, mostr\u00e1mos aos talib\u00e3s que somos impar\u00e1veis\u00bb, disse na altura.<\/p>\n<p><strong>Fuga aos talib\u00e3s<\/strong><\/p>\n<p>A presen\u00e7a neste torneio internacional s\u00f3 foi poss\u00edvel porque, a 24 de agosto de 2021, as jogadoras e as suas fam\u00edlias, num total de 80 pessoas, conseguiram fugir dos talib\u00e3s num verdadeiro teste de resist\u00eancia e determina\u00e7\u00e3o. Foi um resgate quase cinematogr\u00e1fico que contou com a colabora\u00e7\u00e3o dos militares americanos, da FIFPRO, do Centre for Sports and Rights e da ministra das Rela\u00e7\u00f5es Exteriores da Austr\u00e1lia, Marise Payne, que se envolveu diretamente na localiza\u00e7\u00e3o das jogadoras e no planeamento da fuga para a Austr\u00e1lia num avi\u00e3o militar. As atletas passaram quatro dias no aeroporto de Cabul \u00e0 espera dos vistos de emerg\u00eancia providenciados pelo governo australiano. \u00abConsegui escapar deles e chegar aos port\u00f5es do aeroporto, mas a minha fam\u00edlia foi espancada pelos talib\u00e3s. Foi muito mau\u00bb, recordou na altura Fatima Yousufi.\u00a0<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"O Afeganist\u00e3o vive atualmente num total obscurantismo imposto pelo regime talib\u00e3. 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